{"id":12782,"date":"2016-10-29T18:05:21","date_gmt":"2016-10-29T21:05:21","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12782"},"modified":"2016-10-30T18:07:25","modified_gmt":"2016-10-30T21:07:25","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-48","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-48\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Lima Trindade <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com amplo reconhecimento da cr\u00edtica especializada, <strong>Sidney Rocha<\/strong> \u00e9 hoje um dos mais expressivos escritores em atividade no Brasil. Ganhou diversos (e importantes) pr\u00eamios liter\u00e1rios, teve parte de seus livros traduzidos para o espanhol e para o ingl\u00eas, figurou em uma antologia tem\u00e1tica de contos da prestigiada Granta e foi um dos 21 autores que Nelson de Oliveira apostou como os mais representativos surgidos no in\u00edcio deste s\u00e9culo em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua prosa \u00e9 aguda. O seu campo de interesses n\u00e3o possui limites, restri\u00e7\u00e3o de assuntos. \u00c9 uma prosa que busca representar e apresentar a vida em toda a sua pulsa\u00e7\u00e3o, toda a sua for\u00e7a. Tornou-se um lugar-comum elogiar o tratamento que ele d\u00e1 \u00e0 linguagem. Por\u00e9m, o seu truque, a sua habilidade maior, como conv\u00e9m aos bons artes\u00e3os, est\u00e1 justamente em fazer que a dist\u00e2ncia entre os signos e os significados seja esquecida. Rocha jamais subestima a intelig\u00eancia e a capacidade de imagina\u00e7\u00e3o de seus leitores. Sua generosidade est\u00e1 na oferta de uma leitura onde prazer e reflex\u00e3o n\u00e3o precisam vir dissociados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s v\u00e9speras de lan\u00e7ar <em>Guerra de Ningu\u00e9m<\/em>, seu terceiro livro de contos, ap\u00f3s os aclamados <em>Matriuska<\/em> (2009) e <em>O destino das met\u00e1foras<\/em> (2011, vencedor do pr\u00eamio Jabuti), o autor faz uma pausa nas comemora\u00e7\u00f5es do seu anivers\u00e1rio de 51 anos e, do quarto de um hotel em Macei\u00f3, ao lado de sua querida filha, a cineasta Anny Stone, concedeu esta entrevista exclusiva para a Diversos Afins, onde fala do come\u00e7o de sua carreira de escritor, do amor pela poesia, de problemas culturais e pol\u00edticos brasileiros, ambi\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e do que se trata o seu novo livro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_12792\" aria-describedby=\"caption-attachment-12792\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Sidney-Rocha-2_-cr\u00e9dito-Anny-Stone-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12792 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Sidney-Rocha-2_-cr\u00e9dito-Anny-Stone-01.jpg\" alt=\"sidney-rocha-_-credito-anny-stone\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Sidney-Rocha-2_-cr\u00e9dito-Anny-Stone-01.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Sidney-Rocha-2_-cr\u00e9dito-Anny-Stone-01-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12792\" class=\"wp-caption-text\">Sidney Rocha \/ Foto: Anny Stone<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea come\u00e7ou sua trajet\u00f3ria liter\u00e1ria com um livro de poemas, <em>Mais que o rei<\/em>, publicado em 1991. O t\u00edtulo \u00e9 muito provocativo (principalmente ao lembrarmos do \u201cVou-me embora pra Pas\u00e1rgada\u201d do Bandeira). Como voc\u00ea avalia esse seu primeiro passo, decorridos mais de 25 anos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013<\/strong> Sua boa pergunta tem uma \u00f3tima resposta no <em>Gal\u00e1xias<\/em>, de Haroldo de Campos, que escreveu t\u00e3o bem sobre come\u00e7os, justo no come\u00e7o daquele livro: \u201ce come\u00e7o aqui e me\u00e7o aqui este come\u00e7o e recome\u00e7o e reme\u00e7o e arremesso \/ e aqui me me\u00e7o quando se vive sob a esp\u00e9cie da viagem o que importa \/ n\u00e3o \u00e9 a viagem mas o come\u00e7o da por isso me\u00e7o por isso come\u00e7o escrever \/ mil p\u00e1ginas escrever milumap\u00e1ginas para acabar com a escritura para \/ come\u00e7ar com a escritura para acabarcome\u00e7ar com a escritura por isso \/ recome\u00e7o por isso arreme\u00e7o por isso te\u00e7o escrever sobre escrever \u00e9 \/ o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoitesmiluma- \/ p\u00e1ginas ou uma p\u00e1gina em uma noite