{"id":12579,"date":"2016-09-29T09:57:14","date_gmt":"2016-09-29T12:57:14","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12579"},"modified":"2016-10-30T18:10:12","modified_gmt":"2016-10-30T21:10:12","slug":"aperitivopalavraii-11","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavraii-11\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fatos extraordin\u00e1rios e cenas do cotidiano na po\u00e9tica de Jorge Elias Neto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Shirlene Rohr de Souza<\/em><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong><em>Dimens\u00f5es<\/em><\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>As palavras est\u00e3o l\u00e1,<\/em><br \/>\n<em>Com seus olhos atentos<\/em><br \/>\n<em>A me observar do sil\u00eancio<\/em><br \/>\n<em>(Jorge Elias Neto)<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12586\" aria-describedby=\"caption-attachment-12586\" style=\"width: 383px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/JE-Int-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12586 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/JE-Int-I.jpg\" alt=\"Jorge Elias Neto\" width=\"383\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/JE-Int-I.jpg 383w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/JE-Int-I-300x235.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 383px) 100vw, 383px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12586\" class=\"wp-caption-text\">Jorge Elias Neto \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/JE-Int-I-1.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as vozes da poesia que se erguem neste tempo de tantas novidades e inquieta\u00e7\u00f5es, este texto trata especificamente da l\u00edrica de Jorge Elias Neto, cuja po\u00e9tica se funda em uma linguagem que alterna viol\u00eancia e ternura, ou pot\u00eancia e fragilidade, e que revela, de uma forma ou de outra, uma convic\u00e7\u00e3o niilista. O ceticismo do poeta, contudo, n\u00e3o o paralisa frente aos dilemas humanos: a poesia \u00e9 a sua a\u00e7\u00e3o que nasce de combina\u00e7\u00f5es de diferentes perspectivas, tais como <em>impress\u00f5es do seu entorno<\/em> (\u201cNada menos humano, menos carnal que o verde\u201d), <em>observa\u00e7\u00f5es da vida em cena<\/em> (\u201cA vida n\u00e3o \u00e9 um jogo de baralho. N\u00e3o poderei simplesmente dizer \u201cpasso\u201d),\u00a0 <em>personagens<\/em> (\u201cV\u00f3 Bela! \/ O homem \u00e9 assim\u201d) e de <em>imagens surreais<\/em> (\u201cN\u00e3o me importo \/ com numerar as penas do cisne\u201d).\u00a0 Este ensaio trata das tem\u00e1ticas que se destacam na po\u00e9tica de Jorge Elias, cuja linguagem est\u00e1 plasmada em testemunhos do cotidiano e em convic\u00e7\u00f5es pessoais. Os temas, na po\u00e9tica de Jorge Elias, podem ser, em uma determinada perspectiva, colocados em duas esferas de interesses e situa\u00e7\u00f5es: <em>fatos extraordin\u00e1rios<\/em> e <em>cenas e ocorr\u00eancias do cotidiano<\/em>. Os <em>fatos extraordin\u00e1rios<\/em>, pela sua condi\u00e7\u00e3o de eventualidade, ocorrem com menos frequ\u00eancia, mas s\u00e3o profundamente marcantes na escrita do poeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os fatos extraordin\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Os <em>fatos extraordin\u00e1rios<\/em> se elevam acima dos fatos rotineiros. Alguns poemas de Jorge Elias Neto surgem de uma condi\u00e7\u00e3o ou de acontecimento extraordin\u00e1rio; esses temas podem sair dos notici\u00e1rios, mas tamb\u00e9m podem surgir de viv\u00eancias de eventos marcantes. No primeiro caso, destaque para \u201cCaligrafia do Bruto\u201d, que revela o assombro do poeta com uma