{"id":12816,"date":"2016-10-30T12:32:16","date_gmt":"2016-10-30T15:32:16","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12816"},"modified":"2016-12-18T12:22:16","modified_gmt":"2016-12-18T15:22:16","slug":"dedos-de-prosa-iii-48","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-48\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_12817\" aria-describedby=\"caption-attachment-12817\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Milton-Boeira-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12817 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Milton-Boeira-1.jpg\" alt=\"milton-boeira\" width=\"500\" height=\"332\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Milton-Boeira-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Milton-Boeira-1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12817\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Milton Boeira<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>[1976] A ALMA DO DIABO*<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>She has given her soul to the Devil<\/em><br \/>\n<em>but the devil gave his soul to God<\/em><br \/>\nCaetano Veloso<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o Major Andrade passou mal em casa, acabava de colocar o uniforme para ir ao quartel. Tinha acordado cedo para engraxar os sapatos e polir o cinto. Podia ter feito isso na noite anterior, mas h\u00e1 muito tinha adquirido o h\u00e1bito de revisar seu uniforme pela manh\u00e3. A mulher deixava tudo passado e em ordem. O que lhe cabia, cinto e sapatos, ele cuidava logo quando acordava. Deviam estar sempre brilhando, impec\u00e1veis e, mesmo j\u00e1 limpos, ele tornava a escovar e polir. Depois era vestir-se. As meias esticadas at\u00e9 o alto da canela, a cal\u00e7a verde-oliva com o vinco exato, sapatos, a camisa c\u00e1qui, a gravata de mesma cor, a t\u00fanica tamb\u00e9m verde-oliva e o quepe. Vestia-se nessa ordem. Naquele dia, por um motivo que n\u00e3o saberia dizer, mas que, depois, pensaria ser um ind\u00edcio j\u00e1 de sua doen\u00e7a, um ind\u00edcio da desordem do corpo na rotina de vestir&#8230; naquele dia ele colocou a t\u00fanica antes da gravata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era uma gravata comum, mas daquelas de n\u00f3 pronto com um gancho para encaixar no colarinho. Foi por isso que ele, ao sentir o aperto na garganta, teve certeza de que a gravata n\u00e3o lhe apertava. Algo o enforcava e n\u00e3o eram as roupas, mas ainda assim tentou se desfazer da gravata que teimava em n\u00e3o sair, agarrada ao bot\u00e3o do colarinho. Teve de puxar com for\u00e7a e rasgar a camisa. Com o al\u00edvio moment\u00e2neo \u00e9 que se deu conta. O bra\u00e7o formigava como se dormente e o peito estava apertado numa ang\u00fastia de morte anunciada. A cabe\u00e7a latejava. A rigidez da t\u00fanica lhe impedia de levantar direito os bra\u00e7os, n\u00e3o conseguia tocar a testa com a m\u00e3o. Naquele momento n\u00e3o sabia se era uma fraqueza do corpo ou se tinha esquecido o movimento da contin\u00eancia. Para vencer as mangas r\u00edgidas do uniforme tinha de esticar primeiro o bra\u00e7o para a lateral. Assim ele escapava um pouco do tecido. S\u00f3 ent\u00e3o fazia o gesto de levantar o bra\u00e7o at\u00e9 a testa. Pronto. Estava feita a contin\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela manh\u00e3 n\u00e3o foi assim. O uniforme apertava e mais parecia uma camisa de for\u00e7a do que uma roupa e seus s\u00edmbolos. O Major Andrade caiu no ch\u00e3o do quarto e lhe pareceram muito longos os instantes em que ficou ali sufocando. Antes de perder a consci\u00eancia, imaginou ser essa a sensa\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 torturado: um quase morrer que nunca se completa. Uma agonia sem fim. Esse foi seu \u00faltimo pensamento antes de tudo escurecer no quarto, enquanto l\u00e1 fora, \u00e0s cinco e meia da manh\u00e3, come\u00e7ava um novo dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O quarto era branco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizer assim uma simples constata\u00e7\u00e3o parece redundante e desnecess\u00e1rio para qualquer um, mas para o Major Andrade era uma constata\u00e7\u00e3o infeliz. Ali naquele quarto de hospital tudo era branco. Faltava algo verde-oliva nas portas que pudesse lembrar o Hospital Militar de Salvador. Quando ele acordou pela primeira vez, quis saber por que n\u00e3o estava l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eles