{"id":13035,"date":"2016-12-13T10:30:19","date_gmt":"2016-12-13T13:30:19","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13035"},"modified":"2017-02-15T16:24:45","modified_gmt":"2017-02-15T19:24:45","slug":"dropssetimaarte-13","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dropssetimaarte-13\/","title":{"rendered":"Drops da S\u00e9tima Arte"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Guilherme Preger<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cinema Novo. Brasil. 2016.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/CARTAZ-m.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13037\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/CARTAZ-m.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/CARTAZ-m.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/CARTAZ-m-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cinema Novo<\/em> de Eryk Rocha se colocou a dif\u00edcil tarefa de trazer \u00e0s telas de cinema contempor\u00e2neas a pot\u00eancia expressiva das imagens do que se convencionou chamar de Cinema Novo. E a primeira justi\u00e7a que temos de lhe fazer \u00e9 que conseguiu ter \u00eaxito nessa tarefa. E, no entanto, dizer isso n\u00e3o basta para a sua justi\u00e7a. S\u00f3 podemos ser fi\u00e9is a esse filme se formos capazes de compreender de onde vem essa pot\u00eancia est\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ensaio po\u00e9tico e trabalho de arqueologia visual, segundo seu diretor, o filme \u00e9 sobretudo uma sele\u00e7\u00e3o luminosa de imagens do movimento cinematogr\u00e1fico. N\u00e3o h\u00e1 didatismo algum nas refer\u00eancias e quase nenhuma explica\u00e7\u00e3o narrativa que d\u00ea coes\u00e3o a seu roteiro. Apenas \u201cexplodem\u201d na tela as cenas exemplares de muitos filmes e entrevistas com alguns diretores, gravadas na mesma \u00e9poca em que realizavam suas produ\u00e7\u00f5es. E essa foi, com certeza, uma boa decis\u00e3o est\u00e9tica, pois acompanhamos a energia vibrante de diretores como Cac\u00e1 Diegues, Glauber, Leon Hirzmann e Joaquim Pedro de Andrade trabalhando conceitualmente suas pr\u00f3prias imagens, mostrando que <em>Cinema Novo<\/em> foi muito mais do que produ\u00e7\u00e3o de rolos de pel\u00edcula. Foi tamb\u00e9m movimento de ideias, exatamente aquilo que o fil\u00f3sofo Gilles Deleuze denominou de imagem-pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00fanico trecho explicativo do filme, durante a cartela de abertura, o Cinema Novo \u00e9 tratado como um movimento de diretores que com ideias na cabe\u00e7a queriam trazer novas imagens do Brasil. Mas essas novas imagens n\u00e3o deveriam ser apenas a representa\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds que existiria na cabe\u00e7a desses cineastas. A pot\u00eancia de suas imagens estava diretamente ligada a uma recusa da ideia de representa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era simplesmente uma ideia de trazer \u00e0 superf\u00edcie o \u201cBrasil profundo\u201d, postura fatalmente idealista. Era mostrar que j\u00e1 na superf\u00edcie havia profundidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As c\u00e2meras captavam as imagens reais do Brasil em sua constitui\u00e7\u00e3o fragment\u00e1ria e n\u00e3o sua tradu\u00e7\u00e3o como um mapa integral da na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era o Brasil em sua totalidade, mas o Brasil em sua diversidade que s\u00f3 podia ser captado atrav\u00e9s do \u201ctranse\u201d, lembrando o filme emblem\u00e1tico de Glauber. Como um movimento de imagens vibrantes.\u00a0\u00a0 As c\u00e2meras n\u00e3o traziam assim uma representa\u00e7\u00e3o de segunda m\u00e3o, mas imagens que eram ainda mais verdadeiras do que as cenas que aconteciam fora do enquadramento, como conformadas ideologicamente. Assim, nas primeiras imagens de Cinema Novo, vemos uma s\u00e9rie de cenas de personagens em corridas desabaladas e ofegantes. O que querem insinuar essas imagens? Que o pa\u00eds corria contra o atraso do subdesenvolvimentismo? Era exatamente contra essa ideia de atraso que se voltavam os diretores-intelectuais. As imagens de personagens correndo, na verdade, atestam a urg\u00eancia do movimento.\u00a0 N\u00e3o \u00e9 como se a c\u00e2mera corresse atr\u00e1s de um suposto Brasil que lhe fugia, mas, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o os pr\u00f3prios personagens, brasileiros, correndo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 c\u00e2mera para alcan\u00e7ar afinal a sua verdadeira figura, como se fossem os portadores de um desejo por imagens intensamente prenhes de historicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_13036\" aria-describedby=\"caption-attachment-13036\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMAGEM-interna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13036 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMAGEM-interna.jpg\" width=\"500\" height=\"339\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMAGEM-interna.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/IMAGEM-interna-300x203.