{"id":13666,"date":"2017-05-16T11:23:54","date_gmt":"2017-05-16T14:23:54","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13666"},"modified":"2017-06-30T15:22:59","modified_gmt":"2017-06-30T18:22:59","slug":"dedos-de-prosa-ii-47","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-47\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PERFIS DE UM PINCEL HONESTO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Nicolau Sai\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>An\u00edbal e as moscas fil\u00f3sofas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_13674\" aria-describedby=\"caption-attachment-13674\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Nicolau-Sai\u00e3o-01-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13674 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Nicolau-Sai\u00e3o-01-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"344\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Nicolau-Sai\u00e3o-01-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Nicolau-Sai\u00e3o-01-1-300x206.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13674\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Nicolau Sai\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estava h\u00e1 sete semanas naquele quarto de hospital e principiava a chatear-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos o tratavam muito bem &#8211; algu\u00e9m lhe emprestara mesmo uma telefonia \u2013 mas o certo \u00e9 que come\u00e7ava a sentir-se ligeiramente aborrecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era que a enfermeira n\u00e3o lhe trouxesse a comida quentinha a horas certas, nem que o dr. Varela lhe faltasse com a sabedoria m\u00e9dica. N\u00e3o. Toda a gente era realmente muito simp\u00e1tica, mas ele principiava a ficar um bocado\u2026 frio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da terceira semana come\u00e7ara a segredar para si pr\u00f3prio ideias que apanhava ao calhar. E, caso estranho, pensava, pensava muito, pensava como nunca havia pensado: pensamentos gordos, mesmo suculentos, que lhe deixavam na boca um sabor esquisito e galopante, como se fossem comboios moleng\u00f5es andando sobre carris podres. N\u00e3o estava a gostar nada daquilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do mais, de noite o quarto enchia-se de vagas correrias, vagas risadas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Virou-se para o outro lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O p\u00e1ra-choques apanhara-o exactamente em cheio no s\u00edtio onde as costelas dizem adeus ao est\u00f4mago. Acordara depois, de s\u00fabito, numa cama descompassada com formigas e abelhas a passearem para baixo e para cima a toda a altura do esqueleto, suaves, venenosas. A cabe\u00e7a muito bem entrapada repousava virtuosamente sobre uma almofada branca. Em volta, tanto quanto se lembrava, uns fantasmas abusadores deambulavam num leva-traz peculiar zurzindo o ar ambiente com uma lengalenga que nem por ser em voz sumida era menos estarrecedora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois foi-se habituando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dr. Varela chegava ao crep\u00fasculo, ou ao nascer do sol, com os \u00f3culos muito calmos e mudos a apontar na sua direc\u00e7\u00e3o: pegava-lhe no pulso, rosnava sabiamente, abanava a cabe\u00e7a e, antes de sair, escrevia qualquer coisa num papel. Ele por momentos pensava que o dr. Varela tinha um pacto secreto com o seu aborrecimento, mas est\u00e1-se a ver que era s\u00f3 impress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A enfermeira, como \u00e9 natural, vinha mais vezes. Tinha um nome impronunci\u00e1vel, olhava aos ziguezagues e era magra e penugenta. Cheirava a rel\u00f3gios bem lubrificados e nunca se ria. Tamb\u00e9m n\u00e3o devia ter de qu\u00ea, pensava ele, mas tudo aquilo lhe fazia nervos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A enfermeira era ferozmente cumpridora. Uma boa profissional: puxava-lhe a roupa para o pesco\u00e7o se o topava destapado, metia-lhe pastilhas entre os