{"id":13265,"date":"2017-02-13T11:05:44","date_gmt":"2017-02-13T14:05:44","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13265"},"modified":"2017-04-05T08:09:54","modified_gmt":"2017-04-05T11:09:54","slug":"dedos-de-prosa-ii-45","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-45\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Viviane de Santana Paulo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_13267\" aria-describedby=\"caption-attachment-13267\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_4961-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13267 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_4961-2.jpg\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_4961-2.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_4961-2-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_4961-2-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13267\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Antonio Paim<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Viver e morrer no facebook<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era uma vez ela \u2014, uma amiga no facebook. Ela era amiga de uma amiga minha e me pediu amizade. Cliquei. Registrou-se com o nome de Megami de Aiedi Timaeus. N\u00e3o sei se esse foi o seu nome verdadeiro, desconfio que n\u00e3o, por ser muito estranho e porque muitas pessoas se registram com nome fantasia mesclado ao verdadeiro. Fomos amigas durante uns quatro anos. Ela postava fotos da fam\u00edlia, dos amigos, das viagens, esbo\u00e7os do que pensava sobre determinado acontecimento, v\u00eddeos engra\u00e7ados, dizeres sobre sabedoria de vida. Soube que foi ao show do Caetano e l\u00e1 encontrou o ex-namorado (foto dela sorrindo ao lado de um rapaz sorrindo), come\u00e7ou a trabalhar em uma institui\u00e7\u00e3o cultural, depois de dois anos mudou de emprego, era secret\u00e1ria executiva em um banco, fez uma viagem a Roma e subiu a escadaria na Pra\u00e7a da Espanha (no anexo, mais 31 fotos que eu n\u00e3o abri), desmanchou o namoro com o namorado porque conheceu algu\u00e9m mais interessante no jantar da empresa (soube atrav\u00e9s de um coment\u00e1rio maldoso de uma amiga dela), casou-se com ele (fotos dela vestida de branco, segurando um buqu\u00ea de orqu\u00eddeas, o marido ao lado, homem bem apessoado, moreno, estatura mediana, de \u00f3culos e mais 95 fotos que eu n\u00e3o abri, e um v\u00eddeo no qual assisti os primeiros momentos em que ela entrava na igreja e dava o bra\u00e7o para o noivo), e passou a lua de mel em Buenos Aires (ela tomando caf\u00e9 no Tortoni, em frente \u00e0 fachada colorida de uma casa no La Boca, passeando na orla do Puerto Madero, comendo churrasco, tomando vinho e mais 46 fotos que eu n\u00e3o abri). Outros detalhes de sua vida eu soube, acompanhei algumas fotos: por do sol na praia de Santos, gato em cima do sof\u00e1, receitas de tortas de palmito, pudim de milho, tapioca, almo\u00e7os ou jantares com a fam\u00edlia, com amigos, caminhada na praia do Balne\u00e1rio de Cambori\u00fa, nova sand\u00e1lia de salto, dicas de restaurantes, de como se alimentar bem, receitas para dietas, v\u00eddeos de cachorros, de gatos, de papagaios, de tucanos, de beb\u00eas fazendo gra\u00e7a, de cidades estrangeiras, de li\u00e7\u00e3o de vida\u2026 e alguns coment\u00e1rios no facebook.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, no meio de v\u00e1rias postagens que eu recebo, vejo com espanto uma foto dela in memoriam. N\u00e3o sei como ela morreu, n\u00e3o sei por qual destas fatalidades repentinas ela foi acometida, se foi de c\u00e2ncer, acidente, aneurisma\u2026 Tinha trinta e quatro anos. Na foto ela possu\u00eda um sorriso sereno e o reflexo do sol banhava sua face, ao lado o cacho de uma orqu\u00eddea rosa vergava-se do vaso suspenso na parede de cor ocra. Imaginei ser a varanda de uma casa no campo. Ela n\u00e3o era bela nem feia, possu\u00eda um rosto comum, ovalado, os cabelos escuros meio ondulados, compridos at\u00e9 os ombros, a pele clara, as bochechas um pouco salientes, os olhos pequenos e escuros, os l\u00e1bios finos. E cliquei. Nunca nos encontramos, nunca troquei mensagens com ela no <em>inbox<\/em>. Cliquei em uma foto ou outra, em um v\u00eddeo ou outro, em um coment\u00e1rio ou outro. Na imagem in memoriam a fam\u00edlia e amigos expressavam condol\u00eancias. Postei as minhas e antes que surgissem fotos dela, recapitulando a sua vida, eu a exclu\u00ed do meu grupo. Afinal n\u00e3o era meu parente ou uma amiga \u00edntima!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que acompanhei a sua vida? O que estes detalhes da vida de um desconhecido t\u00eam a ver com a minha? Para que serve esta enxurrada de detalhes da vida alheia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre procuramos saber da vida alheia, por mais que nos conven\u00e7amos que n\u00e3o nos interessa. N\u00e3o \u00e9 bem assim, fora da nossa vida tudo faz parte da vida alheia, os filmes que assistimos, os livros que lemos, as pessoas que encontramos. Al\u00e9m da nossa vida, vivemos a vida alheia inconscientemente, apreendemos a realidade do outro de forma indireta e a integramos em nossa vida, em nossas opini\u00f5es, em nossas prefer\u00eancias, em nossa vis\u00e3o de mundo. Precisamos do outro, embora sejamos ego\u00edstas e egoc\u00eantricos. Mas sem o outro n\u00e3o temos como ser ego\u00edstas. Sem o outro estar\u00edamos pensando no outro o tempo todo. Com o outro pensamos no que somos, nos definimos atrav\u00e9s do outro. No entanto, meu contato com ela n\u00e3o foi do tipo que proporcionasse esta caracter\u00edstica. Hoje em dia n\u00e3o buscamos esta caracter\u00edstica, temos pregui\u00e7a de nos conhecermos e conhecer o outro e nos falta tempo. A amizade virtual permanece na superf\u00edcie e no nunca conhecer o outro como ele \u00e9 na vida real. Ela foi um punhado de imagens, frases sucintas e opini\u00f5es, v\u00eddeos, digitalizados e espor\u00e1dicos, ef\u00eameros como em um livro de enredo fragmentado, temas mesclados e incompletos \u2014, um livro mal lido e emprestado que voc\u00ea esquece de n\u00e3o ter recebido de volta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E sigo minha vida clicando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Viviane de Santana Paulo<\/em><\/strong><em> (S\u00e3o Paulo), poeta, tradutora e ensa\u00edsta, \u00e9 autora dos livros, Depois do canto do gurinhat\u00e3, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira &#8211; Poetas da d\u00e9cada de 2000 (Global Editora, S\u00e3o Paulo, 2009) e da Antolog\u00eda de poes\u00eda brasile\u00f1a (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em diversos jornais e revistas. Vive em Berlim.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcas virtuais num conto de Viviane de Santana Paulo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13266,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3238,2534],"tags":[81,41,3258,400],"class_list":["post-13265","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-116a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-viver-e-morrer-no-facebook","tag-viviane-de-santana-paulo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13265","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13265"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13265\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13268,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13265\/revisions\/13268"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13266"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}