{"id":12610,"date":"2016-09-29T11:52:24","date_gmt":"2016-09-29T14:52:24","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12610"},"modified":"2016-10-30T18:09:39","modified_gmt":"2016-10-30T21:09:39","slug":"aperitivopalavrai-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavrai-2\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong>S\u00d4BOLAS FRONTEIRAS<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Carlos Trigueiro<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_12611\" aria-describedby=\"caption-attachment-12611\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/AP-I-INT-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12611 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/AP-I-INT-I.jpg\" alt=\"Nilto Maciel\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/AP-I-INT-I.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/AP-I-INT-I-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12611\" class=\"wp-caption-text\">Nilto Maciel \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 15.04.2014, o carteiro que entrega a correspond\u00eancia do pr\u00e9dio onde moro no Rio de Janeiro (entre o Jardim Bot\u00e2nico e a Lagoa Rodrigo de Freitas), deixou na portaria, dentre envelopes, jornalecos, convites e contas, embalagem proveniente de Fortaleza (CE), identificada como livro remetido por Nilto Maciel, autor que eu sabia tamb\u00e9m pesquisador, cr\u00edtico, memorialista, editor, poeta, ensa\u00edsta e ficcionista talhado, penso, no seu amb\u00edguo fazer liter\u00e1rio: percep\u00e7\u00e3o evanescente do mundo ao redor e questionamento fixo sobre a pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O porteiro do pr\u00e9dio costuma entregar a correspond\u00eancia dos moradores pela hora da Ave-Maria (express\u00e3o varrida pelo tsunami da tecnologia). Coincide com o meu retorno da caminhada di\u00e1ria \u00e0 borda da Lagoa Rodrigo de Freitas, ap\u00f3s suar por quatro, cinco, seis quil\u00f4metros conforme disposi\u00e7\u00e3o interior e rea\u00e7\u00e3o \u00e0s paisagens e seguran\u00e7a exterior. Sim, tamb\u00e9m poderia dizer \u201cs\u00f4bolas paisagens\u201d \u2013 j\u00e1 que \u201cs\u00f4bolas\u201d \u00e9 express\u00e3o arcaica, quinhentista\/seiscentista, e significava \u201csobre as\u201d como aparece em textos camonianos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00e3o logo cheguei a casa e abri a correspond\u00eancia, estava l\u00e1 o \u00faltimo livro publicado por Nilto Maciel: \u201cS\u00f4bolas manh\u00e3s\u201d (Editora Besti\u00e1rio, Porto Alegre\/RS, 2014, 260 p\u00e1ginas). A dedicat\u00f3ria, surpreendente para mim, n\u00e3o veio manuscrita na primeira ou segunda p\u00e1gina como em seus outros livros que me presenteou, mas impressa num papelote: \u201cA Carlos Trigueiro presenteio este exemplar de \u2018S\u00f4bolas manh\u00e3s\u2019. Tenho d\u00favida de ter ou n\u00e3o mencionado seu nome em algum dos artigos. N\u00e3o pude organizar \u00edndice onom\u00e1stico. Se quiser ler ou dispuser de tempo, ficarei muito grato. Tenho certeza de ter escrito um livro de boas ideias ou, pelo menos, com o melhor dos intuitos: o de divulgar os escritores brasileiros avessos ao \u2018jornalismo de resultado\u2019, \u00e0 cr\u00edtica tendenciosa e aos vendedores de pedras falsas. Fortaleza, 27\/3\/2014.\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ler o raro t\u00edtulo do livro e sapear capa, cores, \u00edndice e quarta de capa, logo constatei uma colet\u00e2nea variad\u00edssima, dividida em quatro partes, abrangendo cr\u00f4nicas, mem\u00f3rias, registros de viagens, artigos, cr\u00edticas, e no dizer do autor: \u201calgumas considera\u00e7\u00f5es, nada cient\u00edficas ou acad\u00eamicas, a respeito da g\u00eanese (no indiv\u00edduo) da escrita liter\u00e1ria, do processo criativo e da constata\u00e7\u00e3o de que a minha agonia \u2013 nada tem de fant\u00e1stica ou sobrenatural. Porque tudo \u00e9 feito de barro e servir\u00e1 a outras constru\u00e7\u00f5es ou simplesmente ser\u00e1 levado ao lixo ou ao cemit\u00e9rio do esquecimento.