bei\u00e7os, a horas correctas ajudava-o a assoar-se e a fazer mais coisas. Enquanto ele teve os bra\u00e7os em gesso, deu-lhe a papa com um clar\u00e3o de bondade nos sobrolhos perfeitamente assustador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O term\u00f3metro que sempre transportava no bolsinho da bata constitu\u00eda uma realidade impr\u00f3pria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sa\u00eda depois de o olhar com sat\u00e2nico interesse enfermeiral. Antes de fechar a porta a sua m\u00e3o tra\u00e7ava no ar um c\u00edrculo cinzento e agressivo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esposa visitava-o tr\u00eas vezes por semana, mas isso j\u00e1 n\u00e3o o arreliava por a\u00ed al\u00e9m. Ficara imunizado por dezassete anos de matrim\u00f3nio. J\u00e1 estava mais que familiarizado com o seu narizinho de coruja ego\u00edsta e com a sua voz que a passagem do tempo tornara rascalhante. Limitava-se a ficar calado, com os olhos bem fixos no meio do tecto. \u00c0s quatro da tarde a esposa abandonava a partida e ia-se com o seu passo de flamingo de noventa e oito quilos. Ele fingia que n\u00e3o era nada com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi no dia em que lhe tiraram as \u00faltimas ligaduras que ele viu as moscas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eram duas, esvoa\u00e7ando solenemente na meia sombra com um ar tranquilo e respeit\u00e1vel. Tinham o aspecto de moscas de sociedade, talvez j\u00e1 grisalhas dos anos e ele por uns segundos raciocinou que at\u00e9 nem se espantaria se lhes visse bengala e gravata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante v\u00e1rios dias as moscas n\u00e3o lhe largaram o quarto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eram moscas fil\u00f3sofas. As suas conversas, num tom muito fino e discreto, eram do mais alto interesse e centravam-se sobre os grandes temas do universo: o Homem, o Tempo, a Inf\u00e2ncia, todas as coisas \u2013 enfim \u2013 que horrorizam ou causam prazer, o Mundo, o Amor e a Morte. Um nunca mais acabar de problemas maravilhosos e inextrinc\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ele o que mais o danava era o seu arzinho superior, como fingindo que nem por ele davam: como se ele fosse um retrato decr\u00e9pito que para ali estivesse. E, no entanto, elas bem sabiam que ele n\u00e3o perdia pitada das conversas, com os punhos o mais poss\u00edvel cerrados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7ou a detest\u00e1-las. Precisamente no dia em que lhe tiraram o gesso da perna direita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, por orgulho, nunca tentou imiscuir-se nas suas conversas. Ainda n\u00e3o descera t\u00e3o baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na tarde seguinte, tarde de visita conjugal, as moscas falaram do Ser e das metaf\u00edsicas, Falaram tamb\u00e9m das estrelas e seus prest\u00edgios, dos barcos \u00e0 deriva nos mares antigos, dos astr\u00f3nomos e dos reis dos pa\u00edses afastados. Ele sofria tanto que foi com renovado al\u00edvio que viu a cara-metade abandonar a cena da sua tortura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com pasmo e raiva estendeu o bra\u00e7o e abriu a telefonia. Adormeceu ao som dum fadinho picado em surdina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E sonhou sonhos esquisitos de defuntos e bosques imensos, de catedrais e aranhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acordou ao crep\u00fasculo. Em cima da mesa estava uma bandeja com vitualhas. Nada se ouvia. Nem\u2026 o voar de uma mosca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As moscas tinham partido. Durante o seu sono pela tarde fora, tinham decerto voado atrav\u00e9s da janela entreaberta buscando diverso poiso, concerteza sempre debatendo entre si as coisas belas e incr\u00edveis. E ele sentiu de s\u00fabito vontade de partir tudo, pois j\u00e1 lhes havia jurado p\u2019la pele: quando estivesse de posse de todos os seus meios f\u00edsicos, ele lhes diria. Haveria de as ensinar com decis\u00e3o: ficariam, at\u00e9, sem vontade de tasquinhar o mais apetitoso bocadinho de excremento!