{"id":13629,"date":"2017-05-15T11:45:10","date_gmt":"2017-05-15T14:45:10","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13629"},"modified":"2017-06-30T15:22:25","modified_gmt":"2017-06-30T18:22:25","slug":"dedos-de-prosa-iii-52","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-52\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Andr\u00e9 Mellagi<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_13630\" aria-describedby=\"caption-attachment-13630\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/mares_05_krisfoltran.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13630 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/mares_05_krisfoltran.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"332\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/mares_05_krisfoltran.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/mares_05_krisfoltran-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13630\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Kristiane Foltran<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vest\u00edgios<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrei novamente na casa e investigo o sil\u00eancio que retorna ap\u00f3s trancar a porta. Derrotado, mais uma vez o vazio preenche cada mob\u00edlia da sala intocada. Desde que voc\u00ea foi embora, a poltrona permanece mutilada em seu lugar e os corredores j\u00e1 n\u00e3o ecoam mais seus passos descal\u00e7os. Foi in\u00fatil tentar recuperar a pet\u00fania; h\u00e1 dias suas m\u00e3os n\u00e3o dosavam a \u00e1gua e a entrada da luz que evitariam uma outra presen\u00e7a sua a se despedir da casa. A sua m\u00fasica, que antes me aborrecia e lhe concentrava sentada na poltrona incompleta, agora eu a suportava como um cubo m\u00e1gico que desisti de decifrar, mas que insistia em combinar cores e tonalidades avessas. Os copos sem batom, os cinzeiros limpos e os filmes de cinema perdidos no jornal sem as sublinhas de esferogr\u00e1fica, eram assinaturas de giz no asfalto apagadas pela chuva. Sabia que estava pr\u00f3ximo \u00e0 cozinha quando o cheiro de canela misturava-se ao odor de alm\u00edscar, mas que agora atravesso despercebido at\u00e9 abrir e fechar a geladeira sem decidir por nada. Nenhuma presilha restava nas gavetas como uma pe\u00e7a arqueol\u00f3gica, e nenhum papel sobre a mesa continha os desenhos rupestres de suas letras escorregando uma anota\u00e7\u00e3o pelo telefone. Foi uma explos\u00e3o que acendeu, um trov\u00e3o que uivou; agora s\u00e3o sombras que avan\u00e7am, mudez que cala. Sobrou apenas comigo a antiga fotografia guardada que escondia, entre os cabelos desalinhados entrela\u00e7ando dois rostos a sorrir numa pra\u00e7a desfocada, o movimento que se distende antes e depois daquele instante, a lembran\u00e7a amarelecida de unhas peroladas, sorvete de creme e toalhas molhadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Testamento de \u00cdcaro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta \u00e0 mesma esquina por onde \u00cdcaro passou, estava novamente defronte \u00e0 loja de 1,99 e perdido. As muralhas envidra\u00e7adas dos pr\u00e9dios domesticavam sua vis\u00e3o nas ruas estreitas da cidade, que perfurava cartazes e olhares desviantes. \u00c0s vezes, estes olhares irrompiam em desejo e viol\u00eancia, depois se esqueciam. Os carros seguiam a correnteza arterial dos viadutos e avenidas, sem encontrar um escoadouro que levasse a uma sa\u00edda do labirinto. \u00cdcaro olhou para o pr\u00e9dio mais alto. A maior lembran\u00e7a de sua inf\u00e2ncia, quando subiu pela primeira vez sozinho a copa de uma oliveira em Creta, foi a alegria ainda maior na face de seu pai. Mais uma vez, queria mostrar a D\u00e9dalo que saberia decifrar aquele labirinto. De nada adiantavam os mapas que abstra\u00edam os quiosques de garapa e os bueiros entupidos, em quadrados indiferenciados sem indicar qualquer escapat\u00f3ria. Queria ter a vis\u00e3o de Urano, que do alto tudo enxergava, com prazer quase cient\u00edfico, sua col\u00f4nia de formigas amontoadas que se espremiam entre as casas de cobertura de telhas escamadas. \u00cdcaro subiu o elevador do pr\u00e9dio mais alto, e do \u00faltimo andar olhou ao redor o continente de tit\u00e3s de concreto. Mas ainda faltava muito para arranhar o c\u00e9u; era preciso dar um salto decisivo para o alto. Apenas se afastando do turbilh\u00e3o urbano teria a percep\u00e7\u00e3o daquela imensa mancha viva de cimento, metal e pl\u00e1stico, cujo vai-e-vem se harmonizava numa homeostase compreens\u00edvel. Precisaria i\u00e7ar sua jangada para atravessar oceanos; levantar o bra\u00e7o para apanhar estrelas; subir degraus para escalar montanhas; lan\u00e7ar o olhar em dire\u00e7\u00e3o aos limites do infinito. Implante-me asas, meu pai! Veja-me voar na morada dos deuses! D\u00ea-me a oportunidade de vislumbrar daqui de cima, o qu\u00e3o pequeno \u00e9 seu labirinto! Nada mais precioso que a vertigem! Venha, vento, levar-me acima das nuvens! N\u00e3o se preocupe, pai, voo alto para n\u00e3o ouvir mais as vozes emaranhadas. O mundo se silencia e enfim ou\u00e7o dizer-me sua extens\u00e3o. Mais alto, vento! Que a iminente queda ainda conserve a imagem derradeira de que um dia fui livre!