{"id":12607,"date":"2016-09-29T11:38:08","date_gmt":"2016-09-29T14:38:08","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12607"},"modified":"2016-10-30T18:09:50","modified_gmt":"2016-10-30T21:09:50","slug":"dedos-de-prosa-ii-43","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-43\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Maira Moura<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_12608\" aria-describedby=\"caption-attachment-12608\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/rety.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12608 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/rety.jpg\" alt=\"rety ragazzo\" width=\"500\" height=\"351\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/rety.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/rety-300x211.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12608\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Rety Ragazzo<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>52 hertz<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito longe das bravuras humanas, dos arcos urbanos e das balb\u00fardias eletro-retr\u00f3gradas, dos klaxons e apitos polif\u00f4nicos, das freadas arom\u00e1ticas, do parquinho das crian\u00e7as, do farfalhar e do piar, da massa atmosf\u00e9rica que uiva no campo, no deserto, na charneca, e mesmo longe das costas salgadas, das areias meladas e da \u00faltima espuma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Longe demais, em um universo todo azul, maior ou do mesmo tamanho que o universo estrelado; um s\u00edtio de densidade, iluminado por cima, trevoso por baixo, \u00e9 onde mora a \u00faltima de sua esp\u00e9cie. Queria dar um bom nome para ela, como uma esp\u00e9cie de consolo: \u201cvoc\u00ea \u00e9 especial, merece nome de gente. Que tal Elizabete? Catarina? S\u00e3o nomes de rainhas\u201d. A baleia tem olhos pequenos e doces e uma potente voz que satisfaz a m\u00fasica de todo um mar. Vaga pela estrada submersa de joias crust\u00e1ceas e&#8230; \u201cvaga\u201d? Seria mesmo um vagar sem rumo ou teria um prop\u00f3sito? N\u00e3o \u00e9 por lhe faltar um papel na fam\u00edlia tradicional, uma ocupa\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica na conjuntura dos mam\u00edferos mar\u00edtimos, ou da idosa moderna, que ela seria uma vadia. Caso contr\u00e1rio, seriam os animais todos uns vadios. Nada disso. Ao menos para os animais, existe um prop\u00f3sito suficientemente definido e propriamente nominado: o Ciclo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a senhora n\u00e3o procriar\u00e1, ela \u00e9 a \u00faltima de sua esp\u00e9cie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cresceu redondinha, adolescente t\u00edmida, embara\u00e7ada de sua pr\u00f3pria falta de jeito perante os animais menores; sua dimens\u00e3o astron\u00f4mica que ao mesmo tempo que a aproxima dos outros seres (por uma quest\u00e3o espacial), a distancia dos mesmos. Tentou penetrar uma fam\u00edlia de jubartes, como um pato criado por cisnes, mas s\u00f3 conseguiu que a chamassem \u201cbaleia feia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Baleia<\/em><br \/>\n<em>Como \u00e9s feia<\/em><br \/>\n<em>Uma chata bedelha<\/em><br \/>\n<em>Some, se der, esgueira<\/em><br \/>\n<em>Que o mar te aconselha<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso geme. Na inf\u00e2ncia gemeu \u201cPapai? Mam\u00e3e?\u201d; na adolesc\u00eancia gemeu por seu par. Agora, velhinha, n\u00e3o nos d\u00e1 pista de quem chama. N\u00e3o h\u00e1 em sua estante uma caixinha de contas com o retrato adesivo do neto sobre a tampa, nem na geladeira um desenho feito pela neta pregado com o \u00edm\u00e3-lembran\u00e7a da viagem para o litoral. (Preciso coloc\u00e1-la em uma casa de senhora porque n\u00e3o compreendo suas refer\u00eancias azuis \u2013 porque entendo a ess\u00eancia de sua solid\u00e3o, mas n\u00e3o a dimens\u00e3o. E porque saio a humanizar tudo o que n\u00e3o compreendo, para satisfazer meu desprezo \u00e0 ignor\u00e2ncia. N\u00e3o suporto ser ignorante.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Medrosa da humanidade, n\u00e3o se permitiu ser vista, somente escutada. Um dia vai morrer e consigo enterrar a hist\u00f3ria de sua fam\u00edlia (o que seria uma boa vingan\u00e7a). Os cientistas n\u00e3o v\u00e3o prestar luto, mas criar\u00e3o muitas teorias em sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca nos encontraremos, me basta a grava\u00e7\u00e3o do seu gemido, frequ\u00eancia 52 hertz. Embora seu rastro seja sonoro, t\u00e3o aud\u00edvel quanto o desabrochar de uma flor, e o meu seja o desastroso rastro da humanidade, ainda insisto em lev\u00e1-la no cora\u00e7\u00e3o, como uma irm\u00e3 sentimental. Porque tamb\u00e9m sou uma solit\u00e1ria, a \u00faltima de minha esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Trecho para hipnose<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o estou dizendo que o livro funcione como um estimulante psicoativo, mas digo que aconteceu comigo. De qualquer forma, n\u00e3o \u00e9 nada pr\u00e1tico como uma p\u00edlula