n\u00e3o t\u00eam equipamento para cuidar de voc\u00ea, querido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esposa tentava a todo custo convenc\u00ea-lo a aceitar o hospital civil sem reclamar. Ele aceitava, dava-se por rendido, mas reclamava e acha defeitos em tudo. Tinha tido um infarto, estava ferido, fora de combate, mas n\u00e3o se conformava. Por que o ex\u00e9rcito n\u00e3o tinha um hospital bem aparelhado? Que diabos estavam fazendo com a tropa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Se voc\u00ea ficasse l\u00e1 ia morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Palha\u00e7ada! Saindo daqui vou falar com o Comandante da Regi\u00e3o. Se um soldado n\u00e3o tem tratamento certo, seguro, como pode defender o pa\u00eds? Se precisar, mando carta pro Geisel. Absurdo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Meu velho, voc\u00ea tem de ficar calmo. Assim s\u00f3 piora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9dico, que j\u00e1 entrava no quarto enquanto a mulher falava, emendou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor tem de relaxar pra ficar bom logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andrade olhou para o m\u00e9dico com algum desprezo. Era novo, n\u00e3o devia ter nem trinta anos. O que ele sabia de medicina?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 esse menino que est\u00e1 cuidando de mim?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mulher respondeu com um olhar de recrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Ele n\u00e3o fica quieto, Doutor, n\u00e3o se acalma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Se o senhor n\u00e3o se acalmar, vamos ter de lhe dar um calmante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9dico falava com uma paci\u00eancia estudada, complacente, como se lidasse com uma crian\u00e7a. Aquilo s\u00f3 irritava mais ainda o Major.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Quando ele sobe pra cirurgia, Doutor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Marcamos pra de manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Cirurgia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sim, querido, eu lhe falei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele n\u00e3o lembrava. Como iam oper\u00e1-lo naquele hospital? E sem nem mesmo ser consultado? Come\u00e7ou a praguejar, queria uma explica\u00e7\u00e3o, queria sair dali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Esses m\u00e9dicos n\u00e3o sabem nada. Eu n\u00e3o vou ser operado por esse menino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Calma, meu querido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9dico resolveu que era melhor deix\u00e1-los conversar. Ele teria de ser operado. Teria ainda de esperar at\u00e9 o outro dia e, depois, repouso. E quem sabe quais as consequ\u00eancias? Talvez fosse reformado, fosse para a reserva e fim. Acabado. Morto ou vivo n\u00e3o seria mais o soldado que era. Tanto tempo de dedica\u00e7\u00e3o ao Ex\u00e9rcito; aqueles anos todos defendendo o pa\u00eds e justo naquelas circunst\u00e2ncias, o pa\u00eds em crise. Os comunistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mulher tinha conseguido acalm\u00e1-lo. Deixou-o sozinho no quarto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veio, ent\u00e3o, uma enfermeira. Era uma mulher de uns quase trinta. Todo mundo tinha quase trinta naquele hospital e ele n\u00e3o confiava em ningu\u00e9m com menos de trinta anos. Era morena clara. O cabelo meio cacheado estava esticado e preso num coque atr\u00e1s da cabe\u00e7a. Via-se que todo o desalinho do cabelo tinha sido domado com m\u00e3o de ferro. Uma disciplina militar. Ela o cumprimentou sem nem mesmo olhar e come\u00e7ou os preparativos para um rem\u00e9dio. Preparava uma seringa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Vai me furar com isso pra qu\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela finalmente olhou para o paciente assustada. O major percebeu o susto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Que \u00e9? Estou mal assim?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Pra que \u00e9 esse rem\u00e9dio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 pro senhor relaxar um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Vai me dopar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela n\u00e3o hesitava ao colher o rem\u00e9dio com a seringa. A m\u00e3o firme. Depois foi s\u00f3 injetar no soro lentamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 J\u00e1, j\u00e1 o senhor vai estar tranquilo. Vai ser bem suave. T\u00e1?