{"id":13993,"date":"2017-08-15T12:11:58","date_gmt":"2017-08-15T15:11:58","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13993"},"modified":"2017-08-29T16:42:16","modified_gmt":"2017-08-29T19:42:16","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-53","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-53\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O quanto pode encerrar a pot\u00eancia e os caminhos de uma voz que se quer dedicada \u00e0 poesia? Por certo, h\u00e1 mais do que uma vontade de dizer coisas ao mundo, de vociferar inten\u00e7\u00f5es discursivas advindas da mec\u00e2nica do pensamento. N\u00e3o basta intentar cria\u00e7\u00f5es como se estas fossem um mero jogo de representa\u00e7\u00e3o dos sintomas pulsantes da vida e seus entornos. Desconfiamos, pois, que h\u00e1 muito mais por tr\u00e1s daquele que se mostra em palavras e versos ao mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poeta a quem dedicamos aten\u00e7\u00e3o agora abarca uma peculiar condi\u00e7\u00e3o de estar no mundo, qual seja a de mostrar-se inquieto e desperto diante de quest\u00f5es que marcam sobremaneira a seara humana no quesito das identidades. \u00c9 <strong>Jorge Augusto<\/strong>, intelectual baiano, educador, art\u00edfice do verso, editor e, principalmente, ativista cultural quem nos oferta possibilidades de di\u00e1logo a partir de um t\u00e3o complexo territ\u00f3rio que \u00e9 a literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Jorge com quem conversamos est\u00e1 envolto nas transforma\u00e7\u00f5es que o tempo imp\u00f4s a seus escritos. Desde os primeiros poemas, cobertos pela \u00e9gide do desejo, at\u00e9 o momento presente, o autor tem revelado uma maturidade est\u00e9tica que \u00e9 consequ\u00eancia natural de um processo pessoal de busca. Um de seus mais importantes projetos aponta para a condu\u00e7\u00e3o da <em>Organismo Editora<\/em>, coordenando a <em>Cole\u00e7\u00e3o de poetas baianos in\u00e9ditos<\/em>, bem como a Revista Organismo. \u00c9 doutorando em Literatura e cr\u00edtica da cultura pela UFBA. Na \u00e1rea de Literatura Brasileira, o cerne de suas pesquisas est\u00e1 voltado para temas como decolonialidade, modernismo brasileiro e literatura negra. Hoje, integra o corpo docente do IFMA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com poemas publicados na <em>Antilogia<\/em> \u2013 organiza\u00e7\u00e3o de colet\u00e2nea entre poetas de Bahia e S\u00e3o Paulo (2011), no livro de poemas do <em>Sarau da On\u00e7a<\/em>, e na antologia <em>Enegresc\u00eancia<\/em> (Ed. Ogum\u2019s Toques), dentre colabora\u00e7\u00f5es para sites e revistas variadas, Jorge vai deixando entre n\u00f3s os ind\u00edcios de uma express\u00e3o que contempla uma percep\u00e7\u00e3o agu\u00e7ada sobre a exist\u00eancia. Decerto, s\u00e3o revela\u00e7\u00f5es de uma alma que tenciona desarranjar acomoda\u00e7\u00f5es e cujo alicerce do pensamento aponta para o ato frequente de vislumbrar a cr\u00edtica salutar sobre o que est\u00e1 posto em mat\u00e9ria cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Jorge Augusto que nos confessa certo e atroz desengano diante do presente n\u00e3o repousa seus arremates no solo est\u00e1tico da desilus\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, evidencia uma provoca\u00e7\u00e3o que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, sugere uma mudan\u00e7a de rumos situada nalguma via de renova\u00e7\u00e3o. Como esta se dar\u00e1 s\u00f3 o futuro pode nos asseverar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14050\" aria-describedby=\"caption-attachment-14050\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/int-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14050 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/int-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/int-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/int-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14050\" class=\"wp-caption-text\">Jorge Augusto \/ Foto: Cazzo Fontoura<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Parte de sua produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica possui uma atmosfera marcada por elementos sensoriais que sugerem instigantes percursos atrav\u00e9s dos sentidos, sobretudo no que se refere \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do desejo. Em que medida essa caracter\u00edstica \u00e9 constituinte do poeta que voc\u00ea \u00e9 hoje?