{"id":14147,"date":"2017-10-25T08:45:56","date_gmt":"2017-10-25T11:45:56","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14147"},"modified":"2019-03-28T16:51:22","modified_gmt":"2019-03-28T19:51:22","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-54","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-54\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desobedi\u00eancia. Palavra que carrega em si um peso imediato. A uns, espanta e at\u00e9 mesmo repele; a outros, \u00e9 frente de acolhida. Em tempos de cinismo, hipocrisia, reavivamento ultraconservador e de uma teatralizada desonestidade intelectual a nos rondar, ser desobediente pode se revelar uma valiosa e efetiva maneira de se estar no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 conveniente frisar que desobedecer n\u00e3o \u00e9 uma atitude gratuita de simplesmente nadar contra a corrente de um ordenamento jur\u00eddico, pol\u00edtico, social ou econ\u00f4mico com um banal artif\u00edcio ret\u00f3rico. Significa entender-se como sujeito permanente de transforma\u00e7\u00f5es, o qual luta acima de tudo para tornar presente a sua vez e voz num panorama necess\u00e1rio de exist\u00eancia pela preserva\u00e7\u00e3o daquilo que lhe \u00e9 demasiadamente humano e caro, a identidade pr\u00f3pria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante de um cen\u00e1rio de adversidades, o qual n\u00e3o \u00e9 apenas secularmente constituinte de um pa\u00eds como o Brasil, h\u00e1 vozes que precisam se fazer presentes e, desse modo, marcar suas preciosas posi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia. Aliando-se a este tipo de entendimento, uma poeta como <strong>Daniela Galdino<\/strong> faz do seu caminhar um permanente movimento de afirma\u00e7\u00e3o nos mais plurais n\u00edveis. E presenciamos esse vigor expressivo n\u00e3o apenas nos seus escritos, mas sobretudo nas frentes em que atua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dona de uma voz transgressora que demarca e expande a sua consci\u00eancia do que representa ser mulher num mundo como o nosso, Daniela tamb\u00e9m se espraia pelos territ\u00f3rios da performance, do ensino e do ativismo cultural. Este \u00faltimo vem muito envolto numa no\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica de engajamento frente a quest\u00f5es ligadas \u00e0 visibilidade das mulheres, bem como aspectos importantes associados \u00e0s tem\u00e1ticas de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A autora do emblem\u00e1tico livro de poemas <em>In\u00famera<\/em> (Ed. Mondrongo), atrav\u00e9s do qual deixa transbordar toda a sua \u00edntima, plural e peculiar vis\u00e3o de mundo, agora dedica o continuar de seus passos para a difus\u00e3o do coletivo de poetas e fot\u00f3grafas <em>Profundan\u00e7as 2<\/em>. Celebrando sua segunda investida editorial, esta obra privilegia as express\u00f5es de mulheres que se insurgem contra o manto da invisibilidade, o qual, dentro de uma nociva constru\u00e7\u00e3o social, tentam lhes imputar cotidianamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O momento presente, pontuado nesta entrevista, pede que falemos sobre os desdobramentos de <em>Profundan\u00e7as<\/em><em> 2<\/em>, sua pung\u00eancia diante dos duros cen\u00e1rios que pululam na atualidade. Urge tamb\u00e9m falarmos sobre <em>Missivas<\/em>, performance que Daniela Galdino tem realizado e que alerta para silenciamentos em torno da mulher. Por tudo isso, o agora se volta para ouvir uma artivista que cada vez mais abre seus caminhos para o di\u00e1logo com outras vozes. \u00c9 preciso tirar os m\u00f3veis do lugar, desarranjar viciadas estruturas, abrir caminho para o outro, sua verdade e inteireza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14151\" aria-describedby=\"caption-attachment-14151\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-Int-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14151 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-Int-01.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"327\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-Int-01.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-Int-01-300x196.