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era verdade, aos poucos ele se acalmava. Ela arrumou os apetrechos e se preparava para sair quando ele a chamou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Vem c\u00e1, eu j\u00e1 n\u00e3o te vi antes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mo\u00e7a se virou. O rosto estava im\u00f3vel, sem nenhuma rea\u00e7\u00e3o, uma frieza t\u00edpica de enfermeiras. J\u00e1 tinha visto tantas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Como \u00e9 seu nome, menina?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Maria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Maria de qu\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 S\u00f3 Maria, senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Tem sobrenome?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sim, senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 E n\u00e3o vai me dizer?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o, senhor. Agora o senhor precisa relaxar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu lhe conhe\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Acho que n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Conhe\u00e7o, sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Senhor, talvez seja o rem\u00e9dio. Ele j\u00e1 deve estar fazendo efeito. Vou deixar o senhor dormir. Boa noite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela saiu e fechou atr\u00e1s de si a porta branca. O quarto ficou numa penumbra branca. Com se estivesse numa noite glacial. O branco foi se desgrudando das paredes como se fosse algod\u00e3o e aos poucos come\u00e7ou a cobrir a cama onde estava o Major, lentamente, como neve. Ele se viu inteiramente coberto. Sentiu-se um pouco sufocado. Teve medo de morrer, um medo vago, um sentimento que pouco a pouco se distanciava, ou era ele que parecia estar cada vez mais distante. Parecia escapar, sumir, at\u00e9 que finalmente o branco escureceu de vez e tudo se apagou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Acordou no escuro. Apenas o ret\u00e2ngulo da porta fechada se destacava. Voltou a fechar os olhos e a imagem da enfermeira apareceu na sua frente. N\u00e3o estava de cabelos presos. Eles estavam soltos, ondulados, desalinhados. Usava um vestido azul, simples, que descia reto at\u00e9 os joelhos e era abotoado na frente. N\u00e3o tinha nada do espalhafato dos jovens daqueles tempos esquisitos. Nada de estampas, cal\u00e7as jeans. Uma mo\u00e7a de fam\u00edlia. Ela chorava e repetia \u201cmeu irm\u00e3o\u201d, \u201cmeu irm\u00e3o\u201d e ent\u00e3o desapareceu de novo no escuro meio avermelhado das p\u00e1lpebras fechadas do homem. Ele voltou a dormir o sono qu\u00edmico do rem\u00e9dio, o sono profundo de um corredor longo em que podia ouvir portas de ferro se fechando e gritos. Eram gritos distantes, abafados, como se algu\u00e9m estivesse sendo sufocado. Ele andava e os gritos pareciam mais pr\u00f3ximos, como se fossem sussurrados em seus ouvidos. Vinham cada vez mais perto, at\u00e9 que pareceram entrar na sua cabe\u00e7a e ficaram mais e mais abafados e, por fim, viraram uma tosse descontrolada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acordou tossindo, engasgado na pr\u00f3pria saliva. Por um segundo, sentiu que ia sufocar. Precisou levantar e sentar na cama. Queria gritar, mas a voz n\u00e3o sa\u00eda, pelo menos n\u00e3o aud\u00edvel. Pensou que sua mulher pudesse estar ali no quarto velando seu sono. N\u00e3o estava. Estava s\u00f3 no escuro. Aos poucos a garganta se desobstruiu e p\u00f4de emitir um pigarro mais alto. Queria cuspir, mas onde? N\u00e3o tinha nenhuma aparadeira perto. Acabou cuspindo no ch\u00e3o, um cuspe grosso, escuro, que logo se transformou em v\u00f4mito. Ficou um tempo debru\u00e7ado para fora da cama at\u00e9 que a \u00e2nsia acalmou. Ainda recostou um tempo na cama para s\u00f3 ent\u00e3o ouvir algum barulho. O ret\u00e2ngulo de luz se abriu na porta e entrou a enfermeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor est\u00e1 bem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Claro que n\u00e3o. N\u00e3o t\u00e1 vendo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mo\u00e7a olhou o ch\u00e3o sujo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Quase morri aqui sozinho. N\u00e3o tem ningu\u00e9m a\u00ed, n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu estou aqui, senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Minha mulher?