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE AUGUSTO &#8211; <\/strong>Acredito que em pouca medida hoje. Confesso que quando li\/ouvi sua pergunta, fiquei pensando com o que nos meus poemas ela dialogava. Porque nenhum dos poemas publicados nas antologias, que foram as \u00faltimas publica\u00e7\u00f5es, t\u00eam essa presen\u00e7a dos elementos sensoriais, pelo menos n\u00e3o deliberadamente, n\u00e3o por vontade, e consci\u00eancia. Mas logo lembrei das revistas e dos poemas que publiquei, mais ou menos\u00a0\u00a0em 2007 (per\u00edodo que comecei a publicar),\u00a0na <em>Germina Literatura<\/em> e na <em>Diversos Afins<\/em>, no projeto <em>Un\u00edssono<\/em>, por exemplo. E sua pergunta fez sentido para mim. Ent\u00e3o, tive que respond\u00ea-la primeiro para mim, escutar a resposta, para depois diz\u00ea-la. Mas, sobre\u00a0a constru\u00e7\u00e3o do desejo, eu acredito que, assim como a fala na psican\u00e1lise, muitas vezes na escrita, mesmo e, sobretudo, \u00e0 revelia do sujeito, h\u00e1 um exerc\u00edcio infinito, talvez, de elabora\u00e7\u00e3o do desejo ou da consci\u00eancia dele. E desejo, aqui, no sentido amplo, desejo de revolu\u00e7\u00e3o, de mudan\u00e7a, de foda, desejo de estar vivo. Enfim, acho que dos primeiros poemas para c\u00e1, e creio ainda est\u00e1 nos primeiros (e talvez j\u00e1 \u00faltimos), esse lugar, esse objeto do desejo, tenha mudado, ou melhor, expandido, alargado. Deixou de estar fixo no reduto do\u00a0corpo e elasteceu-se a outros muitos <em>corpus<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nesse processo de expans\u00e3o de sua consci\u00eancia po\u00e9tica, h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o intencional de se fazer ouvir por uma postura ideol\u00f3gica diante do mundo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE AUGUSTO &#8211; <\/strong>A postura ideol\u00f3gica diante do mundo vai, em qualquer express\u00e3o de linguagem, mais ou menos camuflada, mais ou menos exposta. Mas est\u00e1 sempre l\u00e1, na palavra, no sil\u00eancio, ou no sil\u00eancio da palavra. Acho, por exemplo, que o que voc\u00ea chamou de &#8220;preocupa\u00e7\u00e3o intencional&#8221; em demonstrar uma ideologia pode estar, muitas vezes, melhor relacionada a uma escolha formal do que conteud\u00edstica. Embora, para mim, o bom poema seja aquele em que essa separa\u00e7\u00e3o forma-fundo \u00e9 o menos vis\u00edvel poss\u00edvel, ou melhor, aquele em que essa divis\u00e3o nem exista. E de resto n\u00e3o acho que foi uma &#8220;expans\u00e3o de consci\u00eancia po\u00e9tica&#8221;, mas uma mudan\u00e7a de op\u00e7\u00e3o, uma escolha est\u00e9tica, porque o tema, tamb\u00e9m, comp\u00f5e a forma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O poeta deve ter um compromisso com o seu tempo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE AUGUSTO &#8211; <\/strong>Eu n\u00e3o acredito numa fun\u00e7\u00e3o trans-hist\u00f3rica do poeta. N\u00e3o acredito que o poeta, ou a poesia, tenham uma fun\u00e7\u00e3o. Estas perspectivas acionam uma esp\u00e9cie de metaf\u00edsica que n\u00e3o agencia nenhuma pot\u00eancia humana. Por\u00e9m, acredito no papel hist\u00f3rico do (a) poeta. E s\u00e3o duas coisas completamente diferentes. O papel que o poeta deve desempenhar em seu tempo n\u00e3o tem nada a ver com uma fun\u00e7\u00e3o da poesia em si, transcendental e atemporal.\u00a0 Pelo contr\u00e1rio, diz respeito ao uso que o poeta empresta \u00e0 poesia em determinado contexto hist\u00f3rico. Esse papel n\u00e3o tem necessariamente nada a ver com o desejo do poeta, nem do seu tempo, mas com o que \u00e9 necess\u00e1rio a esse tempo. Por isso, a poesia deve ser pensada numa rela\u00e7\u00e3o \u00e9tico-est\u00e9tica. A forma n\u00e3o \u00e9 meramente uma constru\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, mas \u00e9tica.\u00a0 Nesse sentido, inverte-se aquela equa\u00e7\u00e3o famosa em que o &#8220;grande&#8221; (assim entre aspas) poeta \u00e9 aquele que ultrapassa sua \u00e9poca e est\u00e1 al\u00e9m do seu tempo, o bom poeta passa a ser aquele que entende que tipo de poesia o seu tempo precisa propor, que tipo de viol\u00eancia sobre a linguagem \u00e9 necess\u00e1ria \u00e0quele tempo. Tanto a revista <em>Noigandres<\/em> quanto os cadernos negros foram, como projetos liter\u00e1rios, igualmente importantes \u00e0 literatura brasileira, em suas dimens\u00f5es \u00e9ticas e est\u00e9ticas. \u00c9 por causa disso, desse papel hist\u00f3rico que a poesia pode ter, que hoje \u00e9 t\u00e3o complicado pensarmos numa vanguarda ou numa est\u00e9tica que represente uma coletividade grande, de forma hegem\u00f4nica, porque a sociedade globalizada \u00e9 multitemporal e, consequentemente, com diversas necessidades diferentes, mesmo dentro