{"id":12996,"date":"2016-12-12T09:32:19","date_gmt":"2016-12-12T12:32:19","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=12996"},"modified":"2016-12-18T17:07:00","modified_gmt":"2016-12-18T20:07:00","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-49","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-49\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o do escritor <strong>Alexandre Staut<\/strong> com a Fran\u00e7a n\u00e3o tem in\u00edcio com a literatura. Nasce da mem\u00f3ria afetiva de \u201cO garoto selvagem\u201d, longa dirigido por Fran\u00e7ois Truffaut, que assistiu, pela primeira vez, numa madrugada dos anos 80, na c\u00e9lebre Sess\u00e3o Coruja. Na hist\u00f3ria, um menino achado na floresta \u00e9 preso e levado para um vilarejo, onde passa a viver sob os cuidados de um m\u00e9dico. Aparentemente surda-muda, a crian\u00e7a reage \u00e0 presen\u00e7a alheia com grunhidos, logo sendo tratada, pelos locais, como um animal de entretenimento. A miss\u00e3o do m\u00e9dico \u00e9 justamente estancar essa bestialidade e incutir no menino o comportamento civilizado, atrav\u00e9s do exerc\u00edcio repetitivo da comunica\u00e7\u00e3o. O que ele resiste, a princ\u00edpio, em fugas de retorno \u00e0 natureza, at\u00e9 que a for\u00e7a da raz\u00e3o o domestica para a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi a lembran\u00e7a do filme de 1970 a primeira imagem que ocorreu a Staut, ao descer na esta\u00e7\u00e3o de L&#8217;Aber Wrach, um vilarejo franc\u00eas a oeste do pa\u00eds. Ele se percebeu um selvagem ali, no sentido de desconhecer os costumes, o comportamento e, sobretudo, a l\u00edngua nativa. Passava o ano de 2002, e o ent\u00e3o jornalista tinha viajado \u00e0 Fran\u00e7a a convite do amigo Yann Danjou, que estava prestes a abrir um restaurante. Staut e Danjou haviam se conhecido, alguns anos antes, em Londres, onde o brasileiro viveu um per\u00edodo, e passou de lavador de pratos a ajudante de cozinha em restaurantes refinados. Foi ali que aprendeu a cozinhar bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proposta, ent\u00e3o, era usar essa experi\u00eancia no modesto restaurante na cidade litor\u00e2nea de Brest. O desdobrar dos fatos \u00e9 o que movimenta a trama de \u201cParis-Brest\u201d, publica\u00e7\u00e3o recente de Staut. Misto de romance de forma\u00e7\u00e3o e di\u00e1rio de viagem, o livro apresenta, de maneira muito original, o g\u00eanero da auto-fic\u00e7\u00e3o. O autor manipula, com per\u00edcia e envolvimento, as pr\u00f3prias mem\u00f3rias a favor de uma narrativa que reconstitui o passado no adesivo de express\u00f5es art\u00edsticas: a m\u00fasica, a literatura e, predominantemente, a gastronomia. Prova disso \u00e9 que muitas iguarias s\u00e3o descritas em seus modos de preparo, revelando outra caracter\u00edstica do livro: ser tamb\u00e9m um volume de receitas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acima dessa estrutura comp\u00f3sita, por\u00e9m, flui um texto coeso, um relato \u00edntimo marcado pela sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pertencimento ao mesmo tempo que por uma gana de que as coisas deem certo, mesmo que tudo aponte para o fracasso. A cozinha do restaurante \u00e9 seu pin\u00e1culo particular, de onde enxerga o Brasil atrav\u00e9s de pratos t\u00edpicos que encantam os franceses, a exemplo do frango a passarinho e da indefect\u00edvel coxinha, mas tamb\u00e9m onde orbitam suas frustra\u00e7\u00f5es, seus anseios e suas sa\u00eddas; \u00e9 onde se d\u00e1 conta de que, de omeletes a terrine de foie gras de ganso, a arte da culin\u00e1ria n\u00e3o consegue sobrepor, em si, a arte da escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista de opini\u00f5es diretas e reveladoras, Staut refaz os passos que o levaram at\u00e9 o romance, partindo da pr\u00f3pria literatura para debater sobre o meio e o mercado liter\u00e1rio. Criador e editor da conceituada S\u00e3o Paulo Review, seu olhar agudo descortina a realidade brasileira de livros e de autores que, inexplicavelmente, est\u00e1 mais clara para os franceses que para n\u00f3s mesmos. Educa\u00e7\u00e3o, literatura de g\u00eanero, festivais. Uma fic\u00e7\u00e3o que tem o tamanho da pr\u00f3pria altura. \u201cSou um sujeito triste que escreve para tentar ser feliz\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_13074\" aria-describedby=\"caption-attachment-13074\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Int-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13074 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Int-1.jpg\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Int-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Int-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13074\" class=\"wp-caption-text\">Alexandre Staut \/ Foto: Giuliana Nogueira<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O seu novo livro tem uma concep\u00e7\u00e3o, digamos, sui generis. H\u00e1 momentos em que \u00e9 um di\u00e1rio de viagem; noutros, um livro de receitas; e, de maneira geral, um romance de forma\u00e7\u00e3o. Entre a mem\u00f3ria e o processo de composi\u00e7\u00e3o, qual foi o ponto de partida para escrev\u00ea-lo? E como fez para trabalhar com esses tr\u00eas g\u00eaneros bem distintos num \u00fanico texto, sem que a narrativa perdesse a coes\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Inicialmente, cinco anos ap\u00f3s voltar da Fran\u00e7a para o Brasil, tentei escrever um romance em que um personagem de um pa\u00eds distante e