{"id":13803,"date":"2017-06-29T11:17:22","date_gmt":"2017-06-29T14:17:22","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13803"},"modified":"2017-07-05T08:26:39","modified_gmt":"2017-07-05T11:26:39","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-52","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-52\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-12\/\"><strong>entrevista <\/strong><\/a>concedida \u00e0 Diversos Afins, em 2013, <strong>Eduardo Lacerda<\/strong> apontou dois desafios especiais para o crescimento da editora Patu\u00e1, que havia montado fazia apenas dois anos: publicar livros diferentes e \u00fanicos, que inovassem o car\u00e1ter editorial de alguma forma; e conseguir gerar lucro com isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passados tr\u00eas anos, a realidade financeira do selo n\u00e3o se distingue da de qualquer editora pequena e independente no Brasil, cujo editor, al\u00e9m de se preocupar com a qualidade art\u00edstica da obra, \u201ctem de embalar cada livro, lev\u00e1-los aos correios, pagar contas em v\u00e1rios bancos diferentes, implorar para que algu\u00e9m os compre e os leia, enviar para jornalistas, formalizar contratos, fazer p\u00e1ginas no site, tirar ISBN, emitir nota fiscal, fazer postagens no Facebook para divulga\u00e7\u00e3o dos livros\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto ao primeiro desafio, no entanto, pode-se dizer que foi superado com louvor. Com mais de 500 t\u00edtulos lan\u00e7ados, a Patu\u00e1 \u00e9 hoje refer\u00eancia no mercado editorial para os autores que procuram uma maneira de debutar na literatura. Mas o reconhecimento n\u00e3o depende apenas dos estreantes. A notoriedade trazida por pr\u00eamios e pela presen\u00e7a constante na lista de indicados atrai, cada vez mais, escritores renomados que encontram, na editora, um novo porto de lan\u00e7amento para seus trabalhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, Eduardo Lacerda faz um balan\u00e7o dos \u00faltimos seis anos \u00e0 frente da Patu\u00e1, tocando em temas que constituem um cen\u00e1rio realista do mercado editorial brasileiro, refletido a partir da experi\u00eancia de se comandar uma editora que segue com a postura de independente. Com lucidez e otimismo, o poeta que se tornou editor fala ainda sobre vit\u00f3rias e frustra\u00e7\u00f5es, mercado liter\u00e1rio, premia\u00e7\u00f5es, formato digital, leitor no Brasil e da raz\u00e3o de seguir acreditando no que faz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNossa expressividade ocorre, acredito, ao fazer algo relevante n\u00e3o s\u00f3 para a literatura como um todo, mas algo relevante para nossas vidas, para as vidas dos escritores e leitores que compartilham de uma mesma \u00e9poca. Um leitor pode ser t\u00e3o importante quanto milhares de leitores\u201d. Uma leitura recomendada para quem j\u00e1 est\u00e1 e para aqueles que pretendem ingressar nos caminhos sinuosos \u2013 e nem sempre recompensadores &#8211; do universo do livro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_13810\" aria-describedby=\"caption-attachment-13810\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Int-dois.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13810 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Int-dois.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Int-dois.jpg 375w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Int-dois-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13810\" class=\"wp-caption-text\">Eduardo Lacerda \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Passados quatro anos do lan\u00e7amento da antologia po\u00e9tica \u201cOutro dia de folia\u201d, sua carreira de escritor segue em pausa. \u00c9 mais f\u00e1cil ser editor que poeta?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> Eu n\u00e3o tenho uma carreira como poeta, tenho um livro publicado, composto por poemas escritos em um momento da minha vida no qual escrever era importante. Hoje escrever n\u00e3o \u00e9 mais importante, acho muito importante ler e, como minha profiss\u00e3o, acho importante o trabalho de editor, o qual eu exer\u00e7o com paix\u00e3o, a paix\u00e3o que eu n\u00e3o tenho mais como poeta. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser editor, hoje leio muito menos do que lia h\u00e1 dez anos. Cuidar de uma editora pequena e independente me exige a leitura, mas tamb\u00e9m embalar cada livro, lev\u00e1-los aos correios, pagar contas em v\u00e1rios bancos diferentes, implorar para que algu\u00e9m os compre e os leia, enviar para jornalistas, formalizar contratos, fazer p\u00e1ginas no site, tirar ISBN, emitir nota fiscal, fazer postagens no Facebook para divulga\u00e7\u00e3o dos livros. A edi\u00e7\u00e3o, como trabalho, vai al\u00e9m e fica aqu\u00e9m da leitura, para o bem ou para o mal. Mas acho que o mais dif\u00edcil \u00e9 ser leitor do que ser poeta, considerando que ser leitor exige isolamento, reflex\u00e3o, conv\u00edvio com os textos e muita recusa. J\u00e1 muitos poetas (e mesmo eu, quando fui poeta e agora, como editor) buscam o que \u00e9 p\u00fablico, o reconhecimento, a leitura do outro, a cr\u00edtica do outro, a venda do livro, a participa\u00e7\u00e3o no evento. Quando somos apenas leitores, nos bastamos a n\u00f3s mesmos, mas um poeta e tamb\u00e9m um editor n\u00e3o se basta sozinho, precisa do outro, o outro \u00e9 imprescind\u00edvel na busca de si mesmo. Se eu pudesse, seria apenas leitor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Fundada em 2011, a Patu\u00e1 carregou, durante um tempo, o r\u00f3tulo de ser uma editora voltada para a poesia. Hoje, o cat\u00e1logo \u00e9 bem variado, inclusive com propor\u00e7\u00f5es igualit\u00e1rias entre romances, antologias de contos e antologias po\u00e9ticas. Essa realidade j\u00e1 fazia parte da ideia original, quando planejou o foco da editora, ou foi algo inevit\u00e1vel, que ganhou forma de acordo com os pedidos de leitura de originais que chegavam?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> Um editor precisa ser apaixonado pelo que l\u00ea e precisa ser um bom leitor daquilo que pretende editar. Eu n\u00e3o sou um bom leitor de literatura infantil ou de literatura infantojuvenil, por isso n\u00e3o me arrisco muito a edit\u00e1-la. Eu reconhe\u00e7o sua import\u00e2ncia, mas acho que outros e outras profissionais far\u00e3o uma edi\u00e7\u00e3o muit\u00edssimo melhor do que a minha. Sou um bom leitor apaixonado de poesia e, talvez, um leitor mediano, mas apaixonado, de prosa. \u00c9 natural que a poesia tenha um espa\u00e7o maior dentro da editora, minha forma\u00e7\u00e3o anterior, como editor, foi editando fanzines, jornais e revistas liter\u00e1rias. Eu convivi, na \u00faltima d\u00e9cada, com centenas de poetas antes de efetivamente editar seus livros, de muitos j\u00e1 tinha editado poemas nesses jornais, revistas, zines, articulado eventos, saraus. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o anterior que tenho com os poetas e com a poesia. Mas gosto muito de prosa, de contos e de romances, e \u00e9 natural querer public\u00e1-los tamb\u00e9m. Contudo, o n\u00famero de poetas publicados ainda \u00e9 muito maior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Outra caracter\u00edstica da Patu\u00e1 era de ser um porto para autores estreantes. Com o amadurecimento da editora, por\u00e9m, escritores de renome, com t\u00edtulos lan\u00e7ados pelos chamados grandes selos, come\u00e7aram a ser publicados pela Patu\u00e1. Voc\u00ea percebeu isso como uma consequ\u00eancia da incapacidade das grandes editoras de manter esses autores ou como a procura destes por um selo pequeno, que oferece uma participa\u00e7\u00e3o ativa nas etapas do processo de feitura do livro? Chegou a se preocupar quando esses contatos come\u00e7aram a acontecer? O que procura um escritor consagrado ao entrar em contato contigo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> Ainda somos uma editora focada nos autores estreantes. Nesse primeiro semestre, publicamos dezenas de autores e autoras estreantes e, dos ditos consagrados, ou mais experientes, apenas o novo livro de poemas do Ronaldo Cagiano e o novo romance da Micheliny Verunschk, que apesar de muito reconhecida como poeta, teve seu primeiro \u2013 e muito premiado &#8211; romance publicado com a Patu\u00e1. Ano passado publiquei as antologias po\u00e9ticas de dois autores que me formaram, mas n\u00e3o posso dizer que s\u00e3o consagrados, apesar