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14151\" class=\"wp-caption-text\">Daniela Galdino \/ Foto: Ana Lee<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Na apresenta\u00e7\u00e3o de <em>Profundan\u00e7as 2<\/em>, voc\u00ea emprega o termo re-exist\u00eancia como um s\u00edmbolo que situa as express\u00f5es das mulheres dentro de um contexto de afirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria. Qual o sentido maior de fazer com que tais vozes n\u00e3o se calem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211;<\/strong> O sentido da desobedi\u00eancia, sobretudo. Em tempos t\u00e3o amea\u00e7adores \u00e0 nossa sensibilidade, escrever literatura, atuar na coletividade em busca de leitoras\/es, devolver os insultos cotidianos com poesia (por exemplo) \u00e9 desobedecer \u00e0 ditadura do pavor e do desencanto. Ent\u00e3o, resta-nos dizer e nos associar a outres que tamb\u00e9m t\u00eam muito a dizer. \u00c9 por isso que na apresenta\u00e7\u00e3o da antologia <em>Profundan\u00e7as 2<\/em> tamb\u00e9m afirmo que \u201cagora estamos irmanades pelo grito\u201d e que \u201codiadores n\u00e3o representam a totalidade do mundo\u201d. Entendo a re-exist\u00eancia como um intenso desafio de reelabora\u00e7\u00e3o de si e dos lugares que ocupamos ou pelos quais transitamos. N\u00e3o podemos sucumbir \u00e0 desesperan\u00e7a. Isso seria um total desrespeito \u00e0quelas que nos antecederam e, com luta\/sonho\/sensibilidade, abriram veredas para que atravess\u00e1ssemos. N\u00e3o penso que a literatura deva se dar ao luxo de ignorar esses desafios. A palavra liter\u00e1ria \u00e9 gr\u00e1vida de vida, de cotidiano, de embates, de del\u00edrios, de transgress\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Da primeira edi\u00e7\u00e3o at\u00e9 aqui, o que mudou fundamentalmente? O momento atual, o qual nos toma de assalto com toda sua nebulosidade, configurou uma nova tomada de consci\u00eancia?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211; <\/strong>A primeira edi\u00e7\u00e3o de <em>Profundan\u00e7as<\/em> \u00e9 de 2014. De l\u00e1 pra c\u00e1, o pa\u00eds foi assolado por um golpe j\u00e1 denunciado pela imprensa, inclusive internacional. Em linhas gerais, essa foi a principal mudan\u00e7a para pior. No entanto, isso n\u00e3o significa que as outras formas de viol\u00eancia, as opress\u00f5es (raciais e de g\u00eanero, por exemplo) sejam recentes. N\u00e3o mesmo. A consci\u00eancia cr\u00edtica que nos leva a combater tais opress\u00f5es tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 recente. Na literatura, a genealogia dessa consci\u00eancia cr\u00edtica \u00e9 extensa, nos leva para o s\u00e9culo XIX, se pensarmos em escritoras\/es negras\/os aqui no Brasil. O problema \u00e9 que os espa\u00e7os de consagra\u00e7\u00e3o ou divulga\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria (como a universidade, as academias de letras, a escola, festas\/festivais liter\u00e1rios e mesmo o mercado editorial) historicamente t\u00eam tornado invis\u00edveis as produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias que revelam discursividades dissidentes. Recente \u00e9 o acordar (ainda lento, por sinal) de produtores de eventos, escolas, editoras para as \u201coutras\u201d vozes \u2013 negras, feministas, lgbti, etc. \u2013 e suas cria\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. Alguns espa\u00e7os sequer as reconhecem, como \u00e9 o caso de boa parte das academias de letras, ainda insistindo naquele discurso desgastado: literatura \u00e9 literatura e se basta, n\u00e3o deve ser \u201ccontaminada\u201d por outras quest\u00f5es. Entendo que o est\u00e9tico e o pol\u00edtico n\u00e3o devam ser apartados. E assim tenho sobrevivido como artista que dialoga com outres fazedores de artes. Est\u00e3o nos bombardeando a todo instante. \u00c0 literatura cabe a \u201ctranquilidade\u201d de se colocar \u00e0 parte disso? A minha resposta \u00e9 um estrondoso n\u00e3o. E, em verdade, a literatura n\u00e3o est\u00e1 isolada no mundo, h\u00e1 intensas formas de ativismo liter\u00e1rio, de artevismo (como se diz).