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o sei dizer. Deve ter descido. Eu mesma vou limpar isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela acendeu a luz e saiu, voltou logo com um carrinho de material de limpeza e uma bandeja com v\u00e1rios outros materiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Estamos sem pessoal de limpeza \u00e0 noite, mas j\u00e1 vou limpar isso tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Hospitalzinho de merda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela se concentrou primeiro no ch\u00e3o. Enquanto ia de l\u00e1 para c\u00e1 entre quarto e banheiro, o Major Andrade voltou a reconhec\u00ea-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu conhe\u00e7o voc\u00ea, sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela n\u00e3o parava a limpeza. As m\u00e3os enluvadas para recolher o v\u00f4mito do ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Acho que n\u00e3o, senhor. Eu, pelo menos, n\u00e3o me lembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea tem um irm\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A enfermeira o olhou sem express\u00e3o. Mesmo enquanto limpava o ch\u00e3o sujo sua express\u00e3o era impass\u00edvel. Nenhum nojo aparente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o, senhor. O senhor fuma, n\u00e3o \u00e9? N\u00e3o precisa ficar preocupado com esse muco. Vou relatar ao m\u00e9dico, mas tenho certeza de que n\u00e3o \u00e9 nada grave. Pelo menos n\u00e3o agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levou o pano sujo para o banheiro e de l\u00e1 continuou. A voz saiu um pouco mais alta, mas ainda calma e controlada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor fumava sem filtro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta ao quarto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Ou cigarro de palha?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Os dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor devia fumar s\u00f3 cigarro. E com filtro. \u00c9 melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu lembro de voc\u00ea procurando seu irm\u00e3o no quartel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu n\u00e3o tenho irm\u00e3o, n\u00e3o. O senhor deve est\u00e1 me confundindo com algu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Tem, sim. Ou tinha. Ele foi preso, n\u00e3o foi? Era subversivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela tinha terminado a limpeza. Preparava, agora, um chuma\u00e7o de gaze.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Era comunista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rosto de Maria continuava imperturb\u00e1vel. Havia apenas um esbo\u00e7o de compreens\u00e3o, o ar compassivo que as enfermeiras fazem para qualquer dor que um paciente sinta, seja uma febre ou um c\u00e2ncer terminal, a mesma face suave e calma. Confiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu preciso limpar o senhor. Posso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7ou a limpar o rosto do paciente, queixo, pesco\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 De manh\u00e3 um enfermeiro vem lhe dar um banho. Isso \u00e9 s\u00f3 pro senhor n\u00e3o dormir sentindo o cheiro do v\u00f4mito. N\u00e3o vale a pena perder o sono agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea \u00e9 muito educada, mocinha. Me admira ter um irm\u00e3o comunista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Me desculpe, mas n\u00e3o sei do que o senhor est\u00e1 falando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sabe, sim. Voc\u00ea foi v\u00e1rias vezes atr\u00e1s dele. Isso aconteceu h\u00e1 uns dois ou tr\u00eas anos. N\u00e3o lembro bem, foram tantos. Ele tinha desaparecido. Fazia tempo que voc\u00ea n\u00e3o o via. Ele tinha ido pra clandestinidade. N\u00e3o sei o que fazia antes, algo na universidade. Professor ou estudante? Tinha sido expulso e entrou na luta armada. Uns marginais, voc\u00ea sabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu n\u00e3o acompanho pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Pelo visto, n\u00e3o mesmo. O que eles n\u00e3o entendem \u00e9 isso. Os subversivos. O povo est\u00e1 do nosso lado. Ningu\u00e9m quer saber dessa hist\u00f3ria de comunismo. As fam\u00edlias n\u00e3o querem. Algu\u00e9m