{"id":13892,"date":"2017-06-30T12:02:40","date_gmt":"2017-06-30T15:02:40","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13892"},"modified":"2017-08-27T11:21:57","modified_gmt":"2017-08-27T14:21:57","slug":"dedos-de-prosa-ii-48","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-48\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>K\u00e1tia Borges<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_13894\" aria-describedby=\"caption-attachment-13894\" style=\"width: 384px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/MG_0900-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13894 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/MG_0900-2.jpg\" alt=\"\" width=\"384\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/MG_0900-2.jpg 384w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/MG_0900-2-230x300.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13894\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Samuel Luis Borges<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nas profundezas do mar azul<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele ficou me olhando como se quisesse pescar em mim peixes estranhos, desses que se abrigam nas profundezas do mar azul. Um amigo, que morreu de leucemia h\u00e1 muitos anos, me contou sobre peixes que desenvolvem antenas e moram em cavernas escuras, repletas de oxig\u00eanio, no fundo do oceano. Fiquei mudo, desejando colocar a cabe\u00e7a para fora da \u00e1gua. Um \u00f4nibus passou, fazendo um barulho dos diabos. Puxei um cigarro e acendi. N\u00e3o sei quanto tempo fiquei parado ali, sentado sozinho no banco de cimento, pensando nos peixes insanos, quase humanos, que habitam em mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca mais deixei de sentir um gosto de \u00e1gua salgada na boca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que seja doce<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na escurid\u00e3o aconchegante do cinema, olhou para o amigo como se o visse pela primeira vez. Estivera muito doente, longas noites em uma UTI, mas j\u00e1 n\u00e3o sentia um aperto no cora\u00e7\u00e3o ao pousar os olhos nele. Chegava a cantarolar baixinho da mais pura, da mais simples felicidade apenas por t\u00ea-lo. O rosto do amigo, refeito, dispensava comp\u00eandios filos\u00f3ficos. Era preciso colocar diariamente o passado no varal, como se faz com os len\u00e7\u00f3is molhados de suor ap\u00f3s a febre. A febre, vespertina e monstruosa, n\u00e3o precisava mais ser medida, desmedidas temperaturas em um term\u00f4metro de incertezas. De repente os olhos do amigo encontraram os dela e ele riu. Quis falar alguma coisa, mas s\u00f3 lhe vinham na cabe\u00e7a uns poemas tristes. A morte ainda os rondava, em sua dan\u00e7a, mas j\u00e1 n\u00e3o tinha par. \u201cQue seja doce\u201d, pensou, lembrando um conto de Caio Fernando Abreu, e voltou a prestar aten\u00e7\u00e3o ao filme.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um c\u00e9u de chumbo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo parecia perfeito quando o telefone tocou em uma manh\u00e3 remelenta de domingo. O marido ainda dormia e os filhos faziam uma algazarra dos diabos no jardim. Ela atendeu e, enquanto falava, percebeu que nuvens escuras vindas do nada estavam se adensando sobre a sua casa. Logo, logo, choveria. Pensou em chamar os meninos para dentro, mas havia esquecido momentaneamente os seus nomes. Escutou at\u00e9 o final, limitando-se a dizer apenas que sim e sim. Entendia a absoluta necessidade de ajudar. Iria, assim que poss\u00edvel. N\u00e3o demoraria muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o marido acordou, correu para contar a novidade. Uma amiga de inf\u00e2ncia estava doente. Era urgente ajudar. O homem olhou meio de banda. Conhecia todas as amigas da mulher. Qual delas? Empalideceu. N\u00e3o havia como explicar. A exist\u00eancia da desconhecida tra\u00e7ava uma inc\u00f4moda linha divis\u00f3ria. Se pudesse olhar para dentro dela, naquele momento, teria vertigem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o passar dos dias e a inquieta\u00e7\u00e3o da mulher, decidiu ceder. Ficaria uma semana, nem um dia a mais, e ele cuidaria dos meninos. Na volta, traria consigo a desconhecida convalescente, dissipando qualquer d\u00favida. Mas, o que havia de errado naquela hist\u00f3ria? Era a pergunta que martelava o ju\u00edzo do homem, inconformado com o s\u00fabito segredo que se impusera entre eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas toda a combina\u00e7\u00e3o com a qual concordara era falsa. Ela jamais deixaria que a amiga entrasse em sua casa. Tamb\u00e9m n\u00e3o acreditava ser f\u00e1cil retornar. Assim, quando beijou os filhos, ela o fez com intensidade redobrada. O mesmo se deu quando caiu nos bra\u00e7os do marido, na noite anterior \u00e0 partida. Devia muito a ele e a gratid\u00e3o costuma revestir o amor com predicados inomin\u00e1veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alzira<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alzira