{"id":14178,"date":"2017-10-25T11:37:03","date_gmt":"2017-10-25T14:37:03","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14178"},"modified":"2017-10-29T11:52:51","modified_gmt":"2017-10-29T14:52:51","slug":"drops-da-setima-arte-32","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/drops-da-setima-arte-32\/","title":{"rendered":"Drops da S\u00e9tima Arte"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Guilherme Preger<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00daltimos dias em Havana (<em>Ultimos dias en la Habana<\/em>)<\/strong>. <strong>Cuba. 2016.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Cartaz-Havana.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14182\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Cartaz-Havana.jpg\" alt=\"\" width=\"312\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Cartaz-Havana.jpg 312w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Cartaz-Havana-208x300.jpg 208w\" sizes=\"auto, (max-width: 312px) 100vw, 312px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00daltimos dias em Havana<\/em> \u00e9 um drama cubano de 2016 dirigido pelo que \u00e9 hoje considerado o mais importante diretor de Cuba, Fernando P\u00e9rez. O filme conta a hist\u00f3ria de Miguel (vivido por Patricio Wood) e Diego (Jorge Martinez), dois amigos de inf\u00e2ncia. Diego \u00e9 um homossexual que sofre de aids e est\u00e1 fisicamente preso a uma cama. Miguel \u00e9 aparentemente um homem assexuado que \u00e9 obcecado por seu desejo de deixar a ilha e emigrar para os Estados Unidos. Ele espera conseguir o visto da embaixada americana para o qual vem se candidatando h\u00e1 algum tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos que um evento de viol\u00eancia ocorreu na escola de juventude dos amigos, no qual Jorge foi v\u00edtima de discrimina\u00e7\u00e3o e Miguel o teria protegido. Esse epis\u00f3dio selou a amizade entre os dois ao mesmo tempo que destinou Diego a uma vida de clandestina sexualidade. A hist\u00f3ria do filme se passa num momento em que Diego, deitado inv\u00e1lido sobre uma cama, tem a ajuda de Miguel para quase tudo, desde comida, rem\u00e9dio e banho. Diego confia em Miguel mais do que em sua fam\u00edlia. A casa onde o casal de amigos mora pertence a Diego e a fam\u00edlia deste teme que ela seja destinada em testamento a Miguel, uma possibilidade no direito da ilha socialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00daltimos dias em Havana<\/em> lembra imediatamente <em>Morango e Chocolate<\/em> (Fresa y Chocolate, 1994), de Tom\u00e1s Gutierrez Alea, sobre hist\u00f3ria de Senel Paz, o maior sucesso de p\u00fablico da hist\u00f3ria do cinema cubano.\u00a0 A refer\u00eancia \u00e9 expl\u00edcita: tamb\u00e9m aquele \u00e9 um filme sobre a amizade entre dois homens, um deles homossexual. Justamente, as personagens gays de ambos os filmes t\u00eam o mesmo nome, Diego (e s\u00e3o interpretadas por atores de nome Jorge, Perrugoia e Martinez, respectivamente). No entanto, as personagens n\u00e3o homossexuais s\u00e3o bem diferentes, quase opostas. No filme de Alea, David \u00e9 um jovem comprometido com a revolu\u00e7\u00e3o que tem enorme preconceito contra os gays. No filme de P\u00e9rez, Miguel \u00e9 um homem que sonha com a vida americana e considera a revolu\u00e7\u00e3o socialista uma verdadeira cat\u00e1strofe pessoal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14183\" aria-describedby=\"caption-attachment-14183\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Imagem-1-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14183 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Imagem-1-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Imagem-1-divulga\u00e7\u00e3o.