{"id":14196,"date":"2017-10-25T12:45:09","date_gmt":"2017-10-25T15:45:09","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14196"},"modified":"2017-12-28T17:55:58","modified_gmt":"2017-12-28T20:55:58","slug":"dedos-de-prosa-iii-56","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-56\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Anchieta Mendes<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14198\" aria-describedby=\"caption-attachment-14198\" style=\"width: 403px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Claudia-R-Sampaio.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14198 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Claudia-R-Sampaio.jpg\" alt=\"\" width=\"403\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Claudia-R-Sampaio.jpg 403w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Claudia-R-Sampaio-242x300.jpg 242w\" sizes=\"auto, (max-width: 403px) 100vw, 403px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14198\" class=\"wp-caption-text\">Pintura: Cl\u00e1udia R. Sampaio<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>QUANDO A CHUVA MOLHA A ALMA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mercedes viu o pai, naquele dia, chegar b\u00eabado. O rosto avermelhado, a voz travada. Quando bom, as palavras sa\u00edam com dificuldades. Poucos entendiam os significados. L\u00e1 fora o c\u00e9u empalideceu. O vento varria gravetos e as \u00e1rvores envergavam. As galinhas corriam no terreiro em algazarras. O c\u00e9u escurecia rapidamente. Sua irm\u00e3 Francisca chegou da vizinha resfolegante. \u201cCuida! Vamos fechar as janelas. A chuva est\u00e1 vindo como nunca\u201d.\u00a0 O pai deitou-se no ch\u00e3o frio como de costume. Resmungou qualquer coisa indecifr\u00e1vel. N\u00e3o se interessou pela chuva a vir, apesar de sempre esperar por ela. As outras irm\u00e3s fecharam-se no quarto. Helena precisou de ajuda de Isabel, a irm\u00e3 mais pr\u00f3xima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mercedes ajudou as irm\u00e3s o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Correu \u00e0 janela para ver a chuva. N\u00e3o tinha chegado, mas o cheiro estava no ar. Olhava para a estrada \u00e0 dist\u00e2ncia. Olhava para o pai na sala deitado no ch\u00e3o, a n\u00e3o sonhar com a chuva. E ele n\u00e3o a viria t\u00e3o torrente, t\u00e3o forte capaz de deix\u00e1-los quase \u00e0 deriva. A m\u00e3e deixou-o morto e n\u00e3o precisou dele para buscar formas de n\u00e3o se envolverem no dil\u00favio. Por mais que sentisse d\u00f3 dele, Mercedes sabia, no \u00edntimo, a cada dia o desprezo aumentar. Era um pai doutro mundo. Era um pai presente-ausente. Era um pai de lascar. Olhava agora para a m\u00e3e. Corpo esqu\u00e1lido, de ossos do peito a estufarem-se. Os olhos quase n\u00e3o cabiam nos c\u00f4ncavos. A pele presa aos ossos e aos nervos e \u00e0s juntas. Pele ressequida e sugada. As pernas finas a formarem dois arcos. Os cabelos tingidos aqui e ali de branco e ruins de serem penteados. Ficava a se pensar como aquela mulher pariu cinco filhas com aquele corpo que mal se firmava em p\u00e9. \u00c0s vezes temia em a m\u00e3e se desmoronar e os ossos se espalharem pelo ch\u00e3o. Era uma mulher de apar\u00eancia fraca, mas forte na luta, na lida, nas resolu\u00e7\u00f5es. Pecava pelo amor desvairado, pela inoc\u00eancia no pensar e no agir pelo marido long\u00ednquo. N\u00e3o entendia a m\u00e3e, ou se fazia por n\u00e3o entender. Por que aquele amor de um s\u00f3? Por que sofrer tanto por um homem? Procria\u00e7\u00e3o? Carne? Carne era s\u00f3 o que ele trazia na feira do m\u00eas, e s\u00f3. O resto as mulheres da casa tratavam de conseguir \u00e0s duras penas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela chegou, aos poucos, perpendicular vindo da estrada, subir o alto, banhar as podas das \u00e1rvores, tingir as cores encardidas das casas. Mercedes viu a chuva vir de tal forma branda para depois forte. Lembrou de Paulo, amigo de Francisca e que se tornou amigo de todas. Lembrou porque ele era como a chuva, apesar de sempre tardia, passageira. Vinha sempre, saltitante, mas logo ia a deixar reverbera\u00e7\u00e3o no ar. Mas logo esqueceu da imagem fugidia daquele que seria o ponto cego da vis\u00e3o. Deixou-se a ver a chuva a tamborilar nas telhas, aos poucos e logo constante. N\u00e3o quis ouvir as irm\u00e3s no quarto a rirem. A m\u00e3e chegou-se perto e as duas ficaram mudas, pelo v\u00e3o da janela, a ver aquela coisa rara. Cada uma ao seu modo.