{"id":13454,"date":"2017-04-03T11:01:09","date_gmt":"2017-04-03T14:01:09","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13454"},"modified":"2017-05-16T22:40:27","modified_gmt":"2017-05-17T01:40:27","slug":"dedos-de-prosa-iii-51","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-51\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Matheus Arcaro<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_13457\" aria-describedby=\"caption-attachment-13457\" style=\"width: 321px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Bianaca-LanaIn.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13457 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Bianaca-LanaIn.jpg\" alt=\"\" width=\"321\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Bianaca-LanaIn.jpg 321w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Bianaca-LanaIn-193x300.jpg 193w\" sizes=\"auto, (max-width: 321px) 100vw, 321px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13457\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Bianca Lana<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>At\u00e9 que a morte os separe<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cl\u00e1udio chega arrastando os olhos pelo ch\u00e3o. Sequer quando abre a porta do restaurante eles se op\u00f5em \u00e0 gravidade. Carrega sobre as p\u00e1lpebras anos de frustra\u00e7\u00e3o. Na l\u00edngua, as palavras deitadas pela covardia conferem um sabor s\u00f3rdido \u00e0s possibilidades n\u00e3o cultivadas. Por que demorei tanto? Ele precisa de uma resposta para alvejar a boca. Por\u00e9m, as respostas claras n\u00e3o existem na natureza, s\u00e3o constru\u00eddas por mentes que necessitam de algo est\u00e1vel.\u00a0 O acre da boca se intensifica quando pensa que a estabilidade da ponte entre Clarice e ele era apenas aparente. Por n\u00e3o atravess\u00e1-la com frequ\u00eancia, s\u00f3 via a regularidade do pavimento; n\u00e3o percebia a estrutura se corroendo sob os gestos e sorrisos complacentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os primeiros tempos de casamento n\u00e3o deixaram a expectativa acima dos fatos. Mas n\u00e3o demorou muito, as cores come\u00e7aram a desbotar e, quando ele tentou colorir o relacionamento, faltaram-lhe os dotes de artista. Fez um borr\u00e3o que foi se extenuando at\u00e9 restar uma camada praticamente impercept\u00edvel que, de certo modo, sustentou o la\u00e7o fraterno entre eles. Era avesso a trai\u00e7\u00f5es, respeitava Clarice. E estava seguro da reciprocidade desse sentimento. S\u00f3 n\u00e3o foi capaz de sentir que para o amor sobreviver \u00e9 preciso uma dose m\u00ednima de desrespeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quinta-feira, como se cumprisse uma obriga\u00e7\u00e3o herdada, ele estava sobre a esposa. Copiaria os mesmos movimentos das semanas anteriores se n\u00e3o sentisse o peito umedecer e ouvisse a voz entrecortada, o que estamos fazendo, Cl\u00e1udio? Ele tamb\u00e9m come\u00e7ou a chorar. Os dois rostos se colaram e misturaram-se as l\u00e1grimas de anos. Na manh\u00e3 seguinte, ele n\u00e3o acordou em sua cama. Antes de sair, insistiu para que se encontrassem dali a uma semana, onde tudo come\u00e7ou. Com um gesto emprestado, Clarice moveu lentamente a cabe\u00e7a para cima e para baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cl\u00e1udio sabe onde a esposa est\u00e1 sentada. No entanto n\u00e3o \u00e9 por isso que n\u00e3o ergue os olhos; \u00e9 porque sente medo de v\u00ea-la segura, asco de encontr\u00e1-la sustentada por si. Em verdade, sente-se como o suicida minutos antes de apertar o gatilho. A imin\u00eancia da perda, mesmo daquilo que ele acredita abdicar, faz transbordar no peito uma sensa\u00e7\u00e3o escura, espalhando o instinto de conserva\u00e7\u00e3o por todo o organismo: as m\u00e3os est\u00e3o molhadas, a boca seca, as orelhas quentes e os calafrios sobem e descem pela coluna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, enfim, levanta a cabe\u00e7a, as narinas se