{"id":13196,"date":"2017-02-08T11:42:53","date_gmt":"2017-02-08T14:42:53","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13196"},"modified":"2017-02-20T17:24:21","modified_gmt":"2017-02-20T20:24:21","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-50","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-50\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira correspond\u00eancia que <strong>Paula Dip<\/strong> recebeu de Caio Fernando Abreu foi um bilhetinho insolente, com ares de intima\u00e7\u00e3o. Prenunciavam-se os anos 80, e ambos trabalhavam na editora Abril, em reda\u00e7\u00f5es convizinhas. \u00c0 \u00e9poca, Paula organizava uma festa de comemora\u00e7\u00e3o de seu anivers\u00e1rio e Caio n\u00e3o figurava na lista de convidados. Foi ent\u00e3o que aterrissou sobre a mesa da jovem jornalista a seguinte mensagem: \u201cTodos j\u00e1 receberam o convite para o seu anivers\u00e1rio; por acaso voc\u00ea teria se esquecido de mim ou ainda posso ter esperan\u00e7as de ser convidado? Sei que a festa \u00e9 amanh\u00e3 e prefiro pensar que foi uma distra\u00e7\u00e3o de sua parte; detestaria imaginar que foi proposital\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhecido pelo temperamento forte (e vol\u00e1til), essa era, na verdade, a maneira de Caio dizer para Paula que queria ser seu amigo. Ele foi convidado para a festa, naturalmente, e a amizade se configurou por vinte anos. Paula viu, de muito perto, o jornalista se tornar escritor, dramaturgo, roteirista; ganhar pr\u00eamios; morar fora do pa\u00eds; retornar; sofrer por amor; sobreviver \u00e0 ditadura militar; descobrir-se portador do v\u00edrus HIV; morrer. Durante esse per\u00edodo, eles trocavam in\u00fameras cartas, que ficaram guardadas por uma d\u00e9cada, esperando que o intoler\u00e1vel da aus\u00eancia desse tr\u00e9gua e os amigos pudessem se reencontrar naquele tempo retido no papel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A volta \u00e0s cartas, afinal, deu forma ao livro \u201cPara sempre teu, Caio F. &#8211; Cartas, conversas, mem\u00f3rias de Caio Fernando Abreu\u201d, lan\u00e7ado em 2009. Sucesso de p\u00fablico e de cr\u00edtica, o misto de mem\u00f3rias e correspond\u00eancias inspirou um premiado document\u00e1rio de mesmo nome. Agora, uma nova compila\u00e7\u00e3o de cartas vem a p\u00fablico, outra vez organizada por Paula Dip. Em \u201cNuma hora assim escura\u201d, a jornalista se debru\u00e7a sobre as missivas trocadas entre Caio F. e a escritora Hilda Hilst, entre os anos 70 e 90. O lote, at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dito (alguns envelopes ainda se mantinham lacrados), revela duas pessoas que, atrav\u00e9s de um vigoroso la\u00e7o afetivo, completaram-se artisticamente e forneceram, ainda que de maneira incidental, um panorama precioso de suas \u00e9pocas, sobretudo no que diz respeito \u00e0 literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os textos epistolares remontam a um Caio rec\u00e9m ingressado na vida adulta, com a cabe\u00e7a tomada pelos cabelos compridos e um tanto de ideais, que se muda para a m\u00edstica Casa do Sol, em Campinas, onde Hilda havia se refugiado para se dedicar \u00e0 literatura, ap\u00f3s uma vida de luxo e matrim\u00f4nio. A rela\u00e7\u00e3o dos dois, a princ\u00edpio de pupilo e mentora, pouco a pouco se fortifica num pacto de amizade, que durou por toda a vida, e que foi inestim\u00e1vel para a forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de Caio. Prova disso \u00e9 que nunca se desligaram, fosse qual fosse a dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica, fosse qual fosse a gravidade das circunst\u00e2ncias. As cartas os uniram na vida e na morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista exclusiva \u00e0 Diversos Afins, Paula Dip exp\u00f5e detalhes sobre esse encontro incompar\u00e1vel entre dois de nossos principais autores contempor\u00e2neos, rememora sua pr\u00f3pria conviv\u00eancia com o amigo, revela particularidades do escritor e reflete sobre seu papel de proteger e dimensionar o legado de Caio Fernando Abreu. Al\u00e9m disso, fala sobre novos autores, literatura feminina, o reconhecimento da obra de Caio F. por parte de uma nova gera\u00e7\u00e3o de leitores e a experi\u00eancia de se reconstituir parte de uma exist\u00eancia atrav\u00e9s de relatos contidos no secreto da troca de cartas. \u201cReorganizei a obra de ambos de um novo ponto de vista: a amizade que os uniu, confid\u00eancias, afinidades, as brigas, as gargalhadas. Desenhando uma linha do tempo com suas cartas, contos, gritos e sussurros. Foi uma viagem deliciosa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_13206\" aria-describedby=\"caption-attachment-13206\" style=\"width: 422px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paula-Dip-Foto-Johnes-Mattos-INT.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13206 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paula-Dip-Foto-Johnes-Mattos-INT.jpg\" width=\"422\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paula-Dip-Foto-Johnes-Mattos-INT.jpg 422w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paula-Dip-Foto-Johnes-Mattos-INT-253x300.jpg 253w\" sizes=\"auto, (max-width: 422px) 100vw, 422px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13206\" class=\"wp-caption-text\">Paula Dip \/ Foto: Johnes Mattos<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O Caio era algu\u00e9m que acreditava no esot\u00e9rico, em planos astrais, na incid\u00eancia do sobrenatural no dia a dia. No pr\u00f3logo do novo livro, voc\u00ea escreve que esse volume de cartas chegou a voc\u00ea \u201ccomo num passe de m\u00e1gica\u201d. Depois da \u00f3tima repercuss\u00e3o de \u201cPara sempre teu, Caio F.