{"id":12969,"date":"2016-12-07T09:18:46","date_gmt":"2016-12-07T12:18:46","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12969"},"modified":"2016-12-18T12:18:33","modified_gmt":"2016-12-18T15:18:33","slug":"janela-poetica-ii-51","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/janela-poetica-ii-51\/","title":{"rendered":"Janela Po\u00e9tica II"},"content":{"rendered":"<p><em>Hanna Halm<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_12971\" aria-describedby=\"caption-attachment-12971\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Re-perebas-int.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12971 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Re-perebas-int.jpg\" alt=\"Re\" width=\"500\" height=\"392\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Re-perebas-int.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Re-perebas-int-300x235.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12971\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Re<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>V\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fecham-se em tamanhos mi\u00fados<br \/>\ncaixas de desgra\u00e7a e poeira, rotas claves<br \/>\ndo passado em pausa.<br \/>\nL\u00e1grimas marcadas no negativo da fotografia,<br \/>\nS\u00e3o as d\u00fazias de brincos perdidos em festas<br \/>\ncomo a fase terminal da doen\u00e7a<br \/>\nEmbrulham-se em milhas de pacotes nunca postados<br \/>\nel\u00e1sticos apodrecidos<br \/>\nBrilham como cacos remendados<br \/>\nno espelho escuro pelos fungos da casa vazia<br \/>\ne pastos inteiros incendiados.<br \/>\n\u00c9 morte gratuita, sujeira presa<br \/>\nnos olhos do vento, desvairado.<br \/>\nFalta lei e prote\u00e7\u00e3o devida \u00e0s unhas que sangram&#8230;<br \/>\no dinheiro corre as ladeiras da rua<br \/>\ncomo o p\u00f3 ca\u00eddo de um cinzeiro.<br \/>\nFica a p\u00f3lvora do armamento esquecido nos arquivos.<br \/>\nPunhos fecham-se em tamanhos mi\u00fados<br \/>\nsem direito de guardar escolhas em arm\u00e1rios de a\u00e7o<br \/>\nnem se podem levantar por covardia<br \/>\na exemplo dos homens que escrevem mudos<br \/>\nsobre suas mesinhas demasiadamente limpas<br \/>\nda liberdade moderna. Do sonho popular<br \/>\ncalados diante o som oco que se faz<br \/>\nnas palmas das secas m\u00e3os<br \/>\npresas pelo descuido dos s\u00edmbolos de perda<br \/>\ne das m\u00fasicas jamais tocadas nas r\u00e1dios.<br \/>\nFecham-se em tamanhos mi\u00fados<br \/>\ns\u00e3o como as l\u00ednguas soldadas ao c\u00e9u<br \/>\ndas bocas frias e incapazes<br \/>\nEscondem-se pelas cal\u00e7as de bolsos fundos<br \/>\ne se alcan\u00e7am, por uma estranha ventura, as l\u00e2mpadas<br \/>\nque pendem nos postes de cada espasmo necess\u00e1rio<br \/>\n\u00e0s bambas pernas, petrificam-se na recorda\u00e7\u00e3o do m\u00fasculo<br \/>\ncomo um tumor gerado no infinito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<strong>Cabide<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>depois de tanto morder meus olhos e<br \/>\nproteger os p\u00e9s da minha frieza,<br \/>\nfalava de mim feito fantasma<br \/>\nenvenenada em seus pr\u00f3prios dentes<br \/>\nna escurid\u00e3o dos seus dias<br \/>\ncompletos, ricos de palavras<br \/>\nincompreens\u00edveis.