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Com estas vozes dissidentes a que voc\u00ea se referiu, uma nova perspectiva de linguagem surge, algo evidenciada sobretudo pela forma de grafar certas palavras. E, sabemos, isso potencializa uma importante vertente discursiva. Acredita que tais mudan\u00e7as no trato lingu\u00edstico precisam tamb\u00e9m ser incorporadas nas pr\u00e1ticas formais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211; <\/strong>Sim. Bem sabemos que a l\u00edngua \u00e9 reelaborada no social, que est\u00e1 em constante transforma\u00e7\u00e3o. Em <em>Profundan\u00e7as 2<\/em>, por exemplo, temos a presen\u00e7a de duas artistas trans n\u00e3o bin\u00e1rias, sendo uma delas da fotografia. Da\u00ed, generalizar pelo masculino se torna inc\u00f4modo, n\u00e3o s\u00f3 para essas artistas, como para n\u00f3s que constru\u00edmos o projeto na coletividade. No \u00e2mbito do projeto passamos a grafar o termo \u201cFot\u00f3grafes\u201d, como uma provoca\u00e7\u00e3o para que outros g\u00eaneros sejam representados para al\u00e9m do binarismo masculino-feminino. Entendemos que n\u00e3o se trata s\u00f3 de uma troca de palavras, mas de um amplo sentido relacionado \u00e0s formas de igualdade de g\u00eanero, o que, desejamos, devem ser incorporadas nas pr\u00e1ticas cotidianas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14260\" aria-describedby=\"caption-attachment-14260\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-Galdino-em-Missivas-2-Foto-Ana-Lee-02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14260 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-Galdino-em-Missivas-2-Foto-Ana-Lee-02.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-Galdino-em-Missivas-2-Foto-Ana-Lee-02.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-Galdino-em-Missivas-2-Foto-Ana-Lee-02-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14260\" class=\"wp-caption-text\">Daniela Galdino em<em> Missivas<\/em> \/ Foto: Ana Lee<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;<\/strong>\u00a0<strong>Quando voc\u00ea observa o resultado de um projeto como o <em>Profundan\u00e7as<\/em>, consegue vislumbrar a presen\u00e7a efetiva de alguma transforma\u00e7\u00e3o no campo das representa\u00e7\u00f5es sociais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211; <\/strong><em>Profundan\u00e7as<\/em> \u00e9 um projeto que est\u00e1 em curso, estamos no segundo livro num per\u00edodo de pouco mais de dois anos. Ent\u00e3o, transforma\u00e7\u00f5es ser\u00e3o percebidas no processo. Como \u00e9 um projeto que combate a invisibilidade de escritoras no cen\u00e1rio da literatura, j\u00e1 se torna provocativo, ainda mais por ter a visualidade como algo importante. As duas antologias publicadas trazem, al\u00e9m dos poemas\/contos\/cr\u00f4nicas, ensaios fotogr\u00e1ficos. Isso n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3rio. Desejamos difundir imagens dessas escritoras em seus lugares de origem e\/ou atua\u00e7\u00e3o, evitando qualquer forma de objetifica\u00e7\u00e3o. Importante, tamb\u00e9m, por se tratar de um projeto que traz, em sua maioria, escritoras in\u00e9ditas, muitas delas negras. Ent\u00e3o, essa visualidade, esse contato de leitoras\/es com imagens dessas escritoras, \u00e9 uma forma de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 invisibilidade a que me referi h\u00e1 pouco. Al\u00e9m disso, <em>Profundan\u00e7as<\/em> provoca deslocamentos, encontros. Cito como exemplo a poetisa Dayane Rocha que, apesar de ser pernambucana, n\u00e3o conhecia a cidade do Recife. Foi a partir de uma atividade do projeto (uma roda de conversa realizada no Espa\u00e7o Pas\u00e1rgada, em agosto\/2017) que Dayane esteve pela primeira vez na capital do seu estado. Eu estava com ela e presenciei uma cena profundamente tocante. Chegamos ao Recife numa quinta-feira \u00e0 noite, a cidade naquele intenso movimento de rua (tr\u00e2nsito fren\u00e9tico, pessoas saindo do trabalho, \u00f4nibus lotados). Nos dirigimos ao pr\u00e9dio onde ficamos hospedadas e, da janela de um vig\u00e9simo andar, vi Dayane chorando muito e observando os pr\u00e9dios imensos que restringem a vis\u00e3o da paisagem. Ela me disse: \u201cquero voltar pra Brejinho\u201d. Na manh\u00e3 seguinte, eu me acordei com um poema que ela escreveu bem ao modo da tradi\u00e7\u00e3o do Paje\u00fa, o seu sert\u00e3o (e ainda nos deixou um poderoso mote: \u201cRecife, tu \u00e9s mais dura\/ que cora\u00e7\u00e3o sem poeta\u201d):<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Buzinas, carros, barulho<br \/>\nO teu c\u00e9u reflete pr\u00e9dios<br \/>\nTua gente vira entulho<br \/>\nPor conta dos interm\u00e9dios.