\u201d, livro seu que serviu de mat\u00e9ria para um premiado document\u00e1rio, acredita que, de alguma forma, ele queria que esse pacote terminasse contigo? Que voc\u00ea continuasse protetora do legado dele?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> Caio dizia que, al\u00e9m de ser escritor, sempre quis ser um mago \u201ccomo Cort\u00e1zar\u201d, em quem se espelhava. Desde muito jovem estudou astrologia, espiritismo, foi Rosacruz, aproximou-se do candombl\u00e9, do Santo Daime, consultava cartomantes, videntes, jogava I Ching e Tar\u00f4. Quando conheceu Hilda Hilst, desenvolveu ainda mais seu lado m\u00edstico. Assim que ficamos amigos, ele leu minha carta astral e analisou minhas revolu\u00e7\u00f5es solares algumas vezes, fez o mapa da minha filha quando ela nasceu, de tal forma que, com a conviv\u00eancia, aprendi a entender e a respeitar os sinais que, segundo Caio, o universo nos envia; basta estarmos atentos e fortes, ele dizia, citando Caetano e Gil. Visitava sempre sua m\u00e3e de santo no Rio, Sonia de Oxum Apar\u00e1, e aqui em S\u00e3o Paulo certa vez me levou a um terreiro para visitar um pai de santo. Quando chegamos ele ficou muito \u00e0 vontade, participou da roda, cantou, dan\u00e7ou e pediu a ben\u00e7\u00e3o aos orix\u00e1s. Eu assisti de longe, n\u00e3o tive desenvoltura para participar da festa e nem para me entregar ao ritual que ele parecia conhecer bem. Sempre fui c\u00e9tica. Depois disso ele n\u00e3o me convidou de novo para tais atividades, mas eu sempre respeitei seus credos. \u201cYo no creo em brujas pero que las hay, las hay\u201d, diz o ditado, e por tudo isso, passei a prestar aten\u00e7\u00e3o aos sinais. Nos anos 80, eu e Caio fizemos um pacto que respeito at\u00e9 hoje de escrever nossa hist\u00f3ria e tornar p\u00fablicas suas cartas. Quando Caio morreu, em fevereiro de 1996, por exemplo, eu morava fora, n\u00e3o havia internet ou celular, s\u00f3 fui saber da morte dele alguns dias depois. Eu vivia em Boston, era inverno, uma madrugada houve um acidente de carro na frente da minha casa, um rapaz morreu dentro de um carro que pegou fogo. Eu nunca havia visto nada t\u00e3o impressionante e quando soube que Caio havia falecido justamente naqueles dias, fiquei muito sensibilizada. Aquilo parecia uma premoni\u00e7\u00e3o, um aviso. Outro exemplo: quando esse pacote de cartas dele para Hilda veio parar em minhas m\u00e3os, pensei at\u00e9 em fazer uma tese de mestrado a partir delas, mas acabei decidindo publicar o livro. Logo no in\u00edcio do trabalho fui atr\u00e1s da bibliografia de Hilda e encontrei um livro dela, \u201cTu n\u00e3o te moves de ti\u201d, que ele me presenteou em 1980, com um bilhete\/dedicat\u00f3ria, que estava perdido h\u00e1 30 anos na minha biblioteca, outro sinal. Falo disso no meu livro novo, publico um fac s\u00edmile do bilhete. Hilda combinou com Caio que ele viria visit\u00e1-la depois de morto para garantir que havia vida ap\u00f3s a morte, e ela contou que ele esteve na Casa do Sol algumas horas depois de morto, para lhe mostrar que estava bem, conforme haviam combinado. Ele era um cara que cumpria suas promessas, um amigo muito leal. N\u00e3o estou sozinha nisso, muitos outros amigos de Caio se sentem assim, ligados e atentos aos seus sinais. Tudo isso faz parte da lenda de Caio Fernando Abreu, mas acima de todos os mitos e mist\u00e9rios sobre sua pessoa, o que importa \u00e9 que ele foi um escritor talentoso que merece ser lido e cultuado. Finalmente respondendo \u00e0 sua pergunta, n\u00e3o sei se ele queria que o pacote de cartas terminasse comigo, ou se desejava que eu protegesse seu legado, mas acredito em seguir minha intui\u00e7\u00e3o no sentido de levar a publico cartas, textos, conversas, mem\u00f3rias, e todos os in\u00e9ditos de Caio que chegarem \u00e0s minhas m\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea conta, no livro, que conheceu o Caio na reda\u00e7\u00e3o da editora Abril, onde firmaram uma amizade que durou 20 anos. Ainda assim, h\u00e1 algo nessas novas cartas que a surpreendeu durante a leitura? H\u00e1, em algum aspecto ali, um Caio que n\u00e3o conhecia ou n\u00e3o sabia que existiu?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> O que mais me impressionou nesse pacote com parte da correspond\u00eancia entre Caio e Hilda \u00e9 a juventude, o frescor do texto. Quando o conheci, entre as reda\u00e7\u00f5es das revistas Pop e Nova, Caio estava com 30 anos, j\u00e1 morara dois anos na Europa, tinha livros publicados e premiados. \u00c0 \u00e9poca, ele escrevia os primeiros contos do livro \u201cMorangos mofados\u201d, lan\u00e7ado em 1982, pela Brasiliense. At\u00e9 hoje guardo um bilhete dele se convidando para minha festa de anivers\u00e1rio, o in\u00edcio de nossa amizade. Aos 17, Caio escrevia o romance \u201cLimite branco\u201d, quando decide se mudar para S\u00e3o Paulo e depois para a Casa do Sol, em 1968. Hilda \u00e9 autora da ep\u00edgrafe e editora do texto final desse romance. As cartas falam exatamente desse momento. Fiquei encantada com aquelas confiss\u00f5es de menino, sonhos e perrengues de final de adolesc\u00eancia; a voca\u00e7\u00e3o do escritor, o precoce amor \u00e0s palavras. Nas primeiras cartas que envia a ela do Rio, em 1970, Caio menciona Caetano Veloso, Antonio Bivar, Luiz Carlos Maciel, \u00eddolos no nosso tempo, como sendo os papas da contracultura. \u00c9 o deslumbramento de uma gera\u00e7\u00e3o. Caio diz a Hilda que \u201c\u00e9 uma loucura a lucidez e a abertura espiritual que eles t\u00eam\u201d. Eu que s\u00f3 fui ver Caetano rebolando no palco do TUCA, em S\u00e3o Paulo, com os Tropicalistas, fiquei encantada. Caio, assim como Caetano, era artista pl\u00e1stico, desenhava, fazia colagens que \u00e0s vezes transformava em cartas, com estrelinhas, entrelinhas, an\u00fancios, desenhos, detalhes. Cartas lindas, apaixonantes. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o livro fala de uma paix\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_13207\" aria-describedby=\"caption-attachment-13207\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Caio-Fernando-Abreu-e-Paula-Dip-em-1982-Foto-Arquivo-pessoal-INT.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13207 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Caio-Fernando-Abreu-e-Paula-Dip-em-1982-Foto-Arquivo-pessoal-INT.jpg\" width=\"400\" height=\"339\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Caio-Fernando-Abreu-e-Paula-Dip-em-1982-Foto-Arquivo-pessoal-INT.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Caio-Fernando-Abreu-e-Paula-Dip-em-1982-Foto-Arquivo-pessoal-INT-300x254.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13207\" class=\"wp-caption-text\">Caio Fernando Abreu e Paula Dip em 1982 \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O conte\u00fado das cartas \u00e9 marcado por uma sobrecarga de afeto, em especial a admira\u00e7\u00e3o e o carinho que Caio demonstrava pela Hilda. Muito mais que uma confidente ou uma amiga, a figura da grande escritora que j\u00e1 era, quando se conheceram, mostra-se fundamental para a forma\u00e7\u00e3o da escrita do jovem autor. Obviamente que havia nele um talento nato, contudo o quanto acredita que o conv\u00edvio, naquele exato per\u00edodo de sua vida, tornou a Hilda imprescind\u00edvel para a literatura de Caio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> Mais do que imprescind\u00edvel, Hilda foi um b\u00e1lsamo na vida de Caio F. A viv\u00eancia de quase dois anos, que tiveram na Casa do Sol e continuou por toda a vida, foi troca fundamental para a forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria dele. Afinal ele era um garoto de 19 anos! Teve acesso \u00e0 biblioteca complet\u00edssima e principalmente aos escritos dela, \u00e0s suas ideias. Eles se reconheceram imediatamente no amor \u00e0 palavra. Caio virou assistente, ela ditava textos num gravador que ele depois datilografava numa opera\u00e7\u00e3o crucial que o fez ouvir a pr\u00f3pria voz desafinada e fazer exerc\u00edcios para encorp\u00e1-la. A voz engrossou e o milagre foi atribu\u00eddo \u00e0 figueira m\u00e1gica, claro.\u00a0 Caio aprendeu com Hilda a ler seus textos em voz alta, e a dedicar muitas horas de seu dia \u00e0 escrita e \u00e0 leitura. Buscar na palavra a sua supera\u00e7\u00e3o. Assim nasceu a lenda esot\u00e9rica que at\u00e9 hoje envolve os dois. Hilda era educada, culta, levava uma vida original, reclusa e ao mesmo tempo cercada de mil pessoas interessantes. Foi uma mo\u00e7a bonita, rica e badalada na capital paulista, onde estudou direito no largo de S\u00e3o Francisco. Namorou Deus e o mundo. E fugiu do carrossel de paix\u00f5es e viagens ao redor do mundo, aos 35 anos, quando largou tudo para viver numa casa de campo, para escrever seus poemas e focou em sua obra genial durante o resto de seus dias. A Casa do Sol tornou-se um espa\u00e7o de reflex\u00e3o, estudo, at\u00e9 hoje refer\u00eancia para artistas, poetas, escritores, cineastas. Acredito que ele foi muito influenciado por ela, e vive versa; Hilda aprendeu muito com Caio. Ela foi o mestre e ele o aprendiz, mas \u00e9 dos grandes encontros praticar a alteridade, e certamente eles trocavam de lugar. O rapaz trouxe o frescor da juventude, enquanto ela o confortou com a sabedoria da maturidade. At\u00e9 conhecer Caio, Hilda s\u00f3 havia escrito poesia. Em 1970, publica \u201cFluxo-Floema\u201d, seu primeiro mergulho na fic\u00e7\u00e3o, e dedica a ele um conto, \u201cL\u00e1zaro\u201d, para mim um dos mais belos da l\u00edngua portuguesa. Logo depois, Caio publicou \u201cLimite Branco\u201d, seu romance de forma\u00e7\u00e3o, cujos cap\u00edtulos ela editou, escreveu t\u00edtulo e ep\u00edgrafe. Um verdadeiro encontro de almas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Numa das cartas que escreveu em Londres, Caio faz um coment\u00e1rio bem mordaz sobre um livro p\u00f3stumo da Clarice Lispector: \u201cAcho que ela morreu na hora certa, porque tava repetindo demais a receita\u201d. Um pouco antes, voc\u00ea relata que Caio trazia, da juventude, uma obsess\u00e3o liter\u00e1ria por Clarice que, depois de se relacionar com Hilda, veio ao ch\u00e3o. O que se tornou essa paix\u00e3o, afinal, para Caio, a ponto de ele trocar at\u00e9 de musa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211; <\/strong>Caio se encantou com Clarice na adolesc\u00eancia, quando as paix\u00f5es s\u00e3o fortes, plat\u00f4nicas e eternas. Eles viveram coup de foudre, tipo um romance muito avassalador que n\u00e3o existe mais, irm\u00e3o do amor \u00e0 primeira vista, que \u00e9 mais como um soco no