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o certo era que haviam partido. Inexoravelmente. E nada, pensou, poderia fazer!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crep\u00fasculo, cinematogr\u00e1fico e devorador, entrava aos gargarejos para dentro do quarto. Do outro lado da porta uns passos conhecidos crepitaram com energia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dr. Varela entrou, com os \u00f3culos muito serenos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com uma branda emo\u00e7\u00e3o a palpitar progressivamente na garganta ele deu por si a notar, cheio de deliciosas comich\u00f5es, que a cara do dr.Varela era mesmo, mesmo parecida com a da mosca mais faladora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hist\u00f3ria natural<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_13668\" aria-describedby=\"caption-attachment-13668\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Nicolau-Sai\u00e3o-02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13668 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Nicolau-Sai\u00e3o-02.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Nicolau-Sai\u00e3o-02.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Nicolau-Sai\u00e3o-02-300x293.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13668\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Nicolau Sai\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a tia pobre e amada lhe morreu espapa\u00e7ada, como um figo podre, debaixo dum cami\u00e3o de transportes, Hip\u00f3lito disse com as l\u00e1grimas a escorrer pelas bochechas: \u201c<em>\u00c9 chato e dram\u00e1tico. \u00c9 triste! Mas, se pensarmos bem\u2026 \u00e9 natural. Sim, \u00e9 natural!<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhei-o sem muito espanto. \u00c9 que eu j\u00e1 conhecia, desde os bancos da escola, o esp\u00edrito eminentemente positivista do meu amigo, a sua vis\u00e3o racional. Hip\u00f3lito era um verdadeiro realista e eu pe\u00e7o licen\u00e7a para dizer que filosofava como poucos. Como muito poucos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A firma de que era s\u00f3cio, num dia enevoado de Maio faliu com todos os matadores. Tal acontecimento causou nos meios apropriados um p\u00e2nico consider\u00e1vel. Hip\u00f3lito, contudo, limitou-se a franzir o cenho ao de leve: \u201c<em>\u00c9 tr\u00e1gico. \u00c9 mesmo perturbador! \u2013 disse \u2013 Mas, se pensarmos bem\u2026 \u00e9 natural. Sim, \u00e9 natural!<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1vamos, nessa altura, no seu gabinete de administrador. Hip\u00f3lito, pensador de fino quilate, c\u00e9rebro privilegiado, dava-me a honra de muito me considerar, embora eu fosse um simples empregadote sem mais valia. Foi ent\u00e3o, recordo-me, que ouvimos um s\u00fabito alarido. Eu precipitei-me para o corredor. Hip\u00f3lito seguiu-me calmamente. Fora o comendador Branco Madeira, presidente da Assembleia Geral da empresa. Ca\u00edra pela janela. Se calhar de prop\u00f3sito. Do d\u00e9cimo segundo andar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhei l\u00e1 para o solo, com os olhos arregalados. O comendador jazia como jazem os que se piram pelo d\u00e9cimo segundo piso: parecia uma mosca esfrangalhada e nojenta. J\u00e1 o rodeavam muitas pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por detr\u00e1s de mim, Hip\u00f3lito resmungou mansamente: \u201c<em>Que coisa! \u00c9 extremamente constrangedor. Mas\u2026 \u00e9 natural. Penso que \u00e9 natural<\/em>!