<br \/>\nTua paz \u00e9 estressada<br \/>\nAt\u00e9 mesmo a passarada<br \/>\nCanta uma nota incompleta<br \/>\nCantando na partitura&#8230;<br \/>\nRecife, tu \u00e9s mais dura<br \/>\nQue cora\u00e7\u00e3o sem poeta.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trago esse exemplo para dizer que os encontros t\u00eam acontecido. Encontro com outras, com n\u00f3s mesmas, com as estranhezas cotidianas&#8230; e isso tem nos transformado a todo instante. Dia desses, numa conversa in box, Renailda Cazumb\u00e1 (escritora baiana que est\u00e1 em <em>Profundan\u00e7as<\/em>) me disse: \u201cvoc\u00ea \u00e9 uma refazedora de novos lares! Lares po\u00e9ticos\u201d. Somos colegas de trabalho na universidade e, aos poucos, comecei a desconfiar que Renailda escreve. Perguntei pela primeira vez, em 2013, ela disse que n\u00e3o. Na segunda vez, n\u00e3o perguntei. J\u00e1 enviei o convite para ela participar de <em>Profundan\u00e7as<\/em>, em 2014. Inicialmente ela n\u00e3o aceitou, depois foi convencida. Dito e certo: ela me enviou arquivo com poemas datados (alguns do final da d\u00e9cada de 80). A partir disso, Renailda tem sempre relatado como foi dif\u00edcil atribuir a si o nome de poeta; como tem disso uma revolu\u00e7\u00e3o interior: se ver ao lado de outras mulheres que escrevem. Estou falando de uma mulher negra nascida no rec\u00f4ncavo baiano e vivida no sert\u00e3o. Uma mulher que me diz: at\u00e9 a minha casa deixou de ser a mesma depois disso (a sua primeira experi\u00eancia de publica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 podemos falar de abalos na representa\u00e7\u00e3o de si. E isso tamb\u00e9m envolve leitoras, leitores que temos encontrado pelo caminho. Pessoas diferentes nos mais diversos espa\u00e7os (ruas, escolas, universidades, coletivos culturais, redes sociais, eventos etc) que t\u00eam nos feito relatos sobre a import\u00e2ncia de se reconhecer na escrita e na imagem das escritoras que est\u00e3o nos dois livros. Acho que a primeira poderosa transforma\u00e7\u00e3o a que posso me referir \u00e9 essa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea cr\u00ea que a literatura voltada para o ambiente virtual encerra uma substancial din\u00e2mica de constru\u00e7\u00e3o das identidades?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211; <\/strong>Eu entendo que a literatura divulgada em ambientes virtuais nos insere em outras din\u00e2micas de di\u00e1logos com leitoras\/es. Para voc\u00ea ter uma ideia, o primeiro volume de <em>Profundan\u00e7as<\/em> j\u00e1 foi lido em escolas p\u00fablicas, tivemos not\u00edcia de que circulou em turmas de um programa de forma\u00e7\u00e3o de educadoras\/es no sert\u00e3o baiano. Ao mesmo tempo, numa pesquisa na internet, descobri que uma docente da UENF e IFF, a Analice Oliveira Martins, iri\u00e1 apresentar uma comunica\u00e7\u00e3o acad\u00eamica em Portugal (o Semin\u00e1rio Mundial de Estudos da L\u00edngua Portuguesa, outubro\/2017). Nesse trabalho a profa. discute antologias liter\u00e1rias brasileiras e ensino, dentre as obras analisadas est\u00e1 <em>Profundan\u00e7as 1<\/em>. Imagina a minha surpresa! Outro exemplo da repercuss\u00e3o: em novembro deste ano a mestranda Elis Matos (UESC) estar\u00e1 numa congresso na Argentina, apresentando um trabalho que aborda o feminismo n\u00e3o bin\u00e1rio a partir do poema \u201cEnquanto meus p\u00e9s balan\u00e7am\u201d, de JeisiEk\u00ea de Lundu, que foi publicado em <em>Profundan\u00e7as 2<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No nosso caso, publicar um livro virtual resolve uma quest\u00e3o: a falta de recursos financeiros. Tem mais: <em>Profundan\u00e7as<\/em> \u00e9 um projeto independente, j\u00e1 nasceu na contram\u00e3o e at\u00e9 o momento n\u00e3o vislumbrei capta\u00e7\u00e3o de recursos via edital, por exemplo. Pode ser que no futuro fa\u00e7amos a op\u00e7\u00e3o pelo livro impresso. Por enquanto, a virtualidade tem nos levado ao encontro de leitoras\/es distantes e desconhecidos. Eu, por exemplo, n\u00e3o conhe\u00e7o a Profa. Analice Martins, s\u00f3 depois de encontrar o resumo do seu trabalho na internet, fiz contato por e-mail.