peito. Clarice o convidou para se sentar ao seu lado e o chamou de \u201cmeu Quixote\u201d, numa noite de aut\u00f3grafos em Porto Alegre, e, embora tenham trocado telefones, nunca se viram. Ele deu sorte na escolha da musa, dona de uma energia t\u00e3o m\u00e1gica e misteriosa que alguns a chamavam de bruxa. Como n\u00e3o amar tal musa? Caio se apaixonava perdidamente por suas musas. Seu texto foi marcado pela profundidade abissal de Clarice. E o amor pela musa nunca morre, amores e musas se acrescentam. Clarice era distante, calada; Hilda, um turbilh\u00e3o. E Caio n\u00e3o esteve perto da Lispector no cotidiano, como aconteceu com Hilda. Bastou ele chegar \u00e0 Casa do Sol e outro coup de foudre. Eles imediatamente diziam tudo, riam de tudo, brigavam por tudo, duas crian\u00e7as. Quanto ao coment\u00e1rio ferino que voc\u00ea cita, \u00e9 a cara dele! Caio perdia um amigo, mas n\u00e3o perdia a piada. Exercia um humor ferino, era witty como poucos. Para ele, poder zombar por escrito de Clarice, numa carta para Hilda, era como provar a si mesmo que a fila andava e que o futuro ainda lhe reservaria muitas musas, gra\u00e7as a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por outro lado, apesar da quantidade de missivas que remetia dentro e fora do pa\u00eds, Caio chegava a ficar meses sem receber uma resposta de Hilda. Proporcionalmente, ali\u00e1s, as cartas enviadas pela escritora parecem bilhetes diante dos textos de v\u00e1rias p\u00e1ginas escritos pelo autor. Qual a rela\u00e7\u00e3o que faz disso? Ainda que trocassem impress\u00f5es e la\u00e7os fortes de sensibilidade, percebe que existia nele um interesse mais grave, um apre\u00e7o que n\u00e3o era correspondido \u00e0 mesma altura por ela?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> Hilda morava no campo, raramente checava a Caixa Postal que ficava longe, no Correio da cidade. E as cartas j\u00e1 estavam velhas, talvez n\u00e3o achasse necess\u00e1rio responder. Era uma vida reclusa, mas bem cheia a que Hilda Hilst levava na sua Casa do Sol (e tamb\u00e9m tinha a Casa da Lua, na praia. Dona de terras, grande dama do interland paulistano, nascida Almeida Prado por parte do pai poeta. Sabia receber comme il faut aos in\u00fameros c\u00e3es, amigos, artistas, amores. Tudo isso dava trabalho a essa taurina com lua em Aqu\u00e1rio, que escrevia sem parar uma literatura genial, tresloucada, comparada a de James Joyce, n\u00e3o menos. Caio viajava pelo mundo, essa era sua paix\u00e3o. Mudava de cidade e de emprego como respirava, naquele seu ritmo budista. Voz mansa, profunda, muitos sil\u00eancios. As cartas eram um respiro, uma forma de manter a pouca sanidade mental. Escrever cartas era como manter um di\u00e1rio; havia dias que escrevia cinco ou seis cartas para amigos, amores e familiares. Hilda foi uma destinat\u00e1ria privilegiada, assim como eu. Caio escrevia para si mesmo, como desabafa na ep\u00edgrafe do \u201cNuma hora assim escura\u201d, para organizar a cabe\u00e7a, fazer planos, registrar um memorial. Escrevendo, eu falo pra caralho, era seu mote. Quanto \u00e0 reciprocidade do amor, dura fal\u00e1cia. Como se sabe, n\u00e3o \u00e9 a quantidade e nem o tamanho que revela o teor do afeto. Eles foram plat\u00f4nicos perfeitos: viviam conectados em outro plano, praticavam telepatia entre outras formas de comunica\u00e7\u00e3o. Apesar das poucas cartas que Hilda enviou a ele, a afei\u00e7\u00e3o entre ambos sempre foi correspondida e eterna enquanto durou. Foram amigos e irm\u00e3os at\u00e9 o fim. Quando Caio morria em Porto Alegre, Hilda era uma das poucas que telefonavam todos os dias. Ela chorava e ele a consolava. Amor de amizade, diziam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_13208\" aria-describedby=\"caption-attachment-13208\" style=\"width: 378px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Estrelas_-carta-de-Caio-a-Hilda-Hilst-1975.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13208 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Estrelas_-carta-de-Caio-a-Hilda-Hilst-1975.jpg\" width=\"378\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Estrelas_-carta-de-Caio-a-Hilda-Hilst-1975.jpg 378w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Estrelas_-carta-de-Caio-a-Hilda-Hilst-1975-227x300.jpg 227w\" sizes=\"auto, (max-width: 378px) 100vw, 378px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13208\" class=\"wp-caption-text\">Estrelas, carta de Caio a Hilda Hilst (1975)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Embora tenha as cartas como ponto de partida, o livro apresenta uma estrutura coesa, cuja narrativa remonta passagens tanto de Caio quanto de Hilda que antecedem e sucedem as situa\u00e7\u00f5es abordadas nas cartas. Obviamente que, pelo seu livro anterior e pelo pr\u00f3prio conv\u00edvio com o Caio, voc\u00ea j\u00e1 detinha desse material do autor. Por\u00e9m como foi reconstruir os momentos de Hilda? J\u00e1 havia uma aproxima\u00e7\u00e3o com a vida e com a obra da autora, ou ocorreu um processo inverso, no qual as cartas a levaram a pesquisar sobre o passado dela, inclusive com o recurso de entrevistas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> Conceber um livro de cartas \u00e9 revelar a passagem do tempo, o movimento social, o pensamento coletivo, o processo hist\u00f3rico. Sem falar nas emo\u00e7\u00f5es et\u00e9reas e a\u00e9reas que s\u00f3 as cartas cont\u00eam. \u00c9 fascinante ver as pessoas dessa forma, tudo