\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem a orelha do livro, com dados biogr\u00e1ficos do autor (nascido em 30.01.1945, no sop\u00e9 da Serra de Baturit\u00e9), mencionando devaneios revolucion\u00e1rios de adolescente, nem seus muitos pr\u00eamios liter\u00e1rios nacionais e estaduais, nem o conte\u00fado dos respectivos livros agraciados, dentre outros, \u201cTempos de mula preta\u201d, \u201cOs luzeiros do mundo\u201d, \u201cPunhalzinho cravado de \u00f3dio\u201d, \u201cA \u00faltima noite de Helena\u201d, \u201cPesco\u00e7o de girafa na poeira\u201d, \u201cVasto abismo\u201d, nem mesmo \u201cO cabra que virou bode\u201d, transposto para a tela (v\u00eddeo) por Cl\u00e9bio Ribeiro em 1993, retratariam a personalidade incr\u00e9dula de Nilto Maciel, mormente nos \u00faltimos tempos, do que suas pr\u00f3prias palavras transcritas no par\u00e1grafo anterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros coment\u00e1rios de Nilto Maciel tamb\u00e9m poderiam retratar seu estado de esp\u00edrito nos \u00faltimos anos. Na p\u00e1gina 112 de \u201cS\u00f4bolas manh\u00e3s\u201d, por exemplo, ele registra que, ao publicar o primeiro cap\u00edtulo de \u201cDe meu sol nado\u201d, respondeu a amigos escritores que lhe aconselhavam cuidados, isso e aquilo sobre suas cita\u00e7\u00f5es a respeito de g\u00eanios da Literatura mundial. Da\u00ed que a certa altura dos coment\u00e1rios, solta bem ao seu jeito: \u201cTenho lido g\u00eanios e med\u00edocres tamb\u00e9m. A vida n\u00e3o pode ser feita s\u00f3 de alturas. \u00c9 preciso chafurdar na lama tamb\u00e9m. Ser porco alguma vez.\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em verdade, nos idos 28 de janeiro de 2013, datado por ele mesmo na p\u00e1gina 113 de \u201cS\u00f4bolas manh\u00e3s\u201d, Nilto andava \u00e0s voltas com a sua colet\u00e2nea de artigos de mais de trinta anos e t\u00edtulo estranh\u00edssimo: \u201cGregotins de desaprendiz.\u201d Na ocasi\u00e3o, registra n\u00e3o conseguir ler tudo o que os numerosos amigos escritores lhe enviam (diz ter 53 livros para ler), embora vivesse exclusivamente para a Literatura, e tamb\u00e9m confessa seu comportamento suicida: \u201cler e escrever sem parar, beber e fumar (j\u00e1 parei), viver em cidade grande, dirigir carro, comer em restaurante, ver televis\u00e3o, etc.\u201d.\u00a0 Era assim que respirava, sofria e vivia a sua agonia liter\u00e1ria, al\u00e9m de repugnar: \u201cas editoras n\u00e3o investem em literatura, a m\u00eddia n\u00e3o d\u00e1 a m\u00ednima import\u00e2ncia ao livro&#8230;\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheci Nilto Maciel em 1976, quando (aqui pe\u00e7o licen\u00e7a po\u00e9tica) se juntou a outros escritores \u201centre caminhos e palavras, diversos e afins\u201d, e participou da inven\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o da revista liter\u00e1ria \u201cO Saco\u201d, ousadia sem par naqueles tempos tupiniquins militarizados. E \u201cO Saco\u201d, esteticamente, parecia ou era mesmo n\u00e3o mais que uma esp\u00e9cie de envelope, na verdade um saco de papel encorpado, onde cabiam p\u00e1ginas soltas (ou quase) contendo textos liter\u00e1rios de diversos autores brasileiros, cearenses ou n\u00e3o. Surpresa nacional: \u201cO Saco\u201d vazou s\u00f4bolas fronteiras do Cear\u00e1 e inundou o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por acaso (ou os