{"id":13178,"date":"2017-02-08T10:26:39","date_gmt":"2017-02-08T13:26:39","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13178"},"modified":"2017-02-15T16:22:12","modified_gmt":"2017-02-15T19:22:12","slug":"dedos-de-prosa-i-51","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-51\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mariel Reis<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_13180\" aria-describedby=\"caption-attachment-13180\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/APaim-In.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13180 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/APaim-In.jpg\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/APaim-In.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/APaim-In-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/APaim-In-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13180\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Antonio Paim<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lego<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Para minha m\u00e3e<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira vez na cozinha comendo biscoito enquanto a minha m\u00e3e preparava o jantar n\u00e3o havia nada de diferente de outras cozinhas ou de outras m\u00e3es que preparam o jantar enquanto o filho come biscoitos, sentado \u00e0 mesa, na cozinha. A cozinha tinha arm\u00e1rios, potes de conserva, fog\u00e3o, geladeira, mesa e quatro cadeiras. N\u00e3o tinha nada de diferente de uma cozinha em que se senta para lanchar, conversar, almo\u00e7ar, cear e jantar como todas as demais cozinhas em todo o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A minha m\u00e3e n\u00e3o parecia diferente de qualquer outra m\u00e3e que prepara o jantar para a fam\u00edlia: o avental, o cabelo com uma rede, os sapatos de solado rasteiro, os olhos atentos \u00e0s instru\u00e7\u00f5es dos manuais de receita, o fog\u00e3o aceso com as panelas brilhantes, a pia com lou\u00e7a para ser lavada, o santinho no caramanch\u00e3o da parede sobre a porta, o r\u00e1dio tagarelando incompreensivelmente e eu sentado, comendo biscoito na lata de alum\u00ednio amassada, herdada de minha av\u00f3 como todas as outras latas herdadas de antepassados por todas as m\u00e3es de todas as casas de minha rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pastilhas das paredes brilhantes como pequenos s\u00f3is despontavam por toda a cozinha, encimadas por uma listra azul que percorria todo o per\u00edmetro; o pequeno pinguim com fraque e o paliteiro e a cesta de frutas, o pequeno capacho para limpar os p\u00e9s para quando se entra pela \u00e1rea de servi\u00e7o, com os sapatos enlameados ou com detritos grudados em suas solas. Como toda outra casa deve ter igualzinha, sem tirar nem por, s\u00f3 que esta mais especial, por se tratar de minha m\u00e3e na cozinha, enquanto prepara o jantar para a fam\u00edlia como todas as outras m\u00e3es preparavam, a essa mesma hora, o jantar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os maridos famintos vindos do trabalho, de pasta na m\u00e3o, com o semblante grave e o jornal enrolado embaixo do bra\u00e7o, como o meu pai chegava e acredito que todos os pais chegavam com a mesma gravidade em seus lares, sentavam-se nas poltronas, ligavam a tev\u00ea, despindo o terno, a gravata, os sapatos, apoiando os p\u00e9s na mesinha de centro, beijando os filhos, conversando amenidades como fazia o meu pai com a minha m\u00e3e e comigo, e todos os pais e m\u00e3es comportavam-se da mesma maneira, porque era o rito, nada poderia ser alterado e se fosse alterado seria afetado o equil\u00edbrio de toda aquela paisagem \u2013 a que meus olhos estavam acostumados \u2013 e tudo