precisava fazer alguma coisa. Foi o povo que pediu a Revolu\u00e7\u00e3o. E o Ex\u00e9rcito apenas protege a vontade do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela n\u00e3o respondia nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 A influ\u00eancia deles \u00e9 nefasta. Eles se metem na m\u00fasica, nos programas de televis\u00e3o. \u00c9 esse desregramento; a nossa juventude est\u00e1 se perdendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela acabou o que estava fazendo e come\u00e7ou a arrumar as coisas para ir embora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor precisa voltar a dormir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele a segurou pelo bra\u00e7o. Segurou forte. Queria que ela o olhasse nos olhos. Puxou-a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea achou seu irm\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela pegou a m\u00e3o, tirou-a do pr\u00f3prio bra\u00e7o e a colocou de volta sobre o peito do paciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Agora o senhor precisa dormir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A voz era mais firme do que antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Menina, eu sou um Major do Ex\u00e9rcito Brasileiro. S\u00f3 recebo ordens de meus superiores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mas aqui o senhor tem de obedecer. \u00c9 para sua sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falou no tom amig\u00e1vel com que se fala com as crian\u00e7as. Arrumou suas coisas e ia saindo quando ele a chamou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o quer saber o que aconteceu com seu irm\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela parou na porta. Ficou um instante em sil\u00eancio at\u00e9 voltar-se com o rosto pl\u00e1cido de sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Parece que o senhor n\u00e3o vai dormir, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Quer saber se ele est\u00e1 vivo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela continuou parada na porta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sente a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sentou. Ficou im\u00f3vel no mesmo lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Seu irm\u00e3ozinho era um agitador. Tinha mesmo de ser expulso da Universidade. Acho que era estudante, n\u00e3o \u00e9? Nossos homens estavam na cola dele h\u00e1 muito tempo. Sumiu, mudou de nome. Ele era o tal Carlos, n\u00e3o era? Voc\u00ea parece que n\u00e3o sabe de nada. Ou sabe? Essa cara tranquila&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela continuava no mesmo lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apontava a cadeira convidativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Seu irm\u00e3o n\u00e3o era assim. Era fraco. N\u00e3o fui eu que prendi, mas sei que ele foi encontrado numa casa na Ribeira. Quando os colegas chegaram, ele se escondeu na caixa d\u2019\u00e1gua. Quase se afoga, o idiota. Chegou na unidade molhado e sangrando. \u00c0s vezes \u00e9 preciso dar um corretivo nos caras. Sabe como \u00e9, n\u00e9? \u00c9 preciso p\u00f4r ordem nas coisas. Jogamos ele no buraco e esquecemos l\u00e1. Nem sei quantos dias. A ordem era essa. Primeiro uma adapta\u00e7\u00e3o, pros caras esquecerem o mundo l\u00e1 fora. Quando tiramos, ele tossia muito. Estava todo vomitado, mijado, cagado. Fedia muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria franziu um pouco a testa, muito levemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 T\u00e1 com nojo? Mas voc\u00ea n\u00e3o teve h\u00e1 pouco quando limpou meu v\u00f4mito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Pena? Eu entendo, afinal era seu irm\u00e3o. \u00c9 compreens\u00edvel. Voc\u00ea \u00e9 uma boa mo\u00e7a. Cat\u00f3lica, temente a Deus. Eu tamb\u00e9m. Vou \u00e0 missa todo domingo. Fa\u00e7o meus filhos irem tamb\u00e9m. Tenho dois filhos, um casal. A mo\u00e7a ainda est\u00e1 na escola, dezesseis anos. O rapaz j\u00e1 \u00e9 casado, \u00e9 engenheiro. A esposa \u00e9 professora, fez escola normal, mas n\u00e3o trabalha mais. Casou. Tem de cuidar dos filhos que v\u00e3o nascer e n\u00e3o dos filhos dos outros. Voc\u00ea \u00e9 casada, minha filha?