\u201d. Limpou uma l\u00e1grima furtiva, r\u00e1pida, com a ponta do dedo mindinho. Ofereceu-me um cigarro, que aceitei ainda com as m\u00e3os a tremer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passados quatro dias, o seu filho mais novo ao praticar alpinismo numa montanha dos arredores caiu para dentro dum rio que lhe ficava na base e engoliu cerca de oitenta litros de \u00e1gua. Calculei eu. Finou-se, evidentemente. Senti muito a morte do mo\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hip\u00f3lito, de negro vestido, atr\u00e1s do caix\u00e3o inclinou-se levemente e rosnou para a minha orelha. Baixinho, mas eu ouvi bem o que sensatamente me disse. Inclinei a cabe\u00e7a e continu\u00e1mos a participar sem mais alardes naquele acto trist\u00edssimo e tr\u00e1gico mas, como o meu amigo referira, perfeitamente compreens\u00edvel. Hip\u00f3lito era assim. L\u00f3gico, um matem\u00e1tico ou um astr\u00f3nomo em potencia. Eu apreciava-o muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Agosto fomos passar as f\u00e9rias, juntos, para uma praia elegante. A mulher de Hip\u00f3lito e o filho que lhe restava foram juntar-se a n\u00f3s tr\u00eas dias mais tarde. Ao quarto dia, depois de ter levado a banca do casino \u00e0 gl\u00f3ria, a excelsa senhora defuncionou-se sem o querer, abatida a tiro por um <em>croupier<\/em> de maus bofes e nervoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando lhe levaram a not\u00edcia, Hip\u00f3lito ergueu-se de repel\u00e3o da cadeira de verga onde repousava. Tremia ligeiramente. Respirava um pouco apressadamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco a pouco foi-se acalmando. Um v\u00e9u de tristeza \u2013 eu acho que era um v\u00e9u \u2013 nublava-lhe viuvamente o olhar cinzento. \u201c<em>Ora que ma\u00e7ada! \u00c9 um problema chat\u00edssimo! No entanto, no entanto\u2026 pensando bem, foi natural<\/em>! \u2013 disse com intelig\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhei-o com admira\u00e7\u00e3o. O esp\u00edrito e a calma filos\u00f3fica de Hip\u00f3lito cada vez me atra\u00edam mais inapelavelmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao voltarmos para casa, num carro funer\u00e1rio, o filho de Hip\u00f3lito teve um percal\u00e7o: chorava desabaladamente, contorcia-se, gemia duma forma que metia pena. Ao estorcer-se num gesto mais largo, sem que o pud\u00e9ssemos deter saiu pela porta de vidra\u00e7a descida (fazia c\u00e1 um calor!). Dei um grito! Que querem, n\u00e3o me contive. O carro funer\u00e1rio parou, toda a gente desceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hip\u00f3lito, por uns momentos breves, contemplou longamente o que restava do filho como se acreditasse poucochinho. Eu mordia os dedos e as unhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um largo suspiro se escapou do peito largo, profundo, de Hip\u00f3lito enquanto ele com bondade me ajudava a afastar dos despojos. \u201c<em>J\u00e1 \u00e9 azar! \u00c9 um azar tremendo! Mas, vendo bem as coisas, sopesando o caso\u2026 n\u00e3o deixou de ser natural<\/em>!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhei-o mais uma vez com admira\u00e7\u00e3o fraterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passou-se uma semana. Durante esse tempo n\u00e3o vi o meu velho companheiro de inf\u00e2ncia. Ali\u00e1s, desempregado, passei o tempo a ler. Filosofia. De vez em quando tomava um c\u00e1lice de conhaque. A bebida, segundo ouvi dizer, dos fortes e dos sabedores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao oitavo dia, biblicamente, vi Hip\u00f3lito. Tinha ido visitar-me. Demos um longo, cordial\u00edssimo aperto de m\u00e3o. Hip\u00f3lito vinha anunciar-me que eu fora colocado por sua intercess\u00e3o num emprego de futuro. \u201c<em>Com calma, Jagodes, tudo se consegue. Tudo se comp\u00f5e naturalmente<\/em>!\u201d. Acenei que sim, emocionado. Entretanto, dirigimo-nos ao elevador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hip\u00f3lito foi o primeiro a entrar. Azar dele. O primeiro e o \u00faltimo, ali\u00e1s. Eu n\u00e3o entrei, pude aperceber-me que o elevador n\u00e3o estava l\u00e1! S\u00f3 o buraco, negro e misterioso, esperava com maldade. Hip\u00f3lito despenhou-se, soltando um grito em estilo \u201c<em>terror ingl\u00eas<\/em>\u201d. Um grito meio grasnado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o cora\u00e7\u00e3o a bater um pouco desci as escadas, devagarinho e com cautela. Muitas escadas. Abri a porta do elevador, na cave e contemplei o Hip\u00f3lito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hip\u00f3lito gemia suavemente. Quando deu por mim, quando os sentidos algo abalados lho permitiram, come\u00e7ou a gemer mais alto. Quase a gritar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Socorro, Jagodes! Vai chamar um m\u00e9dico depressa\u2026 sen\u00e3o morro. Sinto-me j\u00e1 a morrer. Chama-me um m\u00e9dico, um sacerdote\u2026 Jagodes<\/em>!