se encaixa. Antes de jornalista e escritora, sou formada em Hist\u00f3ria na PUCSP, em 1970, e desde ent\u00e3o procurei ver as coisas a partir do processo dial\u00e9tico. Cheguei a considerar seriamente a possibilidade de ser professora, ter uma carreira acad\u00eamica, mas naquele tempo as pessoas viviam sendo presas na faculdade: ter lido Marx era uma condena\u00e7\u00e3o. Foi uma orientadora, a Zilda Zerbini, que me sugeriu ir trabalhar nos fasc\u00edculos de Hist\u00f3ria da Abril. Caio havia trabalhado, antes de mim, deixado pistas invis\u00edveis. Pois foi assim que descobri a escrita. Estudiosa em Portugu\u00eas, criava hist\u00f3rias que lia para a classe, trocava poemas com colegas de reda\u00e7\u00e3o, escrevi poemas desde menina. Mas foi ali na Abril Cultural, que senti que eu poderia ser uma escritora. Com esses olhos, fui atr\u00e1s da mulher de quem Caio sempre me falou muito: poetisa vivendo na Casa do Sol e amiga do meu amigo, Hilda era personagem frequente de nossos papos. E, sim, parti de um extenso memorial da nossa gera\u00e7\u00e3o, que virou meu primeiro livro. Mas os livros atraem gente que gosta deles e chegaram outras pessoas que conviveram com a dupla, entrevistei dezenas delas. Reorganizei a obra de ambos de um novo ponto de vista: a amizade que os uniu, confid\u00eancias, afinidades, as brigas, as gargalhadas. Desenhando uma linha do tempo com suas cartas, contos, gritos e sussurros. Foi uma viagem deliciosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; As cartas, al\u00e9m de serem registros de uma rela\u00e7\u00e3o bem particular, est\u00e3o carregadas de retratos de suas \u00e9pocas, por meio de olhares deliberados, de coment\u00e1rios incidentais. Voc\u00ea consegue identificar um valor hist\u00f3rico na mesma propor\u00e7\u00e3o que liter\u00e1rio nessas missivas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> Com certeza. \u00c9 isso que me fascina nesse tipo de livro: as cartas s\u00e3o fontes prim\u00e1rias da experi\u00eancia existencial de uma determinada gera\u00e7\u00e3o. Elas revelam o cotidiano, o desenrolar da cena hist\u00f3rica em que viveram o autor e seus contempor\u00e2neos, cada um fazendo sua arte, levando sua vida. \u00c9 um flashback de um determinado momento, como o depoimento de uma testemunha ocular revelando tudo. Nesse sentido as cartas que publico s\u00e3o documentos sociais e pol\u00edticos de um per\u00edodo muito conturbado da vida brasileira. Entre 70 e 90 (data da primeira e da \u00faltima carta desse pacote) viv\u00edamos \u00e0s voltas com uma ditadura cruel, e embora os dois escritores n\u00e3o fossem exatamente militantes, foram v\u00edtimas da Censura e da repress\u00e3o. Hilda hospedou e preservou v\u00e1rios amigos procurados pelo DOPS, e Caio foi um deles. Al\u00e9m de registrarem uma rela\u00e7\u00e3o bem particular, as cartas s\u00e3o lindas e seu valor liter\u00e1rio \u00e9 inestim\u00e1vel. O professor de literatura ga\u00facho Luis Augusto Fischer acredita que, se olhadas com o devido distanciamento, essas cartas t\u00eam a mesma import\u00e2ncia liter\u00e1ria dos contos, cr\u00f4nicas e romances dele. Concordo inteiramente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Algo que fica expl\u00edcito nas cartas \u00e9 a voltagem emocional de Caio, sobretudo suas varia\u00e7\u00f5es. \u00c9 curioso quando ele aconselha Hilda a n\u00e3o se importar com as cr\u00edticas, sendo que ele pr\u00f3prio fica extremamente melanc\u00f3lico diante de uma leitura negativa de seu livro. Dentro de uma mesma carta, por exemplo, h\u00e1 not\u00edcias de alegria e trechos em que se mostra introspectivo, desencantado quanto \u00e0 vida que levava. Quem era esse Caio, afinal? De alguma forma, ele escrevia essas cartas tamb\u00e9m endere\u00e7adas a ele?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> Esse Caio era muitos, como ali\u00e1s, todos n\u00f3s somos, mas ele n\u00e3o fazia disso segredo. Escrevia suas cartas como se fossem p\u00e1ginas de um di\u00e1rio, registros em alta voltagem de seus altos e baixos cotidianos. Ele usava a literatura e a correspond\u00eancia como uma forma de estar em contato com as pessoas que ele amava, fazer uma esp\u00e9cie de auto reflex\u00e3o. Pensar a vida. Era uma pessoa muito transparente; quando estava triste, revelava sem pudor o motivo de seu desespero, \u00e0s vezes acordava achando que a vida n\u00e3o valia a pena e me ligava de madrugada, dizendo que queria morrer. Nos textos, despedia-se da vida num par\u00e1grafo e, no outro, j\u00e1 estava rindo da pr\u00f3pria tristeza. Ele vivia numa gangorra emocional, porque tinha coragem de se jogar nos abismos da dor nu e sem medo, como diziam alguns que testemunharam esses mergulhos. Isso fica muito claro em sua obra; ele se jogava l\u00e1 no fundo das emo\u00e7\u00f5es, das mais sutis \u00e0s mais despudoradas. \u00c9 disso que vive um escritor. E quando ele estava feliz, n\u00e3o havia ningu\u00e9m mais feliz que ele. Era engra\u00e7ad\u00edssimo, queria sair, dan\u00e7ar, fazer festas, jantares, adorava rir, dan\u00e7ar e namorar muito. Hoje ele seria considerado bipolar. Caio sempre fez an\u00e1lise, frequentou um psicanalista at\u00e9 o final da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Outro aspecto, dentro desse mesmo contexto, \u00e9 o fato de que, nas cartas mais antigas de Caio, as palavras \u201csuic\u00eddio\u201d e \u201cmorte\u201d aparecem com alguma frequ\u00eancia, diferente das