{"id":13259,"date":"2017-02-13T10:59:03","date_gmt":"2017-02-13T13:59:03","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13259"},"modified":"2017-04-05T08:10:07","modified_gmt":"2017-04-05T11:10:07","slug":"drops-da-setima-arte-28","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/drops-da-setima-arte-28\/","title":{"rendered":"Drops da S\u00e9tima Arte"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Guilherme Preger <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Eu, Daniel Blake. B\u00e9lgica, Fran\u00e7a, Reino Unido. <\/strong><strong>2016.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Cartaz.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13261\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Cartaz.jpg\" alt=\"\" width=\"303\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Cartaz.jpg 303w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Cartaz-202x300.jpg 202w\" sizes=\"auto, (max-width: 303px) 100vw, 303px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A prop\u00f3sito de <em>Eu, Daniel Blake<\/em>, \u00faltimo filme do diretor ingl\u00eas Ken Loach, ganhador da Palma de Ouro de Cannes em 2016, o ex-Secret\u00e1rio do Trabalho do governo conservador brit\u00e2nico, Iain Duncan Smith, disse que o filme era injusto com os trabalhadores do servi\u00e7o social ingl\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certo ou errado, o secret\u00e1rio do Partido Conservador julgou o filme pelo que poder\u00edamos denominar de \u201cpreconceito mim\u00e9tico\u201d: existiria um prot\u00f3tipo real do qual o filme \u00e9 apenas uma c\u00f3pia ou representa\u00e7\u00e3o de segunda m\u00e3o. O preconceito mim\u00e9tico repousa na cren\u00e7a de que o cinema pode ser apenas uma imagem mais ou menos fiel de outra imagem prim\u00e1ria, mais original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cinema sempre foi uma v\u00edtima preferencial desse preconceito, embora sua hist\u00f3ria tenha sempre sido de uma arte construtiva da imagem, arte menos de representa\u00e7\u00e3o e mais de cria\u00e7\u00e3o e de transforma\u00e7\u00e3o. As opera\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas do cinema, o corte e a sutura, s\u00e3o t\u00e9cnicas de incis\u00e3o e excis\u00e3o da imagem pelas quais a montagem comp\u00f5e um procedimento: o cinema \u00e9 um aparelho atrav\u00e9s do qual as imagens s\u00e3o diferenciadas, transformadas, alteradas e metamorfoseadas tecnicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cinema de realismo cr\u00edtico de Ken Loach habita perigosamente a zona est\u00e9tica desse engano centen\u00e1rio que confunde a imagem protot\u00edpica e a imagem secund\u00e1ria. Que realidade \u00e9 essa que o diretor traz ao espectador para que ele reflita e critique? Nos anos 60, o te\u00f3rico Roland Barthes afirmou, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura, que n\u00e3o havia romance ou escrita realista, mas apenas a escrita que gera um \u201cefeito de real\u201d. Por isso, a pergunta a respeito do cinema de Loach precisa ser deslocada: que efeitos de real nos trazem as imagens que suas c\u00e2meras operaram?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Blake (vivido pelo ator Dave Johns), carpinteiro, em sua meia idade tardia, fica desempregado ap\u00f3s um ataque card\u00edaco e se candidata a um beneficio social de sa\u00fade, por\u00e9m a per\u00edcia o considera apto, apesar de seu m\u00e9dico lhe ter proibido de trabalhar durante a recupera\u00e7\u00e3o. Enquanto espera recorrer do resultado da per\u00edcia, Blake \u00e9 obrigado a se candidatar ao estip\u00eandio de sal\u00e1rio-desemprego, mas para receber esse outro benef\u00edcio, ele precisa passar por uma qualifica\u00e7\u00e3o para entrevistas, montar e distribuir curr\u00edculos e comprovar que est\u00e1 procurando emprego, embora clinicamente esteja incapacitado para trabalhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esse roteiro, o filme guarda semelhan\u00e7as fort\u00edssimas com o filme franc\u00eas <em>O valor de um homem<\/em>, de Stephane Briz\u00e9 (2015).