not\u00edcia de jornal; no segundo caso, destaca-se \u201cDiscurso para o cad\u00e1ver\u201d, marcado pelo evento da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCaligrafia do Bruto\u201d surge de uma not\u00edcia chocante: sob as refer\u00eancias das matrizes greco-latinas e judaico-crist\u00e3s, o mundo ocidental ficou assombrado com a not\u00edcia de que uma mulher seria apedrejada at\u00e9 a morte, acusada de adult\u00e9rio e de ter conspirado pela morte de seu marido; o assombro provinha das inconsist\u00eancias da acusa\u00e7\u00e3o e da trucul\u00eancia do veredito dos ju\u00edzes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A jovem senhora comoveu o mundo quando a m\u00eddia deu visibilidade \u00e0 sua hist\u00f3ria e, gra\u00e7as \u00e0 estrondosa repercuss\u00e3o do caso, houve uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia mundial em seu favor: v\u00e1rios organismos internacionais emitiram pedidos de clem\u00eancia, apelando para os Direitos Humanos e pedindo sua absolvi\u00e7\u00e3o. Por fim, a pena de morte de Sakineh foi revertida em anos de reclus\u00e3o.\u00a0 Mas o que, de fato, aconteceu a essa mulher? Qual seu verdadeiro destino? Quantas sakinehs sucumbiram no anonimato sombrio das tradi\u00e7\u00f5es religiosas, no oriente e no ocidente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o corpo de Sakineh n\u00e3o foi apedrejado \u2013 sua pena foi revertida em chibatadas e reclus\u00e3o \u2013 sua alma de mulher foi despeda\u00e7ada, irreversivelmente ferida e machucada. Essa \u00e9 a imagem capturada pelo poeta: a lapida\u00e7\u00e3o moral de uma mulher. Corrompida e maculada pelas leis dos homens, Sakineh, a mulher proscrita, nunca passou de mais uma das centenas de milhares de hist\u00f3rias que se encontram em m\u00eddias e redes sociais, fadadas ao esquecimento. Mas a viol\u00eancia da narrativa tornou-se perene na poesia de Jorge Elias Neto, para quem essa hist\u00f3ria representa mais uma escrita da barb\u00e1rie nas letras dos homens, na caligrafia dos brutos. A barb\u00e1rie n\u00e3o \u00e9 o contr\u00e1rio da civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 apenas sua outra face, sua irm\u00e3 siamesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 brutalidade da hist\u00f3ria de Sakineh, que circulava nas redes de internet, os versos do poeta tamb\u00e9m circularam nas redes sociais, constituindo assim uma resist\u00eancia em rede contra a viol\u00eancia, de uma curiosidade perversa, da m\u00eddia: a poesia fez medrar a ternura de algu\u00e9m que, como uma multid\u00e3o de outros an\u00f4nimos, n\u00e3o se conforma com brutalidade que se exerce sobre as pessoas em nome de uma religi\u00e3o, em nome do poder. Ao colocar o poema \u201cCaligrafia do bruto\u201d em circula\u00e7\u00e3o, de alguma forma lan\u00e7a luz sobre um problema universal: a condi\u00e7\u00e3o feminina nas culturas do mundo crist\u00e3o, isl\u00e3o ou pag\u00e3o; a condi\u00e7\u00e3o da mulher no Brasil ou em pa\u00edses da \u00c1frica, da \u00c1sia, de todas as cidades, de todas as vilas, de todo o mundo. As mulheres s\u00e3o v\u00edtimas potenciais de uma intoler\u00e2ncia social que imp\u00f5e um jugo pesado sobre sua alma, seu corpo e seu destino. Silenciadas por um c\u00f3digo moral violento, \u00e0s mulheres cabe um lugar de desvantagem nas culturas do oriente e do ocidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao falar das damas do S\u00e9culo XII, Duby (2013, p. 110) parece se referir \u00e0 realidade de muitas sociedades contempor\u00e2neas: \u201cExiste assim um espa\u00e7o fechado reservado \u00e0s mulheres, estritamente controlado pelo poder masculino\u201d. E n\u00e3o se trata