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdera a calma. At\u00e9 suava. Tinha um bocado de espuma no queixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dei uma gargalhadinha. Desatei mesmo a rir em pequenos solavancos. Filosoficamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que querem? Estava a achar tudo natural\u00edssimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Hist\u00f3ria do cretino<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_13669\" aria-describedby=\"caption-attachment-13669\" style=\"width: 382px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Nicolau-Sai\u00e3o-03.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13669 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Nicolau-Sai\u00e3o-03.jpg\" alt=\"\" width=\"382\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Nicolau-Sai\u00e3o-03.jpg 382w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Nicolau-Sai\u00e3o-03-229x300.jpg 229w\" sizes=\"auto, (max-width: 382px) 100vw, 382px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13669\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Nicolau Sai\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pequena povoa\u00e7\u00e3o que interessa ao nosso conto havia apenas um cretino. O resto da popula\u00e7\u00e3o era constitu\u00edda por pessoas extremamente inteligentes, posto que de diversas profiss\u00f5es e cometimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cretino da vil\u00f3ria perdida entre vales e montes \u2013 como s\u00f3i dizer-se \u2013 \u00e0 qual mal chegara a luz civilizadora da televis\u00e3o, chamava-se Leopoldo e era um cretino integral. Creio que me fa\u00e7o entender. E era igualmente, como se compreende, muito solicitado para tudo o que fosse festarola, comilonice de arromba, beberete de alto l\u00e1 com o estrilo, funeral aperaltado, discursata bamba e descante com jantarada. \u00c9 que, principalmente nos meios de mais nobre eleva\u00e7\u00e3o cultural e estomacal, um cretino \u00e9 material de primeira necessidade e nunca por nunca ser dever\u00e1 faltar em sal\u00e3o que se preze ou t\u00e1vola que se respeite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo que o nosso cretino \u2013 que no seu princ\u00edpio de vida passara os dias em frente do pequeno espelho da sua defunta madrasta a contemplar a face esguia e as noites a olhar para a lua \u00e0 espera que de l\u00e1 ca\u00edsse um nacozinho de queijo ou um peda\u00e7o de chouri\u00e7o-de-sangue \u2013 dum momento para o outro e sem se dar por achado pelas iguarias, come\u00e7ou a enformar, a engordar, a ganhar formas roli\u00e7as que era um render gra\u00e7as ao Senhor. Muitas mudan\u00e7as se lhe fizeram na vida. Durante o dia, nas horas de folga \u2013 que o nosso cretino, para n\u00e3o perder a forma, treinava-se lendo alguns jornais, revistas e olhando para um certo aparelho com figurinhas a mexer \u2013 contava os dedos das m\u00e3os e dos p\u00e9s e, se acaso se enganava no n\u00famero, dando-lhe por hip\u00f3tese dezanove ou vinte e um, tecia considera\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas \u00e0 volta de tal mat\u00e9ria, sendo que muitas delas ultrapassavam de longe, isso vos garanto eu, muita coisata\u00a0 que por a\u00ed se vai forjando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E neste comer e descansar e sorrir cretinamente, como convinha, se foi achando o nosso her\u00f3i bem n\u00e9dio e lustroso, e satisfeito, mas com as faculdades a desmembrarem-se ligeiramente: nos discursos de gente gra\u00fada \u00e1 da terra, o Leopoldo j\u00e1 tomava a atitude mais f\u00e1cil, era pela lei do menor esfor\u00e7o: punha-se junto ao ombro direito do orador, cravava os olhos no vazio, afivelava uma express\u00e3o