de algum reconhecimento, que s\u00e3o o Sergio Cohn e o Fabio Weintraub, mas eles sempre foram publicados por editoras pequenas ou m\u00e9dias. Claro, temos muitos autores que publicaram seus primeiros livros com outras editoras pequenas ou de forma independente, muitos que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o estreantes, mas que publicaram seu livro de estreia com a Patu\u00e1. Acho que um cat\u00e1logo de 500 t\u00edtulos, como o nosso, permite uma pluralidade de autores e autoras. Dependendo do recorte feito, a impress\u00e3o pode ser uma ou outra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nesses seis anos de exist\u00eancia, a Patu\u00e1 acumula premia\u00e7\u00f5es expressivas, tais quais o Jabuti e o S\u00e3o Paulo de Literatura, al\u00e9m de ter autores da casa regularmente entre os finalistas. Qual \u00e9 o efeito real de um pr\u00eamio para uma editora de pequeno porte\/independente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> Em um primeiro momento, ganhar um pr\u00eamio aumenta o \u201cprest\u00edgio\u201d da editora, o que acaba atraindo muitos escritores querendo publicar conosco. Ap\u00f3s o resultado positivo em algum pr\u00eamio, recebemos um n\u00famero tr\u00eas vezes maior de originais. Tamb\u00e9m vendemos um n\u00famero maior, mas n\u00e3o expressivo, de exemplares do livro premiado. Acho que pr\u00eamios s\u00e3o importantes, precisam existir, assim como os eventos liter\u00e1rios, mas eles n\u00e3o definem a literatura. No caso da Patu\u00e1, minha felicidade em ganhar um pr\u00eamio \u00e9 saber que rompemos uma l\u00f3gica de que somente as grandes editoras ganham esses pr\u00eamios. J\u00e1 ganhamos duas vezes o Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo, duas vezes o terceiro lugar do Jabuti, de poesia e de contos, dois Pr\u00eamio Guavira (um pr\u00eamio menos conhecido, do Mato Grosso do Sul), tivemos muitos autores semifinalistas e um finalista do Oceanos\/Portugal Telecom, tivemos j\u00e1 cinco autores finalistas do Jabuti e, em 2017, a Patu\u00e1 tem dois livros finalistas do Pr\u00eamio Rio de Literatura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Hoje voc\u00ea j\u00e1 consegue selecionar o original que ir\u00e1 publicar? O que leva em conta nessa escolha? E de que forma lhe chateia a maneira de um autor se portar diante da editora, pelo fato de ser independente? Talvez algo que certamente este nunca fizesse, caso fosse recusado ou tivesse de negociar com um grande selo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> Eu sempre selecionei o original que publicamos. N\u00e3o cobramos a edi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ganho nada publicando algum livro sem acreditar nele, nem lucro monet\u00e1rio, nem um bom cat\u00e1logo, posso at\u00e9 errar, mas erro por vontade pr\u00f3pria, n\u00e3o porque o autor est\u00e1 pagando pela edi\u00e7\u00e3o. Leio tudo o que publico, mas n\u00e3o posso dizer que consigo ler tudo o que recebemos para publicar, mesmo se me dedicasse apenas \u00e0 leitura de originais, ainda assim o tempo necess\u00e1rio seria maior do que poss\u00edvel. Por isso (e por muitos outros motivos) acho bom que existam outras editoras trabalhando bons livros, n\u00e3o entendo uma outra editora como concorrente. J\u00e1 sobre como os autores se portam, os autores e autoras s\u00e3o o que h\u00e1 de melhor e de pior no meu trabalho. N\u00e3o teria conquistado nada sem a confian\u00e7a de algumas pessoas, de alguns escritores e escritoras incr\u00edveis que me ajudam, apoiam, leem e compram nossos livros, que s\u00e3o muito generosos. Ao mesmo tempo \u00e9 desgastante ter que responder algumas mensagens absurdas de madrugada, de pessoas que n\u00e3o confiam em nosso trabalho, que se estivessem em uma editora maior tratariam o editor de outra forma, mas eu, hoje em dia, ligo pouco para isso, para esses problemas. Em seis anos de trabalhos e mais de 500 t\u00edtulos publicados, apenas tr\u00eas autores sa\u00edram com problemas da editora, brigados, alguns poucos outros tiveram problemas, mas que foram solucionados. Acho que a maior parte dos autores entende o que \u00e9 e como funciona o trabalho de uma editora pequena e independente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_13808\" aria-describedby=\"caption-attachment-13808\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Int-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13808 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Int-1.