que \u00e9 o mesmo noites e p\u00e1ginas \/ mesmam ensimesmam onde o fim \u00e9 o come\u00e7o onde escrever sobre o escrever \/ \u00e9 n\u00e3o escrever sobre n\u00e3o escrever e por isso come\u00e7o descome\u00e7o pelo \/ descom\u00ea\u00e7o desconhe\u00e7o e me te\u00e7o um livro onde tudo seja fortuito e\u201d&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que todos os autores que nasceram depois do advento do modernismo no Brasil come\u00e7aram a publicar com aquela ambi\u00e7\u00e3o de escrever mil p\u00e1ginas para acabar com a escritura, e de que sua obra tenha m\u00faltiplos significados. \u00c9 uma meta ambiciosa e, para ser pleon\u00e1stico, nada modesta, especialmente se tal come\u00e7o \u00e9 pela poesia. Acho que na minha trajet\u00f3ria venho cumprindo, com ir\u00f4nica humildade, aquilo que afirmou William Faulkner: <em>\u201cTalvez todos os romancistas queiram primeiro escrever poesia, e depois descubram que n\u00e3o podem e tentam o conto, que \u00e9 a forma mais exigente depois da poesia. E depois de fracassar no conto, s\u00f3 ent\u00e3o um romancista se dedica a escrever romances.\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho tentado e mantido a tentativa nos tr\u00eas g\u00eaneros, o que mostra algo \u00f3bvio demais: o de que sou menos que o rei Faulkner e outros reis. Mas voc\u00ea me pede para avaliar o primeiro passo, depois de tanto tempo, e respondo: foi um come\u00e7o v\u00e1lido, ou um dos tantos come\u00e7os que faz um escritor antes da primeira ousadia de fato, que \u00e9 publicar. A avalia\u00e7\u00e3o deve ser n\u00e3o somente liter\u00e1ria, mas editorial. Naquela \u00e9poca era muito mais dif\u00edcil publicar do que agora, e a autocr\u00edtica, embora n\u00e3o t\u00e3o grande, era maior do que agora para a maioria dos autores. A facilidade de meios praticamente nos converteu a todos em escritores, e muitos e muitos se desobrigam de ler, que \u00e9 o primeiro dever, o primeiro prazer de um escritor aut\u00eantico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 H\u00e1 uma incid\u00eancia enorme de grandes contistas e romancistas que come\u00e7aram publicando poesia e, depois do primeiro livro, nunca mais voltaram a ela. Voc\u00ea ainda cultua o g\u00eanero, escreve sistematicamente e pensa em sua publica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013 <\/strong>Sim, continuo a escrever poesia. Aqueles do primeiro livro eram poemas imaturos. Os que agora escrevo tenho a ilus\u00e3o de que sejam mais maduros, e, como um paradoxo, a poesia somente conserva a for\u00e7a se conseguimos aquele vigor inocente da juventude, e, como voc\u00ea citou Manuel Bandeira, na primeira pergunta, termino com os versos dele esta resposta: &#8220;Amor total e falho&#8230; Puro e impuro&#8230;\/ Amor de velho adolescente&#8230;\/ E t\u00e3o Sabendo a cinza e a p\u00eassego maduro&#8230;&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Acompanha a produ\u00e7\u00e3o dos poetas contempor\u00e2neos? Acha relevante esses trabalhos? Atravessamos um bom momento criativo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013 <\/strong>Acompanho mais os romancistas, contistas e ensa\u00edstas contempor\u00e2neos do que os poetas. Quanto a se atravessamos ou n\u00e3o um bom momento criativo, \u00e9 uma pergunta muito dif\u00edcil de ser respondida, pois, como nos falta a perspectiva, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que sejamos justos com os contempor\u00e2neos, e por isto mesmo comentamos tantas vezes os nossos colegas de modo leviano. N\u00e3o quero ser apressado na opini\u00e3o. N\u00e3o existe um term\u00f4metro para avaliar a criatividade, e ainda menos de todo um tempo. Al\u00e9m do mais, publica-se tanto hoje em dia que seria impratic\u00e1vel, mesmo para o leitor mais voraz de poesia, acompanhar o que sai e opinar com justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Sua prosa, por meio de uma sintaxe e evoca\u00e7\u00e3o de imagens pouco convencionais, costuma apresentar um alto teor de tens\u00e3o no trabalho de linguagem, exigindo leitura atenta e reflexiva. Essas caracter\u00edsticas n\u00e3o restringem seu alcance? Ou s\u00e3o os autores que subestimam a capacidade dos leitores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013 <\/strong>Nunca escrevo pensando em coisas assim, se o texto \u00e9 mais tenso ou menos tenso, ou mais ou menos denso, nem sobre