fantasmas que visitam os escritores me sopraram) dei de cara com a publica\u00e7\u00e3o dependurada numa tradicional banca de jornal chamada \u201cBoa Sorte\u201d no bairro do Leme, no Rio de Janeiro, na esquina das ruas Aurelino Leal com Gustavo Sampaio. Na \u00e9poca, morador das redondezas e antigo conhecido do jornaleiro, pedi para ver e manusear a novidade. Acabei comprando, lendo e matutando sobre \u201cO Saco\u201d, pois, mesmo n\u00e3o sendo cearense, assunto com o Cear\u00e1 no meio \u00e9 como ainda costumo dizer e registrar: sa\u00ed do Cear\u00e1 em 09.12.1956, mas o Cear\u00e1 nunca saiu de mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naqueles anos, eu costumava viajar muito a trabalho por nosso continental Pa\u00eds. E calhou de, em fins de 1976, ir \u00e0 Fortaleza, onde procurei a turma empreendedora de \u201cO SACO\u201d. Encontrei, dentre outros sonhadores, o Nilto Maciel (que me confirmou n\u00e3o se lembrar disso). \u00c0 noitinha, num bar pelas bandas da praia do Meirelles, ou seria da Iracema ou, talvez, do N\u00e1utico &#8212; Deus saber\u00e1, diria Saramago &#8212; enfileiramos muitas cervejas regadas a conversas liter\u00e1rias e no idioma exaltado que a fantasia imp\u00f5e aos escritores marginais. No avan\u00e7ar da noite, da camaradagem e conversa fiada, afiada e desfiada sobre \u201cO Saco\u201d (que se extinguiria em 1977), tudo entre copos, gostos, desgostos, tira-gostos e mulheres praieiras, adquiri uma tela do pintor primitivista cearense Chico Silva (sua marca registrada: briga de galos coloridos, datada de 1975) que ainda mantenho na parede do ref\u00fagio dom\u00e9stico onde costumo escrever, ler e matutar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito mais tarde, por volta de 1994, reencontrei Nilto Maciel (ele tamb\u00e9m nunca me confirmou isso) em Bras\u00edlia, no lan\u00e7amento do meu livro de contos \u201cO Clube dos feios &amp; outras hist\u00f3rias extraordin\u00e1rias\u201d, no bar CARPE DIEM que se prestava \u00e0quele tipo de evento e reunia gente de toda arte, parte e sotaque: autores, leitores, jornalistas, editores, m\u00fasicos, pol\u00edticos, estudantes, curiosos, servidores p\u00fablicos, ca\u00e7adores de aut\u00f3grafos, mulheres rueiras amadoras ou profissionais. Na \u00e9poca, tirei pequenas f\u00e9rias e vim ao Brasil especialmente para o lan\u00e7amento do livro no Rio de Janeiro e em Bras\u00edlia, pois havia anos trabalhava no Exterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois disso, e porque a vida e o mundo dan\u00e7am sem ritmo, passo, fronteira e tratos combinados, e muito menos com papel-passado, ficamos, Nilto Maciel e eu, anos e anos sem trocar palavra, mesmo tendo retornado definitivamente ao Pa\u00eds em 1996. Por\u00e9m, como disse antes, \u201csa\u00ed do Cear\u00e1 em 9.12.1956, mas o Cear\u00e1 nunca saiu de mim\u201d, e, aos poucos, tomei ou retomei contato, via publica\u00e7\u00f5es na internet, com alguns escritores cearenses em atividade (Raymundo Netto, Jorge Pieiro, Pedro Salgueiro, Soares Feitosa e outros).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_12612\" aria-describedby=\"caption-attachment-12612\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/INT-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12612 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/INT-II.jpg\" alt=\"Entrevista com o escritor cearense Nilto Maciel Foto: Marcos Campos, em 31\/01\/2009\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/INT-II.