mais breves, datadas nos anos 90, quando j\u00e1 estava infectado com o v\u00edrus HIV, que iria mat\u00e1-lo. Voc\u00ea acredita que, diante da finitude, ele se deu conta de que a literatura era o que sempre o manteve vivo e, portanto, tornou-se mais determinado a escrever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> Sem d\u00favida foi isso mesmo que aconteceu. Caio era um insatisfeito, sempre reclamou da vida e amea\u00e7ou acabar com ela muitas vezes, at\u00e9 descobrir, em 1994, que era portador do v\u00edrus da AIDS. Quando o exame deu positivo, e isso naquele tempo significava uma senten\u00e7a de morte, em vez de se matar, ele decidiu viver intensamente e \u201cpositivar\u201d sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Voltou para a casa da fam\u00edlia, no bairro do Menino Deus, em Porto Alegre, e nunca mais reclamou de nada. Come\u00e7ou a cuidar do jardim com o pai, velhinho, com quem havia se desentendido na juventude.\u00a0 Aproveitou todos os minutos de sua sobrevida para finalizar a obra, revirou gavetas, reeditou textos, publicou um livro p\u00f3stumo, o \u201cOvelhas negras\u201d. Antes mesmo de morrer, fez projetos, planejou, viajou, despediu-se da vida de forma gloriosa. \u00c9 claro que teve momentos dif\u00edceis que dividiu com Deus e com poucos e \u00edntimos amigos, e todos se encantaram com sua aceita\u00e7\u00e3o Zen e sua decis\u00e3o de sair da vida de uma forma suave. \u201cQue seja doce\u201d, dizia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Um trecho marcante \u00e9 de uma entrevista da Hilda na qual ela denuncia que o ent\u00e3o editor de Caio havia dado um bom adiantamento para o livro de uma atriz, enquanto o autor, j\u00e1 com reconhecidos livros publicados, lavava pratos em Londres para sobreviver. Penso que isso, de certa maneira, \u00e9 um dos fatores que contribu\u00edram para sua obra ter ganhado o devido respeito somente anos depois de sua morte. Na condi\u00e7\u00e3o de amiga &#8211; e tamb\u00e9m de f\u00e3 -, como lida com essa quest\u00e3o? \u00c9 inevit\u00e1vel conter um resqu\u00edcio de m\u00e1goa ou parte do princ\u00edpio de que melhor o reconhecimento tardio que reconhecimento algum?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> N\u00e3o acho que a falta de reconhecimento, por parte do p\u00fablico ou do editor, seja um fator para que a obra dele tenha ganhado o devido respeito somente anos ap\u00f3s sua morte. Caio sempre viveu adiante do seu tempo, \u00e9 mais compreendido hoje do que foi ent\u00e3o. Ele estudava seu pr\u00f3prio mapa astral e dizia, com sabedoria pontuada de ironia, que s\u00f3 seria famoso depois de morto. At\u00e9 nesse sentido ele e Hilda eram parecidos, pois ela tamb\u00e9m n\u00e3o teve uma fortuna cr\u00edtica enquanto vivia e nunca vendeu muitos livros. Ambos nunca se deram bem com alguns de seus editores, que chamavam de \u201ccornos\u201d, e ela tomou as dores do amigo quando o editor da Cia das Letras preferiu publicar um livro de Bruna Lombardi (que Caio adorava, diga-se de passagem), sem se lembrar de que o escritor pudesse passar por dificuldades financeiras em Londres. Nesse caso espec\u00edfico, que ocorreu nos anos 90, ele lavava pratos para sobreviver, no restaurante L\u2019 Ecluse, em Camden Town, enquanto, na livraria ao lado, seus livros, com a tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas de \u201cOs drag\u00f5es n\u00e3o conhecem o para\u00edso\u201d, vendiam bem e enfeitavam a vitrine. Ironias do destino. Na verdade, Caio havia recebido um adiantamento de autor em parcelas mensais para escrever seu novo livro, que seria \u201cOnde andar\u00e1 Dulce Veiga?\u201d, mas o adiantamento acabou e ele ainda n\u00e3o terminara o livro. Quando ficou pronto, o editor cumpriu o prometido e o livro foi publicado. Mas nada disso o impediu de viajar pela Europa in\u00fameras vezes para lan\u00e7ar tradu\u00e7\u00f5es de seus livros em alem\u00e3o, italiano, franc\u00eas e holand\u00eas, entre 1990 e 1996, quando morreu, justamente no momento em que sua obra come\u00e7ava a ficar mais conhecida fora daqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea coloca que os contos de Caio eram mobilizados por uma energia cuja fonte estava al\u00e9m da literatura; vinha de um pendor cr\u00edtico social, de uma necessidade indispens\u00e1vel de usar a m\u00e1quina de escrever como arma contra toda forma de poder, de ser um ant\u00eddoto contra qualquer manifesta\u00e7\u00e3o de tirania. Diante do quadro da literatura brasileira constru\u00eddo nos dias de hoje, acredita que falta um pouco dessa energia aos novos autores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> A palavra \u00e9 uma arma contra a tirania. Foi assim antes, durante e depois dos tempos da ditadura, e continua sendo assim. O texto \u00e9 um instrumento de express\u00e3o e de luta, e escritores, pensadores, fil\u00f3sofos, poetas, compositores sempre enfrentam censura, incompreens\u00e3o, muitos s\u00e3o perseguidos, torturados e \u00e0s vezes mortos. Mas a obra deles permanece viva. \u00c9 bom lembrar que naquele tempo n\u00e3o havia redes sociais, celulares, essas tecnologias que banalizam e emba\u00e7am as rela\u00e7\u00f5es, roubam nosso tempo, mas por outro lado aceleram e ampliam as possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o. Dizer que a literatura das m\u00e1quinas de escrever era mais pura, mais aut\u00eantica e mais inspirada que a de hoje soa como nostalgia, acho que a boa literatura n\u00e3o tem data, a for\u00e7a da palavra sobrepuja tudo. O s\u00e9culo 21 \u00e9 um momento hist\u00f3rico em que vivemos mais, morremos mais tarde, a longevidade nos d\u00e1 o tempo e os instrumentos para fazer ao vivo, em cores e em tempo real uma autocr\u00edtica de nossa passagem pelo planeta. Quer coisa mais excitante? S\u00f3 virar jovem de novo. Os temas est\u00e3o todos a\u00ed. N\u00e3o falta assunto para que os escritores criem bons livros e, aos bons autores, n\u00e3o falta energia. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, acredito que, quanto mais a situa\u00e7\u00e3o piora, mais material os escritores ter\u00e3o para contar nossa hist\u00f3ria. Escrever \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Ao reconstituir a trajet\u00f3ria de Hilda, voc\u00ea ressalta a dificuldade que era para uma mulher, nos anos 60, tomar a carreira de escritora. Nos \u00faltimos anos, um debate de mesmo centro tem chamado aten\u00e7\u00e3o para a presen\u00e7a de mais autoras no mercado. Acredita que, meio s\u00e9culo depois, pouco mudou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres na literatura?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> As mulheres foram e continuam sendo menos valorizadas que os homens em todas as \u00e1reas, vivemos num mundo machista. N\u00e3o faz muito tempo as mulheres n\u00e3o votavam, sequer frequentavam as universidades. \u00c9 como se as mulheres existissem apenas para procriar e cuidar da casa e dos filhos. Hilda, que se casou apenas para atender a um pedido da m\u00e3e, vivia delatando o \u201cengodo\u201d do casamento; sempre lutou contra essa situa\u00e7\u00e3o de inferioridade da mulher. Ela foi uma guerrilheira \u00e0 sua maneira, viveu muito adiante de seu tempo, assim como Caio tamb\u00e9m o fez. N\u00e3o quero entrar nesse assunto, que considero vital e altamente inflam\u00e1vel, digno de outra entrevista t\u00e3o ou mais longa que essa. A literatura dita \u201cfeminina\u201d, independente e bem antes do vi\u00e9s de g\u00eanero, sempre foi de resist\u00eancia. Escrever \u00e9 uma luta \u00e1rdua, di\u00e1ria, e como disse Virginia Woolf, em 1928: \u201c\u00c9 preciso ter um teto s\u00f3 seu para poder se dedicar \u00e0 escrita\u201d. Continua igual, ou pior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_13209\" aria-describedby=\"caption-attachment-13209\" style=\"width: 301px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Bilhetinho-de-Caio-F.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13209 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Bilhetinho-de-Caio-F.jpg\" width=\"301\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Bilhetinho-de-Caio-F.jpg 301w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Bilhetinho-de-Caio-F-181x300.jpg 181w\" sizes=\"auto, (max-width: 301px) 100vw, 301px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13209\" class=\"wp-caption-text\">Bilhetinho de Caio F. a Paula Dip (1980)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No pr\u00f3logo do seu livro anterior, \u201cPara sempre teu, Caio F.\u201d, voc\u00ea relata que um jovem atendente de videolocadora reconheceu o seu nome como o da amiga de Caio, em raz\u00e3o de um conto dedicado a voc\u00ea. \u00c9 muito interessante notar essa redescoberta da obra dele por uma gera\u00e7\u00e3o que, na ocasi\u00e3o da sua morte, sequer existia. A que atribui essa conex\u00e3o, num mundo comandado por outros valores, por outras realidades al\u00e9m daquela em que morangos mofam?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> Como n\u00e3o amar e viver a redescobrir Shakespeare, Dante, Clarice, Pessoa, Machado? Os bons textos atravessam gera\u00e7\u00f5es. Tenho certeza de que, quando estudarem a literatura do final do s\u00e9culo 20, o escritor Caio Fernando Abreu ser\u00e1 considerado um cl\u00e1ssico. Morangos continuam mofando e os drag\u00f5es ainda n\u00e3o conhecem o para\u00edso. Para mim \u00e9 muito natural que as novas gera\u00e7\u00f5es se encantem com o trabalho dele. Ele come\u00e7ou a escrever muito cedo, sua linguagem, embora singela e irretoc\u00e1vel, revela uma originalidade enorme e um perene apelo jovem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Se Caio seguisse escrevendo hoje, quais temas, sup\u00f5e, que seriam os de interesse dele? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> Caio estava sempre muito atento a tudo. Era um escritor pol\u00edtico, no sentido largo da palavra, via a vida como um todo, nunca deixou de criticar os problemas da nossa gera\u00e7\u00e3o; lutou \u00e0 sua maneira contra a ditadura e todos os seus males. O mais incr\u00edvel \u00e9 que parece que o Brasil n\u00e3o mudou. Costumo dizer que ele era meio vidente por ter sido um dos primeiros a falar de ecologia, dos venenos do capitalismo, das quest\u00f5es de g\u00eanero, temas que hoje s\u00e3o muito presentes em nosso cotidiano. V\u00e1rios assuntos que ele abordava ainda est\u00e3o a\u00ed, a serem resolvidos. Crise econ\u00f4mica, corrup\u00e7\u00e3o, descuido com a vida no planeta, polui\u00e7\u00e3o, desmatamento, o eterno retorno, o desencanto da juventude diante de tudo isso. Ele tinha um olhar agudo e muito focado em rela\u00e7\u00e3o a esses problemas e acredito que continuasse assim. E como seu trabalho era autobiogr\u00e1fico, de sorte que ele era o her\u00f3i de suas pr\u00f3prias f\u00e1bulas, certamente estaria falando da velhice, da