de um \u00fanico territ\u00f3rio pol\u00edtico, como \u00e9 o caso do Brasil. Assim, a poesia ganha v\u00e1rios, m\u00faltiplos papeis, num mesmo espa\u00e7o-tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 quem defina que a literatura n\u00e3o precisa ser dividida em frentes de atua\u00e7\u00e3o, sobretudo no que se refere \u00e0s vozes pertencentes \u00e0s minorias, tais como negros, gays, mulheres etc. Qual olhar voc\u00ea lan\u00e7a sobre esse tema, tendo em vista que a literatura \u00e9 um importante instrumento de express\u00e3o identit\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE AUGUSTO &#8211; <\/strong>Essa quest\u00e3o carrega para mim uma s\u00e9rie de falsas tens\u00f5es. Por exemplo, \u00e9 comum ouvir algum cr\u00edtico ou \u201cestudioso\u201d da literatura perguntar: &#8220;por que chamar de &#8220;literatura negra&#8221;, ou de &#8220;literatura feminina&#8221; se a literatura \u00e9 universal? Adjetivar a literatura \u00e9 restringi-la e diminu\u00ed-la&#8221;. Essa fala, mil vezes dita e repetida nos mais diferentes c\u00edrculos de conversa sobre literatura, \u00e9 exaustivamente cansativa. Esse tipo de argumento mostra, ou uma ignor\u00e2ncia do tema, ou um mau-caratismo, porque se tem algo \u00f3bvio na literatura, \u00e9 que ela sempre foi adjetivada. Chamar uma literatura de inglesa, francesa ou alem\u00e3 n\u00e3o \u00e9 adjetiv\u00e1-la? Chamar uma literatura de ocidental, n\u00e3o \u00e9 adjetiv\u00e1-la? Quantos livros de hist\u00f3ria da literatura ocidental (Europa, claro) n\u00f3s v\u00edamos pelas prateleiras das livrarias? O que \u00e9 necess\u00e1rio compreender \u00e9 que essa adjetiva\u00e7\u00e3o era tamb\u00e9m identit\u00e1ria, pois remetia, em grande parte, a rela\u00e7\u00f5es entre os textos e a na\u00e7\u00e3o, ou l\u00edngua e na\u00e7\u00e3o, ou texto e l\u00edngua. \u00c9 nesse sentido que alguns cr\u00edticos chamam (ou chamavam) de literatura inglesa tudo que foi escrito em ingl\u00eas, e que cada na\u00e7\u00e3o tomava para si um conjunto de textos e adjetivava. Ora, o que aconteceu nas \u00faltimas d\u00e9cadas foi uma reorganiza\u00e7\u00e3o, uma reorienta\u00e7\u00e3o das constru\u00e7\u00f5es discursivas sobre a identidade. Uma s\u00e9rie de forma\u00e7\u00f5es discursivas que viviam obliteradas sob as metanarrativas nacionalistas e marxistas ganharam novo protagonismo com o fim da esperan\u00e7a (pelo menos por agora) em uma sociedade n\u00e3o capitalista. Uma nova s\u00e9rie de sociabilidades vai ganhando f\u00f4lego e politizando suas demandas e subjetividades, e, claro, essas sociabilidades engolidas historicamente pelas narrativas nacionais totalizantes precisam agora construir-se hist\u00f3rica e discursivamente como as na\u00e7\u00f5es se constru\u00edram. E para isso usam a literatura, porque, como todos sabemos, identidade \u00e9 constru\u00e7\u00e3o de linguagem. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 absolutamente nada que diferencie, metodologicamente, chamar uma literatura de chilena, ou de negro-brasileira, os mecanismos discursivos de constru\u00e7\u00e3o dessas adjetiva\u00e7\u00f5es s\u00e3o os mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro argumento, um pouco mais respeitoso, mas ainda assim muito fr\u00e1gil, \u00e9 a ideia de que, para chamarmos uma literatura de &#8220;feminina&#8221;, por exemplo, ela teria que ter necessariamente uma inova\u00e7\u00e3o formal que a diferenciasse das demais literaturas que a rodeiam com outros adjetivos p\u00e1trios. Essa proposi\u00e7\u00e3o tem equ\u00edvocos. Um deles \u00e9 o de que n\u00e3o foi uma caracter\u00edstica est\u00e9tica determinante quem fez com que as literaturas nacionais ganhassem seus adjetivos. Se n\u00e3o, poetas como Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, Castro Alves e tantos outros n\u00e3o seriam considerados literatura brasileira. Mesmo nosso modernismo assinalava no plano formal v\u00e1rios di\u00e1logos com as vanguardas europeias, como qualquer estudante sabe. \u00c9 preciso compreender coisas muito simples, como o fato de que as revolu\u00e7\u00f5es formais que ocorrem na literatura, como Modernismo, Concretismo, Romantismo, agenciam conjuntos de textos. J\u00e1 as adjetiva\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias como literatura brasileira, literatura feminina, literatura russa, literatura homoafetiva, agenciam coletividades de sujeitos. S\u00e3o coisas bem diferentes, mesmo podendo eventualmente misturar-se, num determinado contexto hist\u00f3rico, mas que s\u00e3o independentes umas das outras, pois uma diz respeito a como se produz, e a outra, a quem produz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_14051\" aria-describedby=\"caption-attachment-14051\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/int-02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14051 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/int-02.