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/INT-II-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12612\" class=\"wp-caption-text\">Nilto Maciel \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que por volta de 2010\/2011 atrav\u00e9s de cruzamentos de blogs e revistas virtuais, reencontrei Nilto Maciel. E foi assim que conheci o blog \u201cLiteratura sem Fronteiras\u201d &#8212; editado por ele &#8212; e a publicar textos de sua autoria ou de autores amigos cujas obras passavam por seu r\u00edspido crit\u00e9rio. Trocamos muitos e-mails, livros, informa\u00e7\u00f5es e ideias de projetos liter\u00e1rios at\u00e9 que Maciel se encorajou a publicar alguns textos de minha lavra no excelente \u201cLiteratura sem Fronteiras\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Presenteou-me v\u00e1rios de seus \u00f3timos livros, dentre outros: Contos Reunidos, Volume I e Volume II, Quintal dos Dias, Gregotins de desaprendiz, Como me tornei Imortal, Menos vivi do que fiei palavras, Os Guerreiros de Monte-Mor e o j\u00e1 citado S\u00f4bolas Manh\u00e3s. Sobre alguns desses livros escrevi minhas impress\u00f5es e que ele publicaria em seu blog.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conv\u00e9m registrar sua predile\u00e7\u00e3o por colecionar e juntar manuscritos, bilhetes, cartas e afins de autores de todo g\u00eanero e de toda parte, a tal ponto que dizia ter milhares de documentos encaixotados. A prop\u00f3sito, narrou que, certa vez, Soares Feitosa o convidara para captar composi\u00e7\u00f5es ficcionais de v\u00e1rios autores para o seu prestigioso JORNAL DE POESIA. Pois bem, Nilto Maciel enviou-lhe 500 obras! Pode-se imaginar o espanto de Soares Feitosa&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E como eu disse antes, o mundo e a vida dan\u00e7am sem ritmo e passo combinados&#8230; Pois bem, Nilto Maciel convidou-me para uma confer\u00eancia que iria proferir em 08.11.2011 sobre o tema \u201cEpistol\u00e1rio hoje: e-mails, blogs\u201d, nada menos do que na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Claro que compareci ao evento e ouvi sua palestra (abordada no seu \u00faltimo livro \u201cS\u00f4bolas Manh\u00e3s\u201d). Acad\u00eamicos o receberam e Nilto Maciel saiu-se muito bem principalmente com a experi\u00eancia adquirida no seu blog \u201cLiteratura sem Fronteiras\u201d. Creio que at\u00e9 saiu um pouco do seu estilo \u00e1spero e provocou risos na plateia lendo pormenores e dados de seu blog. Houve bom e interessado p\u00fablico. \u00c0 sa\u00edda, entre outros seus amigos escritores, cumprimentei-o e trocamos abra\u00e7os. Inutilmente, tentei lembrar-lhe do nosso primeiro encontro em 1976, mas ele me confessou quase ao p\u00e9 do ouvido a pen\u00faria em que se encontrava a sua mem\u00f3ria (fato que registrou na p\u00e1gina 120 de \u201cS\u00f4bolas Manh\u00e3s\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos de 2012, 2013 e in\u00edcio de 2014 trocamos muitos e-mails. E por mensagem de 18.04.2014, convidou-me para participar do seu pr\u00f3ximo projeto liter\u00e1rio \u2013 um livro s\u00f3 de entrevistas com escritores. Respondi-lhe que aceitava o convite, mas pedi-lhe um prazo para iniciarmos a entrevista, pois eu estava terminando de escrever um romance.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 19.04.2014, respondeu-me por e-mail dizendo-se agradecido com a minha concord\u00e2ncia em participar do seu livro de entrevistas, e, como era pr\u00f3prio dele, aproveitou para criticar um de nossos amigos escritores que se recusara a colaborar em seu novo projeto. Na mesma mensagem me antecipou como seria o teor da entrevista. Aquele e-mail foi nosso \u00faltimo contato, j\u00e1 que dez dias depois, em 29.04.2014, aos 69 anos, em casa, sozinho, Nilto Maciel atravessou a fronteira final deste mundo. Recebi a triste e inesperada not\u00edcia por e-mails de amigos escritores cearenses, al\u00e9m de ler pela internet o resumo da fatalidade no