expandem. Com o vestido florido, Clarice parece costurada ao ambiente, cria\u00e7\u00e3o de um art\u00edfice desatento que colocara naquele sal\u00e3o sombrio uma escultura delicada. Os olhos dela escondem-se e mostram-se conforme o vento tira para dan\u00e7ar a mecha de cabelos cor de mel. A pele branca, que n\u00e3o se curvou ao tempo, exala maciez e um sabor de futuro chega aos l\u00e1bios do homem. Clarice n\u00e3o parece a mulher que na semana anterior repugnara-o na cama, mas a menina que estivera sentada ali dezessete anos antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez por isso as pernas de Cl\u00e1udio n\u00e3o se entendam entre si. H\u00e1 somente cinco mesas ocupadas, contudo \u00e9 como se o restaurante estivesse cheio de olhos voltados para ele. O homem n\u00e3o est\u00e1 preparado para conversar com uma menina, muito menos com a sua menina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cada passo, Cl\u00e1udio tenta pin\u00e7ar os fatos que poderiam salvar o relacionamento; refaz o percurso at\u00e9 chegar \u00e0 tarde de primavera em que vira Clarice pela primeira vez, naquela mesma mesa. Mas n\u00e3o consegue preencher os pensamentos e o vazio \u00e9 invadido por um homem que acaricia as m\u00e3os da sua esposa. Um homem que olha nos olhos dela e para quem Clarice consegue sorrir com algo mais do que a boca. Cl\u00e1udio agita as m\u00e3os como a crian\u00e7a que se recusa a compartilhar o brinquedo que desaprendera a usar. Clarice \u00e9 minha. S\u00f3 minha, ouviu bem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia da esposa com outro o carrega para o banheiro. O que devo dizer? O discurso ensaiado n\u00e3o parece veross\u00edmil. Molha a testa como se pudesse inchar os pensamentos com persuas\u00e3o, entretanto, diferentemente dos seus anseios, a \u00e1gua traz a imagem de um velho nu, deitado em posi\u00e7\u00e3o fetal no centro da cama redonda. S\u00f3 h\u00e1 a cama branca no quarto enorme. Ele invoca o nome de Clarice, atravessa as madrugadas por grit\u00e1-la at\u00e9 as costelas engolirem o abd\u00f4men, mas s\u00f3 ouve o eco da pr\u00f3pria voz. Entra no banheiro um senhor que cumprimenta Cl\u00e1udio com um movimento de cabe\u00e7a. Ele retribui o sinal. O velho come\u00e7a a gesticular, emitir grunhidos e apontar para a sa\u00edda. Cl\u00e1udio se desespera, foge do mudo e encosta sem ar na porta. Por\u00e9m, n\u00e3o pode escapar da certeza de que nada do que falar para Clarice mudar\u00e1 o que est\u00e1 decidido. Uma decis\u00e3o que vem sendo enrijecida ao longo dos \u00faltimos anos e que palavra alguma ter\u00e1 o poder de perfurar. \u00c9 tarde demais: a aproxima\u00e7\u00e3o da verdade traz o negrume aos seus olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se chegasse ao matadouro, Cl\u00e1udio se aproxima da mesa. Adormecida dentro de si, Clarice continua girando o canudo enfiado no suco de morango n\u00e3o sorvido, mesmo enquanto ele se senta. Um sil\u00eancio r\u00edgido perdura por longos segundos at\u00e9 que ele pede uma cerveja ao gar\u00e7om, que prontamente o atende. A cerveja desce agarrada \u00e0 garganta como se n\u00e3o quisesse fazer parte daquele corpo vencido. Os olhos de Cl\u00e1udio percorrem o restaurante: o que v\u00ea n\u00e3o se assemelha ao conte\u00fado entalhado na mem\u00f3ria. Tudo agora \u00e9 \u00e1spero demais, esnobe demais. Ele, ent\u00e3o, fixa a vista em Clarice como se desejasse prender aquele instante na superf\u00edcie dos olhos, ciente que nunca mais ele seria seu. Procura em si palavras n\u00e3o nascidas, revira o vocabul\u00e1rio, mas nada de substancial desce \u00e0 l\u00edngua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 As paredes n\u00e3o eram assim t\u00e3o escuras&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Acho que n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trocam ainda umas frases sem tonalidade. Cl\u00e1udio se d\u00e1 conta do que Clarice sabia antes de se sentar ali: as palavras s\u00e3o desnecess\u00e1rias nos vel\u00f3rios. Ainda mais nos vel\u00f3rios tardios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Condenado \u00e0 liberdade<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u201cTerei que correr o sagrado risco do acaso.