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/int-02.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/int-02-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14051\" class=\"wp-caption-text\">Jorge Augusto \/ Foto: Cazzo Fontoura<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Como voc\u00ea observa a din\u00e2mica da constru\u00e7\u00e3o das identidades no contexto digital, mais precisamente no que diz respeito \u00e0s novas vozes autorais que publicam seus escritos em revistas digitais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE AUGUSTO &#8211; <\/strong>Acho que n\u00e3o sei responder esta pergunta, mas gosto de especular. Primeiro, acho que quando pensamos na produ\u00e7\u00e3o de identidades no contexto digital, partindo da escrita, e a\u00ed acho quase imposs\u00edvel limitar a no\u00e7\u00e3o de escrita a texto, n\u00e3o temos como restringir esses autores ao contexto de publica\u00e7\u00e3o em revistas digitais. Antes, a ideia, para mim, seria pensar esse autor desde o post no facebook at\u00e9 o poema que sai no livro, que em muitos casos \u00e9 o mesmo. Nesse sentido, n\u00e3o consigo pensar em outra possibilidade sen\u00e3o de chamar performance isso que voc\u00ea chamou de &#8220;constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria&#8221;. Essa performance diz respeito diretamente \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre autor e leitor, pois a internet e suas possibilidades de conex\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o possibilitaram um circuito de afetos novos ao poeta. O poeta e a poesia, como sabemos, s\u00e3o os patinhos feios das linguagens art\u00edsticas na ind\u00fastria cultural de massa. O poeta \u00e9 o mais barato, o que p\u00f5e em circuito menor circula\u00e7\u00e3o de capital, e, por isso, n\u00e3o goza das mesmas proje\u00e7\u00f5es de publicidade que outros artistas. O poeta e sua obra est\u00e3o quase sempre restritos ao pr\u00f3prio campo liter\u00e1rio. Por\u00e9m, as possibilidades de intera\u00e7\u00e3o propiciadas pela internet abrem um novo circuito de circula\u00e7\u00e3o dessas obras e poetas que independe de acesso direto aos grandes ve\u00edculos de divulga\u00e7\u00e3o massiva. E o mais perto que o poeta chega de ser pop \u00e9 ter uma grande quantidade de seguidores nas redes sociais. O \u00e1pice \u00e9 virar letrista de m\u00fasicos famosos. At\u00e9 a\u00ed o que h\u00e1 nessa presen\u00e7a do poeta no contexto digital s\u00e3o aspectos positivos: divulga\u00e7\u00e3o de sua obra e intera\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, facilidade de acesso aos poemas e poetas, constru\u00e7\u00e3o de uma rede de contatos e discuss\u00e3o entre autores, p\u00fablico e cr\u00edtica etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, a partir da\u00ed, o que nos interessa pensar \u00e9: que efeitos esse contato \u00edntimo com o leitor causa na identidade, na performance do poeta enquanto poeta? E estamos diante de um fato: poeta nenhum escreve um poema por dia. Entramos a\u00ed talvez num jogo meio esquizofr\u00eanico, mas muito comum nas redes sociais, que \u00e9 um trabalho de manuten\u00e7\u00e3o dos leitores, que s\u00f3 pode ser feito para al\u00e9m do texto liter\u00e1rio. Assim, piadas, fotos, opini\u00f5es sobre tudo e qualquer coisa, intera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, etc., comp\u00f5em o quadro de uma performance que n\u00e3o \u00e9 mais, em muitos casos, de um poeta, ou escritor, mas simplesmente de uma pessoa p\u00fablica.\u00a0 A poesia, em alguns casos, vai, pouco a pouco, ficando em segundo plano. Isso \u00e9 muito mais comum do que parece. Um poeta muito pop n\u00e3o \u00e9 necessariamente um poeta lido, embora isso possa tranquilamente acontecer.