ruiria, o que seria uma temeridade, uma infelicidade e ningu\u00e9m quer ser infeliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E em todas as casas todos tinham um modo de chamar pela felicidade e em nossa casa t\u00ednhamos o nosso que n\u00e3o deveria ser especial porque todas as outras resid\u00eancias deveriam ter m\u00e9todo semelhante, e ser feliz \u00e9 muito melhor do que ser triste. E ser triste \u00e9 algo que todos queriam esquecer, porque n\u00e3o prestava para coisa alguma. Ali\u00e1s, os meus pais acham que existe muita coisa triste, enumer\u00e1-las \u00e9 um meio de se tornar triste tamb\u00e9m e as condenam ao sil\u00eancio como todas as outras fam\u00edlias que n\u00e3o pronunciavam palavra sobre a tristeza. A minha m\u00e3e era bonita como qualquer outra m\u00e3e bonita e me amava como deve amar uma m\u00e3e. Ela me dizia que nem sempre as m\u00e3es amam e me mostrava no jornal a not\u00edcia de uma m\u00e3e que havia matado o pr\u00f3prio filho. Era uma exce\u00e7\u00e3o, pois toda m\u00e3e amava ao seu filho e o filho amava a sua m\u00e3e como em toda a fam\u00edlia, especialmente aquelas de propaganda de televis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a fam\u00edlia quer ser como a fam\u00edlia da televis\u00e3o. \u00c9 assim que deve ser toda a fam\u00edlia e ningu\u00e9m duvidava de que aquele modelo era verdadeiro, porque se n\u00e3o fosse n\u00e3o estaria na televis\u00e3o e aquela fam\u00edlia n\u00e3o seria uma fam\u00edlia, a m\u00e3e n\u00e3o seria a m\u00e3e e o pai tampouco ele seria. Eu comia biscoito sentado \u00e0 mesa, esfor\u00e7ando-me em ser um garoto como o daquela fam\u00edlia que era igual a todas as outras da minha rua, que era uma rua igual a todas as outras do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">2.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A minha casa era igual a todas as outras e os meus colegas todos eram muito parecidos. As casas todas tinham dois andares, tr\u00eas quartos, sala, cozinha, banheiro, churrasqueira e piscina. Todas as casas tinham o mesmo gabarito. Os meus amigos todos se pareciam t\u00e3o profundamente que passariam por irm\u00e3os, e se errassem de casa, uma noite, os pais n\u00e3o ficariam preocupados ou perplexos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pais vestiam-se iguais para ir ao trabalho, tomavam o mesmo \u00f4nibus e voltavam no mesmo transporte, sempre a mesma hora, sem atraso, sem imprevistos, sem sobressaltos, seja em que parte da cidade trabalhassem. Talvez nem trabalhassem, talvez o \u00f4nibus ficasse dando voltas no quarteir\u00e3o enquanto est\u00e1vamos na escola. Talvez nossas m\u00e3es soubessem de tudo isso e nos escondessem para a nossa felicidade. Porque n\u00e3o h\u00e1 nada mais importante do que a felicidade. Todas as portas tinham pregada a tabuleta com os dizeres que n\u00e3o h\u00e1 nada mais importante que a felicidade. Em todos os canteiros havia homenzinhos verdes sorridentes, c\u00e3es felizes, gatos simp\u00e1ticos, varredores satisfeitos, lixeiros contentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o havia disc\u00f3rdia alguma ou maledic\u00eancia. Todos pactuavam com o lema n\u00e3o h\u00e1 nada melhor que a felicidade. A minha fam\u00edlia era partid\u00e1ria extremista da palavra de ordem. Bastava acordar um dia com uma leve indisposi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica para ela ser considerada uma ofensa ao manual de viver bem daquele lugar. Um leve mau humor situava o indiv\u00edduo \u00e0 margem dos eventos, quando n\u00e3o era encaminhado a uma junta, que decidiria como restaurar a boa vontade, o arejamento e a abertura de esp\u00edrito necess\u00e1ria \u00e0 conviv\u00eancia democr\u00e1tica FELIZ. \u00c0s vezes tudo isso soava mon\u00f3tono e a \u00fanica fuga era a pr\u00e1tica hedonista dos esportes: o \u00fanico momento em que o sil\u00eancio era respeitado n\u00e3o pelo que significava de reflex\u00e3o, interioriza\u00e7\u00e3o ou balan\u00e7o interior, nada disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sil\u00eancio, ali, era um apetrecho da atividade narc\u00edsica: quando os olhos percorriam regozijados os m\u00fasculos torneados, as curvas boleadas como o a\u00e7o e n\u00e3o valia por si mesmo, por seu valor intr\u00ednseco.