{"id":12821,"date":"2016-10-30T12:47:08","date_gmt":"2016-10-30T15:47:08","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12821"},"modified":"2016-10-30T18:07:52","modified_gmt":"2016-10-30T21:07:52","slug":"janela-poetica-iv-51","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/janela-poetica-iv-51\/","title":{"rendered":"Janela Po\u00e9tica IV"},"content":{"rendered":"<p><em>Ot\u00e1vio Campos<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_12822\" aria-describedby=\"caption-attachment-12822\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Milton-Boeira-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12822 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Milton-Boeira-2.jpg\" alt=\"milton-boeira\" width=\"500\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Milton-Boeira-2.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Milton-Boeira-2-300x201.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12822\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Milton Boeira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O ESPELHO<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nn\u00e3o se mede<br \/>\ntempo e espa\u00e7o pelo tamanho da cidade<br \/>\nvila adentro<br \/>\ncidade velha<br \/>\nhoje a tarde e eu<br \/>\nmais velho do que as casas e as ruas de pedra<br \/>\npenso que amanh\u00e3<br \/>\ntalvez n\u00e3o exista outra solu\u00e7\u00e3o<br \/>\nque n\u00e3o a fuga<\/p>\n<p>um rio corre calmo<br \/>\neu n\u00e3o mergulho m\u00e3os<br \/>\npra aprender a calma<br \/>\neu corro<br \/>\nmais do que os carros<br \/>\ne os anos que ficam trancados<br \/>\ndentro da cidade murada<br \/>\nn\u00e3o cabe<br \/>\no que pensei em fazer nos dias<br \/>\nem que l\u00e1 em casa a luz era amarela<br \/>\ne anna chegava dizendo que agora sabia<br \/>\na raz\u00e3o de eu ser poeta<\/p>\n<p>e era<br \/>\n1. ser mais alto do que as montanhas<br \/>\nque protegem a cidade<br \/>\n(como se existissem montanhas al\u00e9m da linha do mar)<br \/>\n2. ser menor do que a vontade<br \/>\nde desistir do barco e dos furos no fundo do barco<br \/>\ndurante a chuva<br \/>\n3. n\u00e3o ter pressa em conhecer os outros<br \/>\nmundos e as pessoas que existem dentro deles<br \/>\n4. conhecer antes de tudo a mim mesmo<br \/>\ne os mundos e as pessoas que existem dentro<\/p>\n<p>por isso hoje<br \/>\nenquanto voltava a casa<br \/>\nescrevi uma carta<br \/>\nque apesar de branca carrega no remetente o impulso grande de voltar<\/p>\n<p>por isso hoje<br \/>\nno caminho de casa<br \/>\ncomprei um espelho<br \/>\ne o coloquei na porta<br \/>\nda sala<br \/>\nvirado<br \/>\npra rua<\/p>\n<p>(e envelhecemos a casa<br \/>\neu e a cidade<br \/>\nenquanto \u00e9 dia<\/p>\n<p>o espelho n\u00e3o)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>FENDA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nvisitamos cidades destru\u00eddas<br \/>\nasilos abandonados nos quintais<br \/>\nteu rosto uma fenda \u2013 por enquanto<br \/>\ndesistimos de ser tristes<\/p>\n<p>voc\u00ea acredita n\u00e3o existe outra palavra<br \/>\nmais bonita que triste<br \/>\nenquanto isto \u00e9 uma fotografia,<br \/>\num postal de Budapeste e suas<br \/>\ncinco mil luzes azuis \u2013 ser\u00e1<br \/>\nque ele te encontra hoje em casa:<\/p>\n<p>uma cidade que te povoa na inf\u00e2ncia<br \/>\nalgures teu nome nalguma porta<br \/>\nquem te disse um dia para sair com as chaves<br \/>\ne as coisas que despencam \u2013 por enquanto<\/p>\n<p>isto \u00e9 uma queda<br \/>\nisto \u00e9 uma seta<\/p>\n<p>quando eu falo em seta voc\u00ea pensa<br \/>\nem seta ou em flecha<br \/>\nvoc\u00ea pensa em uma seta como uma<br \/>\nflecha<\/p>\n<p>voc\u00ea pensa em uma flecha como um<br \/>\ndesastre<\/p>\n<p>estar de p\u00e9 tem sido uma aventura,<br \/>\numa escava\u00e7\u00e3o ou uma trag\u00e9dia<br \/>\narrancar aos peixes nem tanto,<\/p>\n<p>na data o postal um ano escondido<br \/>\nteu nome alhures: voc\u00ea ouve barulhos<br \/>\ndas pedras que descem murm\u00farios<br \/>\nmas isto \u00e9 um acidente<\/p>\n<p>uma flecha que atravessa o poema<br \/>\nescuta como ele pulsa devagar<\/p>\n<p>discutimos sobre precip\u00edcios<br \/>\nos fados que me ensinaram<br \/>\nde n\u00e3o tornar ao ch\u00e3o \u2013 por enquanto<br \/>\nisto \u00e9 um