\u00a0 Em suma, o perigo nessa rela\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica que atravessa a visibilidade do escritor e sua obra, expondo-os ao contato direto e cotidiano com o leitor, \u00e9 tudo acabar num jogo de espelho narc\u00edsico. O que a nossa \u00e9poca menos precisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que voc\u00ea n\u00e3o endossa nesse estado de coisas chamado p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE AUGUSTO &#8211; <\/strong>O que eu n\u00e3o endosso na p\u00f3s-modernidade \u00e9 seu funcionamento como sin\u00f4nimo de contempor\u00e2neo, como se o &#8220;p\u00f3s-moderno fosse o contempor\u00e2neo&#8221;, isso \u00e9 visto muito em um senso comum, mas tamb\u00e9m em discuss\u00f5es acad\u00eamicas com pouco esfor\u00e7o de pesquisa. A p\u00f3s-modernidade \u00e9 uma nomenclatura que remete a uma proposta epistemol\u00f3gica, comumente filiada ao p\u00f3s-estruturalismo franc\u00eas, mas n\u00e3o apenas, que traz no campo da teoria um questionamento e uma ruptura com uma s\u00e9rie de propostas epist\u00eamicas que marcaram o pensamento cient\u00edfico at\u00e9 metade do s\u00e9culo passado. Mas \u00e9 apenas uma das propostas vigentes, pois temos a p\u00f3s-colonialidade, a decolonialidade, o feminismo-negro, entre outras, todas propostas epist\u00eamicas de grande f\u00f4lego e que comp\u00f5em o cen\u00e1rio contempor\u00e2neo na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Portanto, me incomoda, primeiro, o uso do termo p\u00f3s-moderno como sin\u00f4nimo de contempor\u00e2neo, o que oblitera, esconde, todas as outras propostas de debate. Segundo, o p\u00f3s-moderno \u00e9 marcado por uma &#8220;politiza\u00e7\u00e3o da subjetividade&#8221;, de uma maneira tal que a individua\u00e7\u00e3o de grupos e sujeitos, suas demandas e projetos, passam a ser constru\u00eddas a partir de pontos de vista espec\u00edficos no plano hist\u00f3rico, social e pol\u00edtico, o que me parece correto, e o \u00e9, at\u00e9 a p\u00e1gina tr\u00eas. H\u00e1 nisso, nessa arquitetura que se criou para combater a desigualdade, que \u00e9 a justa luta pela autorrepresenta\u00e7\u00e3o e pelo poder, uma esquina que em certa medida a refor\u00e7a. E essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 um tanto pol\u00eamica, e \u00e9 justo que seja, mas tentarei explicar. \u00c0 medida que a micropol\u00edtica ocupa o lugar da metanarrativa marxista e os grupos minorit\u00e1rios agenciam suas pr\u00f3prias demandas, a pol\u00edtica ganha uma nova pot\u00eancia transformadora que, vimos, deu muitos frutos positivos, nos planos pol\u00edticos, epist\u00eamicos e subjetivos. Mas eu acredito que esses frutos positivos podem ser, agora, potencializados, se restituirmos a esses discursos minorit\u00e1rios o desejo pela emancipa\u00e7\u00e3o social, num plano coletivo. E n\u00e3o, isso n\u00e3o pede, em nenhuma inst\u00e2ncia, a volta da metanarrativa marxista, nem o imp\u00e9rio da superestrutura, nem o determinismo de classe. Era imposs\u00edvel continuar pensando a partir do marxismo, e tudo o que se fez depois disso mostra que foi uma mudan\u00e7a necess\u00e1ria, por\u00e9m, igualmente acredito que pensar com o marxismo ainda pode ser \u00fatil. Ent\u00e3o, pensar a partir de, e pensar com, \u00e9 muito diferente. Creio que nossa apatia no cen\u00e1rio pol\u00edtico contempor\u00e2neo, no Brasil, tem como um dos motivos, a falta de conex\u00e3o, de costura entre as demandas pol\u00edticas que os grupos minorit\u00e1rios agenciam. Temos, enquanto minorias, muita coisa incomum, mas tamb\u00e9m, em comum, todos sabemos. A fase de ruptura radical de constru\u00e7\u00e3o discursiva da singularidade foi e tem sido fundamental. Agora creio que tecer uma rede de demandas comuns \u00e9, tamb\u00e9m, estrat\u00e9gico e potente no nosso atual cen\u00e1rio. A luta contra a viol\u00eancia cometida contra a mulher negra, contra sua solid\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apartada da luta contra o genoc\u00eddio dos jovens negros nas periferias brasileiras, e ambas est\u00e3o ligadas de forma mais ampla ao completo abandono da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica nas periferias do Brasil. O que precisamos hoje \u00e9 aprender a costurar as demandas sem tirar for\u00e7a e singularidade de nenhuma delas. Esse \u00e9 o desafio do intelectual hoje. Portanto, paradoxalmente, h\u00e1 uma pretensa universaliza\u00e7\u00e3o do plano epist\u00eamico, operada pela sigla p\u00f3s-moderno, que me desagrada, e uma fragmenta\u00e7\u00e3o no plano pol\u00edtico, da qual tenho ressalvas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Pensando na sua atua\u00e7\u00e3o \u00e0 frente de uma editora como a Organismo, quais desafios surgem com mais evid\u00eancia quando se trata de disseminar a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria no contexto de uma iniciativa independente? <\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE AUGUSTO &#8211; <\/strong>As dificuldades s\u00e3o muitas. Uma editora pequena tem muitos desafios. Publicar \u00e9 caro, distribuir tamb\u00e9m. Os servi\u00e7os, se voc\u00ea quiser fazer