{"id":13995,"date":"2017-08-15T12:14:11","date_gmt":"2017-08-15T15:14:11","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=13995"},"modified":"2017-10-29T11:57:36","modified_gmt":"2017-10-29T14:57:36","slug":"dedos-de-prosa-iii-55","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-55\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Marcus Vin\u00edcius Rodrigues\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14041\" aria-describedby=\"caption-attachment-14041\" style=\"width: 333px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Gato-de-Ba_rbara-Te_rcia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14041 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Gato-de-Ba_rbara-Te_rcia.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Gato-de-Ba_rbara-Te_rcia.jpg 333w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Gato-de-Ba_rbara-Te_rcia-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14041\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Gato&#8221; . Ilustra\u00e7\u00e3o: B\u00e1rbara T\u00e9rcia<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>TINTA NEGRA SOB AS UNHAS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Para B\u00e1rbara T\u00e9rcia,<\/em><br \/>\n<em>inspirado em um desenho seu.<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 melhor ser \u00f3rf\u00e3o de pai morto do que \u00f3rf\u00e3o de pai preso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A frase veio de muito longe, l\u00e1 da inf\u00e2ncia, assim que a janela se fechou. Marcelo n\u00e3o teve como reclamar que as janelas \u00e9 que devem ser abertas quando as portas se fecham. N\u00e3o pensou isso nem lembrou de Deus, mas se arrependeu de ter dito aquilo ao primo. O fato \u00e9 que eles n\u00e3o tinham pai, n\u00e3o importava se um estava preso, o de Tiago, ou se estava morto, como o de Marcelo.\u00a0 Aquela frase, no meio das disputas normais de crian\u00e7a, ficou esquecida. Eles brigaram outras vezes, competiram por tudo, amigos e advers\u00e1rios, primos e irm\u00e3os. Agora, no meio da queda, Marcelo queria que o primo o tivesse visto correndo da pol\u00edcia; primeiro pela avenida, entre os carros; depois, j\u00e1 dentro da favela, entre as casas, subindo muros, por cima das lajes. Era o gato, como gostava de dizer, quando crian\u00e7a, sempre caindo de p\u00e9 e ileso fosse das \u00e1rvores, fosse dos muros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gato. Foi esse o bicho que viu no rabisco aleat\u00f3rio que fez na aula de desenho. Depois, treinou v\u00e1rias vezes em casa escondido, ensaiou o gesto para parecer o mais espont\u00e2neo poss\u00edvel e fez dele sua assinatura. Primeiro nos desenhos da escola, depois nos muros da rua. Todo mundo pichava naquela \u00e9poca. Ele e o primo se uniam naquela vontade de marcar territ\u00f3rios. Iam cada vez mais longe pelo bairro. E fora dele tamb\u00e9m. Naquela aventura de ultrapassar limites, ampliar horizontes, Marcelo foi al\u00e9m. Dos rabiscos fren\u00e9ticos, das marcas da galera, passou a se aventurar em outros desenhos. E mais que as pernas \u00e1geis e compridas, descobriu que as m\u00e3os eram capazes de fazer quase tudo que imaginava. As imagens na sua cabe\u00e7a aos poucos iam passando para os muros na tinta negra do mais barato spray. Eram apenas as formas. Vieram, a seguir, as cores, multiplicadas rapidamente. Uma explos\u00e3o de cores, diria o menino, ainda desacostumado de criar imagens com palavras. Como os desenhos falavam mais, ele n\u00e3o insistia nas palavras. Foi assim, em sil\u00eancio, que respondeu uma tarde quando o primo o chamou para mais um desafio de picha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Vamos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3o de Marcelo apontou um olho inacabado em um muro. E para a pr\u00f3xima pergunta, nem mesmo um gesto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Vai ficar de mariquinha, \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles se separaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo queria que o primo tivesse visto seu salto entre um pr\u00e9dio e outro, queria que tivesse visto o gato pichado naquele lugar t\u00e3o dif\u00edcil, os truques pra se livrar do seguran\u00e7a, o port\u00e3o arrombado, a tinta negra sob as unhas, aquela prova de que n\u00e3o era veado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Homem tem tinta preta na m\u00e3o. Nada de verdinho, vermelhinho, amarelinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo tinha medo de ser visto como menos homem do que era, mesmo que at\u00e9 j\u00e1 tivesse mostrado isso algumas vezes. Pegava mulher. N\u00e3o era f\u00e1cil, era t\u00edmido, mas a for\u00e7a do corpo e suas exig\u00eancias empurravam o menino para frente. E tinha Rai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 um peixe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O peixe estava visivelmente voando, havia nuvens embaixo para provar. Ele se entrela\u00e7ava com um p\u00e1ssaro que visivelmente estava dentro d\u2019\u00e1gua, havia ondas em cima para provar. Eram muito coloridos e pareciam voltear um em torno do outro, asas e barbatanas se uniam passando suas cores de uma para outra. Entre tantas, havia apenas um filamento azul que sa\u00eda da cabe\u00e7a do peixe, abra\u00e7ava o p\u00e1ssaro e terminava formando a pena mais longa de sua cauda. Foi o que mais chamou a aten\u00e7\u00e3o da menina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Que azul lindo. Nunca vi um azul assim. Chega d\u00f3i.