<\/em><br \/>\n<em>E substituirei o destino pela probabilidade.\u201d<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Clarice Lispector<em>, A paix\u00e3o segundo GH<\/em>)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u00a0<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou aqui h\u00e1 oito dias e alguns meses. Quantos meses? N\u00e3o sei ao certo. At\u00e9 a semana passada o calend\u00e1rio n\u00e3o passava de mais uma inven\u00e7\u00e3o vencida. O que sei \u00e9 que estou nesta cela h\u00e1 tempo insuficiente. Est\u00e1 me ouvindo, Pagu? Parece mais peluda hoje, as patas maiores. Patas peludas e firmes, feitas para caminhar pelo teto, de onde voc\u00ea me v\u00ea como sou e n\u00e3o como parecia ser. Antes de me atirarem neste cub\u00edculo eu estava pronto, homem modelar. Sabia o que tinha que fazer. E fazia. E refazia. Usava o livre-arb\u00edtrio para alcan\u00e7ar a verdade que esperavam de um homem alto, 38 anos, cabelos grisalhos, chefe de fam\u00edlia, empres\u00e1rio. Eu era. At\u00e9 me enfiarem aqui. S\u00f3 que eles se enganaram, Pagu. Todos eles. Ao me isolarem na solit\u00e1ria, n\u00e3o me privaram da liberdade. Privaram-me do que acreditam ser a liberdade, no que igualmente eu acreditava. Mas foi s\u00f3 aqui que conheci a verdadeira face da liberdade meses atr\u00e1s: a chuva lavava os telhados; embora a cela estivesse tomada pelo h\u00e1lito da penumbra, da minha cama vi a gota reluzindo no teto: as l\u00e1grimas come\u00e7aram a desabrochar da alta fenda e despeda\u00e7aram-se no ch\u00e3o. Comecei tamb\u00e9m a chorar. N\u00e3o somente porque fora educado a repetir, desta vez era diferente. O pranto, sem o solu\u00e7o da dor, acordou o sorriso que h\u00e1 tempos n\u00e3o visitava meu rosto. A goteira ficou espessa, eu precisava entrar naquela torrente. Arranquei o macac\u00e3o encardido, as meias, a cueca e corri para misturar minhas l\u00e1grimas com as do teto. E da \u00e1gua, antes transl\u00facida, brotou uma esp\u00e9cie de corrente, mas cujo desenho, j\u00e1 n\u00e3o mais aquoso, foi aos poucos tomando a forma de&#8230; uma mulher! E como era maravilhosa. Linda o suficiente para um encantamento que me afogou numa emo\u00e7\u00e3o sem precedentes. Uma mulher de olhos ruivos. Quem \u00e9 voc\u00ea? Sem dizer uma palavra, ela puxou minha pele, que facilmente se descolou da carne, feito estas paredes que voc\u00ea conhece t\u00e3o bem. Depois, os m\u00fasculos e os \u00f3rg\u00e3os dissolveram-se com seu sopro: em instantes, eu era duas retinas suspensas e um cora\u00e7\u00e3o pululando. Voc\u00ea n\u00e3o viu isso, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Acho que sequer era nascida. Pela primeira vez na vida eu era imperfeito. Incompleto. A partir deste banho, virei o avesso de Deus, um ser \u00e9brio e imberbe, sem natureza (nem divina, nem humana), que n\u00e3o passa de cria\u00e7\u00e3o! L\u00e1 fora, eu fora criado, avental e touca, servindo diariamente peda\u00e7os da minha vida ao destino. Ele comia, se lambuzava e, quando se dava por satisfeito, atirava os restos dentro de moldes constru\u00eddos pelos Guardi\u00f5es da Esperan\u00e7a. S\u00f3 que aqui, Pagu, neste ret\u00e2ngulo de seis metros quadrados, aprendi, como voc\u00ea, a arrancar do meu peito o fio sobre o qual eu passeio sem sair de mim. Mas terei que sair daqui a pouco. \u00c9 o que diz na carta que o carcereiro me entregou semana passada. Envelope ocre, papel timbrado com as iniciais do doutor que conhece as v\u00edsceras da lei: \u201cIlmo. senhor Pedro, o pedido de soltura foi deferido; o senhor sair\u00e1 em oito dias\u201d. Eu contratei esse advogado? Para qu\u00ea?