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Int-1.jpg 375w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Int-1-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13808\" class=\"wp-caption-text\">Eduardo Lacerda \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A Patu\u00e1 tamb\u00e9m oferece servi\u00e7os editoriais para autores que optam por pagar por seus livros. Muito se discute sobre o papel do editor nesse tipo de situa\u00e7\u00e3o; se o fato de o autor custear a tiragem n\u00e3o faria com que houvesse um olhar mais benevolente sobre os defeitos da obra. O que pensa sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> Do nosso cat\u00e1logo de 500 t\u00edtulos, posso afirmar que n\u00e3o chega a 10 o n\u00famero de livros pagos pelos autores, talvez um pouco mais, mas provavelmente at\u00e9 menos. Todos os outros livros foram pagos por mim, por meio da venda de livros a leitores. E desses 10, apenas de um me arrependo, que posso admitir que publiquei por necessidade financeira e n\u00e3o por escolha minha e isso com consci\u00eancia do autor. Um livro pago pela autora e do qual me orgulho \u00e9 o nossa \u201cTeresa \u2013 vida e morte de uma santa suicida\u201d, da Micheliny Verunschk. O livro teve patroc\u00ednio da Petrobras, precisava de uma tiragem de 1500 exemplares e a autora tinha os recursos do pr\u00eamio para isso. O livro \u00e9 excelente, de uma autora j\u00e1 reconhecida e que me enviou o original para leitura, original do qual gostei, era um livro que teria publicado gratuitamente (claro que com uma tiragem menor). Outros livros pagos pelos autores eu teria publicado gratuitamente, ali\u00e1s, \u00e9 o que fa\u00e7o quando pedem or\u00e7amento, leio e avalio, se aceito a publica\u00e7\u00e3o paga \u00e9 somente se for por op\u00e7\u00e3o do autor. Dinheiro assim n\u00e3o me seduz, embora precise de dinheiro para manter o meu projeto. Pagar pela edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um problema, grandes e bons autores pagaram por suas edi\u00e7\u00f5es. \u00d3timas editoras realizam esse trabalho com um crit\u00e9rio e qualidade ainda maiores do que o meu. N\u00e3o acho um m\u00e9rito ou me vanglorio de n\u00e3o fazer muitos livros pagos, acho que \u00e9 a minha op\u00e7\u00e3o de trabalho, que me traz alguns resultados positivos, como manter minha coer\u00eancia editorial, que \u00e9 at\u00e9 bem incoerente; e negativos, como deixar a editora quase sempre com problemas financeiros, n\u00e3o graves, mas tamb\u00e9m muitas vezes falta dinheiro para alguns projetos que gostaria de realizar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seguindo nessa mesma linha de racioc\u00ednio, a prolifera\u00e7\u00e3o das pequenas editoras proporcionou um aumento expressivo de novos autores no mercado. Muitos por meio dessa condi\u00e7\u00e3o de pagar pela publica\u00e7\u00e3o de seus livros. Sendo assim, temos uma faixa et\u00e1ria cada vez mais baixa de escritores estreantes, muitos deles claramente despreparados para entregar uma obra de qualidade. Ao ter contato com alguns originais, voc\u00ea chega a conversar com esse tipo de autor, aconselha que espere um pouco, lapide a escrita, forme-se como leitor primeiro, antes de pensar em publicar o primeiro livro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDURADO LACERDA &#8211;<\/strong> Poucos escritores querem ouvir conselhos, muito menos os mais jovens. Com a facilidade de publica\u00e7\u00e3o, qualquer escritor encontrar\u00e1 uma forma de publicar seu livro de estreia (ou dezenas de livros por ano), seja por uma editora tradicional, seja por uma plataforma de autopublica\u00e7\u00e3o, seja pelo Wattpad, pela Amazon, por um blog, pelo Facebook. \u00c9 uma opini\u00e3o muito pessoal, muito, mas eu acredito que a literatura \u00e9 um direito, \u00e9 direito ler, \u00e9 direito escrever. Se a facilidade gera banaliza\u00e7\u00e3o (e gera), tamb\u00e9m cria oportunidades de aumentarmos o n\u00famero de escritores e