\u00a0 Eu passava a maior parte do tempo na academia para ficar em sil\u00eancio e eliminar barriga. Eu comia muitos biscoitos. Tudo isso seria normal se a minha vida n\u00e3o fosse afetada de modo irrevers\u00edvel naquele dia de muitos outros dias em que se pratica as mesmas coisas de todas as vezes, sem altera\u00e7\u00e3o alguma do cotidiano e que me tornaria marcado para sempre dali em diante em minha comunidade em que nada fugia ao comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu voltava da academia e me sentava \u00e0 mesa da cozinha em minha casa para comer biscoitos. A trivialidade do gesto j\u00e1 me escapava por repeti-lo in\u00fameras vezes, que despido de import\u00e2ncia, se me substitu\u00edssem o biscoito ou se acrescentassem escorpi\u00f5es \u00e0 lata ou que me sugestionassem comer anchovas tudo daria na mesma coisa. E talvez fosse melhor que uma das coisas descritas ocupasse o lugar do que me aconteceu, porque o extraordin\u00e1rio n\u00e3o era bem-vindo e se o extraordin\u00e1rio viesse seguido de incerteza, bem menos. E se fosse seguido de infelicidade, era o caos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caos, meu pai dizia, \u00e9 um menino segurando um bal\u00e3o de ar vermelho em uma chuva de cometas. O caos, dizia a minha m\u00e3e, era um ex\u00e9rcito tomar a sua cozinha e acampar sob a mesa. O caos, descobriria, era o mundo escorrer entre os meus dedos e eu n\u00e3o saber mont\u00e1-lo. Mas quem acreditaria que o mundo se desfaria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheguei em casa e meu pai n\u00e3o estava sentado na poltrona para assistir ao notici\u00e1rio. Estava no banho. Minha m\u00e3e, est\u00e1tica na pia da cozinha, limpava peixe. Quando fui abra\u00e7\u00e1-la esbarrei em seu avental que se desfez em milh\u00f5es de pequenas pe\u00e7as espalhadas por todo o ch\u00e3o. Ca\u00eda em cascata. Minha m\u00e3e parecia n\u00e3o ter notado o avental desfeito. Milh\u00f5es de pequenas pe\u00e7as escorriam da cintura e do enlace da vestimenta. Uma delas saltou para pia, intrometendo-se na carne limpa do peixe. Minha m\u00e3e suspendeu a tarefa para retir\u00e1-la com cuidado \u2013 como a uma impureza. Quando me desculpei, ela, com o olhar bondoso, parecia dizer <em>n\u00e3o foi nada<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu pai saiu do banho, enrolado em uma tolha.\u00a0 Ao olhar para os seus p\u00e9s, percebi: estava quadriculado. Sentia fortes dores na sola e passou a massage\u00e1-la. Ao realizar o gesto, desprendia-se uma parte ou outra que formavam os dedos. N\u00e3o d\u00f3i? , perguntei. Deveria ser um mal passageiro, um problema de pele como as micoses e com tratamento, logo estaria resolvido. \u00c0 hora do jantar, sentados \u00e0 mesa, perceb\u00edamos uma tens\u00e3o em nossa conversa. Minha m\u00e3e tranquilizou-me, prometendo buscar um m\u00e9dico. Meu pai renovou a promessa e refor\u00e7ou que aquilo, naquela \u00e9poca do ano, era comum. N\u00e3o era. Nenhum dos vizinhos tinha p\u00e9s quadriculados ou roupas que se desfaziam em cascatas de pequenas pe\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu pai, para ir ao trabalho, passou a vestir um longo sobretudo que lhe