{"id":14163,"date":"2017-10-25T10:35:00","date_gmt":"2017-10-25T13:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14163"},"modified":"2017-11-06T10:45:12","modified_gmt":"2017-11-06T13:45:12","slug":"dedos-de-prosa-i-56","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-56\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Vin\u00edcius Canhoto<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14166\" aria-describedby=\"caption-attachment-14166\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Claudia-r-Sampaio-int.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14166 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Claudia-r-Sampaio-int.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"346\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Claudia-r-Sampaio-int.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Claudia-r-Sampaio-int-300x208.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14166\" class=\"wp-caption-text\">Pintura: Cl\u00e1udia R. Sampaio<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VAMPIRA DEBAIXO DO SOL<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre a procurei pelos livros, mas foi na biblioteca que a encontrei ao ver seus olhos estendidos sobre as mesmas \u00f3rbitas de <em>Der Zur Macht<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">*<\/a><\/em> que me revelaram milagres e epifanias de um cr\u00e2nio e um amor sem salva\u00e7\u00e3o. O ritmo de todas as caveiras prenunciava nosso di\u00e1logo com cad\u00e1veres no per\u00edmetro de sua boca sedenta e inflamada. Eu estava prestes a me desfazer como gelo afogado em whisky n\u00e3o bebido por seu batom, mas procurei pelo sol, procurei por um bar e, na medida que nossos passos se perdiam em busca de ref\u00fagio pelas cal\u00e7adas, cresciam nossos del\u00edrios. A vi trazer o mundo na orelha como um brinco que se poderia perder em qualquer criado-mudo incapaz de nos denunciar. Eu sabia de seu desejo de violar todas as superf\u00edcies e todos os homens da superf\u00edcie, tamb\u00e9m sabia que meu destino n\u00e3o seria diferente dos demais. Um doce morma\u00e7o nos fez levitar at\u00e9 os tent\u00e1culos de um polvo met\u00e1lico para beijarmos o p\u00fabis das cervejas em copos de pecado. Nos excessos do dia, abriria a cortina da noite. Tremores de uma alucina\u00e7\u00e3o feroz em giros exc\u00eantricos pelos por\u00f5es e s\u00f3t\u00e3os de minha cabe\u00e7a arrastaram seus joelhos para onde seus p\u00e9s, por prud\u00eancia, n\u00e3o deveriam ir alimentar o resto da vida com uma hora de loucura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hotel de car\u00edcias. Hora premeditada em que eu podia abrir as janelas de seu vestido e os olhos para a cumplicidade da lua e aproveitar o medo das nuvens de te ver transfigurar-se na penumbra onde seu rosto poderia praticar um crime delicado. Abri a porta de seu tornozelo que \u00e9 a entrada de seu desejo. Sua penugem t\u00e3o pr\u00f3xima das asas, dos dedos, do p\u00eanis, o sorriso de sua suave anatomia, os pequenos p\u00ealos da perna que refletiam as luzes dos candeeiros e se deixavam colorir de cobre como seus cabelos se deixavam tingir com meu sangue. N\u00e3o, nunca mais sairei do uivo de seu c\u00e3o ou das p\u00e1ginas de seu caderno de adult\u00e9rio. As datas incandescentes contornam fragilmente as folhas de seu calend\u00e1rio bordado a fogo a incinerarem nossos dias. Beijos azulados deslocam seu ponto de fuga para al\u00e9m dos limites habituais e retalham a silenciosa atmosfera donde o suor \u00e9 amigo e consorte dos amantes de mar\u00e7o protegidos em alcovas das estrelas despregadas e das \u00e1guas que encerram o Ver\u00e3o. Dem\u00eancia apaixonada onde encerramo-nos em quartos, onde a despi de todos os corpos que cobriram seu corpo. Jogos de dados lan\u00e7ados em len\u00e7\u00f3is p\u00e1lidos, teu sexo refletido no espelho e chamando por mim. Naufraguei no cio das coxas como dois rios que dividiam o mar tingido por menstrua\u00e7\u00f5es que afogaram tantos semens na travessia do canal da mancha em colchas que escondem segredos e ocultam digitais. O crime \u00e9 mais importante que o castigo e as paredes possibilitam inser\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas e f\u00f3rmulas alg\u00e9bricas que nunca se repetem. Arranquei da sua face todas as m\u00e1scaras de rostos amados. Eu soube decifrar seus jogos noturnos. Pouco a pouco os trap\u00e9zios de n\u00e9on avan\u00e7avam atrav\u00e9s das sobrancelhas cerradas da meia-noite nos meandros de armas e rosas. O vinho nos bebe e macula a cama. Os olhos de dois morcegos famintos abandonaram sorrateiramente as feridas nos travesseiros abertas por nossos poemas. Cortina de cabelos transforma qualquer imagem em miragem. Uma roleta girat\u00f3ria de rev\u00f3lver em permanentes disparos sobre a rosa carn\u00edvora. O perfume na garganta de espuma e f\u00faria das invas\u00f5es b\u00e1rbaras. Nossas bocas s\u00f3 depois da madrugada fazem passar os p\u00e1ssaros em