{"id":13508,"date":"2017-04-03T18:06:05","date_gmt":"2017-04-03T21:06:05","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13508"},"modified":"2017-05-16T22:39:41","modified_gmt":"2017-05-17T01:39:41","slug":"dedos-de-prosa-ii-46","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-46\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Tatiana Faia<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_13509\" aria-describedby=\"caption-attachment-13509\" style=\"width: 346px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13509 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/1.jpg\" alt=\"\" width=\"346\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/1.jpg 346w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/1-208x300.jpg 208w\" sizes=\"auto, (max-width: 346px) 100vw, 346px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13509\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Bianca Lana<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tudo o que n\u00e3o tem rem\u00e9dio<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha t\u00e3o pouca energia que pensei at\u00e9 em apanhar o autocarro para percorrer a rid\u00edcula dist\u00e2ncia de seiscentos metros entre o posto de sa\u00fade e a farm\u00e1cia. A farm\u00e1cia ocupa boa parte de um quarteir\u00e3o e vende tudo e mais alguma coisa que ocupe o espectro de produtos e servi\u00e7os entre os cosm\u00e9ticos, a morfina, e a impress\u00e3o de fotografias. Enquanto esperava na fila, ela deu-me uma pancadinha no ombro. Por aqui? Est\u00e1s bem? Explico-lhe que hoje sou uma personagem num filme de Woody Allen, nada est\u00e1 bem e tudo me aflige: uma gripe, um abcesso num dente, uma alergia em redor da boca que me anestesia o queixo. Paramos de falar porque me chamam para ir levantar a receita. Ela desaparece entre as sucessivas estantes de produtos enquanto eu espero e respiro de al\u00edvio. Penso de imediato em adoptar o meu subterf\u00fagio t\u00edpico, desaparecer sem me fazer notar. Entendo ser esta uma das manifesta\u00e7\u00f5es mais naturais da minha misantropia, com a vantagem de ser amb\u00edgua o suficiente para n\u00e3o permitir que o visado alguma vez se sinta inteiramente ofendido. Mas assim que me aproximo da promessa de luz das escadas rolantes, ela emerge sinistramente do quarteir\u00e3o dos comprimidos de alergias. O que \u00e9 que se est\u00e1 a passar ao certo contigo, \u00e9 o que ela quer saber. Exactamente como num filme de Woody Allen, isso eu s\u00f3 vou saber quando a ac\u00e7\u00e3o chegar ao fim. Tenho dificuldade em explicar isto a pessoas pragm\u00e1ticas como ela, mas o inteiro significado de certas coisas que tenho vivido tende a levar um longo tempo at\u00e9 acertar contas comigo e o facto de que ultimamente n\u00e3o tenho escrito nada s\u00f3 adensa essa falta de percep\u00e7\u00e3o. Claro que o que ela quer saber \u00e9 o que eu tenho escrito ultimamente e onde tenho publicado e eu vai para um ano e meio que nada, nem uma linha, bem, h\u00e1 os poemas, mas eu nunca consegui arrumar isso muito bem na categoria de escrever, e, de resto, ningu\u00e9m quer ouvir falar desses textos e \u00e9 muito raro eu discuti-los com algu\u00e9m. Enquanto trocamos inanidades eu noto que ela perdeu peso, noto que quando a conheci h\u00e1 dois anos num curso organizado noutro pa\u00eds, quando pass\u00e1mos duas semanas sentadas na mesma sala de aulas e a correr de teatro em teatro e de bar em bar e eu a vi brincar no mar como uma crian\u00e7a, ela n\u00e3o era bem esta pessoa aqui \u00e0 minha frente. Ela deve estar agora na segunda metade dos vinte, vinte cinco ou vinte seis anos, e temos em comum o termos, entretanto mudado de \u00f3culos, noto que na Gr\u00e9cia ela falava ingl\u00eas com sotaque americano e que aqui fala ingl\u00eas com sotaque brit\u00e2nico, com um res\u00edduo lev\u00edssimo de um sotaque que ningu\u00e9m poderia associar ao italiano original, enquanto eu, um pouco numa corruptela de algo que E\u00e7a escreveu, fa\u00e7o sempre quest\u00e3o de que o meu sotaque se note, mesmo que as inflex\u00f5es da pros\u00f3dia do ingl\u00eas brit\u00e2nico me sejam agora mais do que exaustivamente familiares. Mas o meu objectivo n\u00e3o \u00e9 confundir-me com a paisagem