de exce\u00e7\u00f5es: tacitamente, n\u00e3o se aceita a presen\u00e7a da mulher em posi\u00e7\u00e3o de comando, e isso ocorre em todas as sociedades, ainda que em algumas as conquistas e o reconhecimento da mulher sejam mais evidentes. A vida p\u00fablica \u00e9 reservada a poucas personalidades femininas, pois insidiosamente grupos de for\u00e7as tradicionais tramam contra a emancipa\u00e7\u00e3o da mulher, contra seu sucesso e ascens\u00e3o, sob o entendimento de que o lugar das mulheres \u00e9 o recato do mundo privado, onde podem ser vigiadas e punidas, se ousarem tentar romper essa barreira. As conquistas femininas, com not\u00e1vel for\u00e7a a partir do S\u00e9culo XX, s\u00e3o evidentes e importantes, mas ainda pequenas, fr\u00e1geis e restritas. A pena capital \u00e9 uma realidade no mundo inteiro, seja pelas leis religiosas, seja pelos c\u00f3digos masculinos: mulheres s\u00e3o humilhadas, violentadas, espancadas e assassinadas a todo instante. A poesia \u00e9 impotente frente ao drama das mulheres, impotente frente aos males do mundo, mas ela n\u00e3o se cala e n\u00e3o se esconde frente ao que \u00e9 extraordinariamente humano: a poesia revela os paradoxos e as dores desses tempos. O poema sublima hist\u00f3rias de horror. A poesia \u00e9 o afeto do poeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDiscurso para o cad\u00e1ver\u201d trata de um dilema da humanidade: a morte. Ainda que a morte seja um fato corriqueiro do cotidiano, afinal todos os dias morrem pessoas, ela torna-se um evento extraordin\u00e1rio na privacidade dos lares, na intimidade de uma fam\u00edlia, na organiza\u00e7\u00e3o de um grupo; a morte arranca as pessoas de sua rotina, fazendo-as pensar, cada uma delas, na pr\u00f3pria morte. Assim, a morte constitui um <em>fato extraordin\u00e1rio<\/em>, sobre o qual o poeta tem muitas coisas a dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDiscurso para o cad\u00e1ver\u201d, pois, \u00e9 um pequeno mon\u00f3logo dirigido a um cad\u00e1ver. E apenas no t\u00edtulo Jorge Elias Neto usa a palavra \u201ccad\u00e1ver\u201d que, por sua natureza sem\u00e2ntica ligada \u00e0 morte, soa como mat\u00e9ria, puro objeto. A escolha dessa palavra refor\u00e7a o posicionamento do poeta ante a morte: tudo est\u00e1 acabado. Segundo Houaiss, a etimologia da palavra \u201ccad\u00e1ver\u201d \u00e9 de origem latina, significando \u201ccorpo morto\u201d; mas a interven\u00e7\u00e3o popular vai al\u00e9m e associa \u201ccad\u00e1ver\u201d a uma express\u00e3o latina: <em>CArne DAta VERmem <\/em>(Carne Dada aos Vermes). Seria a palavra cad\u00e1ver, assim, uma sigla. A pessoa reduzida \u00e0 carne. Na cultura popular, outra palavra contempla o significado de \u201ccad\u00e1ver\u201d: a palavra \u201ccorpo\u201d. Essas palavras traduzem com exatid\u00e3o sem\u00e2ntica aquilo que a morte representa: aus\u00eancia de alma, aus\u00eancia de esp\u00edrito. Falta a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos versos do poeta: \u201c<em>Do ponto \/ em que se parte \/ \u2015 se esquece \u2015 \/ o espectro \/ da carne \/ \u2015 do irremedi\u00e1vel<\/em>\u201d, outra escolha emblem\u00e1tica: \u201cespectro\u201d. Esta palavra, popularmente, \u00e9 associada a fantasma. Contudo, a exist\u00eancia de fantasmas pressup\u00f5e uma continuidade da vida ap\u00f3s a morte, em uma dimens\u00e3o misteriosa e inexplic\u00e1vel. Ora, uma convic\u00e7\u00e3o niilista n\u00e3o permite tal interpreta\u00e7\u00e3o, restando \u00e0 palavra um sentido sem\u00e2ntico muito diferente: \u201cespectro\u201d como \u201ccoisa\u201d: \u201ccoisa vazia, falsa; ilus\u00e3o\u201d. A vida \u00e9 uma ilus\u00e3o. A morte \u00e9 o fim da