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mas ainda \u00e9 mo\u00e7a. Logo vai casar. Quem sabe um m\u00e9dico desses daqui, um rapaz direito. Tem um oficial rec\u00e9m incorporado no meu quartel, um tenentinho. N\u00e3o namorou ningu\u00e9m desde que chegou. J\u00e1 falei pra ele arrumar uma noiva. Assim \u00e9 esquisito. As pessoas comentam. Quem sabe ele vem aqui, hein? Voc\u00ea \u00e9 uma boa mo\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles ficaram um pouco em sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Quer que eu continue?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o precisa. O senhor tem de descansar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mas eu vou continuar. Seu irm\u00e3ozinho estava muito mal, com febre. Sabe Deus que doen\u00e7a tinha. Mas era preciso limpar, n\u00e9? Ali s\u00f3 tinha um jeito. Botaram ele no p\u00e1tio e lavaram com um banho de mangueira. Ele tremia tanto, era incontrol\u00e1vel. Parecia um boneco. Foi a divers\u00e3o dos soldados. Depois demos toalha e roupas secas pra ele. Ele n\u00e3o podia piorar. Tinha muito a falar. Olha, quem fala sofre menos. Ele devia ter falado logo. Esses caras s\u00e3o assim. Sabem que v\u00e3o soltar a l\u00edngua, entregar todo mundo, mas demoram, ficam sofrendo. Era t\u00e3o mais f\u00e1cil entregar logo o jogo. S\u00e3o muito burros. Seu irm\u00e3o foi muito burro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor torturou ele?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sim. Quer ouvir? Senta e escuta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma sombra tomou conta do rosto dela. Ela sentou na cadeira e esperou. N\u00e3o olhava para o paciente, olhava para os len\u00e7\u00f3is da cama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu ainda era Capit\u00e3o naquela \u00e9poca. Meu trabalho era interrogar os subversivos. Fiz isso muitas vezes. Era assim que a gente descobria os planos deles, era preciso. Uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a nacional, sabe? Esses terroristas estavam \u00e0 solta por a\u00ed fazendo baderna, assaltos, sequestros, explodindo coisas. Ainda est\u00e3o. O pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 seguro. N\u00f3s vivemos anos perigosos, uma guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor torturou muita gente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Foi preciso. Seu irm\u00e3o foi um caso. N\u00e3o colaborou. Poxa, na primeira surra era pra ter falado. Peguei dois soldados e mandei espancar. Primeiro de leve. A gente tem sempre a esperan\u00e7a de n\u00e3o precisar pesar a m\u00e3o. Eu sou muito humano. N\u00e3o sou de exagerar. Levou pauladas nas m\u00e3os e nas palmas dos p\u00e9s, telefones. Sabe o que \u00e9 um telefone?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele acenou positivamente com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea sabe. Pois n\u00e3o adiantou. Botamos na geladeira um tempo, nada. Geladeira \u00e9 um cub\u00edculo baixo. A gente esfria, esquenta, esfria&#8230; o marginal fica uns dias l\u00e1 debaixo de uma barulheira infernal. Seu irm\u00e3o ficou. Nada. Ele n\u00e3o dizia nada. Foi a\u00ed que eu tive certeza. Um terrorista treinado. Ele resistia bem. Tava na cara que sabia de alguma coisa grande. Quanto mais eles se calam, mais a gente sabe que est\u00e3o escondendo algo. \u00c9 sempre assim. Seu irm\u00e3o n\u00e3o seria diferente. Depois disso, fizemos afogamentos. Sabe como \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela fez que sim novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sabe n\u00e3o. Pensa que \u00e9 s\u00f3 enfiar a cabe\u00e7a num balde ou num tonel com \u00e1gua? Tem isso, ok, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3. Pra mim funciona melhor tapar o nariz do sujeito e enfiar uma mangueira de \u00e1gua na boca. Liga e pronto. Ele vai engolindo \u00e1gua at\u00e9 sufocar. Quem j\u00e1 engoliu \u00e1gua na praia sabe o desespero que d\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela se levantou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor vai me desculpar, mas eu preciso ir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os olhos piscavam para disfar\u00e7ar as l\u00e1grimas que queriam vir. O nariz estava vermelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o que saber mais?