o que pensar\u00e1 o leitor. \u00c9 muito interessante e inteligente o que voc\u00ea diz. Mas refletir sobre o alcance da obra e os seus leitores \u00e9 tarefa mais dos editores e cr\u00edticos do que dos escritores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O predom\u00ednio da literatura de entretenimento nas g\u00f4ndolas das livrarias e listas de \u201cmais vendidos\u201d s\u00e3o indicativos da mudan\u00e7a do perfil do leitor brasileiro em rela\u00e7\u00e3o ao das \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013 <\/strong>A mudan\u00e7a de perfil \u00e9 mundial, n\u00e3o especial no Brasil. O Brasil, como por sinal em praticamente tudo, faz nada mais que seguir a onda global. Mas pode-se dizer que talvez tenhamos contribu\u00eddo para o in\u00edcio dessa voga, quando exportamos autores como Paulo Coelho. Na atualidade, d\u00e1-se a exacerba\u00e7\u00e3o do que j\u00e1 vinha antes como tend\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 A pol\u00edtica vigente de \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d do fazer art\u00edstico, que nega a especializa\u00e7\u00e3o, a profissionaliza\u00e7\u00e3o, e desqualifica a t\u00e9cnica em nome da simples express\u00e3o, defendendo que todos s\u00e3o escritores, que todos podem e devem publicar seus livros, independente da relev\u00e2ncia do que tenham a dizer, n\u00e3o acaba por se constituir num grave problema de dilui\u00e7\u00e3o e enfraquecimento da cultura?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013<\/strong> Essa \u00e9 uma quest\u00e3o muito complexa. N\u00e3o acho que o problema seja a democratiza\u00e7\u00e3o ou a democracia, e sim justamente o contr\u00e1rio. Do baixo n\u00edvel da educa\u00e7\u00e3o, do baixo n\u00edvel dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Nunca houve tantos escritores, nunca houve t\u00e3o poucos escritores, pode ser a m\u00e1xima paradoxal e \u00f3bvia. O excesso de publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o representa uma vitalidade, e sim um enfraquecimento. N\u00e3o \u00e9 pela superabund\u00e2ncia de livros que alcan\u00e7amos nem a quantidade nem a qualidade de leitores. Por outro lado, a cultura n\u00e3o \u00e9 feita somente da chamada Alta Cultura, e sim de todos os meios de que disp\u00f5e o homem. N\u00e3o cabe a um escritor ser juiz \u2013 por sinal, que profiss\u00e3o detest\u00e1vel a de juiz \u2013 do seu tempo nem da sua cultura, nem dizer o que vale a pena ou n\u00e3o ser fru\u00eddo. Mas n\u00e3o devemos nos rebaixar ao <em>mainstream.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 <em>Sofia<\/em> e <em>Matriuska<\/em> trazem quest\u00f5es em torno da identidade feminina, seu universo de representa\u00e7\u00e3o, simbologias, condi\u00e7\u00f5es existenciais e, sem sombra de d\u00favida, as rela\u00e7\u00f5es de poder e viol\u00eancias que a cercam. Voc\u00ea se identifica como feminista? Se enxerga como autor engajado em causas de interesse social?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013<\/strong> Sim, mas os meus livros de fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o obras de ativista nem panfletos ou manifestos a favor da causa A ou da causa B, por mais justas que sejam. A ambi\u00e7\u00e3o do escritor \u00e9 a da beleza, n\u00e3o a da verdade, da emo\u00e7\u00e3o humana, n\u00e3o das discuss\u00f5es pol\u00edticas e sociais. Em <em>Matriuska<\/em> e <em>Sofia<\/em> h\u00e1 personagens de fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o mulheres de carne. As mulheres de verdade sofrem muito mais injusti\u00e7as e s\u00e3o muito mais inspiradoras e dignas de amor, admira\u00e7\u00e3o e enlevo que as modestas figuras que h\u00e1 nesses e noutros livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Acho o t\u00edtulo de <em>O destino das met\u00e1foras<\/em> sensacional. A capa tamb\u00e9m \u00e9 um feliz achado. Sei que voc\u00ea, sendo igualmente editor, se envolve em todos os processos criativos dos pr\u00f3prios livros. Seria arriscado dizer que esse volume de contos recusa com virul\u00eancia todo e qualquer realismo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013 <\/strong>Obrigado pelo elogio ao t\u00edtulo e \u00e0 capa, devo os dois a meu editor e amigo Samuel Leon. Voc\u00ea acertou em cheio no que diz respeito \u00e0 recusa virulenta. Quem busca reinventar a vida em palavras tem de ser capaz, ou pelo menos, tentar <em>tocar<\/em> a Realidade, n\u00e3o o realismo, que continua a ser a doen\u00e7a infantil da literatura brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_12793\" aria-describedby=\"caption-attachment-12793\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Sidney-Rocha_cr\u00e9dito-Anny-Stone-m.