gosta de cacha\u00e7a. Bebe logo cedo. No bairro onde mora, na periferia da cidade, num boteco perto. Os copos pequenos sorvidos \u00e0s talagadas, o cotovelo apoiado na bancada, o corpo pequeno sacudido pelo gesto. A boca faz um esgar engra\u00e7ado que n\u00e3o combina com o olhar triste. Antes de subir no \u00f4nibus passa a m\u00e3o nos cabelos desgrenhados. Mostra a carteirinha ao motorista. Ajeita a magreza entre os passageiros. N\u00e3o tem hor\u00e1rio, n\u00e3o bate ponto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guarda o material de trabalho no cemit\u00e9rio. Com passos lentos desce a escadinha. Apanha a \u00e1gua sanit\u00e1ria, o amon\u00edaco, a soda c\u00e1ustica, a vassoura, o balde. Quando sobe, canta m\u00fasicas aprendidas no templo. Deixou de ir por falta de dinheiro. Vergonha de tirar poucas moedas do bolso. Trocar p\u00e3o por b\u00ean\u00e7\u00e3os. Ficaram as can\u00e7\u00f5es na boca, entre os poucos dentes que restam e o ritmo de quando ainda sabia tocar sanfona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se aparece um visitante, segue em sil\u00eancio. Diante da l\u00e1pide, oferece seus pr\u00e9stimos: limpeza di\u00e1ria, mensal, anual, s\u00f3 um trato breve. Um real por t\u00famulo. Em Dia de Finados, cobra mais. Ali, nunca chorou seus mortos. Se pudesse, vejam s\u00f3, seria cremada. N\u00e3o daria trabalho aos outros. Alzira cheira a \u00e1lcool todo o tempo. Suas falas quase precisam de legenda como nos filmes mudos. Alzira n\u00e3o tem medo de fantasmas, s\u00f3 de gente viva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Maresia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por mais que viajasse, entrando e saindo de avi\u00f5es, sentia sempre o mesmo perfume. O cheiro forte do mar, desde a inf\u00e2ncia. Quando fechava os olhos, o marulhar a embalava at\u00e9 que adormecesse. Dentro do ouvido, onde quer que fosse, levava consigo a ess\u00eancia dos oceanos. Podia sentir o gosto do sal na carne, sens\u00edvel. Como um sabor que viajava em sua pele, a maresia parecia estar dentro da bolsa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Respirava fundo, a 11 mil metros de altura, como se os p\u00e9s estivessem fincados na areia macia, com os tornozelos mergulhados na \u00e1gua fria. Subia e cobria as suas coxas, envolvia o sexo, molhando os sentidos, acariciava os seios e entrava pela boca. N\u00e3o tentava achar explica\u00e7\u00f5es. Deixava-se ficar assim com a alma encharcada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando sentia dor, era somente sede. Rios secavam dentro do peito, crust\u00e1ceos passeavam pelo solo em busca de abrigo, peixes morriam, sufocados pelo ar. Mas precisava, mais que mar, de algum estreito, pequena ilha, porto onde ancorar. Mal sabia que qualquer movimento \u00e9 como o sacolejo de um saveiro, rasgando com sua quilha gigantescas ondas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivia assim, morrendo em despedidas, i\u00e7ar de \u00e2ncoras, presa de iscas, v\u00edtima de arp\u00f5es, acenando em escadas de avi\u00e3o, com asas de metal rasgando o espa\u00e7o. O corpo carregava os sentimentos, mala extraviada em alf\u00e2ndegas de pa\u00edses diversos. Falava pouco por ignor\u00e2ncia, para manter-se a salvo em lugares estranhos. N\u00e3o desejava maiores envolvimentos. Queria apenas um mar que a levasse, misturando sua pele branca \u00e0 espuma das ondas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>K\u00e1tia Borges<\/em><\/strong><em> \u00e9 autora dos livros De volta \u00e0 caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpi\u00e3o Amarelo (P55, 2012), S\u00e3o Selvagem (P55, 2014) e O exerc\u00edcio da distra\u00e7\u00e3o (Penalux, 2017). Teve alguns de seus poemas inclu\u00eddos nas colet\u00e2neas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Travers\u00e9e d\u2019Oc\u00e9ans \u2013 Voix po\u00e9tiques de Bretagne et de Bahia (\u00c9ditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Delicados cen\u00e1rios da exist\u00eancia nos contos de K\u00e1tia Borges<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13893,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3340,2534],"tags":[419,41,2896,149],"class_list":["post-13892","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-119a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-katia-borges","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13892","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13892"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13892\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13898,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13892\/revisions\/13898"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13893"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13892"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13892"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13892"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}