jornal O Povo, de Fortaleza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa singela homenagem ao escritor Nilto Maciel, neste conjunto de edi\u00e7\u00f5es comemorativas pela passagem do 10\u00ba Anivers\u00e1rio da prestigiosa Revista \u201cDIVERSOS AFINS\u201d, na qual tamb\u00e9m colaborou, transcrevo abaixo o seu \u201cPERFIL N\u00c3O CONVENCIONAL\u201d de autor, redigido e rememorado por ele pr\u00f3prio na abertura do livro memorialista \u201cQUINTAL DOS DIAS\u201d, e que, penso, resume convic\u00e7\u00f5es presentes no seu esp\u00edrito:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cPERFIL N\u00c3O CONVENCIONAL\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVENHO DA SERRA, do verde do Cear\u00e1, mas meus pais e av\u00f3s vieram do sert\u00e3o seco. Do tempo do trabuco, da injusti\u00e7a, da persegui\u00e7\u00e3o, de Ant\u00f4nio Conselheiro (Ant\u00f4nio Vicente Mendes Maciel), aquele de Canudos, que as tropas militares massacraram. N\u00e3o esqueci isso. Li a Hist\u00f3ria desses povos, dessas gentes. Mas li tamb\u00e9m Cam\u00f5es, a B\u00edblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever tamb\u00e9m. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recri\u00e1-los. Ou mesmo cri\u00e1-los, porque talvez nada exista. O que existe \u00e9 a obra de arte, que \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. Nada \u00e9 real. Quanto mais antigo mais irreal. Ningu\u00e9m me conhece, ningu\u00e9m me l\u00ea. Sou marginal da literatura. H\u00e1 muito deixei de sonhar com gl\u00f3rias e famas. Tudo isso \u00e9 passageiro. O que \u00e9 bom fica, permanece. Sem precisar de muletas, fanfarras, galard\u00f5es, medalhas. Sou apenas um escritor de poemas, contos e romances.\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Sou <strong>Carlos Trigueiro<\/strong>, amazonense dos igarap\u00e9s, igap\u00f3s e tucum\u00e3s; paraense do Ver-o-Peso, a\u00e7a\u00ed e\u00a0 mu\u00e7u\u00e3s; cearense dos areais, coqueirais,\u00a0 do mar de esmeralda e dos ciriguelas nos quintais; carioca do Rio Comprido, bloco do Bafo da On\u00e7a, dos bondes com reboque e do chope \u00e0 beira-mar; castelhano das ruelas e dos &#8220;bocadilhos&#8221; de Madri e, claro, dos &#8220;cochinillos&#8221;\u00a0 de Toledo; romano da &#8220;Via Appia&#8221;, da &#8220;Via Veneto&#8221;, do caf\u00e9 &#8220;ristretto&#8221; e dos vinhos a granel ; chin\u00eas de Macau, provador de ch\u00e1s e aprendiz de &#8220;Tai-Chi-Chuan \u00e0 beira do Rio das P\u00e9rolas; americano do meio oeste, curtidor do frio polar e das cafeterias de Chicago; enfim, brasileiro batizado, leitor atabalhoado e aprendiz de escritor ultrapassado.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Trigueiro revisita mem\u00f3rias num tributo ao escritor cearense Nilto Maciel<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12611,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3146,2533],"tags":[11,764,712,3172],"class_list":["post-12610","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-113a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-carlos-trigueiro","tag-nilto-maciel","tag-sobolas-fronteiras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12610","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12610"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12610\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12662,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12610\/revisions\/12662"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12611"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12610"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12610"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12610"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}