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12793 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Sidney-Rocha_cr\u00e9dito-Anny-Stone-m.jpg\" alt=\"sidney-rocha_credito-anny-stone\" width=\"450\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Sidney-Rocha_cr\u00e9dito-Anny-Stone-m.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Sidney-Rocha_cr\u00e9dito-Anny-Stone-m-300x240.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12793\" class=\"wp-caption-text\">Sidney Rocha \/ Foto: Anny Stone<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Ministrar oficinas de escrita criativa e leitura cr\u00edtica se tornou muito comum entre os escritores. Voc\u00ea abriu um curso recentemente, onde estabelece como um dos objetivos principais o exame da \u201cemo\u00e7\u00e3o\u201d. Pode detalhar essa hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013 <\/strong>O curso foi uma tentativa mais de estimular leitores que formar escritores. Se a tarefa de um escritor \u00e9, por excel\u00eancia, antiacad\u00eamica, \u00e9 natural que um curso que se dedique a percorrer os caminhos da escrita se concentre na emo\u00e7\u00e3o. Se um arquiteto como Le Corbusier falava de m\u00e1quinas de morar e mover, um escritor move-se pela emo\u00e7\u00e3o, mora na emo\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 a sua casa, o seu meio de transporte. Foi isso que tentei despertar nos alunos-escritores-leitores no modesto, r\u00e1pido e introdut\u00f3rio curso. Um exerc\u00edcio de sensibiliza\u00e7\u00e3o, mais do que a carpintaria da escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Em <em>Fernanflor<\/em> h\u00e1 a afirma\u00e7\u00e3o que \u201ctodo retrato \u00e9 um retrato falado \u2013 ou uma imagem que fala\u201d. Nesse jogo, em que o objeto se livra do criador e se torna outro por via da linguagem, \u00e9 onde se encontra a chave da sua liberta\u00e7\u00e3o: a experi\u00eancia direta, sem intermedi\u00e1rios?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013 <\/strong>Que pergunta profunda e, portanto, dif\u00edcil. Creio at\u00e9 que j\u00e1 cont\u00e9m a resposta, t\u00e3o rica ela \u00e9. O fato \u00e9 que a linguagem tem muitas dimens\u00f5es e camadas. Mas n\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria linguagem um meio? E sendo meio, intermedi\u00e1ria? Ainda n\u00e3o chegamos \u00e0quele est\u00e1gio reclamado pelo poeta Rimbaud, de uma linguagem de alma para alma. Talvez n\u00e3o haja chaves nem portas, para prosseguir na met\u00e1fora que voc\u00ea usou, e n\u00e3o haja tamb\u00e9m uma experi\u00eancia direta e sem intermedi\u00e1rios, exceto no misticismo, e literatura n\u00e3o \u00e9 misticismo, embora, para muitos seja uma forma de mistifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Nesse caso, sua afirma\u00e7\u00e3o caminha no sentido oposto ao dos estruturalistas, que viam a linguagem como fim e nunca meio. O conte\u00fado para voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o importante quanto a forma?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013 <\/strong>A linguagem \u00e9 meio, \u00e9 fim, \u00e9 princ\u00edpio. A ambi\u00e7\u00e3o de todo escritor \u00e9 que a forma e o conte\u00fado estejam de tal modo em harmonia que o leitor n\u00e3o note que haja diferen\u00e7a entre uma coisa e outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 A Lut\u00e9cia de Cristina e Jeroni Fernanflor evocou em mim a lembran\u00e7a da estranha e l\u00fagubre cidade de Fernanda, esposa de Aureliano Segundo em <em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>. Qual o lugar da literatura hisp\u00e2nica sul-americana na constru\u00e7\u00e3o do seu imagin\u00e1rio? Cr\u00ea que o realismo m\u00e1gico esgotou inteiramente suas possibilidades est\u00e9ticas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013 <\/strong>Todas as cidades podem ser l\u00fagubres e estranhas, e uma das artes das boas leituras, como a que voc\u00ea aponta, \u00e9 estabelecer correla\u00e7\u00f5es que nunca ocorreram ao escritor no momento em que escrevia seu livro, pela