n\u00e3o identificado chega numa pequena comunidade francesa, longe dos grandes centros culturais do pa\u00eds. O mote tinha a ver com minha viagem, mas principalmente com o filme \u201cO garoto selvagem\u201d, de Truffaut, um filme que amo e que assisti a diversas vezes, desde os anos 80, na Sess\u00e3o Coruja, da TV, em DVD e num cinema obscuro de Paris. Passei uns dois anos com essa hist\u00f3ria, mas o livro estava emperrado. Quando j\u00e1 estava quase desistindo, meu amigo Yann (que me levou para a experi\u00eancia na Fran\u00e7a, e para quem \u201cParis-Brest\u201d \u00e9 dedicado), disse que eu devia escrever sobre minha experi\u00eancia de vida em L&#8217;Aber Wrach, cidadela ao lado de Brest, o primeiro lugar onde morei na Fran\u00e7a. Por\u00e9m ainda demorei uns anos para come\u00e7ar a escrita do livro. Morei l\u00e1 entre 2002 e 2006. Parece que precisava esperar a hist\u00f3ria decantar de alguma maneira, para que eu conseguisse observar o colosso de coisas que vivi como imigrante no pa\u00eds de uma forma pouco sentimental, com olhar cr\u00edtico, ora engra\u00e7ado. \u00c0s vezes \u00e9 engra\u00e7ado e pat\u00e9tico ser estrangeiro num lugar. Me lembro que, j\u00e1 h\u00e1 um bom tempo no lugar, numa mesa de refei\u00e7\u00e3o, uma senhora me pediu para passar a baguete. Disse que eu tinha \u201cbra\u00e7os longos\u201d. Como em franc\u00eas, vezenquando, uma palavra se junta a outra, na hora da fala, n\u00e3o entendi o que queria dizer quando falou \u201cbras longs\u201d (pron\u00fancia: \u201cbralon\u201d). Perguntei o que queria e percebi que meu franc\u00eas n\u00e3o era t\u00e3o bom quanto achava que era (risos). Mas voltando \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do livro em si, houve um dia, dez anos ap\u00f3s minha volta, em que acordei e percebi que tinha uma hist\u00f3ria pronta. Ainda n\u00e3o sabia que o livro ia ser uma mistura de romance de forma\u00e7\u00e3o, livro de receitas e di\u00e1rio de viagem, algo talvez novo na literatura contempor\u00e2nea brasileira. Quando estava perto dos dez mil caracteres escritos, percebi que tinha um romance para resolver, nas m\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 \u00c9 incr\u00edvel esse tempo de matura\u00e7\u00e3o e, sobretudo, como voc\u00ea bem transferiu uma estadia, que durou anos, de maneira condensada para o livro. O que me leva a pensar sobre a integridade dessas mem\u00f3rias. Durante esse per\u00edodo, voc\u00ea teve algum di\u00e1rio onde anotava sobre os dias, e que serviu de fonte para o romance? Ou foi mesmo um esfor\u00e7o de percorrer essas lembran\u00e7as, revisitar os lugares, rever as pessoas, sentir os cheiros e os gostos dessa \u00e9poca? A mesma pergunta serve para as receitas. As tinha anotado num caderno ou as escreveu de cabe\u00e7a? Precisou consultar ou falar com algumas das pessoas daquele tempo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Quando Anita Deak, editora do livro, preparava os originais, surgiu a quest\u00e3o sobre os poss\u00edveis di\u00e1rios. Ela queria l\u00ea-los, talvez publicar parte deles com minha caligrafia. Mas nunca os fiz. Adoro ler di\u00e1rios de escritores, mas nunca escrevi uma linha, a n\u00e3o ser di\u00e1rios terap\u00eauticos, que nunca vir\u00e3o a p\u00fablico (risos). Gosto dos di\u00e1rios da Virginia Woolf, do L\u00facio Cardoso, s\u00e3o tantos&#8230; Acontece que o per\u00edodo em que vivi na Fran\u00e7a sempre foi muito presente na minha vida. Quase todos os dias, antes da publica\u00e7\u00e3o deste livro, lembrava-me de flashes de mem\u00f3rias, hist\u00f3rias truncadas. Para escrever o livro, quando n\u00e3o conseguia seguir adiante, acionava o trabalho do escritor de fic\u00e7\u00e3o que sou, sem me importar muito com a fidelidade dos fatos. H\u00e1 inclusive alguns nomes trocados no livro, para que assim n\u00e3o comprometesse moralmente pessoas que cruzaram meu caminho na Fran\u00e7a. \u201cParis-Brest\u201d \u00e9 um livro de auto-fic\u00e7\u00e3o. \u00c9 um g\u00eanero que gosto. Acabo de ler um livro alucinante da Delphine de Vigan, que se chama \u201cBaseado em fatos reais\u201d. Indico! Sou leitor de auto-fic\u00e7\u00e3o, gosto dos livros do Ricardo L\u00edsias e do Juli\u00e1n Fuks, que exploram essa literatura. Falando sobre cheiros, sabores, lembran\u00e7as, algumas pessoas acham que sou um d\u00e2ndi&#8230; fa\u00e7o banquetes para os amigos, participo de festas liter\u00e1rias, criei um site de literatura importante no Brasil (S\u00e3o Paulo Review), escrevo fic\u00e7\u00e3o, fa\u00e7o cr\u00edticas gastron\u00f4micas, atuo como ator em pe\u00e7as de teatro e no cinema. Talvez Proust seja a inspira\u00e7\u00e3o mais real para este livro&#8230; a tiazona d\u00e2ndi mais poderosa que j\u00e1 existiu. Falo dele algumas vezes no texto, cito as suas madeleines, dou a receita original do doce. Bem, queria fazer um livro que despertasse sensa\u00e7\u00f5es. Por isso, exploro bastante as receitas, o cheiro das feiras livres. Sem contar que de uma receitinha todo mundo gosta. Quando resolvi inseri-las no livro, testei cada uma. Mas minhas receitas n\u00e3o t\u00eam medidas certas. Uso punhados, fa\u00e7o medidas na concha da m\u00e3o. Uma coisa meio bruxo&#8230; que sou (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Sim. As refer\u00eancias liter\u00e1rias e as musicais s\u00e3o um tempero \u00e0 parte no livro, se me permite o trocadilho (risos). Mas j\u00e1 falamos sobre isso. Queria voltar a um momento que \u00e9 descrito meio en passant, logo no