de leitores, o que \u00e9 \u00f3timo. N\u00e3o h\u00e1 como nos beneficiarmos de uma condi\u00e7\u00e3o sem trazer junto v\u00e1rios de seus aspectos negativos. Agora, como filtrar esses aspectos negativos, isso \u00e9 um \u00f3timo desafio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O lan\u00e7amento do primeiro livro, sobretudo quando o autor \u00e9 jovem, \u00e9 envolto por uma camada espessa de vislumbre sobre o que \u00e9 o mercado e o meio liter\u00e1rio. Muitas vezes, \u00e9 dif\u00edcil para um autor compreender que a carreira de um livro n\u00e3o depende do quanto ele ache que dar\u00e1 certo, que ser\u00e1 um sucesso. Voc\u00ea lida com esse tipo de ingenuidade e, posteriormente, relatos de desapontamento? \u00c9 papel do editor transmitir para o autor uma realidade que vai al\u00e9m daquela contida em seu livro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> Sim, lidamos com as decep\u00e7\u00f5es e frustra\u00e7\u00f5es de dezenas de escritores todos os dias. N\u00e3o s\u00f3 com os autores mais jovens, mas tamb\u00e9m aqueles mais velhos, mais experientes. \u00c9 comum receber ou publicar o livro de um autor mais velho, que j\u00e1 lan\u00e7ou livros nos anos 80 ou 90 e ver a decep\u00e7\u00e3o com as vendas, com a repercuss\u00e3o, diferentes da que tiveram h\u00e1 algumas d\u00e9cadas. Escuto muito desses autores \u201cmeu primeiro livro vendeu 300 exemplares na noite de lan\u00e7amento, n\u00e3o vou vender menos do que isso\u201d. Quando o livro n\u00e3o chega aos 50 exemplares vendidos, a decep\u00e7\u00e3o \u00e9 enorme, alguns chegam a culpar a editora, que nunca trabalha de forma suficiente. Tamb\u00e9m os meios de divulga\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito diferentes, alguns autores esperam ainda que o jornal ir\u00e1 noticiar o lan\u00e7amento, mas sabemos que isso n\u00e3o ocorre mais. O lan\u00e7amento de um livro, exceto para o autor e para a editora, n\u00e3o \u00e9 mais um acontecimento social, que desperta interesse p\u00fablico (exceto em cidades menores, nessas cidades a din\u00e2mica de um lan\u00e7amento \u00e9 muito interessante, os jornais locais noticiam, pessoas \u201cimportantes\u201d da cidade muitas vezes comparecem). Podemos somar \u00e0s decep\u00e7\u00f5es, al\u00e9m da recep\u00e7\u00e3o e das vendas, a inexist\u00eancia de cr\u00edtica liter\u00e1ria (existem ainda alguns bons resenhistas, mas que n\u00e3o d\u00e3o conta da leitura de milhares de lan\u00e7amentos todos os anos) e os pr\u00eamios liter\u00e1rios, poucos e que nem todos v\u00e3o ganhar, mesmo com bons livros. Essa decep\u00e7\u00e3o ou frustra\u00e7\u00e3o gera, em alguns autores e autoras, uma ansiedade, uma necessidade de lan\u00e7ar v\u00e1rios livros em um curto espa\u00e7o de tempo, na expectativa de que o pr\u00f3ximo livro alcance o sucesso que o anterior n\u00e3o encontrou. Assim um livro vai substituindo o outro sem que haja um tempo m\u00ednimo de trabalho. O editor deve explicar, mas tamb\u00e9m entender (muitos n\u00e3o entendem), que um livro \u00e9 um trabalho a longo prazo. Um livro n\u00e3o pode morrer dentro do cat\u00e1logo da editora e tem que continuar acontecendo, mesmo que os resultados venham bem devagar. \u00c9 bem dif\u00edcil, mas \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A Patu\u00e1 trabalha com pequenas primeiras tiragens, entre 50 e 200 exemplares. Muitos desses livros acabam n\u00e3o alcan\u00e7ando leitores e, muito menos, os cadernos culturais e a chamada cr\u00edtica especializada. Ter um livro publicado, assim, acaba sendo mais um capricho. Isso lhe angustia de alguma forma? E, diante de um cen\u00e1rio em que a literatura tem cada vez menos espa\u00e7o nos jornais e nas revistas, como avalia a import\u00e2ncia dos sites, blogues e demais plataformas digitais voltadas para a literatura?