\u00a0 A semelhan\u00e7a entre os cen\u00e1rios ingl\u00eas (em Newscastle) e franc\u00eas refor\u00e7a a impress\u00e3o de estarmos assistindo a uma reprodu\u00e7\u00e3o fiel do contexto trabalhista europeu: a escassez de trabalho de um sistema econ\u00f4mico que produz desemprego e a destitui\u00e7\u00e3o de uma ideia de Estado de Bem-Estar social que deveria bancar o sistema de seguridade para acolher desempregados e incapacitados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme de Ken Loach (cujo roteiro foi escrito por seu colaborador frequente Paul Laverty) \u00e9 a narrativa de um giro em falso. Circulando entre a m\u00e1 vontade dos assistentes da seguridade, as esperas longas, irritantes e desmobilizadoras do servi\u00e7o de teleoperadoras e as complica\u00e7\u00f5es do mundo digital com as quais \u00e9 incapaz de lidar, Daniel Blake parece dar voltas sem sair do lugar.\u00a0 China, seu jovem vizinho, lhe adverte que o sistema far\u00e1 de tudo para que ele desista de solicitar aquilo que tem direito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, Daniel Blake cumpre seu caminho pacientemente. A certa altura, ele desabafa \u00e0 \u00fanica assistente que o escuta. Ambos estavam se enganando mutuamente: ele estava procurando empregos que n\u00e3o existiam e ela oferecia servi\u00e7os que o Estado n\u00e3o quer ou n\u00e3o pode mais oferecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_13262\" aria-describedby=\"caption-attachment-13262\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Dave-Johns-na-pele-de-Daniel-Blake-Foto-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13262 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Dave-Johns-na-pele-de-Daniel-Blake-Foto-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\" width=\"500\" height=\"305\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Dave-Johns-na-pele-de-Daniel-Blake-Foto-divulga\u00e7\u00e3o.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Dave-Johns-na-pele-de-Daniel-Blake-Foto-divulga\u00e7\u00e3o-300x183.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13262\" class=\"wp-caption-text\">Dave Johns na pele de Daniel Blake \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O contexto subjacente de <em>Eu, Daniel Blake<\/em> \u00e9 a da capitula\u00e7\u00e3o do Estado frente ao Capital.\u00a0 Estado que n\u00e3o quer mais cumprir seu papel de prote\u00e7\u00e3o social e quer despejar sobre os ombros dos trabalhadores a culpa por esta capitula\u00e7\u00e3o.\u00a0 Com isso, surge a farsa da procura por empregos que n\u00e3o existem, das per\u00edcias que n\u00e3o periciam, da qualifica\u00e7\u00e3o dos desqualificados ou incapacitados. O protagonista do filme, no entanto, \u00e9 aquele cuja dignidade \u00e9 a de n\u00e3o desejar participar dessa farsa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contra a fic\u00e7\u00e3o dos empregos que n\u00e3o existem e do Estado que \u00e9 apenas um subsidi\u00e1rio subalterno de um poder econ\u00f4mico maior e invis\u00edvel, <em>Eu, Daniel Blake<\/em> apresenta a narrativa do trabalhador que quer valer sua dignidade de cidad\u00e3o e da solidariedade cotidiana entre os trabalhadores. Daniel oferece sua ajuda, seu apoio e seus dotes de carpinteiro a Katie (Hayley Squires), m\u00e3e solteira <em>homeless<\/em> de dois filhos que tamb\u00e9m procura emprego. Numa das cenas mais pungentes do filme, ele a ajuda e a incentiva num momento em que Katie sucumbe de fome num centro de distribui\u00e7\u00e3o de cesta b\u00e1sica. Ele lhe diz que a fome n\u00e3o \u00e9 motivo para vergonha e que h\u00e1 dignidade em buscar alimentos para os filhos e em lutar por sua subsist\u00eancia.