{"id":13796,"date":"2017-06-29T10:33:23","date_gmt":"2017-06-29T13:33:23","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13796"},"modified":"2017-06-30T15:19:25","modified_gmt":"2017-06-30T18:19:25","slug":"dedos-de-prosa-i-54","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-54\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Marcus Groza<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_13798\" aria-describedby=\"caption-attachment-13798\" style=\"width: 371px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Samuel-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13798 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Samuel-I.jpg\" alt=\"\" width=\"371\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Samuel-I.jpg 371w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Samuel-I-223x300.jpg 223w\" sizes=\"auto, (max-width: 371px) 100vw, 371px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13798\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Samuel Luis Borges<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Articula\u00e7\u00f5es Endurecidas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jade lavava pedrinhas antigas que encontrou numa gaveta da av\u00f3. N\u00e3o pareciam pedras preciosas. Mas Jade as afagava com cuidado, submergidas, como se fosse o pr\u00f3prio corpo da av\u00f3. Morrer \u00e9 se converter em pedra. O corpo duro em cima da mesa do vel\u00f3rio lhe deu essa impress\u00e3o. As articula\u00e7\u00f5es da m\u00e3o estavam endurecidas. N\u00e3o sei por que Jade tentou dobrar o punho da v\u00f3, como fizesse um exerc\u00edcio de fisioterapia que ela mesma tinha feito quando quebrara o bra\u00e7o. Tentava talvez dar \u00e2nimo \u00e0 v\u00f3. Mas logo tiraram a menina abobada de perto do corpo. Jade: que ali\u00e1s fisicamente era muito parecida com a v\u00f3, ou com o que ela tinha sido na juventude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_ A v\u00f3 gostava muito de voc\u00ea! disse a m\u00e3e para Jade, enquanto a menina continuava a alisar as pedrinhas coloridas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A v\u00f3 Vera foi a \u00fanica de toda a fam\u00edlia a aceitar a gravidez da filha, m\u00e3e solteira, e at\u00e9 se separou do marido que queria botar a filha gr\u00e1vida no olho da rua. Cidade de interior, moralismo e preconceito \u00e9 coisa farta. Quando Jade nasceu, o pai ainda zombou, dizendo que ela tinha parido uma retardada. Os fofoqueiros da fam\u00edlia diziam que devia ser filha de algum primo. No ano seguinte, quando o pai se finou, a m\u00e3e de Jade n\u00e3o foi no enterro e ainda postou na Internet: &#8220;N\u00e3o me venham com condol\u00eancias. Faz muito tempo que n\u00e3o tenho pai.&#8221; A v\u00f3 Vera desaconselhava esses rancores, at\u00e9 podia entender, mas rezava para que os n\u00f3s do rancor desatassem do peito da filha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gaveta que Jade estava arrumando tinha tamb\u00e9m um cachimbo. Mas ela fingia estar atenta \u00e0s outras coisas. Com uma bacia de \u00e1gua ao lado, lavava as coisas da vozinha. S\u00f3 de vez em quando ela lan\u00e7ava um olhar de rabicho para o outro lado da gaveta onde estava o cachimbo da v\u00f3. Sabia que se pegasse o cachimbo, a m\u00e3e ralharia, pois esta vez ou outra tamb\u00e9m lan\u00e7ava um olhar pra ver o que Jade estava fazendo, enquanto desocupava o arm\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_ Uma vez quando voc\u00ea tomou acetona, foi v\u00f3 que levou voc\u00ea pro hospital!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_ E eu fiquei b\u00eabada, m\u00e3e?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_ N\u00e3o, mas teve que fazer lavagem no est\u00f4mago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_ Mas se n\u00e3o tivesse feito lavagem, eu ficava b\u00eabada?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_ N\u00e3o, Jade! Isso foi quando voc\u00ea era crian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jade n\u00e3o \u00e9 mais crian\u00e7a. Mas sabe que \u00e9 &#8220;meio retardada&#8221;, como os meninos da rua tantas vezes repetiram. Por isso ela pode cobi\u00e7ar o cachimbo; e planeja peg\u00e1-lo escondido. \u00c9 s\u00f3 esperar: porque primeiro a m\u00e3e conta alguma hist\u00f3ria da v\u00f3, depois algumas l\u00e1grimas rolam. E vai ser no pr\u00f3ximo rolar de l\u00e1grimas que vou apanhar o cachimbo e jogar pra debaixo da cama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jade n\u00e3o \u00e9 mais crian\u00e7a, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode fumar. Fumar faz mal. Jade \u00e9 meio retardada, mas n\u00e3o deixou de ver que, no vel\u00f3rio da v\u00f3, a m\u00e3e saiu pra fumar e voltou cheirando a cigarro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre um acontecido e outro desenterrado da mem\u00f3ria, a m\u00e3e come\u00e7ou a chorar de novo e logo saiu pra se assoar no banheiro. Jade ent\u00e3o teve tempo de pegar o cachimbo, botar na boca e dar uma tragada imagin\u00e1ria. Depois o jogou para debaixo da cama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_ Jade, vamos parar um pouco. Pra almo\u00e7ar?