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por ser um projeto que envolve imagens (ensaios fotogr\u00e1ficos), sei que <em>Profundan\u00e7as<\/em> demandaria custos relativamente altos. Isso talvez limitasse a quantidade de exemplares a serem impressos e, consequentemente, reduziria o p\u00fablico que teria acesso. O livro virtual tem nos dado uma maior liberdade nesse di\u00e1logo palavra-imagem e a grande aventura \u00e9 saber que a circula\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais imprevista. Talvez tudo isso influencie a constru\u00e7\u00e3o de identidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sua performance <em>Missivas<\/em> traz \u00e0 tona importantes reflex\u00f5es sobre a invisibilidade da mulher em nosso tempo. Desde o in\u00edcio do espet\u00e1culo, j\u00e1 somos tomados de assalto pela metaforiza\u00e7\u00e3o de um peso atrav\u00e9s da melancia que voc\u00ea carrega e vai passando, ao longo do caminho, por m\u00e3os masculinas. O que dizer desses sinais de alerta?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211; <\/strong>S\u00e3o incont\u00e1veis os sinais de que o patriarcado e seus tent\u00e1culos imputam a n\u00f3s, mulheres: a inferioridade, invisibilidade, o aniquilamento. As viol\u00eancias se manifestam de v\u00e1rias formas e, o pior, v\u00e3o se cristalizando como normalidade. A viol\u00eancia n\u00e3o tem exist\u00eancia por si s\u00f3. \u00c9 uma fabrica\u00e7\u00e3o social e, como tal, necessita de sujeitos que movam essa roda. Por outro lado, se a viol\u00eancia \u00e9 criada em sociedade, \u00e9 nesse mesmo espa\u00e7o que ela deve ser desconstru\u00edda, desfeita. Como proceder? Denunciando, (des)educando, descolonizando mentes e saberes, refazendo pr\u00e1ticas cotidianas. O meu espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o tem sido a arte: a poesia e a performance. Como performer, tenho como prioridade sair do palco tradicional e ocupar as ruas e outros lugares aparentemente inadequados para a atua\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Prefiro me inserir no cotidiano das ruas, dos pontos de \u00f4nibus, dos mercados, das feiras \u2013 com seu ritmo, com seus sons, gritos e sil\u00eancios. Tem sido uma experi\u00eancia fort\u00edssima, pois a rua me traz o imprevisto, a possibilidade de interagir diretamente com desconhecides. E o contato \u2013 seja pelo choque ou acolhimento \u2013 faz de cada apresenta\u00e7\u00e3o uma estreia. Tenho buscado esse di\u00e1logo, primeiramente, com as mulheres com as quais me encontro; mas \u00e9 imprescind\u00edvel deslocar, provocar e dialogar com os homens tamb\u00e9m. S\u00f3 acredito em arte que potencialize as transforma\u00e7\u00f5es (de si, de n\u00f3s, do mundo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Como voc\u00ea percebe a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico masculino diante de uma performance que o p\u00f5e no cerne de uma discuss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211; <\/strong><em>Missivas<\/em> se divide em dois espa\u00e7os: a rua, com um cortejo; e um ambiente que minimamente garanta condi\u00e7\u00f5es adequadas para a trilha sonora e interpreta\u00e7\u00e3o dos poemas. Nesses espa\u00e7os as rea\u00e7\u00f5es dos homens t\u00eam variado entre o espanto, o inc\u00f4modo e at\u00e9 mesmo o desprezo. Explico essa \u00faltima rea\u00e7\u00e3o: na rua a performance implica em entregar uma pesada melancia para os homens, enquanto entrego cartas po\u00e9ticas para mulheres e tamb\u00e9m digo frases secretas no ouvido delas. Ao mesmo tempo em que interajo com cartas e sussurros \u00e0s mulheres, os homens seguram a melancia. Muitos j\u00e1 recusaram, teve at\u00e9 um, em Garanhuns (PE), que me hostilizou. Outros ignoram completamente a minha presen\u00e7a, desviam o caminho. A maior parte dos homens t\u00eam se incomodado, mesmo \u201caceitando\u201d segurar a melancia. O desconcerto \u00e9 vis\u00edvel, eles n\u00e3o sabem o que fazer com esse peso. H\u00e1, tamb\u00e9m, a rea\u00e7\u00e3o na segunda parte da performance, quando interpreto os poemas e outras formas de intera\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico se desenvolvem. Geralmente fazemos uma roda de conversa ap\u00f3s a performance e n\u00e3o houve uma s\u00f3 vez, desde a estreia (em mar\u00e7o de 2016), em que n\u00e3o houvesse depoimentos de homens que assumem estar perturbados. Sinceramente, sinto prazer ao perceber essa perturba\u00e7\u00e3o que nada mais \u00e9 do que o contato com as nossas palavras de mulheres dissidentes, com a a\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica e o convite para participar, acolher em si os desajustes. Importante dizer tamb\u00e9m que <em>Missivas<\/em> tem trilha sonora ao vivo e a proposta \u00e9 convidar um m\u00fasico a cada apresenta\u00e7\u00e3o\/temporada, que traz o seu repert\u00f3rio para dialogar com a proposta. Tenho feito quest\u00e3o de convidar homens para fazer a trilha porque dessa forma eu tamb\u00e9m os provoco, enquanto artistas, a ler\/ouvir e se contaminar com o que n\u00f3s, mulheres, escrevemos. At\u00e9 ent\u00e3o os parceiros musicais t\u00eam revelado inc\u00f4modos e verbalizado isso nas rodas de conversa. Eles entram na performance e tamb\u00e9m percebem que, naquele instante, n\u00e3o s\u00e3o protagonistas; talvez aprendam a ouvir, n\u00e3o silenciar&#8230; Enfim, l\u00f3gico que as transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o imediatas, mas s\u00f3 em gerar esse inc\u00f4modo, j\u00e1 \u00e9 maravilhoso pra mim enquanto artista dissidente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; E o que dizer da intera\u00e7\u00e3o das mulheres em meio \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es sugeridas\u00a0 por <em>Missivas<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211; <\/strong>Tem sido uma experi\u00eancia incr\u00edvel do cortejo \u00e0 roda de conversa que acontece p\u00f3s-performance. Estou circulando com <em>Missivas<\/em> desde mar\u00e7o de 2016 e em todas as apresenta\u00e7\u00f5es aprendi algo forte. As mulheres t\u00eam me ensinado muito. A forma de intera\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente. N\u00e3o digo que elas sintam mais do que os homens \u2013 isso nunca poderemos medir, o territ\u00f3rio do sens\u00edvel -, mas a resposta tem feito do ato perform\u00e1tico um intenso espa\u00e7o energ\u00e9tico. Tenho v\u00e1rias hist\u00f3rias para contar sobre <em>Missivas<\/em>, comecei a elaborar o di\u00e1rio da performance, sempre escrevendo dias depois de cada apresenta\u00e7\u00e3o. Na verdade, relatos curtos que me fa\u00e7am lembrar do que aconteceu. E esses relatos trazem as mulheres na linha de frente. S\u00e3o v\u00e1rias hist\u00f3rias. Cito tr\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2016, numa das apresenta\u00e7\u00f5es, uma jovem teve um ataque de choro e aquilo me chamou muito a aten\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s a roda de conversa eu notei que ela estava abra\u00e7ada com dois colegas gays e que os tr\u00eas choravam muito. Fui l\u00e1 e ouvi isso: algo na performance disparou a mem\u00f3ria dolorosa do estupro que a jovem havia sofrido h\u00e1 dois anos. Fiquei paralisada, a performance n\u00e3o fala de estupro, mas a for\u00e7a de tudo o que a mo\u00e7a tinha presenciado e vivenciado em <em>Missivas<\/em> ativou essa dor. Chorei junto com ela e os amigos dela. Algo que n\u00e3o foi publicizado, ficou entre n\u00f3s. Dif\u00edcil esquecer o que aquela mo\u00e7a me disse: \u201cquando eu fui estuprada, era inverno, eu estava de cal\u00e7a, botas, casaco&#8230; e ainda assim o cara me violentou&#8230; ou seja, nenhuma mulher pede pra ser estuprada, nada justifica o estupro, nem mesmo se a v\u00edtima estiver com roupas curtas. Viol\u00eancia \u00e9 viol\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, em Itabuna, eu estava fazendo o cortejo de <em>Missivas<\/em> para que um professor da UFSB (o Rafael Guimar\u00e3es) fizesse o registro audiovisual que vai gerar uma v\u00eddeo-performance com fragmentos do trabalho de v\u00e1rias artistes. No cortejo, logo de longe avistei uma mulher que me chamou a aten\u00e7\u00e3o, me dirigi a ela e disse a frase secreta. Ela ficou paralisada, olhando profundamente nos meus olhos. Percebi que era uma mulher com transtornos mentais, retribu\u00ed a profundidade do olhar. Segui o caminho porque nessa parte da performance priorizo a comunica\u00e7\u00e3o com o olhar, sem mais palavras. S\u00f3 que a mulher me seguiu, me perguntou: \u201co que \u00e9 isso que voc\u00ea est\u00e1 fazendo? Por que voc\u00ea me disse aquilo?