come\u00e7o, que \u00e9 sua temporada em Londres, a qual precede os anos na Fran\u00e7a. Como se encaixa esse tempo em territ\u00f3rio ingl\u00eas com sua forma\u00e7\u00e3o de jornalista, j\u00e1 que viajou para Brest depois de trabalhar um tempo em reda\u00e7\u00f5es no Brasil, escrevendo sobre gastronomia? Foi em Londres que aprendeu a cozinhar, n\u00e3o? E l\u00e1 tamb\u00e9m que conheceu o Yann, um personagem sem o qual o romance n\u00e3o existiria. Como se deu esse encontro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Cozinho desde crian\u00e7a. Minha tia Lia fazia bolos de festa. Eu ficava vendo aquele capricho todo. Aos 11 anos, quando queria comer bolo, n\u00e3o pedia para minha m\u00e3e. Ia para a cozinha e fazia. Meu pai, que morreu quando eu tinha sete anos, era um grande cozinheiro. Todos os domingos ia para a cozinha, eu acordava com a casa cheirando feijoada, dobradinha. Ele gostava de receber parentes e amigos. Era festeiro. Herdei isso dele. Falo sobre minha fam\u00edlia paterna, que \u00e9 mezzo italiano, mezza judia, e sua rela\u00e7\u00e3o com a cozinha e a m\u00fasica, no meu primeiro romance, \u201cJazz band na sala da gente\u201d, de 2010. A Inglaterra aconteceu na minha vida em 1998. Trabalhava num jornal de S\u00e3o Paulo e, ao ser demitido, uma amiga jornalista, Ana Paiva, sugeriu que eu fosse para l\u00e1 me tratar de tanto \u00e1lcool e balada. L\u00e1, bebi mais ainda (risos). Mas comecei a trabalhar em cozinhas de hot\u00e9is bacanas. Conheci Yann Danjou num desses hot\u00e9is e foi identifica\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira vista. Ou paix\u00e3o. Uma semana depois, mor\u00e1vamos juntos. Yann foi (e \u00e9) meu amor, amigo, irm\u00e3o, pai, namorado, confidente. Uma amizade que resistiu a tr\u00eas pa\u00edses (moramos juntos na Inglaterra, Brasil, Fran\u00e7a e depois Brasil, mais uma vez) e a muitas cidades. \u201cParis-Brest\u201d foi escrito de presente para ele, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um livro dedicado ao Yann, \u00e9 um livro escrito para ele, uma forma de agradecer tanta coisa que vivemos juntos. Hoje, ele mora na Fran\u00e7a e eu no Brasil, mas nos falamos quase todos os dias. Rimos e choramos muitas vezes juntos. Na mesma semana em que o conheci, em Londres, tive a not\u00edcia do suic\u00eddio do meu irm\u00e3o, de vinte e poucos anos, no Brasil. Nunca me esque\u00e7o da tarde em que liguei para minha m\u00e3e, de uma cabine na Bayswater Road, e recebi a not\u00edcia. Sentei no ch\u00e3o da cabine e desmontei. Desliguei o telefone e liguei imediatamente para Yann, que foi me encontrar debaixo de uma \u00e1rvore no Hyde Park. Chorei at\u00e9 anoitecer e o Yann ficou ao meu lado, calado. Nunca me esque\u00e7o dessa \u00e1rvore. Passava ali depois e via que essa era a \u00e1rvore da infelicidade. At\u00e9 hoje essa \u00e9 a \u00e1rvore da infelicidade. Achava no suic\u00eddio algo chique, via atitude&#8230; Ana Cristina Cesar e companhia. Isso at\u00e9 acontecer dentro da minha casa. Enfim, nesse momento, grudei no Yann. Uns meses depois, pedi que me levasse para morar na Fran\u00e7a. Mas voltando ao livro, ele foi escrito como forma de agradecer ao Yann, pela sua presen\u00e7a nesse momento de dor. E tamb\u00e9m como forma de levantar seu astral quando o Le Patio Gourmand, restaurante que ganhou dos seus pais, faliu, na Fran\u00e7a. O livro foi uma coisa pensada como forma de agradecimento. Senti-me um pouco Virgina Woolf ao escrever \u201cOrlando\u201d para Vita Sackville-West. A obra-prima de La Woolf \u00e9 uma carta de amor, num momento em que a nobre Vita faliu e se viu sem autoestima. Bem, muitos leitores devem conhecer a hist\u00f3ria da amizade das duas inglesas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Uma hist\u00f3ria bonita, afinal, que resiste aos duros golpes da vida. Um fato curioso, que voc\u00ea cita no come\u00e7o do livro, s\u00e3o os tr\u00eas livros que levou para Fran\u00e7a. \u201cComo cozinhar um lobo\u201d, da americana M. F. K. Fisher; \u201cO livro das frutas\u201d, da brit\u00e2nica Jane Grigson; e \u201cJules e Jim\u201d, romance do franc\u00eas Henri-Pierre Roch\u00e9. Diante de toda uma bibliografia universal, gostaria que comentasse sobre as escolhas espec\u00edficas desses livros. E a aus\u00eancia de uma obra de autor brasileiro deveu-se a uma raz\u00e3o intencional?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Havia come\u00e7ado a ler livros de gastronomia, e me apaixonei pelo da M. F. K. Fisher. Ali\u00e1s, este n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um livro de gastronomia. T.S. Eliot chegou a dizer que Fisher era uma das melhores prosadoras de meado do s\u00e9culo XX. E \u00e9 mesmo. Seu livro mais famoso, \u201cComo cozinhar um lobo\u201d, \u00e9 sobre guerra e paz, \u00e9 um manual de sobreviv\u00eancia em \u00e9pocas de guerra, \u00e9 filosofia da mais alta qualidade. O livro de Grigson caiu nas minhas m\u00e3os por acaso, dias antes da minha viagem. \u00c9 de uma beleza sem fim para quem gosta de bot\u00e2nica. J\u00e1 &#8220;Jules e Jim&#8221; \u00e9 um cl\u00e1ssico maravilhoso, embora a tradu\u00e7\u00e3o portuguesa que eu tenha seja lament\u00e1vel. \u00danico livro de Roch\u00e9. Adoro autores de obra econ\u00f4mica. E at\u00e9 desconfio daqueles que t\u00eam dezenas de livros publicados. Escrever romance \u00e9 algo muito dif\u00edcil. \u00c0s vezes, o cara escreve um \u00fanico livro e aquilo \u00e9 uma obra-prima. N\u00e3o levei qualquer livro brasileiro para a Fran\u00e7a. Acho