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Imagem-1-divulga\u00e7\u00e3o-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14183\" class=\"wp-caption-text\">Cena do filme <em>\u00daltimos dias em Havana<\/em> \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua passagem pelo Brasil, Fernando P\u00e9rez admitiu a refer\u00eancia ao filme de Gutierrez Alea, por\u00e9m disse que seu filme \u00e9 um tributo a esse, considerado o maior diretor cubano, de quem foi assistente. Atualmente, Fernando ocupa a posi\u00e7\u00e3o de destaque de seu mestre. No entanto, para o diretor ambos os filmes s\u00e3o muito diferentes, apesar do n\u00facleo de hist\u00f3ria comum. Na verdade, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o tanto de refer\u00eancia quanto de di\u00e1logo. E num certo sentido, o filme de P\u00e9rez guarda um tom cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o a <em>Morango e Chocolate<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda obra de cinema, ou mesmo art\u00edstica, de Cuba est\u00e1 marcada pelo estigma do documento. Se a presen\u00e7a e a persist\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o cubana permanecem incompreens\u00edveis para muita gente, \u00e9 atrav\u00e9s da arte que se procura explicar o mist\u00e9rio da longevidade da revolu\u00e7\u00e3o, para o bem ou para o mal. Assim, h\u00e1 pessoas que se basearam no filme de Gutierrez Alea para criticar ou mesmo denunciar a suposta persegui\u00e7\u00e3o homof\u00f3bica na ilha caribenha. <em>Morango e Chocolate<\/em> n\u00e3o seria ent\u00e3o uma obra de fic\u00e7\u00e3o, mas sim um testemunho do car\u00e1ter homof\u00f3bico dos revolucion\u00e1rios, \u201crepresentados\u201d pela personagem de David.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o adiantaria argumentar, no entanto, que o filme seja um drama ficcional ou que Gutierrez Alea foi um diretor que sempre apoiou a revolu\u00e7\u00e3o, ou que o filme tenha sido financiado com dinheiro estatal cubano e que tenha passado, sem censura, nos principais cinemas da ilha, ou mesmo que a sorveteria Coppelia tenha se tornado um ponto tur\u00edstico e que l\u00e1 nunca falte justamente o sorvete de \u201cfresa\u201d. Tudo isso deveria matizar uma apressada leitura \u201crealista\u201d ou \u201cdocumental\u201d da obra. <em>Morango e Chocolate<\/em> \u00e9 o que se chama, em teoria liter\u00e1ria, de um filme \u201cpolif\u00f4nico\u201d, um filme de vozes e perspectivas. A cr\u00edtica ao ran\u00e7o preconceituoso, machista e homof\u00f3bico eventual de um guerrilheiro cubano \u00e9 elemento narrativo do filme, mas tamb\u00e9m \u00e9 ato de autorreflex\u00e3o est\u00e9tica da pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o, que repensa seu significado atrav\u00e9s de uma obra de arte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14184\" aria-describedby=\"caption-attachment-14184\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Imagem-2-Foto-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14184 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Imagem-2-Foto-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Imagem-2-Foto-divulga\u00e7\u00e3o.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Imagem-2-Foto-divulga\u00e7\u00e3o-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14184\" class=\"wp-caption-text\">Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00daltimos dias em Havana<\/em> retoma um di\u00e1logo que torna ainda mais complexa a quest\u00e3o da sexualidade na ilha caribenha. O Diego do filme de Fernando P\u00e9rez j\u00e1 n\u00e3o representa mais a ant\u00edtese da revolu\u00e7\u00e3o. Num certo sentido, ele est\u00e1 em paz com sua condi\u00e7\u00e3o de cubano e com o regime socialista. H\u00e1, portanto, neste filme uma troca de pap\u00e9is com sinais trocados: \u00e9 Miguel, amigo e interlocutor de Diego, que n\u00e3o confia no regime. Mas Diego, por sua vez, n\u00e3o \u00e9 exatamente uma pessoa conformada com a situa\u00e7\u00e3o do regime burocr\u00e1tico que reprime ou cerceia sua sexualidade. Sua pris\u00e3o s\u00e3o sua cama e sua doen\u00e7a, e sua luta \u00e9 por manter vivas a libido e a del\u00edcia de viver, mesmo em seus \u201c\u00faltimos dias\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que o filme p\u00f5e em confronto n\u00e3o \u00e9 mais o destino coletivo de uma na\u00e7\u00e3o socialista contra o livre exerc\u00edcio individual da sexualidade. De certo, a sexualidade de Diego precisou ser vivida de forma clandestina, mas ele sabe que tudo em Cuba se consegue sob