ingerida com saliva ou o m\u00e9todo sublingual, mas leva pelo menos trezentas p\u00e1ginas at\u00e9 a primeira onda, que \u00e9 pseudo-on\u00edrica, porque voc\u00ea precisa estar encaminhado para o sono, ainda sem dormir. Depois das seiscentas p\u00e1ginas os cavaletes e cavalinhos come\u00e7am a cair como chuva no seu quarto, mas talvez isso seja pessoal porque os cavaletes s\u00e3o o s\u00edmbolo do meu suporte e cavalinhos, s\u00edmbolo da minha for\u00e7a. Chegando \u00e0s oitocentas p\u00e1ginas, voc\u00ea n\u00e3o vai lembrar quem \u00e9 e andar nu publicamente n\u00e3o \u00e9 uma impossibilidade. J\u00e1 ouviu falar na loira nua do parque Ludwig? Ela estava carregando um exemplar pocket totalmente improv\u00e1vel desse livro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Saudade e nostalgia<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Um menino perguntou ao av\u00f4:<\/p>\n<p>\u2013 Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre saudade e nostalgia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Bem, \u00e9 muito pouca e s\u00f3 tem uma maneira de explic\u00e1-la, que \u00e9 contando a hist\u00f3ria do homem que foi para guerra. O homem que foi para guerra havia acabado de se casar, ou estava prestes a casar, quando partiu e deixou sua mulher, que era tudo para ele. A partir do momento em que saiu pela porta de casa duas meninas come\u00e7aram a segui-lo, e com ele foram \u00e0 guerra. Estavam quase sempre ao seu lado \u2013 evitavam as trincheiras e tinham medo de armas, mas bastava que ele se desocupasse por um segundo que elas surgiam. Eram duas irm\u00e3s muito parecidas, quase g\u00eameas, e seus nomes eram Saudade e Nostalgia. \u00c0s vezes, o homem cobria os olhos com as m\u00e3os enlameadas, enquanto as meninas corriam em sua volta, cantando cantigas de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUm m\u00eas, duas milhas,<br \/>\nMeu amor est\u00e1 longe<br \/>\nTr\u00eas cartas, quatro feridas,<br \/>\nNos separa um monte\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Outras vezes, tinha vontade de estrangular os pescocinhos, mas isso n\u00e3o podia fazer. Quando a guerra acabou, as meninas os seguiram at\u00e9 a porta de casa. Era branca, a porta, e por tr\u00e1s dela vinha a mulher, que ia dizer o seu nome quando ele a pegou, abra\u00e7ou e beijou, sem intervalo entre essas coisas.\u00a0 N\u00e3o se deram conta da segunda explos\u00e3o, que foi o tiro que ele deu em Saudade. Ela n\u00e3o morreu imediatamente, foi agonizando por dias, enquanto o homem e a mulher se acostumavam, outra vez, um com o outro. Contudo, Nostalgia seguiu ao lado do homem. E era justamente perto da esposa que mais ele escutava a can\u00e7\u00e3o de Nostalgia. E por mais que tentasse pegar Nostalgia, n\u00e3o conseguia alcan\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mania<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e9ssica tinha a mania irritante de comprar rel\u00f3gios caros e olhar, quando perguntamos a hora, o visor do celular. Mateus escrevia sem usar v\u00edrgula e isso era al\u00e9m da conta. A mania irritante de Cl\u00e9ber era a m\u00fasica alta no carro dele (e ainda achava que dava para conversar). S\u00f3crates tinha a mania da higiene dental e escovava os dentes \u00e0 cada balinha de menta que lhe ofereciam. Carlos Alberto era um falastr\u00e3o, mentindo sobre n\u00fameros e mulheres, mas ele n\u00e3o podia parar, era mania. Lola, quem eu nunca chamava para jantar, comia fazendo barulho que nem uma engrenagem. A mania irritante de Sofia era mostrar para todo mundo a foto que tirou com a Madonna e a minha \u00e9 anotar manias irritantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nascida e residente do Rio de Janeiro, <strong>Maira M. Moura<\/strong> \u00e9 formada em Letras, leitora, contista e autora do livro O Jardim Animado (ed. Multifoco), al\u00e9m de ter contribu\u00eddo para alguns peri\u00f3dicos, de papel ou n\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um mundo de imagens pr\u00f3prias nos contos de Maira Moura<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12608,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3146,2534],"tags":[3168,419,41,3167,3171,3170,3169],"class_list":["post-12607","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-113a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-52-hertz","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-maira-moura","tag-mania","tag-saudade-e-nostalgia","tag-trecho-para-hipnose"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12607","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12607"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12607\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12648,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12607\/revisions\/12648"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12608"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12607"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12607"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12607"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}