ilus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em alguns versos o poeta refor\u00e7a seu ceticismo categ\u00f3rico, carregado de lirismo tel\u00farico: \u201c<em>A voc\u00ea, o privil\u00e9gio \/ da dimens\u00e3o \/ onde se plantam flores<\/em>\u201d. A terra, o fim de tudo, onde o \u201ccad\u00e1ver\u201d encontra seu destino final, o sossego da extin\u00e7\u00e3o da alma. Ou talvez n\u00e3o: na dimens\u00e3o da vida, alimentando os vermes, o cad\u00e1ver inicia um novo ciclo de vida, adubando ra\u00edzes de flores de todas as cores. Nas palavras de Arendt (2001, p. 57): \u201c\u00c9 isto a mortalidade: mover-se ao longo de uma linha reta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido c\u00edclico\u201d. Mas, enquanto o corpo est\u00e1 presente, acima da terra, o profundo respeito do poeta pelo cad\u00e1ver, o qual faz lembrar que a vida \u00e9 breve: \u201c<em>Teus olhos \/ n\u00e3o mentem \/ essa simplicidade \/ em dizer: \/ t\u00e3o breve, a vida, enquanto saturamos \/ o ar<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os <em>fatos extraordin\u00e1rios<\/em> eventuais \u2013 uma not\u00edcia, uma morte ou acontecimento marcante \u2013 projetam-se em meio aos acontecimentos de rotina; chamam a aten\u00e7\u00e3o por algum motivo, por algum aspecto. A eventualidade \u00e9 uma for\u00e7a espor\u00e1dica que atrai o poeta, mas \u00e9, certamente, do cotidiano que Jorge Elias Neto pin\u00e7a seus temas: nas cenas e ocorr\u00eancias do dia-a-dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_12582\" aria-describedby=\"caption-attachment-12582\" style=\"width: 336px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Int-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12582 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Int-II.jpg\" alt=\"Jorge Elias Neto\" width=\"336\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Int-II.jpg 336w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Int-II-202x300.jpg 202w\" sizes=\"auto, (max-width: 336px) 100vw, 336px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12582\" class=\"wp-caption-text\">Jorge Elias Neto \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cenas e ocorr\u00eancias do cotidiano<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As <em>cenas e as ocorr\u00eancias<\/em> <em>do cotidiano<\/em> fornecem os temas mais frequentes \u00e0 po\u00e9tica de Jorge Elias Neto. O cotidiano, como substantivo, corresponde \u00e0s a\u00e7\u00f5es que se realizam todos os dias, continuamente, a\u00e7\u00f5es que se repetem todos os dias, na vida de todos os indiv\u00edduos. Hannah Arendt (2001, p. 221) lembra que: \u201cO \u00fanico atributo do mundo que nos permite avaliar sua realidade \u00e9 o fato de ser comum a todos n\u00f3s\u201d. Apesar de o mundo social ser comum a todos, pois, em sua rotina di\u00e1ria, todos o compartilham, as percep\u00e7\u00f5es s\u00e3o estritamente pessoais: o mesmo acontecimento pode ser aplaudido por uns e rejeitado por outros. Qualquer ruptura da rotina torna-se um <em>fato extraordin\u00e1rio<\/em>. Assim, todos os dias, as pessoas se movem em um mundo comum, ainda que, pelos seus sentidos particulares, esse mundo seja compreendido singularmente, por cada indiv\u00edduo. Hannah Arendt (2001, p. 221) desenvolve essa ideia e infere:<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">se o senso comum tem posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o alta na hierarquia das qualidades pol\u00edticas, \u00e9 que \u00e9 o \u00fanico fator que ajusta \u00e0 realidade global os nossos cinco sentidos estritamente individuais e os dados rigorosamente particulares que eles registram. Gra\u00e7as ao senso comum, \u00e9 poss\u00edvel saber que as outras percep\u00e7\u00f5es sensoriais mostram a realidade, e n\u00e3o meras irrita\u00e7\u00f5es de nossos nervos nem sensa\u00e7\u00f5es de rea\u00e7\u00e3o de nosso corpo.