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Ele precisou ir para os choques, o pau-de-arara. Era teimoso o danado. Gritava, gritava muito, muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele colocou as m\u00e3os nos ouvidos, como se ainda pudesse ouvir os gritos dos presos, todos dentro de sua cabe\u00e7a. Os olhos fechados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor me d\u00e1 licen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria aproveitou o momento para fugir daquele lugar. J\u00e1 sa\u00eda do quarto quando ele completou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Ele acabou falando, menina. Contou tudo. Eles sempre falam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela parou na porta entreaberta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 E depois?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Depois, pegamos os comparsas todos. Todo mundo. Fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Assim? Fim? Acabou?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 As coisas n\u00e3o acabam assim, minha querida. Essas coisas n\u00e3o acabam bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela n\u00e3o conseguiu dizer nada. Saiu e fechou a porta atr\u00e1s de si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele ficou sozinho de novo. Por que tinha dito tudo aquilo \u00e0 mo\u00e7a? Estava meio alterado, a respira\u00e7\u00e3o ofegante. Ia morrer logo, achava. Sussurrava para si \u201cn\u00e3o passo de hoje, n\u00e3o passo de hoje\u201d. Sentia que ia morrer, sabia disso enquanto fechava os olhos. Via um escuro diferente, mais negro que o normal. Definitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Do seu sono ouviu a porta do quarto abrir. Abriu os olhos e viu a enfermeira novamente. Estava pl\u00e1cida, equilibrada. Manejava uma bandeja com seringas e rem\u00e9dios.\u00a0 Quando percebeu que ele estava acordado, sorriu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Est\u00e1 acordado? Como est\u00e1 se sentindo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele estranhou a calma da mo\u00e7a. Tinha sa\u00eddo transtornada antes e agora voltada como se nada tivesse acontecido. A mesma fei\u00e7\u00e3o compassiva de antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea deve me achar um monstro, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Como?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Depois de tudo que eu lhe contei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela sorriu compreensiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor n\u00e3o se preocupe. Est\u00e1 tudo bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 com \u00f3dio de mim, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela preparava o medidor de press\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Deve me achar um torturador de merda. \u00c9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encheu o medidor de press\u00e3o. O bra\u00e7o do paciente ficou apertado. Ele achou que estava exagerado, do\u00eda. Pensou em reclamar, mas logo a press\u00e3o come\u00e7ou a diminuir. Ela se concentrava na medi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sua press\u00e3o est\u00e1 alta. Vou precisar lhe medicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 E onde est\u00e1 o m\u00e9dico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Ele vem mais tarde, n\u00e3o se preocupe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 E minha mulher?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Ela est\u00e1 l\u00e1 embaixo, j\u00e1 vai subir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele desconfiava da calma da mo\u00e7a. Como ela podia estar assim t\u00e3o calma depois de tudo que ele falara?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea vai me matar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela olhou para ele surpresa. A seringa estava na m\u00e3o pronta para colher o rem\u00e9dio na ampola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor est\u00e1 agitado. Esse rem\u00e9dio \u00e9 justamente pra lhe acalmar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea quer se vingar de mim. Eu n\u00e3o tenho medo. Se eu morrer, n\u00e3o vou para o inferno. Tudo que eu fiz foi pra defender o meu pa\u00eds. J\u00e1 voc\u00ea, voc\u00ea \u00e9 uma assassina. Eu sou um soldado, eu obede\u00e7o ordens. Ningu\u00e9m pode me culpar de nada. Sou cat\u00f3lico, vou \u00e0 missa, confesso, comungo. Eu entreguei minha alma a Deus. Quando eu morrer o pr\u00f3prio Jesus vem me buscar porque eu defendi meu povo. Eu fiz o que era preciso. E se fiz alguma coisa de errado \u00e9 porque precisava fazer o certo. Algu\u00e9m tinha de fazer. Voc\u00ea, n\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 uma assassina. Vai pro