ou erodir a minha pr\u00f3pria estranheza ou tentar camuflar o facto do meu estatuto estrangeiro. Daqui a dez minutos, quando eu e ela nos sentarmos no caf\u00e9, o sotaque dela vai vir ao de cima uma vez e apenas uma vez, ao tentar pronunciar a complicada palavra <em>xenophobia<\/em>, um desafio pros\u00f3dico \u00e0 altura desta mulher despachada e inteligente por quem, n\u00e3o sentindo verdadeiramente simpatia, n\u00e3o consigo deixar de sentir empatia, e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por causa do que escreveu Sebald em <em>Emigrantes<\/em>, que os emigrantes naturalmente se aproximam uns dos outros. Isto para dizer que sigo alimentando as minhas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es, que depois de come\u00e7armos a conversar na farm\u00e1cia eu n\u00e3o consegui n\u00e3o a convidar para beber um caf\u00e9, apesar da febre e do cansa\u00e7o. Ela aceita imediatamente a minha proposta com entusiasmo, enquanto penso que \u00e9 errado estar aqui a ter uma conversa, num dia em que n\u00e3o fui trabalhar por me sentir doente e esta jovem mulher que me \u00e9 familiar sem nunca deixar de me ser estranha me explica que desde a \u00faltima vez que fal\u00e1mos se casou, mas que o marido, entretanto voltou para It\u00e1lia, para entregar a tese de doutoramento e, porque, claro, n\u00e3o conseguia arranjar trabalho aqui. Este caf\u00e9 em St. Michael Street h\u00e1-de ser o mesmo h\u00e1 quarenta anos. Recordo-me de que, ao contr\u00e1rio da amizade que quase de imediato me ligou a algumas pessoas naquele curso, nunca me consegui sentir verdadeiramente pr\u00f3xima dela, e penso que provavelmente nunca nos tornaremos amigas em parte por causa da cat\u00e1strofe da minha personalidade, em parte porque h\u00e1 nela uma imaturidade profundamente simp\u00e1tica que adensa a minha impaci\u00eancia, que me deixa ver um pouco do meu pr\u00f3prio desd\u00e9m, e ao mesmo tempo, da minha resist\u00eancia, na aten\u00e7\u00e3o com que discutimos a actual conjuntura pol\u00edtica, a incerteza do futuro, at\u00e9 mesmo o reconhecimento de que h\u00e1 semanas que n\u00e3o me era t\u00e3o f\u00e1cil ter uma conversa inteligente com algu\u00e9m, sem, no entanto, ser capaz de me iludir a mim pr\u00f3pria e vir agora aqui apontar cobardemente, diariozinho, que nada disto \u00e9 da ordem da amizade fraternal, perto do perfeito arqu\u00e9tipo plat\u00f3nico da coisa real, onde est\u00e1 bem vivo o tipo de di\u00e1logo pelo qual at\u00e9 a mais est\u00fapida conjuntura pol\u00edtica que tem animado este pa\u00eds no \u00faltimo ano se podia corrigir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Tatiana Faia<\/em><\/strong><em>. Portugal (1986). Vive e trabalha em Oxford. \u00c9 doutorada em Literatura Grega Antiga com uma tese sobre a Il\u00edada de Homero (Back Across the Barrier of the Teeth. Studies on Homeric Characters: The Iliad). \u00c9 autora de dois livros de poemas: Lugano (2011) e teatro de rua (2013). Os seus contos, ensaios, poemas e tradu\u00e7\u00f5es podem ser lidos, entre outros lugares, em A Sul de Nenhum Norte, \u00cdtaca, Caderno: Enfermaria 6, Modo de Usar &amp; Co., Col\u00f3quio\/Letras e Rel\u00e2mpago.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recorda\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es na prosa vivaz de Tatiana Faia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13511,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3269,2534],"tags":[3303,149,3301,3302],"class_list":["post-13508","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-117a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-enfermaria-6","tag-prosa","tag-tatiana-faia","tag-tudo-o-que-nao-tem-remedio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13508","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13508"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13508\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13510,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13508\/revisions\/13510"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13508"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13508"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13508"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}