{"id":13969,"date":"2017-08-14T16:17:02","date_gmt":"2017-08-14T19:17:02","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13969"},"modified":"2017-08-27T11:20:10","modified_gmt":"2017-08-27T14:20:10","slug":"gramofone-54","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/gramofone-54\/","title":{"rendered":"Gramofone"},"content":{"rendered":"<p><em>Por S\u00e9rgio Tavares <\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>CAZUZA \u2013 S\u00d3 SE FOR A DOIS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Capa-do-disco.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-13972\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Capa-do-disco.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"347\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Capa-do-disco.jpg 350w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Capa-do-disco-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Capa-do-disco-300x297.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agenor de Miranda Ara\u00fajo Neto, o Cazuza, lan\u00e7ou quatro \u00e1lbuns de est\u00fadio em carreira solo, antes de morrer, em 7 de julho de 1990, v\u00edtima da aids. \u201cS\u00f3 se for a dois\u201d \u00e9 seu segundo trabalho e, visto no conjunto da obra do cantor e compositor carioca, pode ser considerado um disco menor. \u00c9, de acordo com n\u00fameros da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), o que registra a vendagem mais baixa: 600 mil c\u00f3pias. Artisticamente, tamb\u00e9m n\u00e3o tem can\u00e7\u00f5es ic\u00f4nicas, a exemplo de seu antecessor \u201cExagerado\u201d e de seu sucessor \u201cIdeologia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso \u00e9 que \u201cS\u00f3 se for a dois\u201d n\u00e3o pode ser analisado somente pelo universo que cont\u00e9m em si. Passados exatos trinta anos, sua import\u00e2ncia est\u00e1 em ser um \u00e1lbum inexoravelmente de transi\u00e7\u00e3o, uma ponte modulante para tudo o que transformou a vida e a maneira de enxergar o mundo do seu autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de entrar no repert\u00f3rio do disco, \u00e9 preciso reconstituir um momento dram\u00e1tico, que seria chave de virada para a carreira de Cazuza. No livro \u201cS\u00f3 as m\u00e3es s\u00e3o felizes\u201d, constru\u00eddo a partir de depoimentos de Lucinha Ara\u00fajo, m\u00e3e de Cazuza, a Regina Echeverria, esta relata que, um m\u00eas antes do show de estreia de \u201cS\u00f3 se for a dois\u201d, o cantor come\u00e7ou a apresentar sintomas de debilita\u00e7\u00e3o da sua sa\u00fade. Preocupada, Lucinha pediu que o filho fosse ao m\u00e9dico. Na volta da consulta, ela perguntou sobre o parecer cl\u00ednico, no que Cazuza respondeu: maneirar. E completou: \u201cIsso \u00e9 uma virose boba. Logo vou me curar!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o era virose, nem doen\u00e7a boba. \u00c0s v\u00e9speras do show, o m\u00e9dico chamou Lucinha e seu marido Jo\u00e3o ao consult\u00f3rio e revelou que seu filho havia sido \u201ctocado pela aids\u201d. O pr\u00f3ximo a saber foi o produtor Ezequiel Neves, que tinha Cazuza como neto (o chamava carinhosamente assim). Foi Ezequiel quem convenceu o cantor a retornar ao m\u00e9dico, e estava do outro lado da porta quando este ouviu o resultado do exame de sangue (ter o v\u00edrus HIV, nos anos 80, era uma senten\u00e7a de morte) e correu atr\u00e1s dele at\u00e9 a praia, numa cena refeita pela diretora Sandra Werneck, no filme \u201cCazuza \u2013 O tempo n\u00e3o para\u201d. \u201cZeca, eu sei que todo homem nasce e morre um dia, mas eu n\u00e3o mere\u00e7o isso!