revoada sob a pele, porque o amor \u00e9 s\u00f3 uma palavra, porque o c\u00e9u foi nossa \u00faltima chance essa noite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O l\u00e1pis do sol desenhava o contorno de seu corpo e tingia as marcas em meu pesco\u00e7o. Seus caninos sorriam para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Vontade de Poder<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DO AMOR DE DEPOIS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento de alegria e impudor. Ela boca cheirando a \u00e1lcool a equilibrar a lucidez de um cigarro. Eles numa atmosfera de embriaguez a viajarem entre o essencial e o acess\u00f3rio a lan\u00e7arem dados e calcularem probabilidades imposs\u00edveis de encantos m\u00fatuos. Ele a compor um sarau de ensaios sof\u00edsticos. Ela a utilizar toda alvenaria da sedu\u00e7\u00e3o. Eles a testarem o dom de reinventar o tempo e o espa\u00e7o a partir de experi\u00eancias. Ele a descobri-la ao acaso em caravelas naufragadas em mesas e toalhas. Ela a pensar que numa era o encontraria voluntariamente nos caf\u00e9s e quartos. Eles a conversarem sobre poetas malditos, livros lidos, desafetos amados e moinhos de vento. Ele a esconder seus segredos e sussurrar suas senhas. Ela a contar tudo a cada minuto sua \u00edntima hist\u00f3ria de desejo. Eles a excitarem a f\u00faria das paix\u00f5es num esfor\u00e7o de f\u00e9 no tempo que endurece as coisas at\u00e9 chegar o momento em que se pode quebr\u00e1-las entre os dedos. Ele a sensa\u00e7\u00e3o do porvir como um sonho irreal. Ela uma mulher com quem beber e esquecer entre sil\u00eancios e risos. Eles a se amarem com todas as for\u00e7as de um tempo ancestral pendurados em fios imagin\u00e1rios na superf\u00edcie da paisagem. Ele a conjecturar o roteiro de uma viagem sem volta. Ela m\u00e3os fecundas a gerar ironia e loucura. Eles a lutarem contra bocas famintas que estilha\u00e7am v\u00e9rtebras e cospem ossos no asfalto. Ele caminha ao cambaio das ruas de ver\u00e3o. Ela a rasgar sua face mais contratual. Eles a beberem todos os del\u00edrios e devaneios mais profundamente que qualquer dem\u00f4nio. Ele corpo puxado pelo avesso. Ela corpo devassado. Eles a trocarem imagens do mundo atrav\u00e9s das bocas mudas. Ele linha do equador entre os bra\u00e7os. Ela mapa-m\u00fandi dentre as pernas. Eles a admirarem a miragem dos eternos corpos despidos. Ele a l\u00ea nua e decifra seus enigmas. Ela a sentir em seu dorso os dedos que tocam os acordes da melodia em sol maior. Eles a esconderem o prazer de se digladiarem numa arena que revela uma verdade em que n\u00e3o se reconhecem. Ele alma de anjo deca\u00eddo. Ela carne de vinho e saliva de cerveja e s\u00eamen dos suicidas. Eles a criarem uma primavera de pernas entrela\u00e7adas e se perfumarem com todas as fragr\u00e2ncias que envolvem suas peles num raio de quil\u00f4metros. Ele a colher laranjas em seu ventre e morder o p\u00eassego do peito perdido. Ela a arder sobre um len\u00e7ol mordido por flores molhadas de sigilo e sal. Eles a trocarem carinhos e confid\u00eancias como c\u00famplices de crimes perfeitos. Ele com a certeza cient\u00edfica de que as p\u00e9rolas se formam por meio de agress\u00f5es externas para serem saqueadas do sofrimento das ostras. Ela a sentir seu mundo guiado pelos cinco sentidos que criam ciclos de culpa e prazer nos temores da vida de refugiada. Eles a roubarem de seus outonos e entranhas os frutos que incendeiam o para\u00edso ao imaginarem que inventaram um deus. Ele a adentrar seu labirinto e arranhas suas paredes com inscri\u00e7\u00f5es e datas. Ela o livro que ele nunca escreveu. Eles a dobrarem esquinas opostas e trilharem seus caminhos nos quais fantasmas os aguardam inteiros. Ele a beijar seus olhos de ressaca do amor de depois. Ela?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Vin\u00edcius Canhoto<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritor, professor, doutorando em Filosofia pela Universidade\u00a0Federal de S\u00e3o Paulo. Autor de &#8220;Livro do Esquecimento&#8221;.\u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A voz audaciosa e inquietante da prosa de Vin\u00edcius Canhoto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14164,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3394,2534,16],"tags":[41,3400,3399,3398,3397],"class_list":["post-14163","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-121a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-dedos-de-prosa","tag-livro-do-esquecimento","tag-o-amor-de-depois","tag-vampira-debaixo-do-sol","tag-vinicius-canhoto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14163","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14163"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14163\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14276,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14163\/revisions\/14276"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14164"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}