que propositalmente. Mas uns dias antes da viagem lera &#8220;Eles eram muitos cavalos\u201d, do Luiz Ruffato, que me deixou transtornado. Ruffato tinha sido meu editor-chefe no Jornal da Tarde. Acompanhei um pouco a cria\u00e7\u00e3o desse livro que reacendeu em mim a vontade de ser escritor. Ao chegar na Fran\u00e7a, arrumei um computador e comecei a escrever, a escrever&#8230; Tinha um esbo\u00e7o de um romance, nos primeiros tempos l\u00e1. Mas era algo muito ruim que joguei no lixo. O mundo est\u00e1 cheio de livros ruins, n\u00e3o queria parir mais um. Falando nisso, n\u00e3o gostaria de ter lan\u00e7ado meu segundo romance, \u201cUm lugar para se perder\u201d. O t\u00edtulo \u00e9 bom, mas, para mim, n\u00e3o \u00e9 um bom livro. Dois leitores muito especiais gostam dele e o elogiam, Maria Val\u00e9ria Resende e Leonardo Tonus. Mesmo assim, acho um romance estranho, mal resolvido. Uma vez me encontrei com S\u00f4nia Coutinho na Livraria Cultura. Ela tinha lido \u201cUm lugar&#8230;\u201d e me disse: \u201cSeu livro \u00e9 estranh\u00edssimo. Voc\u00ea \u00e9 escritor\u201d (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Ser estranho tamb\u00e9m \u00e9 uma qualidade. Como bem disse, o mundo est\u00e1 cheio de livros ruins que, caso fossem ao menos estranhos, talvez seriam melhores. Mas, \u00e0 parte a mem\u00f3ria e as refer\u00eancias liter\u00e1rias, o livro cede espa\u00e7o para observa\u00e7\u00f5es de natureza hist\u00f3rica, a exemplo dos cap\u00edtulos que se dedicam a desvendar os costumes e os produtos da Idade M\u00e9dia. Como foi o trabalho de pesquisa e por que considerou v\u00e1lido incluir essas informa\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Ah, sim. Sou apaixonado pela Idade M\u00e9dia, literatura, costumes, alimenta\u00e7\u00e3o, com\u00e9rcio, comunidades urbanas. Estudo por conta pr\u00f3pria o per\u00edodo h\u00e1 muito tempo. Li tudo e vi os filmes sobre Fausto, alquimista, astr\u00f3logo e mago, protagonista de uma lenda da Idade M\u00e9dia alem\u00e3, que teria feito pacto com o dem\u00f4nio, um arqu\u00e9tipo da alma humana e das nossas afli\u00e7\u00f5es. Mas gosto tamb\u00e9m de livros te\u00f3ricos sobre o assunto. Na Fran\u00e7a, h\u00e1 muitos. E \u00e9 poss\u00edvel sentir a Idade M\u00e9dia bastante presente em diversas cidades do interior. Os cemit\u00e9rios no centro de alguns vilarejos, na frente da igreja principal do lugar, acho fascinantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 \u00c9 marcante tamb\u00e9m a apari\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es por todo o livro. Algumas delas, inclusive, apresentam o car\u00e1ter latente de uma trilha sonora dessa \u00e9poca. Em dado momento, voc\u00ea menciona a participa\u00e7\u00e3o de Gilberto Gil e Jorge Mautner, num festival em Brest; este \u00faltimo, ali\u00e1s, de quem voc\u00ea \u00e9 f\u00e3 e tentou um encontro, que acabou n\u00e3o acontecendo. Por outro lado, a literatura faz parte de um processo muito mais \u00edntimo que mundano. H\u00e1 a cita\u00e7\u00e3o de um encontro com o escritor Humberto Werneck, mas nenhuma outra tentativa de buscar no outro o esp\u00edrito liter\u00e1rio. Nos anos em que passou na Fran\u00e7a, voc\u00ea mantinha, de alguma forma, contato com a literatura brasileira ou mesmo com jovens autores franceses? Chegou a frequentar feiras liter\u00e1rias, eventos que fossem pautados pela literatura?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> N\u00e3o tinha pensado nisso. O livro tem, sim, mais m\u00fasica que literatura. Foi um per\u00edodo muito musical da minha vida. Inclusive meu encontro com a m\u00fasica eletr\u00f4nica. Ia dan\u00e7ar quase semanalmente. Meus encontros com escritores aconteciam por meio de programas de TV e de leituras. Incr\u00edvel a quantidade de programas de TV na Fran\u00e7a, com a participa\u00e7\u00e3o de escritores. Eu assistia a todos. Assim, conheci duas autoras que me acompanham at\u00e9 hoje. Anne F. Garreta, que participa do Oulipo, uma figura bem estranha; e Amelie Nothomb, belga que faz muito sucesso na Fran\u00e7a com seus romances de t\u00edtulos esquisitos: &#8220;A higiene do assassino&#8221;, &#8220;Antichrista&#8221;, &#8220;Cosm\u00e9tica do inimigo&#8221;, &#8220;Biografia da fome&#8221;. Nos tr\u00eas anos e pouco em que estive por l\u00e1, basicamente eu li. Li em franc\u00eas. Ler numa l\u00edngua estrangeira \u00e9 uma forma de entrar em contato com as sutilezas de tal l\u00edngua. Isso requer dedica\u00e7\u00e3o. Foram anos em que me dediquei a aprender essa l\u00edngua que para mim era um tanto desconhecida. Lia autores brasileiros rec\u00e9m-traduzidos l\u00e1 tamb\u00e9m. Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu. J\u00e1 conhecia a obra do Caio inteira. Foi bacana l\u00ea-lo em franc\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Interessante voc\u00ea citar essa transposi\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, pois, salvo eventos espor\u00e1dicos, a exemplo do Ano do Brasil na Fran\u00e7a, a literatura brasileira parece algo ainda muito limitado a seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio. Voc\u00ea citou Hilda e Caio F., por\u00e9m, imagino, que deve ter topado com tradu\u00e7\u00f5es de outros autores contempor\u00e2neos. Qual foi sua percep\u00e7\u00e3o do interesse da literatura brasileira entre os franceses? Ainda somos vistos pelo vi\u00e9s do ex\u00f3tico, do tropicalismo que exulta suas belezas naturais, seu calor end\u00eamico?