a \u201cvista grossa\u201d do poder oficial. Tudo \u00e9 vivido nas brechas entre as apar\u00eancias oficiais do regime pol\u00edtico e a realidade cotidiana das ruas. Assim, o que a narrativa do filme confronta n\u00e3o \u00e9 mais o Estado contra o indiv\u00edduo, mas a apar\u00eancia oficializada do governo p\u00f3s-revolucion\u00e1rio e a urg\u00eancia pol\u00edtica da vida e dos afetos cuja exist\u00eancia se d\u00e1 coletivamente. Agora \u00e9 Miguel que, ao se individualizar em sua amargura e desejo de fuga, vive uma vida paralisada, cuja \u00fanica esperan\u00e7a \u00e9 receber uma aceita\u00e7\u00e3o da embaixada americana, enquanto Diego e outras personagens vivem mais plenamente seus desejos e suas sexualidades. <em>\u00daltimos Dias em Havana<\/em> inverte assim a perspectiva de <em>Morango e Chocolate<\/em>: n\u00e3o \u00e9 mais a revolta do indiv\u00edduo que assinala a verdade opressiva do regime coletivo. \u00c9 a intensidade da vida coletiva que se \u201cvira\u201d em condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis e traz a verdade sobre a impot\u00eancia existencial do indiv\u00edduo representado por Miguel. Embora n\u00e3o suporte o sistema pol\u00edtico de Cuba, Miguel o representa muito mais do que Diego e seus amigos e familiares. Diego incorpora o afeto existencial e libidinal que \u00e9 ausente do discurso oficial da burocracia no poder, no entanto, \u00e9 a rigidez desse sistema que torna vi\u00e1vel esta mesma corrente afetiva subterr\u00e2nea, ao permitir que prossiga como se n\u00e3o existisse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme de Fernando P\u00e9rez trabalha de maneira a tornar complexa a rela\u00e7\u00e3o entre a apar\u00eancia formal do regime pol\u00edtico e a apar\u00eancia est\u00e9tica cinematogr\u00e1fica. Se, no in\u00edcio, o filme parece aderir a uma est\u00e9tica folhetinesca de oposi\u00e7\u00f5es fortemente marcadas entre os caracteres antag\u00f4nicos de Diego e Miguel &#8211; o primeiro exuberante, por\u00e9m im\u00f3vel, e o segundo afetivamente paralisado, por\u00e9m circulante &#8211; esse antagonismo se torna menos trivial aos poucos, pois a amizade entre os dois est\u00e1 inclu\u00edda nesta \u201cpol\u00edtica da vida\u201d da qual Diego \u00e9 portador. A entrada em cena de novas personagens como P3 (ou P4, vivido por Cristian Jes\u00fas P\u00e9rez) e Yusisleydis (Gabriela Ramos), a sobrinha de Diego, amplia o caleidosc\u00f3pio atual da vida na ilha caribenha, trazendo \u00e0 tela a vivacidade da gera\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de jovens cubanos. Ambos, ali\u00e1s, justamente n\u00e3o alimentam o sonho de emigrar e vivem no interior de um experimento social de sobreviv\u00eancia \u00e0 margem dos legados poss\u00edveis ou das promessas ut\u00f3picas da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14185\" aria-describedby=\"caption-attachment-14185\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Imagem-3-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14185 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Imagem-3-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Imagem-3-divulga\u00e7\u00e3o.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Imagem-3-divulga\u00e7\u00e3o-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14185\" class=\"wp-caption-text\">Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a deles interrompe repentinamente a normalidade esquem\u00e1tica da rela\u00e7\u00e3o entre Miguel e Diego, assim como interrompe a hist\u00f3ria do filme numa bifurca\u00e7\u00e3o do correr da narrativa cinematogr\u00e1fica. \u00c9 com a entrada desses jovens que o filme ultrapassa o bin\u00f4mio quase-dial\u00e9tico da f\u00f3rmula \u201cmorango e chocolate\u201d para desviar a outros rumos est\u00e9ticos. Formalmente, h\u00e1 dois elementos marcantes na constru\u00e7\u00e3o cinem\u00e1tica. O primeiro est\u00e1 no uso da m\u00fasica dieg\u00e9tica, interna ao enredo. Toda a trilha sonora do filme \u00e9 ouvida no interior da pr\u00f3pria hist\u00f3ria numa jun\u00e7\u00e3o engenhosa entre narrativa ficcional e documento contextual. Assim, a bel\u00edssima