maturidade, ainda buscando o amor e sofrendo com a falta dele, em tempos conturbados e escuros como os que vivemos. Da\u00ed o t\u00edtulo do meu livro. \u201cNuma hora assim escura\u201d \u00e9 uma frase que encontrei numa carta dele \u00e0 Hilda escrita nos anos 70, ainda t\u00e3o atual. \u00c9 isso que faz dele um cl\u00e1ssico: seus textos se referem a quest\u00f5es humanas que n\u00e3o t\u00eam prazo de validade, s\u00e3o eternas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Ao fim, voc\u00ea conclui que Hilda estava sempre \u00e0 procura de Deus, e Caio escrevendo sobre amor. O que lhe conduziu a esse pensamento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> Essa busca por Deus e pelo amor \u00e9 universal, e est\u00e1 bem evidente na obra deles. E tanto em rela\u00e7\u00e3o ao amor quanto a Deus, Caio e Hilda tinham sentimentos semelhantes: acreditavam duvidando. Dizem isso em muitas entrevistas. Caio adorava muitos deuses e pedia a eles: quero porque quero me casar. Perseguiu at\u00e9 o fim um amor realizado, mas zombava do pr\u00f3prio desejo garantindo que, se o tivesse encontrado, teria parado de escrever. No caso de Hilda, creio que desenvolveu como poucos uma linguagem extremamente coloquial com Deus e, nesse sentido, eu a comparo a Saramago, especialmente no conto que j\u00e1 citei, \u201cL\u00e1zaro\u201d, do\u201d Fluxo-Floema\u201d. Adoro esses versos dela, em \u201cMula de Deus\u201d, do livro \u201cEstar sendo, Ter sido\u201d, cujo in\u00edcio \u00e9 assim:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO<br \/>\nAlta, dourada, me pensei.<br \/>\nN\u00e3o esta pardacim, o pelo fosco<br \/>\nPois h\u00e1 de rir-se de mim O PRECIOSO.<\/p>\n<p>Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO<br \/>\nLavei com a l\u00edngua os cascos<br \/>\nE as feridas. Sanguinolenta e viva<br \/>\nEsta do dorso<br \/>\nA cada dia se abre carmesim.<\/p>\n<p>Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.<br \/>\n\u00c9 raro, em sendo mula, ter a chaga<br \/>\nE ao mesmo tempo<br \/>\nApar\u00eancia de limpa partitura<br \/>\nE perfume e frescor de terra arada[&#8230;]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DA &#8211; Talvez a pergunta mais dif\u00edcil tenha ficado por \u00faltimo: qual o seu texto preferido de Caio Fernando Abreu?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULA DIP &#8211;<\/strong> Quando a gente convive de perto com um artista e desenvolve certa intimidade com a obra dele, fica dif\u00edcil pin\u00e7ar favoritos. \u00c9 claro que, pelo fato de ter visto nascer os contos de \u201cMorangos mofados\u201d, eu tenho um xod\u00f3 por esse livro (que, ali\u00e1s, \u00e9 sua obra mais conhecida), e um carinho especial pelo conto \u201cPela passagem de uma grande dor\u201d, que ele me dedicou. Am\u00e9m. Trata-se do relato po\u00e9tico de uma conversa telef\u00f4nica entre dois amigos, que realmente aconteceu. Caio fazia uma literatura de autofic\u00e7\u00e3o, contou nossa hist\u00f3ria a partir de fatos e pessoas reais, posso nos ver e a muitos de nossos amigos naquelas hist\u00f3rias. Foi um cronista fiel da nossa gera\u00e7\u00e3o de baby boomers, hippies, yuppies, punks, revolucion\u00e1rios, loucos, criativos; mudamos o mundo e estamos envelhecendo. Ele construiu uma obra coesa e muito representativa daqueles anos loucos que temos o privil\u00e9gio de rever. Somos a primeira gera\u00e7\u00e3o realmente vintage.\u00a0 Aos poucos, a partir do nosso encontro, ele foi me presenteando com seus primeiros livros, dos anos 60 e 70, como o \u201cInvent\u00e1rio do irremedi\u00e1vel\u201d, \u201cPedras de Calcut\u00e1\u201d, \u201cO ovo apunhalado\u201d. Caio era um escritor generoso, dividia com os amigos suas d\u00favidas sobre o trabalho, nos mostrava rascunhos, alguns textos nos entregava em m\u00e3os, tenho at\u00e9 hoje originais que ele me deu e j\u00e1 reli milhares de vezes. Li tudo o que Caio escreveu, desde as cartas e as cr\u00f4nicas, passando pelos contos, os textos teatrais e os dois romances, \u201cLimite Branco\u201d e \u201cOnde andar\u00e1 Dulce Veiga?\u201d; o primeiro, seu romance de forma\u00e7\u00e3o dos anos 70, e o \u00faltimo, dos anos 90, sua despedida do g\u00eanero. Adoro \u201cPequenas epifanias\u201d, \u201cCartas para al\u00e9m dos muros\u201d, \u201cOs drag\u00f5es n\u00e3o conhecem o para\u00edso\u201d. Quanto \u00e0 dramaturgia, meu texto favorito \u00e9 \u201cPode ser que seja s\u00f3 o leiteiro l\u00e1 fora\u201d, pe\u00e7a escrita em Londres, em 1973.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa entrevista exclusiva, a jornalista Paula Dip fala sobre sua amizade com Caio Fernando Abreu e a import\u00e2ncia do legado do escritor <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13197,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3238,16,2539],"tags":[302,3245,8,1023],"class_list":["post-13196","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-116a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-caio-fernando-abreu","tag-paula-dip","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13196","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13196"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13196\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13343,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13196\/revisions\/13343"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13197"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}