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Estava l\u00e1 nos tempos anteriores do Ano do Brasil na Fran\u00e7a, inclusive no momento da festa. O Brasil estava na moda. Traduziram muita coisa boa. Hilda e Caio estavam nessa leva. Era um orgulho chegar \u00e0s livrarias e ver bancadas de autores brasileiros. Os programas de TV que discutem literatura (s\u00e3o v\u00e1rios, at\u00e9 em canal popular tem!) falavam sobre a gente. Discutiam Guimar\u00e3es Rosa, liam trechos. Lembro que, em 2005, Lya Luft estava na onda, no Brasil, com os seus livros de autoajuda. Num programa, me lembro, algu\u00e9m leu um trecho de um desses livros dela, e a apresentadora cortou o entrevistado: &#8220;Isso \u00e9 uma bosta&#8221; (risos). Mas n\u00e3o podemos nos esquecer de que, antes da autoajuda, Lya foi uma grande escritora. Hoje em dia, gra\u00e7as ao professor da Sorbonne Leonardo Tonus, a literatura nacional ficou mais em evid\u00eancia na Fran\u00e7a. Tudo trabalho do Leonardo! O que ele fez e faz para a literatura nacional por l\u00e1 j\u00e1 entrou para a hist\u00f3ria! H\u00e1 tamb\u00e9m o trabalho de formiguinha do livreiro e editor Michel Chandeigne, dono de La Librairie Portugaise et Br\u00e9silienne, e da \u00c9ditions Chandeigne, que j\u00e1 publicou Ferreira Gullar, Affonso Romano de Sant&#8217;Anna, Moacyr Scliar, Armando Freitas Filho, Francisco Alvim, Henriqueta Lisboa, Ana Cristina Cesar, M\u00e1rio Chamie, entre tantos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_13013\" aria-describedby=\"caption-attachment-13013\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Alexandre-Staut-por-Juliana-Carrascoza-1menor.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13013 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Alexandre-Staut-por-Juliana-Carrascoza-1menor.jpg\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Alexandre-Staut-por-Juliana-Carrascoza-1menor.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Alexandre-Staut-por-Juliana-Carrascoza-1menor-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13013\" class=\"wp-caption-text\">Alexandre Staut\/ Foto: Juliana Carrascoza<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Realmente o professor Leonardo Tonus tem feito um trabalho irretoc\u00e1vel em prol da literatura brasileira. Mas falaremos disso mais adiante. De volta ao livro, um dos momentos que considero mais tocantes \u00e9 aquele em que voc\u00ea escala umas pedras \u00e0 beira mar, onde fica sentado por horas, isolado, escrevendo num caderno. Para mim, essas passagens irradiam toda a narrativa com uma luz de melancolia. O que eram esses momentos para voc\u00ea, afinal? Havia ali mais literatura ou mais autorreflex\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Era uma mistura de tudo. Sempre gostei de ficar sozinho, de caminhar, tanto na cidade quando no meio da natureza selvagem. Resolvo cenas de livros em caminhadas, ou ent\u00e3o sentado em posi\u00e7\u00e3o de zazen, principalmente em locais silenciosos. No caso dos momentos de medita\u00e7\u00e3o, sentado na fal\u00e9sia do lado esquerdo da cidade de Arromanches-les-Bains, eu olhava os destro\u00e7os do porto constru\u00eddo pelos ingleses na Segunda Guerra. Havia acabado de ler \u201cUn pedigr\u00e9e\u201d, do Patrick Modiano (romance sobre os momentos em que seus pais viviam escondidos, por lugares obscuros de Paris, para n\u00e3o serem encontrados pelos nazistas &#8211; ainda n\u00e3o traduzido no Brasil). Assim, inspirei-me a escrever um livro sobre meu av\u00f4 Eduardinho, judeu alem\u00e3o cuja fam\u00edlia migrou para o Brasil. Ele era m\u00fasico de uma pequena orquestra no interior e dono da funer\u00e1ria da cidade, Pinhal. O livro se chama \u201cJazz band na sala da gente\u201d. \u00c9 sua biografia romanceada. Interessante voc\u00ea notar que \u201cParis-Brest\u201d \u00e9 um livro melanc\u00f3lico. Voc\u00ea percebeu um tra\u00e7o importante do livro, que tamb\u00e9m \u00e9 meu tra\u00e7o. Sou um cara triste. Como Orhan Pamuk, sou um sujeito triste que escreve para tentar ser feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 \u00c9 tamb\u00e9m nesse instante em que se d\u00e1 conta de que a escrita \u00e9 mais forte, em voc\u00ea, que a gastronomia, que o desejo de se tornar um chef. Consegue tra\u00e7ar um paralelo entre o processo de cria\u00e7\u00e3o e a elabora\u00e7\u00e3o de uma receita? Em que a arte culin\u00e1ria e a literatura se aproximam e em que se divergem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> A escrita sempre foi mais forte em mim do que qualquer outra coisa. \u00c9 uma necessidade f\u00edsica, real, acho at\u00e9 que s\u00f3 consigo tomar conta do v\u00e1cuo que vivemos neste planeta por meio da escrita. Talvez ela me distraia da loucura que \u00e9 estar girando h\u00e1 mais de 700 km por hora, num planeta, sabe-se l\u00e1 para onde. Quanto a ser chef, nunca o quis. Trabalhei como cozinheiro por uma necessidade moment\u00e2nea. De qualquer forma, amo cozinhar. Me distrai bastante. Quando estou de saco cheio do mundo liter\u00e1rio, vou pra cozinha. Considero a gastronomia uma arte, assim como a literatura. S\u00e3o artes diversas. A gastronomia tamb\u00e9m \u00e9 uma coisa m\u00e1gica. Uma pena que no Brasil muitos intelectuais e at\u00e9 escritores consideram culin\u00e1ria coisa de fresco. Muita gente pensa assim. A gastronomia \u00e9 um patrim\u00f4nio da humanidade. \u00c9 poss\u00edvel relatar a hist\u00f3ria do planeta Terra por meio dela. Adoro os pa\u00edses em que a gastronomia \u00e9 tratada como