inferno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela olhava para ele com uma express\u00e3o diferente da placidez de antes. Era como se controlasse uma impaci\u00eancia. Quem a visse fora daquela cena sentiria que algo a incomodava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Senhor, esse rem\u00e9dio \u00e9 apenas para acalm\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea vai me envenenar. O que \u00e9 isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Um tranquilizante leve. Apenas para o senhor dormir melhor. Foi o m\u00e9dico que passou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu n\u00e3o vi nenhum m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor estava dormindo, um sono agitado. Ele achou melhor repetir a dose do rem\u00e9dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Por favor, Capit\u00e3o. O senhor vai ver como tudo vai melhorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquela voz lhe chamando de capit\u00e3o lhe fazia voltar no tempo. A menina implorava pelo paradeiro do irm\u00e3o. A mesma frase repetida v\u00e1rias vezes, chorosa, desesperada. \u201cPor favor, Capit\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Major. Eu sou um Major.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Me desculpe, eu me confundi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela enfiou a seringa no recept\u00e1culo do soro e injetou o rem\u00e9dio. Ele sentiu o l\u00edquido entrar no seu bra\u00e7o. Com a outra m\u00e3o quis puxar a agulha, mas ela o impediu. Ela era surpreendentemente forte para uma mo\u00e7a. Olhava com a express\u00e3o firme. Ele repetia entredentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Assassina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O senhor n\u00e3o se preocupe, Major. Acabou. Agora tudo vai ficar bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele sentiu o branco do quanto avan\u00e7ar sobre sua vista. Tudo ficou enevoado. S\u00f3 os olhos negros na enfermeira permaneciam vis\u00edveis. Depois, esse negror se ampliou como se o sugasse, como se ele fosse levado por um corredor escuro com um barulho longe de portas de ferro e uns gritos desesperados, cada vez mais longe, cada vez mais longe, e no fim de tudo, nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>*Conto de abertura do livro <a href=\"https:\/\/www.7letras.com.br\/a-eternidade-da-mac.html\"><strong>A Eternidade da Ma\u00e7\u00e3<\/strong><\/a>, obra vencedora do Pr\u00eamio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2016.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/cafemolotov.blogspot.com\/\"><strong><em>Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/em><\/strong><\/a><em> nasceu em Ilh\u00e9us-BA e vive em Salvador. Escreve fic\u00e7\u00e3o e poesia. Publicou os livros \u201cPequeno invent\u00e1rio das aus\u00eancias\u201d (Poesia, Pr\u00eamio Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado, 2001); \u201c3 vestidos e meu corpo nu\u201d (Contos, P55 Edi\u00e7\u00f5es, 2009), \u201cEros resoluto\u201d (Contos, P55 Edi\u00e7\u00f5es, 2010), \u201cCada dia sobre a terra\u201d (Contos, Ed Caramur\u00ea\/EppPublicidade, 2010), \u201cSe tua m\u00e3o te ofende\u201d (Novela, P55 Edi\u00e7\u00f5es, 2014) e \u201cArquivos de um corpo em viagem\u201d (poesia, Editora Mondrongo, 2015). Recentemente, lan\u00e7ou \u201cA Eternidade da Ma\u00e7\u00e3\u201d pela Editora 7Letras. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um conto do mais novo livro de Marcus Vin\u00edcius Rodrigues <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12817,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3178,2534],"tags":[3188,3142,81,41],"class_list":["post-12816","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-114a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-a-alma-do-diabo","tag-a-eternidade-da-maca","tag-conto","tag-dedos-de-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12816","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12816"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12816\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12888,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12816\/revisions\/12888"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12817"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12816"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12816"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12816"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}