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo cotidiano, o poeta, em sua singularidade, depara-se com ocorr\u00eancias percebidas por todas as pessoas, mas sentidas singularmente por ele mesmo. Pelo caminho da singularidade, o poeta questiona certezas e verdades: as convic\u00e7\u00f5es est\u00e3o instaladas em um ponto de vista, o qual apresenta uma vers\u00e3o poss\u00edvel, nunca uma vers\u00e3o absoluta. A poesia \u00e9 sempre um outro ponto de vista poss\u00edvel. No cotidiano, a rotina se constitui de ternura, viol\u00eancia, dor, risos, expectativas e, no cotidiano do poeta, mesclam-se muitos elementos da vida sens\u00edvel: saudade, lembran\u00e7as, amor, fam\u00edlia, morte, dor, frango com farofa, passeios, olhares perdidos no nada. Tudo isso, <em>cenas e ocorr\u00eancias do cotidiano<\/em>, alimenta os temas da poesia de Jorge Elias. Tudo pode ser o in\u00edcio da poesia, como ocorre com \u201cA poesia come\u00e7a assim\u201d, cujo segundo verso, demonstra que o poeta est\u00e1 mergulhado no cotidiano: \u201c<em>deixando as m\u00e3os rendidas aos gestos costumeiros<\/em>\u201d. Todavia, a palavra \u00e9 a for\u00e7a capaz de desmembrar ou de desprender alguma a\u00e7\u00e3o, algum gesto ou algum objeto da realidade cotidiana, mas contra a qual ele se rebela: \u201c<em>jogar-se nos trilhos \/ para salvar a flor<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tamb\u00e9m pela express\u00e3o po\u00e9tica que Jorge Elias Neto demonstra sua profunda descren\u00e7a em alguns grandes pilares da civiliza\u00e7\u00e3o, como a religi\u00e3o, h\u00e1 muito tempo tragada pela linguagem cient\u00edfica, pela l\u00f3gica da economia e pela exatid\u00e3o dos resultados apresentados por laborat\u00f3rios renomados. O poema \u201cAgora \u00e9 tarde, pintei o muro\u201d d\u00e1 grande mostra do esp\u00edrito c\u00e9tico do poeta que, em tom lac\u00f4nico, afirma: \u201c<em>Comer todas as h\u00f3stias \/ na inf\u00e2ncia \u2013 de uma s\u00f3 vez \u2013 \/ s\u00f3 me serviu para matar a fome de Deus<\/em>\u201d. Contidos e serenos, esses versos confirmam a tese de T. S. Eliot (1989, p. 44): \u201co que conta n\u00e3o \u00e9 a &#8220;grandeza&#8221;, a intensidade das emo\u00e7\u00f5es, dos componentes, mas a intensidade do processo art\u00edstico, a press\u00e3o, por assim dizer, sob a qual ocorre a fus\u00e3o\u201d. Dessa maneira, o poeta expressa a condi\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria do homem, sem amparo divino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adorno e Horkheimer (1985) advertem que a perda do apoio da religi\u00e3o na reconfigura\u00e7\u00e3o moral dos homens contempor\u00e2neos n\u00e3o levou as sociedades ao caos cultural, mas ao contr\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 caos, tudo se movimenta em torno de um ordenamento pragm\u00e1tico do mundo: o arrefecimento da f\u00e9 integrou um conjunto de for\u00e7as que redirecionaram o mundo para um novo modelo cultural, submetido a uma pr\u00e1tica econ\u00f4mica perversa e imperturb\u00e1vel. Para Adorno e Horkheimer (1985, p. 113), esse novo modelo \u201cconfere a tudo um ar de semelhan\u00e7a\u201d. Dominadas pela racionalidade calculista e destruidora, as religi\u00f5es n\u00e3o se prestam mais ao consolo: \u201c<em>O alento da cristandade \/ n\u00e3o sei se volta<\/em>\u201d. Todavia, se obsoletas como campo sagrado, elas ressurgem como uma grande feira de milagres. O v\u00ednculo entre o homem e as religi\u00f5es