patrim\u00f4nio; Fran\u00e7a, Portugal, Espanha, M\u00e9xico. Aqui ainda estamos longe disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Em compensa\u00e7\u00e3o, a gastronomia explodiu com um dos carros-chefes de muitos programas de TV. H\u00e1 canais a cabo, inclusive, que preenchem toda a programa\u00e7\u00e3o com chefs nacionais e internacionais (e famosos que se acham chefs de cozinha) esbanjando a arte culin\u00e1ria. Esse \u201cfen\u00f4meno\u201d acabou por migrar tamb\u00e9m para a literatura, fazendo com que todas essas celebridades televisivas entrassem na mira das editoras, que abastecem cada vez mais as prateleiras com livros de culin\u00e1ria, de receitas, de viagens relacionadas \u00e0 gastronomia. Como encara essa fascina\u00e7\u00e3o por esse tipo de programa, por livros dessa natureza? E voc\u00ea acredita que, assim como na literatura, h\u00e1 uma banaliza\u00e7\u00e3o da arte culin\u00e1ria; a consolida\u00e7\u00e3o de um pensamento de que qualquer um pode cozinhar, assim como qualquer um pode escrever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Acho \u00f3tima esta explos\u00e3o do mundo da gastronomia. Acabo de voltar do Piau\u00ed, onde fui fazer uma grande reportagem sobre a culin\u00e1ria local. Antes da gastronomia regional entrar na moda, n\u00e3o se bebia caju\u00edna. Disseram-me que hoje tem em todos os bares, vendinhas, restaurantes, supermercados, aeroportos&#8230; \u00c9 a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura alimentar.\u00a0 Por outro lado, as pessoas ainda conhecem mais Nutella do que, por exemplo, o tucupi (caldo da mandioca usado na regi\u00e3o Norte, para se fazer v\u00e1rios pratos), ou ent\u00e3o d\u00e3o mais valor ao risoto do que ao bai\u00e3o de dois. Mas, com a populariza\u00e7\u00e3o da arte gastron\u00f4mica, espera-se que isso possa mudar um dia. Acho que qualquer um pode cozinhar, como pode escrever. S\u00e3o duas atividades democr\u00e1ticas. A escrita, por exemplo&#8230; para escrever basta um peda\u00e7o de papel e um l\u00e1pis. Voc\u00ea pode escrever se nascer rei na Europa ou numa aldeia perdida no Brasil ou na \u00c1frica. Claro que aqui entra a quest\u00e3o do analfabetismo no Brasil, por exemplo. Mas esta j\u00e1 \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Sinceramente me desagrada essa ideia generalizada de que qualquer um, com papel e caneta, possa escrever. \u00c9 claro que escrever, sim, mas n\u00e3o fazer literatura. Penso o mesmo da arte culin\u00e1ria. Minha esposa gosta de programas de gastronomia. Certa vez, ela assistia um de competi\u00e7\u00e3o que, para entrar, o candidato tinha de fritar um ovo; e a maioria n\u00e3o conseguiu. Eu adoro cozinhar, cozinho todos os dias, contudo sei que estou longe de ser um chef. Por outro lado, considero-me um escritor, pois estudo, leio, pratico, entendo as t\u00e9cnicas, os meandros da escrita, e busco, com isso, aperfei\u00e7oar meu texto. Sendo tamb\u00e9m um cr\u00edtico liter\u00e1rio (escreve para o Valor Econ\u00f4mico), voc\u00ea n\u00e3o acredita que, a despeito de uma import\u00e2ncia incontest\u00e1vel, a democracia na literatura tem seu limite na qualidade da narrativa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Ah, sim. Tamb\u00e9m acredito que com papel e caneta n\u00e3o se escreva literatura. \u00c9 preciso estudar, ler, treinar. Um bailarino, para dar uma pirueta no ar, treina uma vida inteira. Existe uma fa\u00edsca inicial, que \u00e9 a inspira\u00e7\u00e3o. Depois, o que tem \u00e9 o trabalho. \u00c9 preciso trabalhar duro para escrever literatura. Mas ainda acredito que esta \u00e9 uma arte democr\u00e1tica. O cara precisa de papel, l\u00e1pis e tempo&#8230; al\u00e9m de ler livros, que ele pode comprar por R$ 5, na banca de jornal da esquina, ler de tudo um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Alguns anos depois de retornar ao Brasil, voc\u00ea lan\u00e7a dois livros: \u201cJazz band na sala da gente\u201d, de 2010, e \u201cUm lugar para se perder\u201d, de 2012. O primeiro foi uma edi\u00e7\u00e3o do autor, e o segundo foi publicado por uma editora de pequeno porte. Na ocasi\u00e3o, chegou a procurar um grande selo editorial, mandou o original para a an\u00e1lise de alguns desses? Como avalia essa rela\u00e7\u00e3o entre um autor in\u00e9dito e as editoras, no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o! (risos). Os grandes editores n\u00e3o leem autores em come\u00e7o de carreira, salvo algumas exce\u00e7\u00f5es. Mas at\u00e9 entendo. Editoras recebem 30, 40 originais por dia. Resolvi publicar &#8220;Jazz band&#8230;&#8221; em edi\u00e7\u00e3o de autor, pois naquele momento tinha uma necessidade quase f\u00edsica de ter um livro lan\u00e7ado. Quando ficou pronto, percebi a import\u00e2ncia de uma editora por tr\u00e1s do trabalho. Eu n\u00e3o sabia o que era &#8220;prepara\u00e7\u00e3o de texto&#8221;. Para quem n\u00e3o sabe \u00e9 uma esp\u00e9cie de &#8220;dire\u00e7\u00e3o de arte&#8221;, como se faz no cinema. A prepara\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial. O meu livro saiu com palavras repetidas na mesma p\u00e1gina, sem necessidade. Errinhos que s\u00f3 um preparador iria pegar. Quando ficamos muito tempo com um texto, a leitura se torna ora\u00e7\u00e3o. A gente l\u00ea sem se dar conta de cada palavra, da import\u00e2ncia de cada palavra no contexto. De qualquer forma, este \u00e9 um bom livro e merece uma segunda edi\u00e7\u00e3o, agora caprichada. A dica que dou para quem quer publicar independente: n\u00e3o deixe de contratar dois profissionais antes de imprimir o seu livro, um preparador e um revisor. S\u00e3o trabalhos diferentes, e que s\u00f3 podem ser feitos por pessoas especializadas, que estudaram para isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Excelentes dicas, de fato. Outra coisa que voc\u00ea fez, ao voltar ao Brasil, foi criar a S\u00e3o Paulo Review, um dos portais de literatura mais prestigiados nos dias correntes. Como e por que surgiu a ideia de montar a p\u00e1gina? E, nesse tempo de exist\u00eancia, a SPR lhe trouxe mais amizades ou inimizades?