cobria os p\u00e9s, para n\u00e3o ser importunado pelos colegas dentro do transporte para a firma. Minha m\u00e3e tomava um excessivo cuidado para n\u00e3o ter os vestidos desfeitos por um movimento brusco ou por um acidente de percurso. Eu procurava uma explica\u00e7\u00e3o para tal acontecimento e n\u00e3o a encontrava. A cozinha, como todas as outras, lentamente se modificava. E n\u00e3o era mais como tantas outras da vizinhan\u00e7a. A minha m\u00e3e n\u00e3o era mais igual \u00e0 m\u00e3e dos meus amigos, apesar de bonita e simp\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu pai n\u00e3o era como todos os outros pais. Ele chegava em casa e fechava as cortinas para n\u00e3o ser visto. Chamava de lepra aquela anomalia. Triste, retirava-se mais cedo para o quarto e l\u00e1 fazia tamb\u00e9m as refei\u00e7\u00f5es. Minha m\u00e3e tinha pernas de que se podia orgulhar, no entanto, com a metamorfose, passou a usar saias compridas ou cal\u00e7as jeans. O cabelo n\u00e3o precisava mais ser penteado, os sapatos trocados ou qualquer outra coisa alterada. Os meus pais passaram a me evitar. E logo toda a rua passou a ser como os meus pais e os filhos permaneciam como eram \u2013 pareciam divertidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 noite, espiei o namoro de meus pais, pela fechadura. Viam-se multiplicadas milh\u00f5es de pe\u00e7as quadriculadas: encaixavam-se e se desencaixavam ao sabor das emo\u00e7\u00f5es experienciadas por ambos. A predomin\u00e2ncia por pe\u00e7as vermelhas, azuis e amarelas e as in\u00fameras paisagens formadas por seus esfor\u00e7os amorosos enchiam o quarto de uma poesia \u00fanica. A minha m\u00e3e, na manh\u00e3 seguinte, irreconhec\u00edvel, porque parecia desfigurada por um programa de computador para ocultar testemunhas de crimes brutais, dirigiu-se a mim, perguntando o que queria para o caf\u00e9 da manh\u00e3 e instantaneamente transformava-se em um microondas. Segundos depois, avisava que os ovos estavam prontos. Meu pai descia para trabalhar e poderia ser confundido com um quadro cubista. Ele e todos os outros pais que tiveram suas formas alteradas no decorrer da semana do surto. Os m\u00e9dicos n\u00e3o tinham resposta para a epidemia, nem ideia de quanto tempo duraria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A casa n\u00e3o suportava mais o meu peso. Desfazia-se, quando me apoiava contra os m\u00f3veis. Eu n\u00e3o dormia mais em minha cama. Acordei v\u00e1rias vezes no piso da sala com fortes dores nas costas por ter ca\u00eddo indefinidamente pelos andares da casa. Minha m\u00e3e me servia comida de pl\u00e1stico, montada por aquelas milh\u00f5es de pecinhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela e meu pai n\u00e3o encontravam problemas em mastig\u00e1-las ou elimin\u00e1-las. Eu n\u00e3o suportava mant\u00ea-las durante muito tempo na boca e corria para vomit\u00e1-las. Todos os meus colegas das casas seguintes pediam pizza e coca-cola para quase todas as refei\u00e7\u00f5es. O dinheiro escasseava, porque ningu\u00e9m mais trabalhava. E os poucos que ainda aventuravam-se, tinham o soldo pago em dinheiro de banco imobili\u00e1rio, portanto sem nenhum valor. Os meus pais cada vez me reconheciam menos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o tinha o cheiro, o aspecto ou o rosto deles. Portanto, em suas cabe\u00e7as, n\u00e3o deveria ser seu filho. Folheava \u00e1lbuns de fotografia para lembr\u00e1-los de quem eu era. Todas as fotografias quadriculadas e ali, entre eles, aquele estranho. A minha m\u00e3e, com a voz modificada, sugeriu que me adotassem. O meu pai parecia n\u00e3o achar um neg\u00f3cio direito. O melhor era chamar a pol\u00edcia e me encaminhar ao juizado de menores. Em cada uma das