<\/p>\n<p>e corria est\u00f3rias<br \/>\npelas esquinas,<br \/>\nestrofes e gargalhada<br \/>\nem v\u00e3o, batuques<br \/>\nnas panelas de casa<\/p>\n<p>como fazia crer<br \/>\nfalava de mim<br \/>\ne ouviam os desconhecidos<br \/>\ndoen\u00e7as anci\u00e3s de minha carne<br \/>\ndita suja<br \/>\nodiosa<br \/>\ncarne<\/p>\n<p>falava de mim<br \/>\nsorrateira como o trigo ao vento e<br \/>\nsufocada em meu seio<br \/>\ncuspia bolas de pelo roto<\/p>\n<p>seca<\/p>\n<p>falava de mim, rouca<br \/>\ninvalida pelas garras de<br \/>\num carma inventado<\/p>\n<p>nua<br \/>\nexausta<br \/>\nfalava de mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<strong>Ramal Japeri<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>se t\u00e3o cedo sou massa<br \/>\nme aquieto<br \/>\nno canto que me cabe<br \/>\nem trilho reto sigo<br \/>\ncurvo meu caminho ao<br \/>\nganha pouco, p\u00e3o<br \/>\nindigno dos dias tantos<\/p>\n<p>ossos gemem,<br \/>\nestalam pobres<br \/>\na febre embalada a<br \/>\nv\u00e1cuo.<\/p>\n<p>finda a tarde, gado<br \/>\nme atiro \u00e0 n\u00e3o-vaga e<br \/>\ncom menos pressa chego<br \/>\na casa, permito gra\u00e7a a noite<br \/>\nj\u00e1 se afasta prum dia<\/p>\n<p>aplico<br \/>\na favor de mim e meu bem<br \/>\nsonhos \u00f3rf\u00e3os<br \/>\nsurreais<br \/>\na posi\u00e7\u00e3o que me<br \/>\nagride o trem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Deixem abertos os meus olhos<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>deixem abertos os meus olhos, e<br \/>\nsobre o meu peito<br \/>\nfeche minha m\u00e3o<br \/>\ncomo uma cuia a espera de<br \/>\nl\u00e1grimas repreendidas.<br \/>\ncompreenda minha altura,<br \/>\nmetragem antiquada de \u00edndia<br \/>\n(misto de sangue e confus\u00e3o)<br \/>\ncalce-me com botas moles<br \/>\ngastas pelo couro judiado<br \/>\nque andei a vida.<br \/>\nquero sussurros de adeus<br \/>\nditos ao p\u00e9 do ouvido surdo<br \/>\nquero meus cabelos penteados<br \/>\ncom a calma da escrita<br \/>\ne minha camisa branca<br \/>\nde bot\u00f5es e gola livres<br \/>\ncasando minha<br \/>\n\u00edris fosca,<br \/>\nseca feito a boca<br \/>\nque se h\u00e1 de morder.<br \/>\nn\u00e3o hei de perder no breu<br \/>\ntal antropofagia<br \/>\ndeclarada no ber\u00e7o<br \/>\nque cedo me deitei<br \/>\ne retorno em per\u00edmetro maior<br \/>\npara at\u00e9 onde dura<br \/>\na poeira na vista<br \/>\nque agreguei durante os dias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<strong>Clandestina<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>sim. eu quero ficar<br \/>\no ref\u00fagio nesse caos \u00e9 a sua pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o pretendo descolar a marca \u00famida<br \/>\na entrega da sua pele a minha estadia<br \/>\npode ser que encontre num terreno impr\u00f3prio<br \/>\nmas nunca em rotas paralelas da vida<br \/>\num termo entre o meio e a desgra\u00e7a<br \/>\nnesse labirinto estreito<br \/>\nde estar sempre respirando as tuas sobras<br \/>\nem copinhos de caf\u00e9 expresso no corredor escuro<br \/>\ne manh\u00e3s corridas para n\u00e3o ser vista<br \/>\npasso os moveis estalam junto minha coluna<br \/>\ndolorida, a calma j\u00e1 n\u00e3o parece alternativa<br \/>\nse des\u00e7o de carros apressada e deito<br \/>\nsobre len\u00e7\u00f3is a serem trocados<br \/>\nsem for\u00e7a para desvendar o koyosegi do nosso futuro<br \/>\nadoe\u00e7o pretensiosamente ao escovar os dentes<br \/>\ne ouvir conversas de uma voz e meia<br \/>\nem sil\u00eancio morro um pouco a cada racionado toque<br \/>\nmas morro esquecida no espelho do arm\u00e1rio do banheiro<br \/>\nao provar a pasta de menta<br \/>\ne saber de ti em outro quarto<br \/>\narqu\u00e9tipo que n\u00e3o me cabe, reconhe\u00e7o<br \/>\nmeu espa\u00e7o entre as quinas da caixa<br \/>\nsufoco toda vez em minha