\u201d, chorou igual a um menino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele mesmo ano de 1987, ao fim da turn\u00ea de \u201cS\u00f3 se for a dois\u201d, Cazuza, seus pais e Ezequiel Neves fizeram a primeira viagem aos Estados Unidos, em busca de tratamento. \u201cN\u00e3o vou deixar voc\u00ea morrer, meu filho. Vou virar c\u00e9us e terras, vou vender minha alma ao diabo, mas voc\u00ea n\u00e3o morre\u201d, sentenciou Lucinha. Por\u00e9m, foi somente na segunda interna\u00e7\u00e3o no hospital de Boston, para combater uma febre incontorn\u00e1vel, que o cantor iniciou o tratamento com o nov\u00edssimo AZT. Apesar de causar efeitos colaterais pesados, a droga restabeleceu o \u00e2nimo de Cazuza, que come\u00e7ou a trabalhar agora sob um lema: urg\u00eancia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa fase, nasceu o \u00e1lbum \u201cIdeologia\u201d, de 1988, e o espet\u00e1culo subsequente, dirigido por Ney Matogrosso, que iria resultar no disco ao vivo \u201cO tempo n\u00e3o para\u201d, lan\u00e7ado um ano depois. Nesse mesmo per\u00edodo, Cazuza concedeu uma entrevista ao programa \u201cCara a cara\u201d, conduzido pela jornalista Mar\u00edlia Gabriela. A certa altura, ele declara que, por conta de uma \u201cinveja criativa\u201d pelas letras do Renato Russo, decidiu falar tamb\u00e9m sobre a sua gera\u00e7\u00e3o, escrever sobre o Brasil, e sair da dor de cotovelo, do nhem nhem nhem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois a identidade de \u201cS\u00f3 se for a dois\u201d \u00e9 justamente essa dor de cotovelo, esse nhem nhem nhem. Ao contr\u00e1rio de \u201cIdeologia\u201d, em que alarma: \u201cO meu prazer\/Agora \u00e9 risco de vida\u201d, o segundo trabalho traz versos leves: \u201cO nosso amor a gente inventa\/Pra se distrair\u201d. Se antes saudava a vida: \u201cViver \u00e9 bom\/Nas curvas da estrada\/Solid\u00e3o, que nada\u201d, agora entrev\u00ea a finitude em sua pr\u00f3pria imagem: \u201cEu vi a cara da morte\/E ela estava viva &#8211; viva!\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_13973\" aria-describedby=\"caption-attachment-13973\" style=\"width: 326px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Cazuza-interna-Foto-acervo-Cazuza.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13973 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Cazuza-interna-Foto-acervo-Cazuza.jpg\" alt=\"\" width=\"326\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Cazuza-interna-Foto-acervo-Cazuza.jpg 326w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Cazuza-interna-Foto-acervo-Cazuza-196x300.jpg 196w\" sizes=\"auto, (max-width: 326px) 100vw, 326px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13973\" class=\"wp-caption-text\">Cazuza \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cS\u00f3 se for a dois\u201d \u00e9, portanto, um trabalho marcado pelo romantismo, por um lado que o pr\u00f3prio Cazuza definiu como o de \u201ccantor de churrascaria\u201d. Mas, posto na dist\u00e2ncia dos anos, \u00e9 o derradeiro registro de um compositor que nunca mais existiria al\u00e9m dessas faixas, de um homem ainda despreocupado e repleto de vitalidade f\u00edsica e emocional, em oposto \u00e0quele que a aids e os sintomas da doen\u00e7a iriam cunhar: um artista que resolve processar as mazelas do pa\u00eds e a pr\u00f3pria; que n\u00e3o tem outra alternativa exceto dar forma ao seu trabalho em meio \u00e0 urg\u00eancia, contra o tempo que n\u00e3o para.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Engana-se, por\u00e9m, quem acredita que o disco seja embalado em platitude. Se a propor\u00e7\u00e3o sonora se despede aos poucos da gravidade e dos rasgados riffs de guitarra, herdados da passagem de Cazuza pelo Bar\u00e3o Vermelho, \u00e9 poss\u00edvel divisar um artista experimentando casar seu timbre roufenho a novos ritmos. Nas 11 faixas que integram o elep\u00ea, h\u00e1 uma aposta em arranjos mult\u00edssonos, num escopo musical cuja densidade consiste em elementos do blues, do pop rock, da MPB, do uso de sintetizadores, da voz e viol\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 parte os hits \u201cO nosso amor a gente inventa\u201d e \u201cSolid\u00e3o que nada\u201d, que figuram at\u00e9 hoje nas paradas