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_ Pode ser m\u00e3e, t\u00f4 com fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, ela tinha na boca um gosto da poeira velha acumulada no fundo da gaveta. Pensou nos restos mortais da v\u00f3, que estavam dentro de uma pequena urna na sala. Estava sem fome. Mesmo assim ela e a m\u00e3e foram almo\u00e7ar. Jade comeu com gulodice.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hier\u00f3glifos<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e3e, deixa ser meu o quarto da bagun\u00e7a? Era desejo antigo. Ter um quarto. Quase uma casa. N\u00e3o era s\u00f3 veleidade de menino. Deixa ser meu o quarto da bagun\u00e7a! O ca\u00e7ula j\u00e1 t\u00e1 grande, pode bem dormir sozinho. Mas o quarto de voc\u00eas j\u00e1 \u00e9 uma bagun\u00e7a! Olha, M\u00e3e! Son\u00e2mbulo descabido. Olha que eu monto cabana de len\u00e7ol na garagem. Convoco os amigos, chamo os vizinhos. Trincheira de brinquedos e livros. E, quando crescer, fa\u00e7o festa durante a quaresma. E ainda viro bo\u00eamio! N\u00e3o acredita?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela deixou. Agarrei tarefa de ajeitar tudo: traz a cama, cola um p\u00f4ster, muda o espelho. M\u00e3e, vou fazer uma tabela de basquete na parede! Bem em frente \u00e0 cama&#8230; Pode? Pintei de amarelo o quadrado, circulei com preto e, para fixar a cesta, furei os dois exigidos buracos. Mas durou pouco. O queixo duro respondeu de trav\u00e9s. Pisou tenso em desalento de \u00e9 meu, \u00e9 meu, \u00e9 meu&#8230; Ent\u00e3o a M\u00e3e desaprovou, emprestou da bruxa uma vassoura e foi redesenhar o trabalho: tirou a cor de dentro do quadrado, espalhou por toda a parede o novelo amarelo embara\u00e7ando. Restos de palha da vassoura grudados na tinta. Colagem rupestre. Parede ficou amarela e branca. Pintura abstrata. Parecia um ninho profanado, com a gema dos ovos escorrendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zanga de le\u00e3o ferido: fui l\u00e1 e tamb\u00e9m registrei minha raiva. Bosta. Buceta. Porra. Um ou outro palavr\u00e3o genu\u00edno desses escrevi&#8230; e at\u00e9 uma su\u00e1stica desenhei. Mas as asas da su\u00e1stica pus voltadas ao contr\u00e1rio. Sabe que nem quatro unhas encravadas? Lascou. Pr\u00e9dio do amor e da ca\u00e7a. Efic\u00e1cia do signo. Primeira e \u00faltima d\u00e1diva. E assim a parede muitos anos se preservou: contornada com gemas da vassoura improvisada em pincel e as minhas palavras raivosas. A parede do quarto voltou a ser, mais do que nunca, a parede do quarto da bagun\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o tempo passou tamb\u00e9m a painel de recadinhos. Rasuras. Quem vinha em casa se sentia no direito de um cantinho pra rabiscar. Primo pequeno chegava e queria provar a todos que j\u00e1 sabia escrever o nome. Depois a medi\u00e7\u00e3o dos adolescentes crescendo tamb\u00e9m era anotada ali. Assim foi: borr\u00e3o desencantado da vida. Teste do est\u00eancil. Resto de massa corrida. Sujeira de pincel&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, em certa ocasi\u00e3o, veio o padre dizer missa aqui em casa, o canto de ouvir a confiss\u00e3o ficou sendo justamente ao p\u00e9 da nossa parede rasurada. No quarto da bagun\u00e7a. Debaixo da su\u00e1stica de asas invertidas. Antes, por\u00e9m, em gesto de contri\u00e7\u00e3o antecipado, minha m\u00e3e foi l\u00e1 e cobriu de branco os termos mais t\u00e9cnicos. Foi coisa pouca. N\u00e3o chegou a mudar o sentido da obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra vez, a parede recebeu tamb\u00e9m inscri\u00e7\u00e3o do tato em vermelho durante o sexo. Dedos desenhando com sangue menstrual da primeira namorada. E a mancha de sangue l\u00e1 ficou \u2013 o vermelho se tornando marrom, quase preto \u2013 nem sei at\u00e9 quando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, manchas todas devem estar inda l\u00e1 na parede, debaixo de alguma camada, das tantas que foi preciso dar, em v\u00e3o, para cobrir a ira, o amor e os carinhos que sujam de vida todo o lugar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Marcus Groza<\/strong> \u00e9 poeta e ficcionista. Autor do livro \u201cSossego Abutre\u201d (Ed. Patu\u00e1 \u2013 2015), \u00e9 coeditor da Revista Abate e da Revista Sa\u00fava.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desv\u00e3os da vida em dois contos de Marcus Groza<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13797,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3340,2534,16],"tags":[3344,419,41,3345,796],"class_list":["post-13796","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-119a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-articulacoes-endurecidas","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-hieroglifos","tag-marcus-groza"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13796","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13796"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13796\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13802,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13796\/revisions\/13802"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13797"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}