{"id":12976,"date":"2016-12-07T10:43:33","date_gmt":"2016-12-07T13:43:33","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12976"},"modified":"2016-12-18T12:18:47","modified_gmt":"2016-12-18T15:18:47","slug":"dedos-de-prosa-i-50","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-50\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Helena Terra<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_12978\" aria-describedby=\"caption-attachment-12978\" style=\"width: 315px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Re-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12978 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Re-II.jpg\" alt=\"Re\" width=\"315\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Re-II.jpg 315w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Re-II-189x300.jpg 189w\" sizes=\"auto, (max-width: 315px) 100vw, 315px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12978\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Re<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Passado a limpo<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>A Raduan Nassar\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O que registro agora aconteceu anteontem, ontem e hoje de madrugada quando abri a porta do quarto de trabalho. Talvez tenha acontecido tamb\u00e9m em outras noites e mesmo durante outros dias. N\u00e3o me lembro dos dias. Passaram, devagar, sem testemunhar a nudez da luz noturna. Nunca escrevi sobre eles. Pensei que escrevia enquanto dava nomes \u00e0s plantas e substantivava os perfumes e os detalhes da casa. Mas as palavras nunca foram minhas. As letras e os sons sempre pertenceram aos rasgos e \u00e0 caligrafia do mundo dele, torr\u00e3o alquebrado pelas estantes e pela imortalidade da mesa &#8211;\u00a0 madeira de lei como a carne de seus p\u00e9s \u00famidos \u2013\u00a0 perdido por entre os pap\u00e9is amassados e os rel\u00f3gios repletos de hiatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele me viu espremida no canto, e n\u00e3o se mexeu na cadeira. Por um momento, abriu e fechou os olhos, mapeando minha presen\u00e7a em seu solo sagrado. Por um momento, pensei ele vai estender-me as m\u00e3os e depois aferrolhar-me em seus bra\u00e7os. Dos meus, escorriam saudades. No entanto, nem nossos olhos nem nossos corpos se falaram. Ent\u00e3o, avancei, escondendo, ainda, a s\u00faplica sob a camisola. Ele n\u00e3o disse nada. Tampouco eu pude. Dizer seria uma desonra.\u00a0 Apanhei o bloco de rascunho e um l\u00e1pis e, sem arrancar a folha, fui vencida pela repentina desobedi\u00eancia dos dedos: <em>vim em busca de amor,<\/em> escrevi. Frase curta, certeira. Dentro e fora do cora\u00e7\u00e3o. Ele, o n\u00e1ufrago capaz de chorar apenas de rir, manteve o olhar pregado nas ranhuras da mesa, provavelmente, calculando em que momento as l\u00e1grimas me avassalariam o sangue e a debilidade. <em>Responda<\/em>, insisti em uma letra desesperada, jogando o bloco em seu peito para que ele rompesse com a falsa concentra\u00e7\u00e3o do que antes fora sua labuta. <em>N\u00e3o tenho afeto para dar <\/em>foram as cinco palavras escolhidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zelosa, ajeitei o bloco no lugar de costume, ganhando tempo para refletir sobre a senten\u00e7a. Meu marido n\u00e3o seria capaz de acreditar em meia palavra do que escrevera.\u00a0 Se sua verdade escapava deformada, era porque ele pensava n\u00e3o precisar mais dela. Precisava, sem saber o porqu\u00ea, ofender, esfolar de modo absurdo. Portanto, n\u00e3o hesitei em dar a volta na mesa e, como em tantas vezes, parar atr\u00e1s de sua cadeira. Ele continuou im\u00f3vel, decidido a ignorar-me, mas eu, habituada a seu ritmo, n\u00e3o me dei por vencida e, com a ponta das unhas, rocei seu pesco\u00e7o e cabelos como antigamente nos ped\u00edamos nos instantes de gozo. Ele fechou sobre a minha m\u00e3o o punho, apertando-me os dedos cada vez mais e mais at\u00e9 a dor calar o gemido. E foi nessa altura que eu, num gesto expl\u00edcito, puxei meu bra\u00e7o, flutuando, r\u00e1pida e miser\u00e1vel, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 janela em busca de um copo de ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deparei-me com o meu colo sufocado pelos bot\u00f5es e pelo la\u00e7o da camisola.\u00a0 A rotina a usara contra mim, contra ele. Cerceara-me os contornos, os v\u00edcios. A fidelidade dos meus desejos secara sob o tecido opaco como murchara a de meus seios e de meu ventre inconfund\u00edvel, o ventre seco e desprezado pelo s\u00eamen dele, pela vontade do deus e dos dem\u00f4nios dele. Meus dem\u00f4nios. Devassos e impuros, ao alcance tamb\u00e9m de minha fome e das artimanhas, todas, mescladas a tudo, misturando tudo, inconfidentes, terr\u00edveis no comando, provocando os limites do perigo.\u00a0 E eu cedi a elas e voltei \u00e0 a\u00e7\u00e3o, desamarrada, quase despida, crua, oferecendo-me para um \u00faltimo golpe, esfregando-me na densidade de sua pele, abocanhando os seus pelos, for\u00e7ando com o p\u00e9 a entrada do meu prazer, do meu amor, mas ele se desembara\u00e7ou sem pressa, ajeitando o pijama e recolhendo os p\u00e9s dele um por um sob a cadeira como se eu estivesse parada na vida e ausente feito um son\u00e2mbulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Helena Terra<\/em><\/strong><em> \u00e9 ga\u00facha, escritora e ilustradora. Publicou contos, poemas e textos em antologias e revistas liter\u00e1rias e o romance \u201cA condi\u00e7\u00e3o indestrut\u00edvel de ter sido\u201d.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artimanhas do amor no conto de Helena Terra<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12977,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3205,2534,16],"tags":[41,1673,3212,3213],"class_list":["post-12976","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-115a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-dedos-de-prosa","tag-helena-terra","tag-passado-a-limpo","tag-raduan-nassar"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12976","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12976"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12976\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12979,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12976\/revisions\/12979"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12977"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12976"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12976"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12976"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}