noct\u00e2mbulas, as can\u00e7\u00f5es se alternam entre o andamento acelerado e o lento, \u00e0s vezes emulando o canto \u00e0 capela, nas quais se derramam contempla\u00e7\u00f5es sobre o amor, as despedidas de relacionamento, uma intera\u00e7\u00e3o meio blas\u00e9 com a melancolia, os deslindes mundanos e as introspec\u00e7\u00f5es de uma exist\u00eancia fr\u00edvola e desregrada. A veleidade e a irrever\u00eancia tamb\u00e9m d\u00e3o as caras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cLobo mau da Ucr\u00e2nia\u201d, por exemplo, Cazuza faz uma vers\u00e3o radioativa do cl\u00e1ssico personagem das hist\u00f3rias infantis, ambientando-o ao desastre de Chernobyl.\u00a0 J\u00e1 a faixa-t\u00edtulo canta uma babel de miscigena\u00e7\u00e3o entre os povos e entre os corpos, ao passo que a dan\u00e7ante \u201cVai \u00e0 luta\u201d d\u00e1 uma alfinetada nos cr\u00edticos ao comportamento do cantor. \u201cO pessoal gosta de escrachar\/De ver a gente por baixo\/Pra depois aconselhar\/Dizer o que \u00e9 certo e errado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCompletamente blue\u201d e \u201cQuarta-feira\u201d flertam, em sonoridade e letra, com um clima down. \u201cHeavy love\u201d e \u201cBalada do Esplanada\u201d, por sua vez, s\u00e3o belos opostos. Enquanto a primeira fala de uma rela\u00e7\u00e3o inconsequente (\u201cn\u00e3o sei se \u00e9 paix\u00e3o ou doen\u00e7a\u201d), a segunda \u00e9 um pedido a algu\u00e9m para que esque\u00e7a o mundo e fique contigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, nem tudo \u00e9 evidente e pressuroso. Ainda que sem a contund\u00eancia dos \u00e1lbuns posteriores, Cazuza planta alguns subentendimentos em duas composi\u00e7\u00f5es, relacionados \u00e0 sua bissexualidade (ou homossexualidade). \u201cRitual\u201d traz a frase: \u201co amor na pr\u00e1tica \u00e9 sempre ao contr\u00e1rio\u201d, e \u201cCulpa de estima\u00e7\u00e3o\u201d (caso o t\u00edtulo n\u00e3o seja suficiente) fala de um cara (ele) que, por onde anda, tem ao lado a namorada, embora n\u00e3o saiba se o nome dela \u00e9 Eva ou Ad\u00e3o. \u201cGuarda segredo e diz que n\u00e3o \u00e9 chantagem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cS\u00f3 se for a dois\u201d n\u00e3o prenuncia o artista aclamado que Cazuza iria ser, justamente por n\u00e3o ter sido a arte o motivo maior de sua busca por temas cr\u00edticos e versos mais elaborados, de abandonar as areias de Ipanema e cobrar ao Brasil que mostrasse a sua cara. \u00c9, desse modo, um disco que guarda uma certa ingenuidade, um trabalho dominado por uma energia que, trinta anos depois, sabemos que estava prestes a se dissipar, tal uma foto despretensiosa batida minutos antes de um acidente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Y1C4FHOurV4\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trinta anos ap\u00f3s seu lan\u00e7amento, \u201cS\u00f3 se for a dois\u201d, disco de Cazuza, \u00e9 rememorado por S\u00e9rgio Tavares <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13970,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3372,16,2536],"tags":[3373,14,1023,3374],"class_list":["post-13969","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-120a-leva","category-destaques","category-gramofone","tag-cazuza","tag-gramofone","tag-sergio-tavares","tag-so-se-for-a-dois"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13969","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13969"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13969\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13975,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13969\/revisions\/13975"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13970"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13969"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13969"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13969"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}