inolvid\u00e1vel e assim se ficava, quedo e palon\u00e7o, sem dar vivas, sem amostrar a dentu\u00e7a e o contentamento. Mais parecia uma santola francesa do que um verdadeiro cretino. Como se o houvessem grudado ao solo da pequena povoa\u00e7\u00e3o. Nas festas de anivers\u00e1rio, ap\u00f3s a primeira rodada, o cretino olhava em torno aspirando o ar ambiente com o seu nariz de xadrezista derrotado, embicava com o primeiro sof\u00e1 ou cadeira que apanhasse dispon\u00edvel, cerrava os l\u00fazios piscos e era um v\u00ea-se-te-avias de roncan\u00e7o e de dormir a todo o pano. Desatava a rir \u2013 com motivo \u2013 das tiradas do lavrador Parreca, rico qual pirata e nas visitas obrigat\u00f3rias que acaso fazia \u00e0s vi\u00favas, punha-se a praguejar baixinho, numa voz muito doce e amiga. Enfim, uma vergonha. Certa vez, num pr\u00e9stito f\u00fanebre dos mais importantes do s\u00edtio \u2013 pois quem ia a enterrar era o c\u00e9lebre p\u00e1roco da aldeia \u2013 tomou-lhe da m\u00e3o empedernida e, sacudindo-a com garbo, desejou-lhe boa viagem. O imediato desmaio da governanta daquele santo homem foi, por assim dizer, a primeira pedra no vasto edif\u00edcio da an\u00e1lise em que a melhor gente da povoa\u00e7\u00e3o se lan\u00e7ou. Foi numa noite de trov\u00f5es, em que o camarada \u00c9olo soprava que n\u00e3o era brinquedo e cacarejava a chuva no lama\u00e7al que eram as ruas, como uma cantadeira acatarroada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ficou logo decidido que o cretino teria de se morigerar. Sob pena de ser votado ao ostracismo e posto \u00e0 margem da sociedade em exerc\u00edcio no povoado, Leopoldo teria de n\u00e3o desmerecer das suas antigas e apreciadas qualidades. \u00c9 que esperto sim, mas devagar. E quando se passam certas marcas a cretinice come\u00e7a esquisitamente a parecer-se com uma coisa que n\u00e3o \u00e9 bem intelig\u00eancia, n\u00e3o sendo burrice; que \u00e9 uma esp\u00e9cie de meio caminho entre a definitiva bacoquice chapada e a esperteza chatarrona e inc\u00f3moda. Enfim, qualquer coisa muito penosa de ver e de sentir. E de cheirar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Leopoldo foi de pronto chamado \u00e0 pedra. Que tomasse ju\u00edzo, que ali s\u00f3 amigos tinha; gente que lhe queria bem; e que n\u00e3o seria naquela aproxima\u00e7\u00e3o da meia-idade que se proporia mudar de profiss\u00e3o; que tomasse tento e ju\u00edzo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E mais que leva e mais que deixa, e que frito e cozido, e alhos e malhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cretino, emocionado, choramingava. Da\u00ed a bocadinho, lagriminhas e lagrimetas de como\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, ais e suspiros \u2013 era o que mais sa\u00eda dos s\u00edtios pr\u00f3prios da anatomia de toda aquela boa gente. E todos diziam com un\u00e7\u00e3o: c\u00e1 temos de novo o nosso cretino! Que voltou ao bom caminho!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora naquele povoado, perdido como j\u00e1 se disse entre pinheiros e vacas, vivia uma senhora muito bondosa, inteligente e riqu\u00edssima, que morava na sua mans\u00e3o solarenga acompanhada duma sobrinha e duma criada, ambas t\u00e3o elegantes e insinuantes que era duma pessoa ficar de pronto catrapim, z\u00e1s, tr\u00e1s. Vira nascer o cretino e lembrava-se ainda das suas faces rosadas e inocente infante, e recordava ainda as suas brincadeiras infantis, parvas mas engra\u00e7adas. Tinha-lhe mesmo dado, um dia, brinquedos que o cretino \u2013 por ser cretino \u2013 logo estrapa\u00e7alhou com um riso eficiente; e da vez que o derradeiro primo do Leopoldo batera a bota, deixando-o definitivamente s\u00f3 neste vale de l\u00e1grimas, emprestara-lhe um len\u00e7o de cambraia fina para ele ocultar as l\u00e1grimas e as ranhelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E decidiu a senhora, no que foi logo aplaudida, abrir os cord\u00f5es \u00e0 bolsa e organizar uma festa de gra\u00e7as e alegria, na qual compareceriam todas as pessoas gradas do