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Pois \u00e9, sempre li as &#8220;Reviews of Books&#8221; e percebi a lacuna. O Brasil n\u00e3o tinha nenhuma. Fui com a cara e a coragem e registrei o nome, em 2013. Chamei Viviane Ka, que \u00e9 do mundo editorial, para ser minha s\u00f3cia. Em pouco tempo, escritores e leitores perceberam que havia qualidade no trabalho e come\u00e7aram a nos passar pautas, sugerir resenhas. Surgiu um time muito bom de colaboradores. Nos \u00faltimos tempos, a jornalista Ana Weiss se juntou a mim e \u00e0 Viviane, para fazermos a revista juntos. Ana \u00e9 uma das jornalistas culturais mais importantes do pa\u00eds. O time est\u00e1 formado e o projeto caminha muito bem. Estamos agora fazendo um plano de neg\u00f3cios para conseguirmos patroc\u00ednios, para que possamos ir mais longe ainda. Nunca se sabe, mas acho que consegui mais amigos. Sou contra detonar livros. Sou um jornalista\/editor\/cr\u00edtico ecol\u00f3gico. Acho que n\u00e3o vale a pena gastar celulose e energia el\u00e9trica para falar mal de escritores e livros ruins. Melhor deix\u00e1-los no limbo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_13011\" aria-describedby=\"caption-attachment-13011\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Alexandre-Staut-por-Macus-SteinmeyInt.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13011 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Alexandre-Staut-por-Macus-SteinmeyInt.jpg\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Alexandre-Staut-por-Macus-SteinmeyInt.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Alexandre-Staut-por-Macus-SteinmeyInt-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Alexandre-Staut-por-Macus-SteinmeyInt-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13011\" class=\"wp-caption-text\">Alexandre Staut \/ Foto: Macus Steinmeyer<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 H\u00e1 pouco voc\u00ea mencionou a quest\u00e3o do analfabetismo no Brasil como um dos principais advers\u00e1rios da literatura. Do tempo em que passou na Fran\u00e7a, o que trouxe de experi\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o entre educa\u00e7\u00e3o e literatura? O que representa a literatura, na vida comum de um franc\u00eas? E o que poder\u00edamos transferir para nossa realidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Convivi bastante com crian\u00e7as e adolescentes na Fran\u00e7a. Eles leem por toda parte, no metr\u00f4, andam pelas ruas com livro aberto, na frente da cara. As escolas incentivam a leitura desde muito cedo. Minha enteada, na \u00e9poca uma adolescente, andava com livros para cima e para baixo. Os seus professores passavam tanto obras cl\u00e1ssicas quanto contempor\u00e2neas. Lembro-me dela comentar com prazer autores que conversam com nosso momento hist\u00f3rico, como Amelie Nothomb. A leitura por l\u00e1 parece estar incorporada ao modo de vida franc\u00eas. Talvez seja o pa\u00eds que mais valoriza a literatura. Aqui, falta o trabalho de base. Falta incentivo do governo. \u00c9 uma quest\u00e3o um tanto complexa, n\u00e9, n\u00e3o sei se um dia ser\u00e1 resolvida. De qualquer forma, n\u00e3o acredito na frase que dizem por a\u00ed de que brasileiros n\u00e3o leem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Falando em professores, quero trazer \u00e0 conversa o Leonardo Tonus, professor da Universidade Paris-Sorbonne, que tem feito um trabalho inestim\u00e1vel em prol da literatura brasileira na Fran\u00e7a, em especial no reconhecimento dos escritores contempor\u00e2neos. O grande evento que coordena, \u201cPrimavera Liter\u00e1ria\u201d, no qual autores brasileiros participam de debates na capital francesa, contou com sua participa\u00e7\u00e3o numa das edi\u00e7\u00f5es. Como foi voltar \u00e0 Fran\u00e7a, desta vez com status formalizado de escritor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Participei da \u201cPrimavera Liter\u00e1ria\u201d em seu primeiro ano, em 2014, junto do Michel Laub, Juli\u00e1n Fuks, Marcelino Freire e Ana Martins Marques. \u00cdamos \u00e0 Sorbonne e fal\u00e1vamos com os alunos de estudos lus\u00f3fonos do Leonardo Tonus sobre nossos livros, discut\u00edamos literatura em l\u00edngua portuguesa, de forma geral. O trabalho do Leonardo na Sorbonne \u00e9 uma beleza. Ele valoriza cada um dos seus alunos, no que eles t\u00eam de mais genu\u00edno. Conheci alguns que n\u00e3o gostavam de estudar e que depois do Leonardo viraram cr\u00edticos liter\u00e1rios, escritores. Mas antes disso, em 2013, ainda a convite do professor e de passagem pela Fran\u00e7a, dei uma palestra para sua turma, tamb\u00e9m nas depend\u00eancias da Sorbonne. Senti um misto de medo, timidez, vaidade. Chegando \u00e0 sala, todo mundo me deixou super \u00e0 vontade. Para minha surpresa, estavam na minha palestra Humberto Werneck, Daniel Ant\u00f4nio, \u00f3timo jornalista cultural brasileiro, entre diversos ex-alunos do Leonardo. Tive a sorte de ficar amigo do Tonus, que me chamou para criar o \u201cOutono Liter\u00e1rio\u201d ao seu lado, e ao lado da Mirna Queir\u00f3z (Revista Pessoa) e Simone Paulino (editora N\u00f3s).