\u201d. E eu n\u00e3o respondia com palavras, apenas com o olhar. Mas ela n\u00e3o se deu por vencida, me seguiu de novo, segurava a barra da minha saia e repetia a pergunta. Ela parou na minha frente, olhou de forma profunda e falou: \u201cN\u00e3o fique assim, voc\u00ea est\u00e1 t\u00e3o bonita\u201d. Depois, segurou no meu bra\u00e7o (sem impor for\u00e7a) e de forma acolhedora me disse: \u201cVoc\u00ea t\u00e1 bem? T\u00e1 precisando de alguma coisa?\u201d Aquilo me emocionou, eu chorei retribuindo o olhar profundo daquela mulher e segui o meu caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro exemplo foi em Ilh\u00e9us. Tamb\u00e9m no cortejo, me deparei com essa cena numa pra\u00e7a: uma idosa vendendo churrasquinho. A pra\u00e7a fica perto de um ponto de \u00f4nibus. No momento, havia incont\u00e1veis pessoas, pois o hor\u00e1rio era de final de expediente. Apesar do intenso movimentar, ningu\u00e9m me atraiu mais do que aquela mulher de marcas profundas na face.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Performance, pra mim, \u00e9 um mergulho no imprevisto. A minha guia s\u00e3o as energias do momento. Eu tamb\u00e9m tenho amor pela rua &#8211; esse espa\u00e7o-turbilh\u00e3o onde o instante se consagra no di\u00e1logo com desconhecides. Pois sim. A energia me levou at\u00e9 aquela senhora trabalhadora. Cheguei perto dela e disse a frase secreta. Os olhos dela ficaram inundados; os meus, cheio de mar\u00e9s. Por alguns segundos nos olhamos fixamente. O instante se consagrou. Segui o meu rumo, mas me virei para tr\u00e1s e, novamente, conversei com o olhar inundado daquela mulher. Fiquei forte. Prossegui.<br \/>\nA fot\u00f3grafa Izabella Valverde (a qual n\u00e3o conhe\u00e7o) consagrou o instante pela segunda vez. E a cada momento em que olharmos para essa imagem, reviveremos o instante e acolheremos em n\u00f3s as lutas, as inunda\u00e7\u00f5es e a singeleza dessa senhora. A rua me ensina a cada ato perform\u00e1tico. Sou grata a todas as mulheres que tenho encontrado pelas veredas&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14152\" aria-describedby=\"caption-attachment-14152\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-e-a-vendora-de-churrasquinho-em-Missivas-Foto-Izabella-Valverde-menor.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14152 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-e-a-vendora-de-churrasquinho-em-Missivas-Foto-Izabella-Valverde-menor.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-e-a-vendora-de-churrasquinho-em-Missivas-Foto-Izabella-Valverde-menor.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-e-a-vendora-de-churrasquinho-em-Missivas-Foto-Izabella-Valverde-menor-300x202.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14152\" class=\"wp-caption-text\">Daniela Galdino em<em>\u00a0Missivas<\/em> \/ Foto: Izabella Valverde<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em que medida a converg\u00eancia entre poesia e performance amplia as possibilidades de liberta\u00e7\u00e3o pela arte?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211; <\/strong>Nessa converg\u00eancia s\u00f3 vejo desmedida. Sou uma artista em constante reelabora\u00e7\u00e3o, o que significa dizer que n\u00e3o me\u00e7o as formas de amplia\u00e7\u00e3o do processo libertador. Quando as fronteiras entre linguagens art\u00edsticas e entre artista e p\u00fablico s\u00e3o rasuradas, o inesperado se apresenta. Gosto disso. Demorei para desenvolver essa consci\u00eancia, sabe? Primeiro me assumi poeta. H\u00e1 sete anos tirei a performer que estava no arm\u00e1rio. J\u00e1 havia feito teatro universit\u00e1rio nos anos 90, foi uma experi\u00eancia incr\u00edvel. No entanto, o mergulho na cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica foi me trazendo uns estremecimentos que inicialmente eu n\u00e3o soube processar. Acolher e reler em mim esses impactos redefiniu caminhos. O entrelugar, a atua\u00e7\u00e3o h\u00edbrida que atrai a poesia para a performance e vice-versa t\u00eam me ensinado bastante. O caminho est\u00e1 se construindo nos caminhares, nos encontros, desencontros (comigo mesma e com o p\u00fablico). Esse processo j\u00e1 \u00e9 libertador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Quem \u00e9 Daniela Galdino?