perman\u00eancia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n<strong>Sexta-feira<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>perdi as contas dos telefonemas<br \/>\nvoc\u00ea dizendo que viria ao meio<br \/>\ndia de mala e cuia<br \/>\npra bater na porta e me chamar<br \/>\nexclusivo, \u00fanico<br \/>\nas unhas arranhando a madeira<br \/>\ncantareira batucando o<br \/>\ntempo que levo apressado<br \/>\ndo sof\u00e1 da sala ao arm\u00e1rio<br \/>\nda cozinha onde deixei<br \/>\na c\u00f3pia das chaves<br \/>\nque j\u00e1 eram tuas<br \/>\nfaz mais de um m\u00eas<br \/>\nfiz na esquina de casa<br \/>\nacompanhando a maquinha<br \/>\ncompor pra voc\u00ea o poder<br \/>\nde entrar quando quiser<br \/>\npantograficamente<br \/>\nsem ser chamado<br \/>\nmas vi tantos sois a pino<br \/>\nquanto pude enfrentar<br \/>\na superf\u00edcie lunar<br \/>\ntrezentos e oitenta e quatro mil<br \/>\nquatrocentos e tr\u00eas quil\u00f4metros de<br \/>\ndist\u00e2ncia pro n\u00f3 de nossas pernas<br \/>\nsobre a cama descoberta<br \/>\nainda assim contei minutos<br \/>\nchequei as pilhas do rel\u00f3gio<br \/>\nvoltei a vestir minha camisa<br \/>\nde dormir e liguei<br \/>\na tv no canal nove<br \/>\na mesma coisa, desimport\u00e2ncia<br \/>\ninquieta\u00e7\u00e3o interna<br \/>\na extravas\u00e3o das p\u00e1lpebras<br \/>\nconta-gotas no travesseiro<br \/>\nfronha branquinha que troquei cedo<br \/>\nde manh\u00e3, os pombos batem na janela<br \/>\narrulham a pior m\u00fasica para a<br \/>\nreforma que n\u00e3o programei,<br \/>\nmudei arm\u00e1rio de lugar<br \/>\naquela mesinha fica no canto, agora<br \/>\nmas talvez eu jogue fora,<br \/>\nocupar a cabe\u00e7a \u00e9 dif\u00edcil &#8211; o que houve?<br \/>\nat\u00e9 te comprei sobremesa<br \/>\nmais uma vez &#8211; pra<br \/>\npreencher a geladeira e<br \/>\ncolecionar embalagens de papel &#8211; choveu forte<br \/>\ntive problemas com o carro<br \/>\no pagamento n\u00e3o caiu na conta<br \/>\nn\u00e3o tive folga<br \/>\nt\u00e1 uma confus\u00e3o, chegando a\u00ed te conto &#8211; sim&#8230;<br \/>\nmas quando voc\u00ea vem?<br \/>\neu espero.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Hanna Halm<\/em><\/strong><em> (1993) \u00e9 poeta, musicista e historiadora nascida em Queimados, Rio de Janeiro. Participa do coletivo de publica\u00e7\u00f5es independentes Drunken Butterfly e do selo fonogr\u00e1fico fluminense Efusiva. Tem poemas publicados no blog Poema Di\u00e1rio, no jornal Pl\u00e1stico Bolha e na revista eletr\u00f4nica Avenida Sul.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas dire\u00e7\u00f5es sugeridas nos poemas de Hanna Halm<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12970,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3205,16,9],"tags":[3211,3209,107,159,3210],"class_list":["post-12969","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-115a-leva","category-destaques","category-janelas-poeticas","tag-cabide","tag-hanna-halm","tag-janela-poetica","tag-poemas","tag-vao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12969","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12969"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12969\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12975,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12969\/revisions\/12975"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12970"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12969"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12969"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12969"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}