can\u00e7\u00e3o cantarolada por Yusisleydis tem o aspecto simultaneamente de um momento l\u00edrico de fantasia, sendo no entanto extremamente realista, evitando o que seria um artificioso coment\u00e1rio sentimental do diretor e expressando inesperada erup\u00e7\u00e3o do real na trama. O mesmo para a can\u00e7\u00e3o <em>Chupa Piruli<\/em> que acontece num mercado de produtos de consumo de Havana. A cena joga com a ambiguidade de sua localiza\u00e7\u00e3o e parece ocorrer em uma esp\u00e9cie de Miami ins\u00f3lita localizada dentro da capital cubana. Essa can\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u201ccomenta\u201d de fora o enredo, mas emergindo por diegese da pr\u00f3pria narrativa funciona como um coment\u00e1rio ir\u00f4nico que o filme faz das pr\u00f3prias expectativas do p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E h\u00e1, a partir de certo momento, o recurso brechtiano de distanciamento e estranheza provocado pela fala de Yusisleydis, que passa subitamente de personagem secund\u00e1ria \u00e0 narradora da hist\u00f3ria. O filme ent\u00e3o assume um aspecto fabuloso, por\u00e9m ao mesmo tempo mais fortemente verdadeiro. N\u00e3o \u00e9 simplesmente o caso de dar \u201cvoz\u201d ao povo cubano, pois Yusisleydis n\u00e3o \u201crepresenta\u201d os jovens da ilha. Ela s\u00f3 representa a ela pr\u00f3pria. Sua fala tem o mesmo efeito da m\u00fasica dieg\u00e9tica: emana do interior do dispositivo cinematogr\u00e1fico ficcional interpelando diretamente o espectador. O que importa \u00e9 menos o que ela tem a dizer e mais o gesto de sua enuncia\u00e7\u00e3o, a tomada da palavra. O que \u00e9 exemplar n\u00e3o \u00e9 sua mensagem, mas sim o gesto revolucion\u00e1rio de assumir a palavra sem intermedi\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00daltimos dias em Havana<\/em> parece um filme em paz com o regime socialista, por\u00e9m n\u00e3o se pode acus\u00e1-lo de ser uma propaganda do Estado cubano, nem tampouco \u00e9 uma obra dissidente. O filme n\u00e3o transmite a ideia de que a revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 em seus \u00faltimos dias, mas tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 em seus momentos gloriosos. Se o filme indica que h\u00e1 algo novo nascendo \u00e9 porque a revolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m sofre metamorfoses insuspeitas, entre a verdade da f\u00e1bula e a g\u00e9lida ilus\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tV1CnFqzwNY\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Guilherme Preger<\/em><\/strong><em>, carioca, \u00e9 engenheiro e escritor. \u00c9 autor de Capoeiragem (7Letras\/2003) e Extrema L\u00edrica (Ed. Oito e Meio\/2014), e um dos organizadores do coletivo liter\u00e1rio Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das tr\u00eas colet\u00e2neas lan\u00e7adas pelo grupo. Atualmente, \u00e9 doutorando em Teoria Liter\u00e1ria da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproxima\u00e7\u00e3o entre Literatura e Ci\u00eancia. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um pr\u00eamio de cr\u00edtica liter\u00e1ria do Grupo Esta\u00e7\u00e3o e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O longa cubano \u201c\u00daltimos dias em Havana\u201d pelas linhas de Guilherme Preger <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14179,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3394,16,2535],"tags":[115,3403,13,3405,1204,3404],"class_list":["post-14178","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-121a-leva","category-destaques","category-drops-da-setima-arte","tag-cinema","tag-cuba","tag-drops-da-setima-arte","tag-fernando-perez","tag-guilherme-preger","tag-ultimos-dias-em-havana"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14178","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14178"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14178\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14264,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14178\/revisions\/14264"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14179"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}