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Iria perguntar mesmo sobre o \u201cOutono Liter\u00e1rio\u201d, realizado este ano em S\u00e3o Paulo, que surgiu como uma deriva\u00e7\u00e3o da \u201cPrimavera Liter\u00e1ria\u201d, de Paris. Como foi pegar um evento de sucesso, com suas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas, e transport\u00e1-lo com mesma relev\u00e2ncia para o Brasil? E quanto ao futuro: voc\u00eas t\u00eam a inten\u00e7\u00e3o de torn\u00e1-lo regular? Buscar parcerias, replic\u00e1-lo em outras cidades, ampliar a programa\u00e7\u00e3o de debates, inclusive com a presen\u00e7a de autores internacionais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> O \u201cOutono\u201d nasceu no primeiro semestre deste ano, uma uni\u00e3o de for\u00e7as do Leonardo Tonus, da Mirna Queir\u00f3z, Simone Paulino e minha. Fizemos eventos na livraria Blooks, com lan\u00e7amento de livros; numa escola da Zona Leste, onde acontece o Sarau dos Mesquiteiros; na Unibes Cultural; e no Bistr\u00f4 \u00d3 Ch\u00e1. Reunimos mais de 20 escritores de todo o pa\u00eds, para falarmos sobre literatura no Brasil. Houve tamb\u00e9m um evento no Rio de Janeiro. O \u201cOutono\u201d nasceu como proposta de integrar discuss\u00f5es de norte a sul do Pa\u00eds, e como evento a se realizar anualmente. Logo mais divulgamos a agenda para 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Desde o ano passado, t\u00eam ganhado relev\u00e2ncia debates sobre a literatura de g\u00eanero, chamando aten\u00e7\u00e3o para uma participa\u00e7\u00e3o mais ampla de mulheres, de negros e de homossexuais tantos nas editoras quanto em festivais liter\u00e1rios. Na condi\u00e7\u00e3o de curador e de autor, como se relaciona com essa discuss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> No Brasil, o racismo \u00e9 end\u00eamico e cultural. Por isso, infelizmente, s\u00f3 nos resta uma solu\u00e7\u00e3o: as cotas. No mais, basta ver os autores e os livros que fazem sucesso, tanto nos cadernos culturais quanto entre o p\u00fablico. A literatura brasileira \u00e9 branca, heterossexual e \u201cmacha\u201d. Com o perd\u00e3o do trocadilho, acho um saco isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Retornando ao livro, h\u00e1 dois momentos bem simb\u00f3licos de transi\u00e7\u00e3o: a sua sa\u00edda do Brasil para a ent\u00e3o desconhecida cidade de Brest, e depois a sua primeira volta ao Brasil, quando se d\u00e1 conta de que ainda sua estada na Fran\u00e7a n\u00e3o tinha chegado ao fim, da\u00ed voc\u00ea retorna. Mesmo que n\u00e3o tenha qualquer cita\u00e7\u00e3o, esses momentos me trouxeram \u00e0 mem\u00f3ria o famoso poema de Manuel Bandeira, \u201cVou-me embora pra Pas\u00e1rgada\u201d. Consegue tra\u00e7ar um paralelo entre esses anos e os versos de Bandeira?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Este poema me persegue. Gosto tanto, que inclu\u00ed um trecho na minha pe\u00e7a de teatro \u201cMarquesa\u201d, encenada pela atriz Paula Cohen, no festival Satyrianas, semanas atr\u00e1s. H\u00e1 uma vontade de fugir para encontrar a felicidade, um desejo de percorrer o mundo, como um cigano, ver paisagens. H\u00e1 tamb\u00e9m um sarcasmo e uma ternura que s\u00e3o pr\u00f3prios do Bandeira e de muitos autores nacionais. Quando escrevo, tento olhar para o Brasil com essa ternura&#8230; mesmo que esteja escrevendo sobre a Fran\u00e7a, ou qualquer outro lugar do planeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 L\u00e1, no come\u00e7o da nossa conversa, falamos sobre os tr\u00eas livros que voc\u00ea levou para Fran\u00e7a. Se soubesse que algum franc\u00eas viria passar uma temporada no Brasil, qual dos tr\u00eas livros voc\u00ea recomendaria que ele trouxesse?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEXANDRE STAUT &#8211;<\/strong> Recomendaria que comprasse tr\u00eas livros aqui&#8230; para que entendesse um pouco mais a gente. Para conhecer a vida pol\u00edtica brasileira, &#8220;Mem\u00f3rias de um sargento de mil\u00edcias&#8221;. Para conhecer a sociedade brasileira, &#8220;A hora da estrela&#8221;. Para conhecer a alma do brasileiro, &#8220;Grande sert\u00e3o: veredas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da Pas\u00e1rgada ao frango a passarinho, S\u00e9rgio Tavares entrevista o escritor e editor Alexandre Staut<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13076,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3205,16,2539],"tags":[3217,63,8,3218,1023],"class_list":["post-12996","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-115a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-alexandre-staut","tag-entrevista","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-sao-paulo-review","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12996","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12996"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12996\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13127,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12996\/revisions\/13127"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13076"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12996"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12996"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12996"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}