n\u00e3o se rompe, apenas se corrompe: as religi\u00f5es sucumbiram \u00e0s leis do mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda como <em>cenas e ocorr\u00eancias do cotidiano<\/em>, uma imagem chama a aten\u00e7\u00e3o do poeta: uma \u00e1rvore morta, uma ingazeira. Na pressa, poucas pessoas reparam as \u00e1rvores vivas ou agonizantes. S\u00f3 reparam nelas quando s\u00e3o arrancadas por ventos e interrompem a passagem de carros e pessoas. Reparam e reclamam. O cotidiano exige pressa e emite impreca\u00e7\u00f5es. Mas o poeta faz uma rever\u00eancia, afetuosa em \u201cPoema \u00e0 morte da ingazeira\u201d, que tamb\u00e9m refor\u00e7a o tra\u00e7o de vis\u00e3o niilista do poeta no verso \u201c<em>partir para o esquecimento<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As <em>cenas e as ocorr\u00eancias do cotidiano<\/em> constituem tra\u00e7os de uma po\u00e9tica que se consolida forte, coerente e vigorosa. Os versos de Jorge Elias Neto, de uma maneira geral, expressam diferentes sentimentos, de forma alternada: revolta, rebeldia, ternura, saudade, nostalgia, indigna\u00e7\u00e3o, contempla\u00e7\u00e3o. Alguns poemas s\u00e3o notavelmente especulares, tais como \u201cSeu Jorge\u201d e \u201cNomear poemas\u201d.\u00a0 O uso do pr\u00f3prio nome indica um mergulho na pr\u00f3pria alma, na pr\u00f3pria atividade po\u00e9tica que realiza. O primeiro verso do poema \u201cNomear poemas\u201d torna-se muito revelador e emblem\u00e1tico, considerando o conjunto de uma po\u00e9tica fortemente marcada pelas pr\u00f3prias experi\u00eancias, lembran\u00e7as e reminisc\u00eancias: \u201c<em>No fundo, os poemas chamam-se Jorge<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 sensibilidade do olhar do poeta para pessoas, objetos, cenas e acontecimentos de seu tempo, agrega-se ainda um importante di\u00e1logo com o sistema filos\u00f3fico. Com uma linguagem intimista, serena, at\u00e9 mesmo melanc\u00f3lica, Jorge Elias Neto dialoga com quest\u00f5es universais, com muitas refer\u00eancias \u00e0 vida e \u00e0 morte, \u00e0 dor e \u00e0 alegria. A condi\u00e7\u00e3o humana e os paradoxos da exist\u00eancia est\u00e3o em sua poesia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A caligrafia do poeta<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOs artistas s\u00e3o as antenas da ra\u00e7a\u201d, afirma Pound (1997, p. 71). A afirma\u00e7\u00e3o do poeta-cr\u00edtico-ensa\u00edsta \u00e9, com toda justi\u00e7a, repetida em ensaios de cr\u00edtica liter\u00e1ria. N\u00e3o seria t\u00e3o frequente se n\u00e3o fosse verdade. A atividade do artista est\u00e1 relacionada a uma faculdade excepcional de ser sens\u00edvel \u00e0s ocorr\u00eancias que a grande massa ignora ou n\u00e3o percebe. O artista se inclina para um detalhe, nuan\u00e7as de um evento banal, mas indicativo de algo novo. Artista da palavra, o poeta se esgueira para um pequeno v\u00e3o, de onde se lan\u00e7a com coragem ao mais profundo precip\u00edcio, para um abismo onde se v\u00ea as ra\u00edzes da humanidade; ou se lan\u00e7a ao voo mais alto, plainando sobre as paisagens gerais. O poeta capta o que \u00e9 indiz\u00edvel e traduz seus sentidos em versos, revelando ao mundo seus significados. No registro das paix\u00f5es, Jorge Elias Neto coloca o ju\u00edzo da poesia no corpo fr\u00e1gil do verso. O poeta tem algo a dizer sobre as metamorfoses da vida e, no labirinto de palavras enigm\u00e1ticas e en\u00e9rgicas, sobre sua pr\u00f3pria metamorfose: <em>\u201c(s\u00f3 sei transformar sapato em borboleta)<\/em>\u201d.