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> Me angustia, mas n\u00e3o considero um capricho ter um livro publicado com uma baixa tiragem. A culpa n\u00e3o \u00e9 do autor, da autora ou da editora, temos um problema grav\u00edssimo de falta de leitores e descaso pela literatura. O escritor, a escritora, eles escrevem. A editora publica. Ambos trabalham para que o livro chegue ao leitor. Se o livro \u00e9 bom, se o autor, se a autora, trabalham sua literatura e levam isso a s\u00e9rio, uma hora a literatura se sobrep\u00f5e ao que n\u00e3o \u00e9 literatura. Mercado editorial n\u00e3o \u00e9 literatura. O que eu fa\u00e7o, editar livros, n\u00e3o \u00e9 literatura. Literatura \u00e9 o que est\u00e1 escrito e que n\u00f3s damos suporte, um bom suporte, que pode ajudar que a literatura chegue ao leitor, mas quem escreve \u00e9 o escritor e lan\u00e7ar um livro para poucos leitores, embora seja triste, n\u00e3o \u00e9 apenas um capricho. Os sites, blogs etc s\u00e3o muito importantes. Excelente literatura est\u00e1 sendo produzida e publicada diretamente nessas plataformas. Autores e autoras mais jovens, que ainda nem conhecemos, est\u00e3o se formando, lendo, comentando, refletindo, a partir de literatura divulgada pela internet.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Falando em digital, li uma entrevista sua, faz alguns anos, em que defendia apaixonadamente o livro f\u00edsico. Ainda tem a mesma opini\u00e3o sobre a relev\u00e2ncia da obra em papel? N\u00e3o h\u00e1, num plano futuro, a inten\u00e7\u00e3o de lan\u00e7ar os livros da Patu\u00e1 tamb\u00e9m em formato digital?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> Eu ainda sou apaixonado pelo livro impresso, acho que nunca deixarei de ser, mas n\u00e3o sou contra ou avesso ao livro digital. Pelo contr\u00e1rio, acho incr\u00edvel a possibilidade de termos milh\u00f5es de livros acess\u00edveis, o que pode ajudar a democratizar o acesso ao livro (pode, talvez ainda n\u00e3o esteja, porque forma\u00e7\u00e3o de cultura e h\u00e1bito de leitura n\u00e3o est\u00e3o relacionados apenas com a disponibilidade de livros).\u00a0 Futuramente tamb\u00e9m a Patu\u00e1 ter\u00e1 livros digitais, mas ainda n\u00e3o \u00e9 um plano. Editar um livro pode ir al\u00e9m da plataforma ou suporte escolhido para ele existir, se impresso ou se digital. Eu ainda me importo muito com a possibilidade do encontro que o livro impresso permite, a festa de lan\u00e7amento, as leituras p\u00fablicas (embora muitos poetas leiam hoje em dia em seus celulares), as trocas de livros, as feiras, o livro impresso permite ainda um encontro entre pessoas que eu gosto muito. \u00c9 um romantismo meu, ao qual me permito. Talvez esse encontro exista no livro digital tamb\u00e9m, talvez um dia passe a existir para mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_13812\" aria-describedby=\"caption-attachment-13812\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Interna-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13812 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Interna-3.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Interna-3.jpg 375w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Interna-3-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13812\" class=\"wp-caption-text\">Eduardo Lacerda \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Ao contr\u00e1rio de muitos editores, que preferem trabalhar nos bastidores, voc\u00ea \u00e9 um editor ativo, que participa de eventos e est\u00e1 sempre divulgando seus autores. A Patuscada, um misto de livraria e bar, \u00e9 possivelmente a melhor representa\u00e7\u00e3o desse tipo de atitude, cuja inten\u00e7\u00e3o maior \u00e9 congregar autores e leitores. Essa \u00e9 tamb\u00e9m uma maneira de ter uma contrapartida \u00e0s livrarias, de projetar os livros que n\u00e3o est\u00e3o nas vitrines dos shoppings liter\u00e1rios? E j\u00e1 houve a inten\u00e7\u00e3o de levar os livros da Patu\u00e1 para essas prateleiras?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> Eu adoro livrarias, n\u00e3o detesto a forma como elas trabalham com as editoras, \u00e9 simples. Acho que o Brasil tem pouqu\u00edssimas livrarias e que precisamos incentivar e criar milhares de outras, atrav\u00e9s de leis que promovam a isen\u00e7\u00e3o de alguns impostos para as pequenas livrarias (n\u00e3o para as grandes) e de outras a\u00e7\u00f5es. Ali\u00e1s, eu costumo dizer que mesmo S\u00e3o Paulo n\u00e3o tem livrarias, temos algumas megastores e algumas boas livrarias em regi\u00f5es ricas da cidade, como a Paulista, Jardins, Pinheiros, Vila Madalena etc e em alguns shoppings, essas