\u00a0 Sua efici\u00eancia arremessou meu avesso \u00e0 boca do desespero: \u00e0 medida que os novos dias engoliam os velhos, o temor escorria do peito aos membros: as pernas estrangeiras do corpo, os bra\u00e7os rigidamente esticados ao longo do tronco. A lembran\u00e7a de antes da solit\u00e1ria deixava meu futuro anestesiado. N\u00e3o, n\u00e3o posso mais voltar a ser como aqueles senhores que caminham ao lado da vida; n\u00e3o suporto mais vestir a m\u00e1scara que cada situa\u00e7\u00e3o suplica; n\u00e3o quero mais enfiar meus sentimentos num saco sujo. Jamais imaginei que poderia arrancar as boias que me prendiam \u00e0 minha superf\u00edcie. Ali\u00e1s, nunca cogitei a exist\u00eancia dessas boias. Foi somente aqui que me tornei um abismo negro, \u00famido e c\u00e1lido por onde caio sem eri\u00e7ar os pelos e, em cada cent\u00edmetro, encontro os andaimes frouxos, as entranhas e as arestas que n\u00e3o quero mais aparar. Antes de os homens fardados me buscarem em casa naquela manh\u00e3 ensolarada, eu percorria, de cabe\u00e7a erguida, um caminho marcado com tinta indel\u00e9vel; por isso n\u00e3o enxergava o tra\u00e7ado. Aqui aprendi a dan\u00e7ar sobre a minha hist\u00f3ria que escrevo a l\u00e1pis em p\u00e1ginas sem pautas, dan\u00e7arino surdo carregado pelo ritmo da respira\u00e7\u00e3o. Aqui consegui ouvir a vida gritando em meus pulsos, consegui apanhar a eternidade em cada \u00e1timo e solt\u00e1-la para que tudo n\u00e3o passe de possibilidades. \u00c9, Pagu, o mundo \u00e9 pequeno demais; eu s\u00f3 caibo nesta cela. Por\u00e9m, desde que recebi aquele papel p\u00e1lido, o cheiro inebriante que irrompia dos meus poros n\u00e3o frequenta mais minhas narinas. Naquele momento comecei a registrar os dias na pele com a ponta do canivete. N\u00e3o me olhe assim. Coagido pela lei, tive que aguardar a oitava manh\u00e3 e ela nasceu chorando como se compartilhasse com o meu esp\u00edrito o estado ag\u00f4nico de quem est\u00e1 prestes a ser aprisionado. Ou\u00e7o os passos do carcereiro marcados pelo balan\u00e7ar das chaves, ele est\u00e1 vindo abrir a cela, provavelmente com os dentes \u00e0 mostra. O que farei? Permanecerei abra\u00e7ado \u00e0s grades implorando que me deixe aqui? Gritarei, Excelent\u00edssimo senhor Juiz, eu me declaro culpado, sou uma amea\u00e7a \u00e0 sociedade? Subornarei o diretor da cadeia? N\u00e3o, nada disso funcionar\u00e1. Irei, mas nem vou me despedir de voc\u00ea, porque darei um jeito de voltar ainda hoje. Ainda hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sentido<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Se eu fosse uma \u00e1rvore entre as \u00e1rvores, gato entre os animais, a vida teria um sentido.<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Albert Camus<em>, O Mito de S\u00edsifo<\/em>)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>N\u00e3o quero ter a terr\u00edvel limita\u00e7\u00e3o de quem vive apenas do que \u00e9 pass\u00edvel de fazer sentido.<\/em><br \/>\n<em>Eu n\u00e3o: quero uma verdade inventada.<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Clarice Lispector, <em>\u00c1gua viva<\/em>)<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o vai buscar um sentido pra tua vida. Vai e me deixa com meus livros incompletos e meu mundo sem parapeitos. Com meus peda\u00e7os de presente que s\u00e3o, ao menos, mais intensos que o teu futuro cintilante. N\u00e3o tenho a pretens\u00e3o de unidade, querida. H\u00e1 tempos a ilus\u00e3o n\u00e3o me lan\u00e7a os olhos. Eu te admiro muito, fica sabendo. Iludir-se \u00e9 uma d\u00e1diva. \u00c9 preciso muita coragem pra desviar assim dos fatos. Mas agarrar-se \u00e0 maior lasca de madeira quando se sabe que o resgate n\u00e3o chegar\u00e1 a tempo, n\u00e3o faz de ti um ser sagaz. Sabes por qu\u00ea? Porque tu jamais te perguntas sobre a necessidade do resgate. E eu, Samanta, n\u00e3o preciso ser salvo. Prefiro nadar at\u00e9 perder as for\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o quero escrever \u201cpai\u201d com letra mai\u00fascula somente pra me sentir protegido. N\u00e3o quero levantar a cabe\u00e7a pra desviar a vista das vicissitudes da terra. Contemplar