<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211; <\/strong>Uma mulher desobediente, sonhadora, fazedora de inc\u00eandios \u00edntimos. Sou uma incans\u00e1vel artista que n\u00e3o v\u00ea separa\u00e7\u00e3o entre o est\u00e9tico e o pol\u00edtico. Aprendente e desaprendente. Sou uma \u201crameira das palavras\u201d, \u201cuma interroga\u00e7\u00e3o vagando com pressa\u201d. Sou esta que vive atenta ao mundo invis\u00edvel e seus poderes; atenta \u00e0s outras mulheres \u2013 seus desejos, del\u00edrios. Um poema que representa esse estado \u00e9 \u201cArada\u201d (publicado em <em>Profundan\u00e7as 2<\/em> e inserido no meu pr\u00f3ximo livro, <em>Espa\u00e7o Visceral<\/em>). Eis:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>arada<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>ostento cara de terra<\/em><br \/>\n<em>esp\u00edrito de po\u00e7o<\/em><br \/>\n<em>\u00edndole mar<\/em><\/p>\n<p><em>remota felicidade<\/em><br \/>\n<em>sempre tive<\/em><br \/>\n<em>irrigada pade\u00e7o<\/em><\/p>\n<p><em>estranheza, pra mim,<\/em><br \/>\n<em>\u00e9 abre-te s\u00e9samo<\/em><\/p>\n<p><em>vagueio em cova funda<\/em><br \/>\n<em>porque estou semente<\/em><\/p>\n<p><em>gozo no sereno<\/em><br \/>\n<em>inerte<\/em><br \/>\n<em>numa pedra de amolar<\/em><\/p>\n<p><em>corro as sete freguesias<\/em><br \/>\n<em>e fastio n\u00e3o me alcan\u00e7a<\/em><\/p>\n<p><em>levo fachos de gritos<\/em><br \/>\n<em>aonde me querem muda<\/em><\/p>\n<p><em>replantando-me<\/em><br \/>\n<em>dou cestos fartos<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14261\" aria-describedby=\"caption-attachment-14261\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-Galdino-em-Missivas-Foto-Ana-Lee-03.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14261 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-Galdino-em-Missivas-Foto-Ana-Lee-03.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-Galdino-em-Missivas-Foto-Ana-Lee-03.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Daniela-Galdino-em-Missivas-Foto-Ana-Lee-03-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14261\" class=\"wp-caption-text\">Daniela Galdino em <em>Missivas<\/em> \/ Foto : Ana Lee<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Para baixar <em>Profundan\u00e7as 2<\/em>, clique <a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/0B_nAKbHvd-nfTjB4LVRDTmk5amc\/view\"><strong>aqui<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> edita a Revista Diversos Afins, al\u00e9m de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, \u00e9 mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa re\u00fane Literatura e Cultura.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A poeta e performer Daniela Galdino fala sobre os seus novos caminhos em torno da arte<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14148,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3394,16,2539],"tags":[408,137,3395,8,3383],"class_list":["post-14147","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-121a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-daniela-galdino","tag-fabricio-brandao","tag-missivas","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-profundancas-2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14147","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14147"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14147\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14272,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14147\/revisions\/14272"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14148"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}