mais para livros de alta vendagem, os chamados best-sellers. N\u00e3o estou fazendo um julgamento de qualidade, apenas apontando como e o que trabalham. Ser\u00e1 raro, nessas livrarias de shopping, encontrarmos livros at\u00e9 de autores conhecidos, reconhecidos e consagrados, como, por exemplo, Clarice Lispector ou M\u00e1rio de Andrade. Poesia, talvez, aquela utilizada no vestibular do momento ou a lan\u00e7ada pelo \u00faltimo BBB poeta ou pelo Greg\u00f3rio Duvivier (novamente, n\u00e3o \u00e9 um julgamento de valor, mesmo porque gosto de alguma poesia dele). Mas se pensarmos nas regi\u00f5es de classe m\u00e9dia, nas mais pobres ou nas periferias da cidade de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o temos mesmo livrarias. Precisamos discutir o modelo como trabalham as livrarias. \u00c9 imposs\u00edvel pensar que uma empresa (a livraria) pega produtos (o livro) em consigna\u00e7\u00e3o, com frete de ida e volta por conta dos fornecedores (o editor), pede 50% de desconto no pre\u00e7o final do livro, depois de efetivar a venda ainda pede mais 120 dias para pagamento, se o livro for danificado o exemplar \u00e9 devolvido da mesma forma, com preju\u00edzo \u00e0 editora. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s esse sistema ainda garantia que nossos livros seriam expostos nas livrarias, mas atualmente a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais absurda, porque a maior parte das livrarias apenas cadastram os livros em seus sites e s\u00f3 nos pedem o exemplar se for vendido. Cuidar de um bar e livraria \u00e9 uma experi\u00eancia incr\u00edvel, ainda assim com suas (minhas) frustra\u00e7\u00f5es. Vendemos pouqu\u00edssimos livros, muitos escritores aparecem por l\u00e1 para beber, mas nunca levaram um livro. Enfim, n\u00e3o vou ganhar no grito, meu trabalho continua e, se fosse f\u00e1cil, muita gente estaria fazendo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Dando uma olhada nas listas dos mais vendidos, fica evidente a hegemonia dos grandes selos, sobretudos aqueles que trazem, em seus cat\u00e1logos, tradu\u00e7\u00f5es de best-sellers internacionais. Como fazer uma editora independente ganhar expressividade nesse cen\u00e1rio em que a literatura contempor\u00e2nea brasileira, sobretudo a composta majoritariamente por autores desconhecidos, est\u00e1 longe de representar a prefer\u00eancia dos leitores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> Como disse, a literatura, o que \u00e9 literatura, n\u00e3o se mede pelo n\u00famero de leitores; a literatura existe, resiste e ser\u00e1 sempre assim. Nossa expressividade ocorre, acredito, ao fazer algo relevante n\u00e3o s\u00f3 para a literatura como um todo, mas algo relevante para nossas vidas, para as vidas dos escritores e leitores que compartilham de uma mesma \u00e9poca. Um leitor pode ser t\u00e3o importante quanto milhares de leitores. Eu acredito nisso ou j\u00e1 teria abandonado a edi\u00e7\u00e3o independente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O brasileiro \u00e9 um leitor ruim?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> N\u00e3o podemos culpar o indiv\u00edduo pelo sistema. O Brasil, como pa\u00eds, tem um projeto pol\u00edtico de n\u00e3o forma\u00e7\u00e3o de leitores. \u00c9 um projeto mesmo, pol\u00edtico, social, cultural e econ\u00f4mico de um n\u00e3o interesse para forma\u00e7\u00e3o de leitores. Come\u00e7a com o descaso com a educa\u00e7\u00e3o, mas somente a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o garante que teremos leitores, passamos tamb\u00e9m por diversos per\u00edodos de proibi\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o de livros e literatura. Nossa hist\u00f3ria \u00e9 uma hist\u00f3ria de descaso com o livro, com a literatura e com o leitor.