simples raz\u00e3o de que ainda n\u00e3o ocorreu a influ\u00eancia desse imagin\u00e1rio da literatura hisp\u00e2nica em mim, a realidade da Am\u00e9rica, sim; algo diferente do realismo, claro, com magia ou n\u00e3o. Coisas como Realismo M\u00e1gico e Autofic\u00e7\u00e3o s\u00e3o clich\u00eas inventados pelos acad\u00eamicos e a m\u00eddia apenas para designar pr\u00e1ticas t\u00e3o comuns na narrativa desde que o primeiro n\u00e3o-escritor contou a primeira hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 <em>Guerra de ningu\u00e9m<\/em> ser\u00e1 o nome do seu pr\u00f3ximo livro de contos? Ele fechar\u00e1 uma trilogia ou n\u00e3o apresentar\u00e1 v\u00ednculo com os dois antecessores? O tema central seria o desencanto com a falta de perspectivas para um bem comum coletivo, a falta de horizontes pol\u00edticos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013 <\/strong>Sim, ser\u00e1 o terceiro livro de um conjunto publicado pela Iluminuras, mas, como os anteriores, o conte\u00fado n\u00e3o est\u00e1 necessariamente atrelado a horizontes pol\u00edticos, nem a regi\u00f5es ou espa\u00e7os espec\u00edficos, e nunca faltar\u00e3o as vi\u00favas das vidas secas para reclam\u00e1-los. \u00c9 um livro sobre seres humanos de qualquer parte. Os nomes das pessoas e das cidades n\u00e3o s\u00e3o nem simb\u00f3licos nem pontos de inflex\u00e3o ou reflex\u00e3o, apenas a maneira l\u00fadica que tem um escritor de nominar o que n\u00e3o poucas vezes \u00e9 inomin\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Mas n\u00e3o h\u00e1 um tema, quest\u00e3o ou ideia comum a atravessar os contos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013<\/strong> Escrevi <em>Guerra de Ningu\u00e9m<\/em> sonhando que o livro fosse um imenso campo minado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Essas indefini\u00e7\u00f5es de horizonte pol\u00edtico e espa\u00e7o f\u00edsico tamb\u00e9m se estendem ao tempo hist\u00f3rico?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013<\/strong> S\u00e3o v\u00e1rios tempos e v\u00e1rias hist\u00f3rias. O modo de tratar tudo isso, e tamb\u00e9m as vidas dos personagens, est\u00e1 longe de qualquer solenidade ou preocupa\u00e7\u00f5es com ideologias. Ainda que algumas dessas figuras sejam nomeadas e tenham cenas de suas vidas reais identificadas por algum leitor que conhe\u00e7a suas biografias, vivem mesmo \u00e9 no espa\u00e7o liter\u00e1rio, este \u00e9 o seu horizonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Pode dar uma pista de qual seria esse conflito sem combatentes insinuado no livro, o que os leitores podem esperar de voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SIDNEY ROCHA \u2013<\/strong> Os combates s\u00e3o os cotidianos, os dos sonhos de uns, as desilus\u00f5es de outros, e, como em todas as guerras, os limites, os extremos, as derrotas est\u00e3o em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Lima Trindade<\/em><\/strong><em> \u00e9 autor de \u201cTodo Sol mais o Esp\u00edrito Santo\u201d (contos, 2005), \u201cSupermercado da Solid\u00e3o\u201d (novela, 2007) e, entre outros, \u201cAceitaria tudo\u201d (contos, 2015). Foi editor da revista eletr\u00f4nica Verbo21 por mais de quinze anos e \u00e9 mestre em teoria da literatura pela UFBA.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num di\u00e1logo que privilegia a Literatura, Lima Trindade entrevista o escritor Sidney Rocha <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12783,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3178,16,2539],"tags":[63,1439,8,2766],"class_list":["post-12782","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-114a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-lima-trindade","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-sidney-rocha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12782","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12782"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12782\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12795,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12782\/revisions\/12795"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12783"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12782"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12782"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12782"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}