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo tinha misturado v\u00e1rios tons at\u00e9 chegar \u00e0quele azul. Ele se orgulhava do que tinha conseguido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu chamo de azucrinante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela riu. Para ele, azucrinante era algo incr\u00edvel, legal. Ele n\u00e3o sabia que os dicion\u00e1rios pensam diferente. Ela sequer pensou. Seu olhar estava al\u00e9m das palavras, al\u00e9m da explos\u00e3o de cores, al\u00e9m da magreza juvenil e morena dele. As meninas chegam primeiro a um entendimento do que querem e de como devem fazer para ter. Ela sorriu admirada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 t\u00e3o bonito!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rai era linda. De um beleza que todos sabiam. Tiago sabia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela se intrometeu entre os dois como se algu\u00e9m usasse uma ferramenta de metal para alargar uma pequena rachadura. No come\u00e7o, sem se dar conta, mas logo percebeu, pelo jeito esquivo de Tiago, que havia ali um desejo. Ela n\u00e3o resistia \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de ati\u00e7ar o rapaz e rejeitar. Tinha o gozo de, estando com um, saber que o outro de longe invejava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo n\u00e3o percebia. N\u00e3o via rela\u00e7\u00e3o entre a nova namorada e o primo. Sentia apenas o afastamento, e se ressentia de Tiago n\u00e3o ter nenhuma admira\u00e7\u00e3o pelo que ele fazia. Nenhum elogio de quem quer que fosse fazia o primo sentir como uma vit\u00f3ria de Marcelo. A marca do gato pequena embaixo de uma paisagem colorida n\u00e3o significa nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Melhor \u00e9 quem vai mais longe, mais alto. Isso \u00e9 que \u00e9 coisa de homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A voz do primo gritava nos ouvidos de Marcelo durante a queda. A mesma voz que ouvia enquanto invadia aquele pr\u00e9dio. No sil\u00eancio que fazia para enganar o seguran\u00e7a, a voz estava l\u00e1 dentro, alta. E mesmo depois, na fuga \u2014 seguran\u00e7as, pol\u00edcia, carros \u2014, nada era mais alto do que ouvir o primo gritando a superioridade de quem vai mais alto, de quem coloca sua marca no lugar mais dif\u00edcil. Ele correu pela ruas, pela favela, por sobre as lajes das casas. Sabia que por ali chegaria em casa facilmente. Tantas vezes os dois tinham feito aquele caminho. Da \u00faltima laje viu a janela do quarto aberta. Eles moravam numa encosta, uma casa em cima de outras tr\u00eas casas, um pr\u00e9dio constru\u00eddo aos poucos, uma invas\u00e3o para o alto, que outro lugar n\u00e3o havia por ali. Tanta gente. Dormiam no mesmo quarto, juntos e, agora, afastados, um afastamento que do\u00eda em Marcelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A janela estava aberta. Era s\u00f3 pular e estaria salvo. Pulou. Tiago estava l\u00e1 dentro. Ele sorria. Marcelo, como um reflexo do primo, sorriu satisfeito. Eles se aproximavam, juntos de novo, Marcelo vitorioso e aceito pelo primo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, Tiago, como um Deus ao contr\u00e1rio, sem nem mesmo abrir uma porta antes, fechou a janela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Marcus Vin\u00edcius\u00a0Rodrigues<\/em><\/strong><em> nasceu em Ilh\u00e9us-Ba e mora em Salvador. Publicou os livros \u201cPequeno invent\u00e1rio das aus\u00eancias\u201d (Poesia, Pr\u00eamio Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado, 2001); \u201c3 vestidos e meu corpo nu\u201d (Contos, P55 Edi\u00e7\u00f5es, 2009), \u201cEros resoluto\u201d (Contos, P55 Edi\u00e7\u00f5es, 2010),\u00a0 \u201cCada dia sobre a terra\u201d (Contos, EPP Publica\u00e7\u00f5es e Publicidade, 2010), \u201cSe tua m\u00e3o te ofende\u201d (Novela, P55 Edi\u00e7\u00f5es, 2014), \u00a0\u201cArquivos de um corpo em viagem\u201d (Poesia, Editora Mondrongo, 2015) e \u201cA eternidade da ma\u00e7\u00e3\u201d (Contos, Ed. 7 Letras, 2016), vencedor do Pr\u00eamio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016. \u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ru\u00eddos da intimidade num conto de Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14039,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3372,2534],"tags":[81,41,252,3382],"class_list":["post-13995","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-120a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-marcus-vinicius-rodrigues","tag-tinta-negra-sob-as-unhas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13995","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13995"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13995\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14044,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13995\/revisions\/14044"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14039"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13995"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13995"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13995"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}