\u00a0 E n\u00e3o podemos chamar de leitor ruim quem n\u00e3o l\u00ea e quem l\u00ea aquilo que consideramos literatura ruim. Sim, acho que existe uma boa literatura, mas, como j\u00e1 disse, acredito que a leitura e a literatura s\u00e3o direitos, direito de ler, direito de escrever, direito de publicar. Experi\u00eancias em saraus de periferia, por exemplo, que d\u00e3o a palavra para a pessoa comum, de todas as profiss\u00f5es e de todas as cores, de todas as classes sociais, como chamar essas pessoas de leitores ruins? S\u00e3o leitores, talvez alguns ainda em forma\u00e7\u00e3o, mas leitores. Est\u00e3o se apaixonando pela literatura, pela poesia, est\u00e3o escrevendo. O que poder\u00e1 explodir e acontecer a partir disso at\u00e9 mesmo de boa literatura em nossa vis\u00e3o t\u00e3o limitada do que pode ser boa literatura? Por outro lado, temos \u2013 eu tenho, eu pelo menos quero ter \u2013 o dever de ajudar a mudar esse pa\u00eds, de pensar um pa\u00eds que ame sua literatura, que ame o livro, seja ele impresso ou digital, que ame seus escritores, que ame seus leitores, sejam eles bons ou ruins.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Olhando para o Eduardo Lacerda que, em 2013, criou a Patu\u00e1, consegue enxergar uma certa inoc\u00eancia na maneira como ele enxergava o mercado liter\u00e1rio? E, passado esse tempo, qual a melhor coisa que ser dono de uma editora lhe proporcionou?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> O Nelson Rodrigues que disse que sem paix\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 nem pra chupar um picol\u00e9, tamb\u00e9m n\u00e3o se faz muita coisa sem inoc\u00eancia, nem mesmo amar \u00e9 poss\u00edvel sem inoc\u00eancia. O grande desafio \u00e9 continuar um pouco inocente e apaixonado. Eu descobri um caminho seguro nesse mercado liter\u00e1rio e editorial, recebo os livros, leio, consigo, de alguma maneira, escolher alguns bons t\u00edtulos, envio para um grande artista fazer a concep\u00e7\u00e3o de capa e projeto gr\u00e1fico, mando pra gr\u00e1fica, fa\u00e7o o lan\u00e7amento, envio para jornalistas e cr\u00edticos, vendo um pouco, pago os custos, fa\u00e7o o pr\u00f3ximo livro, eventualmente ganhamos algum pr\u00eamio. Certo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, isso \u00e9 um resumo, mas \u00e9 um caminho seguro. Como ser inocente e apaixonado e pensar que, sabendo disso, de algo que j\u00e1 d\u00e1 bons resultados, posso pensar em algo diferente, que me contradiga, que me oponha ao meu trabalho e me renove? A melhor coisa de ser dono de uma editora \u00e9 fazer os amigos que eu fa\u00e7o. Escritores e escritoras, sim, mas tamb\u00e9m pessoas admir\u00e1veis. N\u00e3o sei se meu trabalho pode mudar o mercado editorial ou liter\u00e1rio, n\u00e3o sei se estamos fazendo alguma hist\u00f3ria. Mas eu sei que estou fazendo a hist\u00f3ria da minha vida e de alguns\/algumas escritores e escritores. E fazer sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, de forma apaixonada, j\u00e1 me parece bem importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Vale a pena trabalhar com livro no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUARDO LACERDA &#8211;<\/strong> Vale, vale muito! Acho que se tivesse seguido uma carreira de professor, que \u00e9 a minha forma\u00e7\u00e3o, se tivesse terminado a gradua\u00e7\u00e3o, feito um mestrado, um doutorado, talvez eu tivesse uma estabilidade financeira um pouco maior. Mas nunca teria me divertido tanto, feito tantos amigos, lido tantos \u00f3timos livros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa entrevista a S\u00e9rgio Tavares, Eduardo Lacerda, um dos mais importantes editores independentes do pa\u00eds, fala sobre os novos rumos de sua trajet\u00f3ria<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13807,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3340,16,2539],"tags":[953,3346,8,1023],"class_list":["post-13803","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-119a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-eduardo-lacerda","tag-o-patua","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13803","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13803"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13803\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13927,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13803\/revisions\/13927"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13807"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13803"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13803"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13803"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}