um trabalho de destaque, tamb\u00e9m s\u00e3o caros. Enfim, do ponto de vista financeiro, \u00e0s vezes parece inexequ\u00edvel. No caso da <em>Organismo Editora<\/em>, o desafio \u00e9 ainda maior, pois, em nossa primeira cole\u00e7\u00e3o &#8220;novos autores&#8221;, publicamos apenas autores in\u00e9ditos, ou seja, que teoricamente ainda est\u00e3o construindo um p\u00fablico, portanto, sem grandes promessas de vendas; e tamb\u00e9m, essa cole\u00e7\u00e3o publica apenas poetas e, em sua grande parte, os poetas n\u00e3o vendem muitos livros; por fim,\u00a0 trabalhamos com uma proposta est\u00e9tica muito espec\u00edfica, pois o projeto da Organismo \u00e9 pensar o livro como um objeto que produza signos e sentidos, que dialogue com os poemas, o livro como agenciamento de sentidos. Assim, nessa cole\u00e7\u00e3o tudo est\u00e1 relacionado no livro, fonte, cor, corte, poemas etc. Buscamos mitigar no maior grau poss\u00edvel a dicotomia forma-fundo. A proposta \u00e9 pensar o livro, enquanto objeto, como organismo vivo, que n\u00e3o \u00e9 apenas um reposit\u00f3rio de sentidos, como uma caixa de guardar poemas, mas que est\u00e1 sempre em intera\u00e7\u00e3o com o leitor e os poemas, produzindo esses sentidos. Essa caracter\u00edstica nos isola no mercado, al\u00e9m de encarecer, muitas vezes, o pre\u00e7o de publica\u00e7\u00e3o do livro. A maior distribuidora de livros da Bahia se negou a distribuir nossos livros com o seguinte argumento: &#8220;da pr\u00f3xima vez, fa\u00e7a algo mais simples, essas coisas n\u00e3o vendem&#8221;. E olhe que eles cobram de 50 a 60 por cento pela distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14053\" aria-describedby=\"caption-attachment-14053\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/int-03.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14053 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/int-03.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/int-03.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/int-03-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14053\" class=\"wp-caption-text\">Jorge Augusto \/ Foto: Cazzo Fontoura<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Temos experimentado no Brasil um crescente n\u00famero de editoras pequenas que preferem elas mesmas distribu\u00edrem seus livros e, assim, cuidarem de todo o processo de comercializa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 alguma outra sa\u00edda nessa tentativa de sobreviv\u00eancia editorial?<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE AUGUSTO &#8211; <\/strong>Tenho pouca experi\u00eancia nisso, quase nenhuma, mas penso que temos algumas poucas alternativas, como intensificar cada vez mais as vendas pela internet, coisa que j\u00e1 acontece, essas editoras alternativas produzirem feiras em conjunto (tamb\u00e9m j\u00e1 \u00e9 feito, mas pode ser intensificado). As editoras podem visibilizar cat\u00e1logos em parceria, em seus sites, e cada vez mais os lan\u00e7amentos terem uma import\u00e2ncia maior, pois \u00e9 o momento no qual as pequenas editoras conseguem escoar as publica\u00e7\u00f5es. Uma coisa que eu acho que deve ser feita \u00e9 abrir nos grandes eventos espa\u00e7o para as editoras menores. Sem esse espa\u00e7o para publiciza\u00e7\u00e3o dos livros, fica muito dif\u00edcil que eles sejam vendidos. Esse estado de coisas cria um fen\u00f4meno que me desagrada, e que remete a uma quest\u00e3o anterior que voc\u00ea colocou, pois, somam-se dois fatores: a hist\u00f3rica venda comedida dos poetas, a dificuldade de distribui\u00e7\u00e3o das pequenas editoras, junto com a exclus\u00e3o dos grandes eventos. Com tudo isso somado, os poetas acabam tendo que virar promoters de sua pr\u00f3pria obra, o que \u00e0s vezes at\u00e9 funciona bem, outras nos lega uma s\u00e9rie de constrangimentos horr\u00edveis, como a onda de autoelogio e autopublica\u00e7\u00e3o que vemos em redes sociais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No quesito da cria\u00e7\u00e3o, como voc\u00ea avalia o novo panorama liter\u00e1rio nacional? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE AUGUSTO &#8211; <\/strong>O panorama atual da literatura brasileira tem uma peculiaridade hist\u00f3rica. Ele \u00e9, pela primeira vez, rizom\u00e1tico. E acho que a palavra \u00e9 justamente essa, mesmo caindo num risco de parecer muito te\u00f3rico. Acho que a ideia de m\u00faltiplo, por exemplo, n\u00e3o resolve. \u00c9 rizom\u00e1tico no sentido de que s\u00e3o muitas linhas de fuga se cruzando e seguindo. Nessas quase duas d\u00e9cadas de s\u00e9culo XXI, vimos a literatura brasileira ganhar diversas revistas importantes na internet, vimos as publica\u00e7\u00f5es de poesia assumirem uma crescente, sobretudo a partir das novas editoras. Mas alguns eventos se destacam, como a cole\u00e7\u00e3o de poetas lan\u00e7ados pelo selo <em>Sete Letras<\/em>, o grupo de poetas (at\u00e9 onde sei) majoritariamente do eixo Rio-SP que se formou em torno da revista <em>Inimigo Rumor<\/em>. Concomitantemente, tivemos um movimento que se forjou no contorno da revista <em>Zun\u00e1i<\/em>, de Claudio Daniel, salvo engano chamava Neobarroco. E at\u00e9 a\u00ed o que t\u00ednhamos ainda era uma gera\u00e7\u00e3o que buscava se debater na sombra do concretismo que, de algum modo, buscava dar o fantasmag\u00f3rico passo \u00e0 frente, t\u00e3o inscrito na teoria da poesia concreta. Quem se livrou relativamente dessa quest\u00e3o, sobretudo na sequ\u00eancia das publica\u00e7\u00f5es, foi o grupo da <em>Modo de Usar<\/em>, inclusive com produ\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. Mas at\u00e9 a\u00ed havia ainda uma multiplicidade que se irradiava a partir de uma linha de fuga do rizoma mais ligada \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 nesses grupos, na minha modesta opini\u00e3o, um di\u00e1logo com essa tradi\u00e7\u00e3o da literatura brasileira oficial, seja para negar ou buscar o passo \u00e0 frente. Nas outras linhas de fuga do rizoma, acho que as express\u00f5es produzidas pelas est\u00e9ticas minorit\u00e1rias v\u00eam gerar desde o s\u00e9culo passado um conjunto de fortes cenas. Podemos tomar os Cadernos Negros como marco, chegando hoje \u00e0 fort\u00edssima e consistente literatura negra feminina, mas passando por uma literatura feminina, ind\u00edgena, perif\u00e9rica, homoafetiva, ou seja, uma s\u00e9rie de linhas de fuga v\u00e3o se criando como tema diverso e como forma. Outros n\u00facleos v\u00e3o se formando como a editora <em>Organismo<\/em> e a <em>Ogum\u2019s Toques<\/em>, na Bahia, as Edi\u00e7\u00f5es <em>Cartoneiras<\/em>, em Recife. As diferen\u00e7as se multiplicam e seguem em linhas de fuga. Nesse cen\u00e1rio, a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 diversa, e a\u00ed vem a grande quest\u00e3o: a diversidade \u00e9 uma qualidade \u00e9tica nem sempre acompanhada de for\u00e7a est\u00e9tica. Portanto, n\u00e3o basta ser um poema filiado \u00e0s minorias, ou um poema que seja contra-hegem\u00f4nico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura oficial, nem muito menos um poema que se enquadre na tradi\u00e7\u00e3o para que seja tomado como um &#8220;bom poema&#8221;. Haver uma amplia\u00e7\u00e3o gigante de formas e temas poss\u00edveis como literatura nos permite dizer que h\u00e1 muitos projetos est\u00e9ticos diferentes, mas n\u00e3o implica dizer que tudo que se faz dentro dessa diferen\u00e7a tem a mesma pot\u00eancia \u00e9tico-est\u00e9tica.\u00a0 Isso parece \u00f3bvio, eu sei, mas n\u00e3o tem sido. H\u00e1 todo um investimento te\u00f3rico, de certa parte da academia e de parcela da cr\u00edtica liter\u00e1ria, para pensar esses novos <em>corpus<\/em>, e o pr\u00f3prio conceito de literatura, em seu sentido cl\u00e1ssico, tem sido rasurado em muitas frentes. Desse modo, vejo o panorama da literatura nacional produtivo, diverso e muito positivo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s obras produzidas, mas ainda em gesta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica desse mesmo cen\u00e1rio, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 produzido fora do eixo Rio-SP. E ressalvamos que n\u00e3o se trata de uma cena acabada, na qual o m\u00faltiplo \u00e9 dado como constru\u00eddo, h\u00e1 processos de mitose e meiose ainda em curso, h\u00e1 propostas de escritas se costurando, enquanto outras se bifurcam e seguem por si. Da\u00ed, a cena ser rizom\u00e1tica e n\u00e3o apenas m\u00faltipla, pois as multiplicidades ainda est\u00e3o em pleno acontecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Somos um pa\u00eds de leitores subestimados?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE AUGUSTO &#8211; <\/strong>Creio que somos um pa\u00eds de subleitores, e que os leitores que temos s\u00e3o, em boa medida, subestimados. E uma coisa tem muito a ver com a outra. Eu acredito que a equa\u00e7\u00e3o normalmente acionada para falar de leitores no Brasil \u00e9 essa: &#8220;os leitores s\u00e3o subestimados porque s\u00e3o subleitores, ou seja, leem mal, ou n\u00e3o gostam de ler&#8221;. Primeiro, \u00e9 fundamental identificarmos o que essas pesquisas que apontam a n\u00e3o leitura consideram como leitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um livro chamado <em>Cultura Letrada<\/em>, de M\u00e1rcia Abreu, nos fornece insights valiosos sobre isso. Mostra, por exemplo, que nem todo tipo de livro \u00e9 valorizado como leitura, nos processos educacionais.