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13036\" class=\"wp-caption-text\">Cena de Cinema Novo \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma insistente afirma\u00e7\u00e3o dos cineastas \u00e9 que o Cinema Novo foi tamb\u00e9m uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, com a introdu\u00e7\u00e3o de equipamentos mais leves e o uso direto do som e da luz. Assim, se produziu uma indetermina\u00e7\u00e3o de fronteiras, entre document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o. Da c\u00e2mera passava-se diretamente para o tecido da realidade, como se o foco cinematogr\u00e1fico guiasse a vis\u00e3o para o olhar renovado. Ver o Brasil sem as falsas lentes colonizadas do subdesenvolvimento s\u00f3 se tornava poss\u00edvel ap\u00f3s uma reeduca\u00e7\u00e3o do olhar pelas lentes do Cinema Novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como disse seu autor, Eryk, numa entrevista, sua inten\u00e7\u00e3o foi evitar realizar um retrato nost\u00e1lgico do movimento, mas arrancar sua urg\u00eancia e a mensagem que os filmes trazem ao Brasil contempor\u00e2neo. A coexist\u00eancia do Cinema Novo com o golpe de 64 e com a ditadura militar se encontra subitamente em correla\u00e7\u00e3o com a posi\u00e7\u00e3o do espectador contempor\u00e2neo e sua viv\u00eancia confusa do Golpe de 2016. Como diz o diretor Glauber Rocha, numa das cenas em off, o golpe de 1964 de in\u00edcio visava, segundo as elites, construir um regime \u201cliberal-fascista\u201d, mas depois descambou para o militarismo. N\u00e3o h\u00e1 nessa fala a sugest\u00e3o de uma sutil liga\u00e7\u00e3o entre os cen\u00e1rios de 1964 e 2016, como se situa\u00e7\u00e3o atual fosse a realiza\u00e7\u00e3o tanto tempo reprimida pelas elites de perpetrarem um regime fascista sem os militares?\u00a0\u00a0 Assim, da mesma forma como durante a ditadura militar era necess\u00e1rio mudar a rela\u00e7\u00e3o do olhar com o pa\u00eds, atualmente tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio um olhar mais \u201carqueol\u00f3gico\u201d para enxergar o que muitas vezes est\u00e1 dado na pr\u00f3pria superf\u00edcie, mas permanece obscuro \u00e0 vis\u00e3o desatenta. O contraste entre a figuralidade profusa, diversa e vertiginosa do povo e o retrato audiovisual mistificador das grandes m\u00eddias esclerosadas n\u00e3o pode ser mais radical. O Cinema \u00e9 Novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00fanico registro melanc\u00f3lico desse filme po\u00e9tico e intenso transparece com a avalia\u00e7\u00e3o dos cineastas de que o povo se mantinha alheio, entretanto, \u00e0quela revolu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, pois os filmes n\u00e3o chegavam afinal \u00e0s salas de cinema. Talvez o que faltou ao filme de Eryk foi fazer a rela\u00e7\u00e3o d\u00edspar entre revolu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica cinenovista e a hegemonia do modo audiovisual televisivo que iria impor padr\u00f5es sobre a percep\u00e7\u00e3o visual popular nesses \u00faltimos 50 anos. Como muitas revolu\u00e7\u00f5es de nossos tempos, tamb\u00e9m o Cinema Novo foi uma revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o televisionada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aS6APhb8M1w\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Guilherme Preger<\/em><\/strong><em>, carioca, \u00e9 engenheiro e escritor. \u00c9 autor de Capoeiragem (7Letras\/2003) e Extrema L\u00edrica (Ed. Oito e Meio\/2014), e um dos organizadores do coletivo liter\u00e1rio Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das tr\u00eas colet\u00e2neas lan\u00e7adas pelo grupo. Atualmente, \u00e9 doutorando em Teoria Liter\u00e1ria da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproxima\u00e7\u00e3o entre Literatura e Ci\u00eancia. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um pr\u00eamio de cr\u00edtica liter\u00e1ria do Grupo Esta\u00e7\u00e3o e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Preger reflete sobre \u201cCinema Novo\u201d de Eryk Rocha<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13036,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3205,2535],"tags":[3222,1512,13,3223,1204],"class_list":["post-13035","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-115a-leva","category-drops-da-setima-arte","tag-cinema-novo","tag-documentario","tag-drops-da-setima-arte","tag-eryk-rocha","tag-guilherme-preger"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13035","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13035"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13035\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13122,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13035\/revisions\/13122"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13036"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13035"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13035"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13035"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}