aviso,<\/p>\n<p>a porta que ainda n\u00e3o caiu<br \/>\na \u00faltima casa que resiste ir\u00f4nica<br \/>\nos azulejos que invertem<br \/>\na ordem do mito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ANTIODE AO PAI NATAL<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\ndeverias ler mais os portugueses e aprender<br \/>\no que \u00e9 o poema s\u00e9rio \u2013 ainda n\u00e3o sei<br \/>\nmuito menos o nome de verdade da Catarina<br \/>\nde Esc\u00f3cia, mas que era uma rainha<br \/>\nque gastou os \u00faltimos dias em cima da terra<br \/>\naben\u00e7oada pelos deuses escoceses cultivando<br \/>\num enorme p\u00e9 de erva<br \/>\nestas coisas s\u00e3o imperdo\u00e1veis<br \/>\nou era outra hist\u00f3ria que inventavas<br \/>\npara usar o nome de Deus, temer a Deus<br \/>\na todas as coisas<br \/>\nhoje \u00e9 dia de condenar os pecados<br \/>\num vento n\u00e3o fala de \u00e1rvores empalhadas<br \/>\nnem \u00e9 vento e n\u00e3o passa<br \/>\nalguns jornais noticiam rituais pag\u00e3os,<br \/>\no euro aumenta nesta \u00e9poca do natal,<br \/>\nmontaram um pres\u00e9pio em que o mi\u00fado deitava ao ch\u00e3o<br \/>\ne ningu\u00e9m sequer sentenciou<br \/>\nas coisas mudam e os homens se perdem todo dia<br \/>\nuns morrem e depois morrem de novo todo dia<br \/>\ne as luzes continuam acesas<br \/>\ne piscam<br \/>\nparece que inventaram hoje, olha l\u00e1 que ainda<br \/>\n\u00e9 tempo de cometer absurdos<br \/>\ndar cabo aos jogos das cartas seria uma aventura<br \/>\nimperdo\u00e1vel<br \/>\nser \u00fatil ao amor e aos desejos de fim de ano<br \/>\nenquanto o outro desenha teu nome<br \/>\nna testa encharcada da menina chinesa<br \/>\nque n\u00e3o dorme<br \/>\n\u00e9 duro feito pedra<br \/>\na latitude \u00e9 3<br \/>\nn\u00e3o se mede a densidade relativa do ar<br \/>\nas asas que me meteram \u00e0s costas ela confunde<br \/>\ncom ironia e a terra da China \u00e9 f\u00e9rtil<br \/>\ndisseram que pra l\u00e1 j\u00e1 passa de 2016<br \/>\ne j\u00e1 se foi o ano do porco<br \/>\nn\u00e3o se brinca com astrologia<br \/>\nisto n\u00e3o ajuda<br \/>\nisto n\u00e3o perdoa um monte afastado<br \/>\nde cultuar certos deuses<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A ESPERA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nenquanto o cigarro esvazia e no porto<br \/>\na temperatura cai sem deixar vest\u00edgios<br \/>\npensamos que a cidade sente por n\u00f3s<br \/>\nali n\u00e3o estivemos<br \/>\nmas nosso amor sim<\/p>\n<p>pelo menos em palavras e sil\u00eancios<br \/>\ne o que somos hoje n\u00e3o ultrapassa a barreira disso<\/p>\n<p>voc\u00ea de costas para a champs-\u00e9lys\u00e9es<br \/>\numa fotografia clara t\u00e3o mais bonita do que as minhas<br \/>\neu deveria te escrever um poema<br \/>\nque terminaria com um desenho calmo e sauda\u00e7\u00f5es<br \/>\nda vida portuguesa<\/p>\n<p>mas nunca fui bom em desenhar a espera.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O VERBO<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\nj\u00e1 podemos sentir de novo a casa vazia<br \/>\nalgumas palavras perderam o sentido<br \/>\noutras arranham as paredes como um bicho<br \/>\nvoc\u00ea as deixa fechadas<\/p>\n<p>foi ent\u00e3o que come\u00e7amos a anotar as coisas<br \/>\nnas cortinas me pega a m\u00e3o faz um desenho<br \/>\ntemos um cubo de gelo e escreve: gelo<br \/>\ntemos uma casa e escreve: casa<\/p>\n<p>o carteiro j\u00e1 n\u00e3o vem e a isso<br \/>\nsomam-se meses pela vizinhan\u00e7a<br \/>\nespalha-se um boato de que aqui<br \/>\ndentro estamos todos mortos<\/p>\n<p>se te desse agora uma fotografia<br \/>\nexatamente de agora<br \/>\nsentada como est\u00e1<br \/>\nquanto tempo levaria at\u00e9 que<br \/>\nescrevesse na parede<br \/>\no nome de lugar<\/p>\n<p>algum?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Ot\u00e1vio campos<\/strong> \u00e9 um poeta e editor nascido em 1991. \u00c9 autor dos livros &#8220;Dist\u00e2ncia&#8221; (Aquela Editora, 2013); &#8220;Outros tipos de disparos&#8221; (Edi\u00e7\u00f5es Macondo, 2016) e &#8220;Os peixes s\u00e3o tristes nas fotografias&#8221; (Bartlebee, 2016).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A percep\u00e7\u00e3o veemente contida nos versos de Ot\u00e1vio Campos 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