\u00a0 Nesse momento tamb\u00e9m aparecem as agentes sociais que realmente se mobilizam pelos necessitados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, \u00e0 farsa fict\u00edcia agenciada pelo conluio entre o Estado e o Mercado, Loach op\u00f5e o realismo do cora\u00e7\u00e3o debilitado de Daniel, da fome de Katie, e de uma solidariedade subterr\u00e2nea que se mant\u00e9m viva sob os escombros da pr\u00f3pria classe trabalhadora desmobilizada. No entanto, esse realismo \u00e9 antes aleg\u00f3rico, pois o cora\u00e7\u00e3o solid\u00e1rio de Blake \u00e9 tamb\u00e9m a imagem metaf\u00f3rica e contrastante do cora\u00e7\u00e3o ausente do sistema social desumano. E a solidariedade entre os trabalhadores \u00e9 o negativo do acordo esp\u00fario entre Capital e Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E h\u00e1 o fato de Daniel Blake ser um carpinteiro, o que projeta no filme uma forte resson\u00e2ncia religiosa crist\u00e3. Mas antes da sugest\u00e3o religiosa, h\u00e1 a evidente caracteriza\u00e7\u00e3o de Blake como um trabalhador h\u00e1bil com as m\u00e3os, com um saber ancestral e essencialmente anal\u00f3gico, mas tendo que lidar com um mundo digital, imaterial e aparelhado por corpora\u00e7\u00f5es que se escondem atr\u00e1s de sistemas informatizados. N\u00e3o \u00e9 um <em>gap<\/em> geracional que o filme aborda, mas um contraste de mundos e modos de exist\u00eancia radicalmente diferentes. Assim, a solidariedade trabalhista que surge nesse filme parece ser remanescente de um mundo que se extingue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No novo mundo do capital digitalizado e da capitula\u00e7\u00e3o do Estado, os sindicatos sequer s\u00e3o lembrados e os trabalhadores est\u00e3o entregues \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Por isso, o filme de Ken Loach n\u00e3o \u00e9 o retrato realista de uma \u00e9poca, mas uma f\u00e1bula humanista de fei\u00e7\u00f5es kafkianas, por suas armadilhas circulares e procuras absurdas. F\u00e1bula que faz aparecer as imagens que est\u00e3o exclu\u00eddas das configura\u00e7\u00f5es de poder dominantes, digitalizadas, algor\u00edtmicas e programadas, antes que essas imagens se tornem completamente esquecidas ou absolutamente ignoradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o final \u00e9: haver\u00e1 lugar para o humanismo cinematogr\u00e1fico de Ken Loach? O efeito de real dessa f\u00e1bula ser\u00e1 capaz de mexer com o cora\u00e7\u00e3o de sil\u00edcio do sistema? Numa cena emblem\u00e1tica do filme, Daniel Blake faz seu protesto na rua pichando o muro do pr\u00e9dio da seguridade social com seu nome e o de sua luta. \u00c9 aplaudido pelos transeuntes como um novo her\u00f3i. Se essa mesma cena ocorresse no Brasil, n\u00e3o faltaria talvez quem o acusasse de vandalismo. Estamos em tempos dif\u00edceis para o humanismo. Por isso, as imagens precisam se emancipar do presente para propor vers\u00f5es de mundos com outras rela\u00e7\u00f5es de afeto e de sociabilidade e dar nomes \u00e0s lutas que engendrar\u00e3o novas configura\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o-tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ob_uqy1aouk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Guilherme Preger<\/em><\/strong><em>, carioca, \u00e9 engenheiro e escritor. \u00c9 autor de Capoeiragem (7Letras\/2003) e Extrema L\u00edrica (Ed. Oito e Meio\/2014), e um dos organizadores do coletivo liter\u00e1rio Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das tr\u00eas colet\u00e2neas lan\u00e7adas pelo grupo. Atualmente, \u00e9 doutorando em Teoria Liter\u00e1ria da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproxima\u00e7\u00e3o entre Literatura e Ci\u00eancia. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um pr\u00eamio de cr\u00edtica liter\u00e1ria do Grupo Esta\u00e7\u00e3o e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O novo filme de Ken Loach aos olhos de Guilherme Preger<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13260,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3238,2535],"tags":[115,3257,13,1204,3256,2792],"class_list":["post-13259","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-116a-leva","category-drops-da-setima-arte","tag-cinema","tag-daniel-blake","tag-drops-da-setima-arte","tag-guilherme-preger","tag-ken-loach","tag-eu"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13259","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13259"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13259\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13321,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13259\/revisions\/13321"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13260"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}