s\u00edtio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se bem se pensou melhor se fez. Tratou-se de tudo \u2013 servi\u00e7o, baixelas e comezaina \u2013 e o cretino at\u00e9 ajudou nos preparos e na confec\u00e7\u00e3o do banquete, e na escolha das entradas e na adequa\u00e7\u00e3o dos vinhos, saborosas e capitosos como nunca se vira e provara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alta tarde, degustada a sopinha e os seguimentos e antes de se entrar nos pit\u00e9us de resist\u00eancia, com toda a augusta confraria \u00e0 mesa \u2013 excepto a criada, que era de servir e a sobrinha da anfitri\u00e3, que estava no leito com indisposi\u00e7\u00f5es \u2013 ergueu-se a senhora para proferir algumas palavras. Mas ainda n\u00e3o pronunciara tr\u00eas frases \u2013 malhas que o imp\u00e9rio tece! \u2013 e come\u00e7ou de p\u00f4r-se branca, e tremebunda, e da\u00ed a um pouco, r\u00edgida qual patanisca de bacalhau, despencava-se da cadeira e partia prestes, notou-se, para o Al\u00e9m. E um por um, todos os convivas lhe seguiram o exemplo \u2013 tirante o cretino, que com a emo\u00e7\u00e3o nada comera nem bebera ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que havia sucedido? Nunca se soube e o cretino \u2013 por cretino ser \u2013 nunca o conseguiu dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com os convivas estirados no ch\u00e3o encerado da grande sala, partiu Leopoldo pelas escadas acima, rumo ao quarto da senhora sobrinha. A criadita, pelada de espanto e estupefac\u00e7\u00e3o, sup\u00f5e-se, abalara aos trancos e baldrancos porta fora para os lados da cozinha e ficou fora de cena. Mist\u00e9rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E estando o cretino no quarto da jovem sobrinha, calcula-se que tais cretinices lhe disse, t\u00e3o engra\u00e7adas e sonsas, que da\u00ed a breves instantes j\u00e1 ela ria e dengava como se todo o belo mundo com ela estivesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depreende-se que o cretino, cretino consciente e probo continuou. Pois se assim n\u00e3o f\u00f4ra n\u00e3o teria depois casado com a linda jovem. Teria preferido a criada, que sabia lavar umas camisas, cuecas e cal\u00e7as, preparar iguarias de se lamberem os dedos e dar bom rumo a outras coisas interessantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, hoje o cretino vive de mesa e pucarinho com a prendada jovenzinha, e \u00e9 ele, pois ent\u00e3o, quem toma conta das fraldas e outros aprestos das sucessivas crian\u00e7as que apareceram ano ap\u00f3s ano. Tendo somente como vantagem a administra\u00e7\u00e3o dos bens da defunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moral da hist\u00f3ria: <em>Quem n\u00e3o quer ser inteligente n\u00e3o lhe veste a pele. A n\u00e3o ser por cretinice\u2026 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>N<\/em><\/strong><strong><em>icolau Sai\u00e3o<\/em><\/strong><em> (Portugal, 1946). Poeta, artista pl\u00e1stico e ensa\u00edsta. Autor de livros como<\/em><em>\u00a0<\/em><em>Passagem de n\u00edvel<\/em><em>\u00a0<\/em><em>(1992),<\/em><em>\u00a0<\/em><em>Flauta de Pan<\/em><em>\u00a0<\/em><em>(1998) e<\/em><em>\u00a0<\/em><em>Os olhares perdidos<\/em><em>\u00a0<\/em><em>(2000).<\/em><em>\u00a0<\/em><em>Tem sido um frequente colaborador, no Brasil, da Agulha Revista de Cultura.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas honestos contos de Nicolau Sai\u00e3o <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13667,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3305,2534],"tags":[419,41,3332,3333],"class_list":["post-13666","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-118a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-nicolau-saiao","tag-perfis-de-um-pincel-honesto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13666"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13666\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13675,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13666\/revisions\/13675"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13667"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}