casas, parado \u00e0 porta, estava um \u00f4nibus das autoridades, confiscando crian\u00e7as normais de pais quadriculados. Vigiados por policiais, que se desfaziam e se refaziam instantaneamente, como se as milh\u00f5es de pequenas pe\u00e7as fossem organismos vivos e independentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o idiotizada n\u00e3o dizia nada a respeito dos sentimentos das autoridades ou dos pais, apenas o gesto de minha m\u00e3e encostar a cabe\u00e7a no que parecia o ombro de meu pai demonstrava a sua consterna\u00e7\u00e3o. De nenhuma outra maneira ela poderia ser percebida. Quando me despedi dos dois, alisei o rosto de minha m\u00e3e que se desfez em minhas m\u00e3os como areia, e as suas fei\u00e7\u00f5es, se assim posso cham\u00e1-las, condo\u00eddas pela separa\u00e7\u00e3o, pareciam revelar a verdade a meu respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, o c\u00e9rebro parecia recusar-se a lhe dar cr\u00e9dito sobre o parentesco entre n\u00f3s, e a natureza, contradita em minhas linhas, provava ser imposs\u00edvel. Aquilo que lhe pareciam os olhos, em misto de dor e de ansiedade, fez que o restante de voz humana escapada de sua garganta, soasse como a palavra filho. Depois se tornou um incompreens\u00edvel glamer\u00f4 \u2013 para n\u00f3s que \u00e9ramos retirados das casas, e levados para campos de concentra\u00e7\u00e3o em que m\u00e9dicos estudariam a nossa faculdade estacion\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pais de outros colegas olhavam estupidificados do port\u00e3o para os \u00f4nibus lotados e suas mentes de pl\u00e1sticos n\u00e3o alcan\u00e7avam o motivo de tantos de n\u00f3s termos invadidos os seus lares e as suas vidas. Por que \u00e9ramos t\u00e3o diferentes? N\u00e3o saber\u00edamos nunca a resposta. Os m\u00e9dicos n\u00e3o trabalhavam mais em cura alguma. N\u00e3o havia enfermidade. Ou a enfermidade \u00e9ramos n\u00f3s com nossas apar\u00eancias monstruosas: redondas e angulares. A contradi\u00e7\u00e3o vivida por n\u00f3s era que a liberdade era f\u00e1cil; arrebentar-se-ia com facilidade as paredes e se escaparia daquele lugar. Mas para onde se iria? Eu tinha saudades de minha m\u00e3e e de meu pai, lembrava de suas fei\u00e7\u00f5es de areia ou de pe\u00e7as pl\u00e1sticas articul\u00e1veis e remontava com peda\u00e7os da parede de minha cela os retratos de ambos. Descasquei com tanta severidade a parede que abri espa\u00e7o para o meu corpo atravess\u00e1-la sem dificuldade. N\u00e3o tinha vontade ou coragem de ir embora. Os planos de fuga eram diversos. Constru\u00edam-se avi\u00f5es, submarinos e outros transportes para se dar o fora e se voltar para aquela rua. Restava a d\u00favida de que ser\u00edamos ou n\u00e3o aceitos e a imobilidade decorrente da d\u00favida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Mariel Reis<\/em><\/strong><em> \u00e9 contista, poeta e ensa\u00edsta.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sens\u00edvel e fant\u00e1stica narrativa de Mariel Reis<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13179,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3238,2534,16],"tags":[81,41,3240,1564],"class_list":["post-13178","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-116a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-lego","tag-mariel-reis"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13178","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13178"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13178\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13184,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13178\/revisions\/13184"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13179"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}