\u00a0 Na escrita potente e sens\u00edvel de Jorge Elias Neto, a caligrafia registra cenas do cotidiano, bem como os fatos extraordin\u00e1rios. Mas n\u00e3o fala o poeta de si mesmo, para si mesmo: fala para outros. Escuta o poeta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ARENDT, Hannah. <strong>A condi\u00e7\u00e3o humana<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Roberto Raposo; posf\u00e1cio de Celso Lafer. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2001.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. <em>Dial\u00e9tica do esclarecimento<\/em>. Trad. De Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">DICION\u00c1RIO Etimol\u00f3gico. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.dicionarioetimologico.com.br\/cadaver\/\">http:\/\/www.dicionarioetimologico.com.br\/cadaver\/<\/a>. \u00daltima consulta em 14.set.2016.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">DUBY, Georges. <strong>As damas do s\u00e9culo XII<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo Neves e Maria L\u00facia Machado. 1.ed. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2013.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ELIOT. T. S. Tradi\u00e7\u00e3o e Talento Individual. In: _____. <em>Ensaios<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Ivan Junqueira. S\u00e3o Paulo: ArtEditora, 1989.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ESPECTRO. In: HOUAISS. <strong>Dicion\u00e1rio Eletr\u00f4nico da L\u00edngua Portuguesa<\/strong>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ELIAS NETO, Jorge. <strong>Verdes Versos<\/strong>. Vit\u00f3ria-ES: Flor&amp;Cultura, 2007.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">____. <strong>Rascunhos do Absurdo<\/strong>. Vit\u00f3ria-ES: Flor&amp;Cultura, 2010.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">____. <strong>Os Ossos da Baleia<\/strong>. Vit\u00f3ria-ES: Secult, 2013.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">____. <strong>Glacial<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Patu\u00e1, 2014.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">HOUAISS. <strong>Dicion\u00e1rio Eletr\u00f4nico da L\u00edngua Portuguesa<\/strong>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">POUND, Ezra. <strong>ABC da literatura<\/strong>. Trad. Augusto de Campos e Jos\u00e9 Paulo Paes. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1997.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Shirlene Rohr de Souza<\/em><\/strong><em> \u00e9 professora Mestre da Universidade do Estado de Mato Grosso \u2013 UNEMAT, Campus de Alto Araguaia. O presente ensaio \u00e9 vinculado ao Projeto de Pesquisa Poetas Cr\u00edticos, coordenado pelo Prof. Dr. Isaac de Almeida Ramos (UNEMAT).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As incurs\u00f5es de Shirlene Rohr na po\u00e9tica de Jorge Elias Neto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12580,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3146,2533],"tags":[11,914,154,3164],"class_list":["post-12579","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-113a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-ensaio","tag-jorge-elias-neto","tag-shirlene-rohr-de-souza"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12579","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12579"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12579\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21034,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12579\/revisions\/21034"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12580"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12579"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12579"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12579"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}