\u00a0 Portanto, h\u00e1 um tipo de leitura que \u00e9 cobrada, obviamente aquela que redunda ao c\u00e2none e suas adjac\u00eancias. \u00c9 ineg\u00e1vel como a ind\u00fastria do livro cresceu no Brasil nos \u00faltimos anos. Algu\u00e9m l\u00ea os <em>best sellers<\/em>, l\u00ea os livros que s\u00e3o adaptados pelo cinema, porque eles vendem muito. As pessoas n\u00e3o compram para colocar na estante. Quando n\u00f3s, nos processos educacionais mais b\u00e1sicos, desconsideramos uma s\u00e9rie de leituras, de diversas vertentes (do quadrinho ao cl\u00e1ssico) que os meninos fazem, estamos subestimando n\u00e3o apenas essas obras, mas, sobretudo, os leitores e, consequentemente, produzindo subleitores. E subleitores aqui est\u00e1 empregado no sentido de sujeitos que leem apenas o necess\u00e1rio para o desenrolar da vida cotidiana mais pr\u00e1tica, que n\u00e3o acionam a leitura em suas pot\u00eancias construtivas, inventivas e subjetivas. Porque, se l\u00e1 no in\u00edcio, no ensino b\u00e1sico e fundamental, tudo que voc\u00ea l\u00ea \u00e9 desqualificado pelo projeto pedag\u00f3gico, pelo livro did\u00e1tico e pelo professor, o que est\u00e1 sendo posto em xeque, mesmo que &#8220;involuntariamente&#8221;, n\u00e3o \u00e9 a obra que voc\u00ea gosta de ler, \u00e9 a pr\u00f3pria pr\u00e1tica de leitura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Quem \u00e9 Jorge Augusto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE AUGUSTO &#8211; <\/strong>Dizer quem sou \u00e9 um estorvo e um teatro. Digo quem estou, \u00e9 o m\u00e1ximo que posso tentar. Estou h\u00e1 algum tempo um homem pesado, sinto como se carregasse meu pr\u00f3prio peso como um escombro. Como se arrastasse, passo a passo, meu corpo como um trambolho. Desesperan\u00e7ado, desiludido. Eu disse em versos: \u201cminha m\u00e3e morreu hoje \/todo esse tempo, sem por que nem pecado \/ sem deus ou diabo, sigo s\u00f3:\/ homem sem f\u00e9, mas culpado\u201d. E n\u00e3o mudou ainda, isso resume esse hoje que sou.\u00a0 Talvez haja certo momento, certa lucidez em que a solid\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel e saber viv\u00ea-la \u00e9 decisivo entre o choro e o riso. Eu devo estar, agora, nesse exerc\u00edcio. Acho que \u00e9 um exerc\u00edcio de morrer para nascer de novo, como met\u00e1fora, como s\u00edmbolo, acredito que tem pot\u00eancia nisso. O ruim \u00e9 que nada quer morrer, nem a esperan\u00e7a, nem o passado, nem o amor, nem o cachorro, nem o corpo, tudo fica se arrastando, insistindo. O sofrimento vem muito dessa insist\u00eancia em n\u00e3o acatar as mortes, das ordin\u00e1rias \u00e0s mais contundentes. O luto \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1rio, para o sujeito quanto a luta. Mas \u00e9 importante dizer que essa desilus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 harm\u00f4nica, nem ap\u00e1tica, pois \u00e9 esse homem consciente das mortes e da perenidade, justamente aquele que pode arriscar. Enfim, hoje sou um homem negro, sem esperan\u00e7a nem no amor, nem no pa\u00eds, nem no homem. Amanh\u00e3 me pergunte de novo e, provavelmente, te direi outros poemas. Por enquanto, estou naquele um minuto de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> edita a Revista Diversos Afins, al\u00e9m de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, \u00e9 mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa re\u00fane Literatura e Cultura. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na ampla paisagem humana proporcionada pela literatura, um di\u00e1logo com o poeta e editor Jorge Augusto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14061,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3372,16,2539],"tags":[63,137,3261,3384,489],"class_list":["post-13993","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-120a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-jorge-augusto","tag-organismo","tag-pequena-sabatina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13993","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13993"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13993\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14101,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13993\/revisions\/14101"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14061"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}