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Jardim do \u00c9den<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre o Tigre e o Eufrates, encontrava-se um anjo morto com napalm. As asas mutiladas e a espada flamejante ao ch\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o mais guardavam os resqu\u00edcios de um antigo jardim cujos portais foram arrombados com tiros de morteiro. Dos destro\u00e7os da c\u00fapula de uma mesquita, o crescente refletia as labaredas que calcinavam os querubins abatidos por uma bateria antia\u00e9rea. No jardim, apenas a extens\u00e3o do deserto que enfim invadiu as velhas cercanias, o\u00e1sis que subitamente foi envolvido pelo deserto \u00e0 marcha das cargas deflagradas. Uma \u00e1rvore seca restava no meio daquele jardim esquecido, exalando a g\u00e1s mostarda e rodeada de ossos espalhados ao ch\u00e3o como folhas secas. A tempestade de areia e p\u00f3lvora devastou a paisagem onde j\u00e1 n\u00e3o mais importavam os nomes que batizaram plantas e animais; tudo era um amontoado de cinzas revolvidas com petr\u00f3leo. Pois se a vida ainda estava l\u00e1, empreendeu-se com a raz\u00e3o e o conhecimento os meios de se apoderar dela; &#8220;haja luz&#8221;, disseram no princ\u00edpio os criadores que manejavam o bast\u00e3o, o arco, a espada e o fogo. Assim, da escurid\u00e3o abriam caminhos passando por cima de si pr\u00f3prios at\u00e9 alcan\u00e7ar o fruto que faltava. Os anjos j\u00e1 n\u00e3o tinham mais como defender aquele jardim; os deuses mortais j\u00e1 sabiam voar, mergulhar, entrincheirar. Disputavam o que achavam o que era a vida em m\u00fatuas decapita\u00e7\u00f5es. Estava para come\u00e7ar o inverno mais quente do ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Encontro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">De manh\u00e3 ele acordou e silenciou o despertador, que deixou o dia murmurar. Ela se levantou e foi escovar os dentes, enquanto tentava juntar as pe\u00e7as de um sonho. Ele tomou o caf\u00e9 sem a\u00e7\u00facar e amargou as not\u00edcias de ontem. Ela olhou um vaso de flores e compadeceu-se diante de p\u00e9talas murchas. Ele deu partida e misturou-se resignado \u00e0 massa de carros congestionados. Ela emudeceu as buzinas ouvindo sua m\u00fasica na bicicleta. Ele queria dois processos protocolados at\u00e9 o meio-dia e uma sequ\u00eancia de tr\u00eas\u00a0<em>ace<\/em>\u00a0na quadra de t\u00eanis \u00e0 noite. Ela queria a not\u00edcia do pai de Gisela e um bom capuccino \u00e0 tarde. Ele entrou no escrit\u00f3rio, ligou o computador e co\u00e7ou a testa. Ela chegou no consult\u00f3rio, vestiu o avental e estalou os dedos. Ele tamborilava teclas e ela organizava esp\u00e1tulas. Ele sacramentava resmas de pap\u00e9is e ela vasculhava bocas. Par\u00e1grafo \u00fanico do incisivo inferior lateral; bruxismo em desacordo com disposi\u00e7\u00e3o legal; invent\u00e1rios ortod\u00f4nticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pausa para o almo\u00e7o. S\u00f3 um processo protocolado e Gisela ainda n\u00e3o chegou. Saem do escrit\u00f3rio e do consult\u00f3rio, encontram-se na fila do restaurante por quilo. Ele deixa a pasta cair; ela apanha a pasta do ch\u00e3o e devolve a ele. Ele agradece e volta a decidir sobre o gr\u00e3o-de-bico. Ela verifica as unhas e pensa em adotar uma crian\u00e7a. Sentam em mesas separadas. Chove hoje \u00e0 noite e chegar\u00e3o tarde em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Andr\u00e9 Mellagi<\/strong>, nascido em S\u00e3o Paulo, \u00e9 formado em Psicologia, mestre e doutor em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP. Participou de colet\u00e2neas de contos, tais como a primeira edi\u00e7\u00e3o da revista Pulp Fiction do site Homo Literatus, al\u00e9m de publicar em blogs de literatura. Teve colet\u00e2nea de contos que recebeu Men\u00e7\u00e3o Honrosa em 2014 no Programa Nascente da USP, e foi obra pr\u00e9-selecionada ao Pr\u00eamio SESC de Literatura de 2016, a ser publicada pela editora Patu\u00e1 em 2017. \u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Densas narrativas de vida nos contos de Andr\u00e9 Mellagi<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13630,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3305,2534],"tags":[3318,419,41,3321,3320,3319,952],"class_list":["post-13629","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-118a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-andre-mellagi","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-encontro","tag-o-jardim-do-eden","tag-o-testamento-de-icaro","tag-vestigios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13629","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13629"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13629\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13638,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13629\/revisions\/13638"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13630"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13629"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13629"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13629"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}