{"id":14009,"date":"2017-08-16T09:00:09","date_gmt":"2017-08-16T12:00:09","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14009"},"modified":"2017-08-27T11:20:58","modified_gmt":"2017-08-27T14:20:58","slug":"janela-poetica-iv-58","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/janela-poetica-iv-58\/","title":{"rendered":"Janela Po\u00e9tica IV"},"content":{"rendered":"<p><em>Dheyne de Souza<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14011\" aria-describedby=\"caption-attachment-14011\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Scary-Monsters-Super-Creep-int.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14011 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Scary-Monsters-Super-Creep-int.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"433\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Scary-Monsters-Super-Creep-int.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Scary-Monsters-Super-Creep-int-300x260.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14011\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Angelik Kasalia<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c0s vezes caminha em mim uma saudade que \u00e9 um pouco arredia, um pouco insolente.<br \/>\nEla vem com esses passos de noite como quem acorda um escuro.<br \/>\nEla toma a m\u00e3o dos meus sonhos e come\u00e7a a cerzir metragens curtas.<br \/>\nComo se minha vida fosse uma fita me fita, essa mem\u00f3ria meio insalubre, com os seus olhos de carpir montanhas. Com esses olhos de um tema curvo. Com essa displic\u00eancia do moment\u00e2neo. Paisagem que dorme sem leito.<br \/>\nMas n\u00e3o \u00e9 sempre que me toca a pele esse vestido leve de sentir o peso.<br \/>\nMuitas vezes querendo que me perca me bato me espanco me ergo me enleio sentindo saudade desse modo espec\u00edfico de sentir falta.<br \/>\n\u00c9 que ela me espinha o passado.<br \/>\n\u00c9 que ela me aborta o presente.<br \/>\n\u00c9 que me faz esquecer de ser para lembrar o que podia se fosse.<br \/>\n\u00c9 que ela me ensina a ser forte, a ser grosso, a ser firme com seu meio r\u00edspido de me tirar daqui. Com o seu gesto ins\u00edpido de me lembrar que o instante \u00e9 tudo o que tenho e deixo. Com o seu freio de desapego. Com o seu jeito, enfim, me devolve praticamente ileso.<br \/>\nAssim. Tem dias, confesso, que me pega bem preparado e eu lhe chamo de nomes bem feios \u2013 da forma que eu consigo dizer, que nunca fui muito afeito a maltratos. Mas digo mil coisas vis. Minto que esqueci de todo o ber\u00e7o. Grito que tenho costas limpas. Urro que no meu olho h\u00e1 c\u00edlios secos. Corro tanto a lembrar o quanto sou que trope\u00e7o e quando me aque\u00e7o azulejo j\u00e1 nem ri.<br \/>\nO que eu dizia mesmo?<br \/>\nQue \u00e0s vezes ela n\u00e3o pisa nos meus medos.<br \/>\nE eu fico assim em vig\u00edlia.<br \/>\nEu fico assim dia a dia.<br \/>\nSabe?<br \/>\nEu vou ao supermercado e compro uma bala azeda.<br \/>\nEu corto o cabelo em outra.<br \/>\nEu rio uma piada negra.<br \/>\nMudo de endere\u00e7o. Dan\u00e7o. Corro.<br \/>\nVou \u00e0 academia louco a levantar esses pesos.<br \/>\nBebo.<br \/>\nMas ela me assiste em uma poltrona macia. Porque sabe que quando sento, quando meu olho esbarra na janela, que pena.<br \/>\n\u00c9 uma ressaca pelada, sabe?<br \/>\n\u00c9 quando falo com meu cigarro.<br \/>\nQuando me abro com um caf\u00e9, me banho um blues.<br \/>\nQuando tenho alma feito desmaio.<br \/>\nOlhando buracos.<br \/>\nCatando s\u00edlaba.<br \/>\nMedindo o v\u00e1cuo.<br \/>\nSentindo uma saudade oca de senti-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00e9 feito de versos livres meus buracos<br \/>\n\u00e9 leito de rasgos amargos, bord\u00f4s, quinas de alma quitada, muito bem riscadas, rasuras ranhuras alturas vesgas<br \/>\ns\u00e3o feitos de esquinas meus verbos<br \/>\nl\u00e2nguidos. profanos. paralelep\u00edpedos logrados<br \/>\ndeitados \u00e0 rua como deitados \u00e0 lua como deitados \u00e0 alma sem tr\u00e1fego sem traqueia<\/p>\n<p>\u00e9 feita de poros a l\u00edngua<br \/>\n\u00e0 m\u00edngua de tatos<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>das frestas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tem uma guelra na minha janela<br \/>\nmovendo o olhar da paisagem<br \/>\nqual uma folha quando desperta<br \/>\nqual um transeunte quando erra<br \/>\nqual quimera, verbo na l\u00edngua<br \/>\nquando bate no asfalto um sol a nado<br \/>\ntem uma morada<br \/>\ninsone<br \/>\nnas minhas guelras<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Poiesis<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>enquanto os risos escorriam nos p\u00e9s<br \/>\nna grama<br \/>\nnos galhos<br \/>\nnos c\u00e9us<br \/>\ndos outros no tempo<br \/>\nem que sempre voltamos<br \/>\njamais estaremos<\/p>\n<p>uma crian\u00e7a, longe, muda, exangue, sentada<br \/>\nnum canto daquele muro<br \/>\n(como no canto dos outros muros que agora a<br \/>\nderrubam<br \/>\nfeito um sino mudo)<\/p>\n<p>nesse canto lhe deram uma rosa<br \/>\nera uma rosa comum, cor-de-rosa, jovem, justa, virgem<br \/>\nn\u00e3o soube o que fazer com tanta verdade<br \/>\nembora sequer soubesse disso<br \/>\nde que agora a mem\u00f3ria sabe<br \/>\ndo jeito que a mem\u00f3ria sabe saber reticente<\/p>\n<p>poderia ter passado a tarde toda<br \/>\naquela crian\u00e7a<br \/>\ntalvez eras<br \/>\ncom a rosa nas m\u00e3os<\/p>\n<p>poderia dizer do cheiro daquela p\u00e9tala uma obra aberta<br \/>\ndo t\u00f4nus firme do seu corpo fr\u00e1gil<br \/>\ndas inverossimilhan\u00e7as do contorno<br \/>\nna sua cor silenciosa<br \/>\ndos rosas da rosa<\/p>\n<p>se fosse diz\u00edvel<\/p>\n<p>mas quando o sol se punha<br \/>\nnaquela \u00e9poca<\/p>\n<p>p\u00e9s sujos<br \/>\nrisos suados<br \/>\ncabelos ventados<br \/>\nf\u00f4legos rotos<\/p>\n<p>mas a rosa<br \/>\nintacta<br \/>\nnaquelas m\u00e3os t\u00e3o pequenas meu deus e que j\u00e1 sustinham o medo<br \/>\nde ser t\u00famulo<\/p>\n<p>qual teria sido o erro<br \/>\nque cometeram aqueles dedos<br \/>\nincapazes ainda de todo mal que agora teciam t\u00e3o displicentemente<\/p>\n<p>tomaram-lhe a rosa sem<br \/>\nn\u00e3o foi sequer capaz de<\/p>\n<p>despeda\u00e7aram todas as p\u00e9talas e s\u00e9palas<br \/>\nouviam-se ranger suas veias<br \/>\nenquanto ensinavam que era assim<br \/>\nque se brincava com as flores<\/p>\n<p>foi a primeira vez para ela<br \/>\nque a poesia<br \/>\ncolheu o seu sil\u00eancio<br \/>\nhumano<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>domingo, 17 de abril de 2016<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>do \u00f3dio que derrama dos dentes, independentemente da cor das gengivas, das camisas, das vias<br \/>\nda dor dos direitos lesados<br \/>\ndo medo que descama nas mentes, dependentemente de vozes<br \/>\nque n\u00e3o vociferam virtudes<br \/>\nque n\u00e3o zelam<br \/>\nda hist\u00f3ria adquirida a suores a sangue a pancadas a vidas<br \/>\nratos em vaginas<br \/>\nleis em latrinas<br \/>\ndo absurdo de hastear a morte o golpe o cuspe o lustre<br \/>\nde deus da fam\u00edlia dos nomes<br \/>\ninstitui\u00e7\u00f5es todas falidas<br \/>\nenquanto pisam repetidamente nos olhos nos ovos nos seios<br \/>\ndo humano<br \/>\namea\u00e7ado de mote<br \/>\namea\u00e7ado de mote<br \/>\nAmea\u00e7ado de mote.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"http:\/\/www.dheyne.wordpress.com\"><strong>Dheyne de Souza<\/strong><\/a> \u00e9 poeta. Mora em Goi\u00e2nia. \u00c9 membro do grupo de vocaliza\u00e7\u00e3o de poesia Corpo de Voz. Tem, em parceria com Hel\u00f4 Sanvoy, um canal no YouTube de leitura de poemas prosas prosemas, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/pequenosmundospoeticos\"><strong>Pequenos Mundos<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O atmosfera contagiante do amor nos versos de Dheyne de Souza<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14010,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3372,9],"tags":[781,107,2764,3379],"class_list":["post-14009","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-120a-leva","category-janelas-poeticas","tag-dheyne-de-souza","tag-janela-poetica","tag-pequenos-mundos","tag-prosemas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14009","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14009"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14009\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14014,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14009\/revisions\/14014"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14010"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14009"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14009"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14009"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}