as pr\u00f3prias v\u00edsceras \u00e9 demais pro teu est\u00f4mago fr\u00e1gil, n\u00e3o \u00e9? Por\u00e9m o rem\u00e9dio que tomas pra esvanecer a vida apenas disfar\u00e7a a doen\u00e7a que se alastra sob a tua pele. Nunca percebeste que no dia seguinte \u00e0 festa, se aceita melhor em frente ao espelho aquele que n\u00e3o carregou a cara de tinta? N\u00e3o h\u00e1 como esconder o tempo, amor. Mas tu insistes em pedir sil\u00eancio \u00e0s engrenagens da vida. Insistes em colocar um peda\u00e7o de felicidade na ponta da vara amarrada \u00e0s costas. Onde tu queres chegar, Frederico, tu esbravejas com a boca branca. Eu te devolvo uma pergunta que fica flutuando, sem for\u00e7a pra atingir teus t\u00edmpanos: existe esse \u201conde\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 nada mais dif\u00edcil que convencer algu\u00e9m sobre o \u00f3bvio. A imagem \u00e9 t\u00e3o grande \u00e0 frente dos olhos que fica indiscern\u00edvel; \u00e9 como o peixe que jamais se d\u00e1 conta de que cumpre sua sina no oceano. O que te separa de uma prostituta? As duas se entregam em troca de conforto e seguran\u00e7a. A diferen\u00e7a \u00e9 que travestiram tua atividade de dec\u00eancia. Tu \u00e9s necess\u00e1ria \u00e0 ordem. \u00c9s necess\u00e1ria pra manuten\u00e7\u00e3o do que deve ser mantido. Mas h\u00e1 tantas janelas, Samanta! Por que abrir apenas uma e se conformar com a penumbra? Pra que construir apartamentos quando se pode comprar um bal\u00e3o por bem menos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou te confessar uma coisa: n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel engolir as l\u00e1grimas pra transmitir serenidade. N\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel dormir \u00e0s onze horas e acordar \u00e0s sete ainda com a rodela de pepino sobre os olhos. N\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel usar roupa social no ver\u00e3o. O que h\u00e1 de natural em rir de uma piada de mau gosto s\u00f3 porque o chefe a contara?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o mundo sobre as costas, tu te conformas com o al\u00edvio de tirar o sapato ao fim do dia. N\u00e3o te passa pela cabe\u00e7a que possa ter algo de sensato em eu n\u00e3o querer usar sapatos apertados? Que eu prefira dan\u00e7ar a correr? Pois, sim, prefiro dan\u00e7ar descal\u00e7o em c\u00edrculos at\u00e9 as pernas pedirem pausa. Dan\u00e7ar por dan\u00e7ar, tu perguntarias. E eu, sem vontade na voz, responderia: vai procurar o teu sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Matheus Arcaro<\/em><\/strong><em> \u00e9 professor de Filosofia, artista pl\u00e1stico e, principalmente, escritor. Tem dois livros publicados: um de contos, &#8220;Violeta velha e outras flores&#8221; (Patu\u00e1, 2014), e o romance &#8220;O lado im\u00f3vel do tempo&#8221; (Patu\u00e1, 2016). Tem textos publicados nos sites Mallarmargens e Germina, al\u00e9m de ser colunista dos portais L\u00edngua de Trapo, Educa Dois e LiteraturaBr. \u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pung\u00eancia intimista dos contos de Matheus Arcaro <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13456,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3269,2534],"tags":[3287,3288,419,41,3286,152],"class_list":["post-13454","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-117a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-ate-que-a-morte-os-separe","tag-condenado-a-liberdade","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-matheus-arcaro","tag-sentido"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13454","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13454"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13454\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13468,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13454\/revisions\/13468"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13456"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13454"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}