\u00a0 As irm\u00e3s no quarto, agora a rirem. Quis rir tamb\u00e9m, e assim o fez, de forma suave, a receber a chuva do caju. E nunca soube o porqu\u00ea do caju. Naquelas bandas a fruta era rara, quase a n\u00e3o existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram assim serenas, control\u00e1veis, no princ\u00edpio, que as \u00e1guas de setembro molharam as lembran\u00e7as de Mercedes. O pai deitado no ch\u00e3o da sala, b\u00eabado. A m\u00e3e sem tantas palavras, mas nos olhos o brilho a espelhar os pingos d\u00b4\u00e1gua. As irm\u00e3s, no in\u00edcio, a rirem de qualquer coisa. Mas nem tudo foi assim. Tudo foi aos poucos, como qualquer chuva a banhar aquelas terras gris. Choveu. Choveu como nunca. Na propor\u00e7\u00e3o que as \u00e1guas ca\u00edam, o cen\u00e1rio mudava. A casa edificada no alto parecia estar segura de prov\u00e1vel inunda\u00e7\u00e3o. Mas o que se veria nas pr\u00f3ximas horas foi de causar medo. Os risos das meninas se foram, aos poucos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a noite chegou, e o pai ainda b\u00eabado e jogado, a chuva veio junto. A luz dos postes era pouca para se enxergar o que acontecia l\u00e1 embaixo. O caminho a dar na casa, em um dos lados, havia declive acentuado. Existia um v\u00e3o convexo. Uma esp\u00e9cie de a\u00e7ude sem \u00e1gua. Na beira da estrada, um bar. No in\u00edcio da chuva, alguns b\u00eabados celebravam em brados. Ouviam-se copos a se quebrarem e garrafas tilintarem. Mas depois apenas a chuva. Foi quando a luz se foi. Os risos das meninas tamb\u00e9m. O pai naufragado no \u00e1lcool. A m\u00e3e, agora, preocupada. Todas trataram de buscar as lamparinas, as velas, algo para as iluminarem. As telhas cantavam, dan\u00e7avam \u00e0 chuva, explodiam em melodias agudas. Sentiam-se os respingos por entre elas, como se aspergissem \u00e1gua benta naquelas pecadoras. O pai n\u00e3o sentia, estava morto, e n\u00e3o era novidade morrer a cada dia. A chuva a aumentar.\u00a0 Os olhos das irm\u00e3s, apesar de Francisca ser a mais velha, a expressarem medo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As casas vizinhas, distantes, Mercedes tentava ver as frouxas luzes pelos rasgos das portas. Eram luzes disformes. Os grossos pingos da chuva turvavam a vis\u00e3o.\u00a0 N\u00e3o conseguia enxergar o que, pela manh\u00e3, seria o mar l\u00e1 embaixo e sem condi\u00e7\u00f5es de n\u00e3o ir a lugar nenhum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a noite ainda demoraria a chegar ao seu fim. A casa, com suas tr\u00eas portas, delimitava os dois mundos: o interior e o exterior inundado. Mercedes temeu o pior, mas segurou-se. N\u00e3o tinha presenciado aguaceiro como aquele, apesar de n\u00e3o ver, mas sentia. Os respingos de entre telhas a banhavam como gotas de orvalhos exagerados. Banhavam a esperan\u00e7a de dias melhores, como est\u00e1gio para que as futuras planta\u00e7\u00f5es vingassem. Lembrou, ent\u00e3o, de ter deixado a escola, n\u00e3o porque quis, mas pela imposi\u00e7\u00e3o do pai. Era preciso limpar os matos a engolirem o feij\u00e3o. Era preciso encher os baldes de \u00e1gua da cisterna. Era preciso encher-se de tantas tarefas para esquecer a dor de ter deixado de estudar. Por isso cruzava com o pai no dia a dia como a um estranho nos caminhos empoeirados daquele terr\u00edvel lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escola era do outro lado da estrada. Paralelo \u00e0 estrada, o rio. Depois do rio a escola. Para chegar l\u00e1, muitas vezes, precisou nadar, com as roupas, a sacola com o livro e o caderno e o bra\u00e7o a puxar a \u00e1gua. Quando chegava \u00e0 margem, esperava Francisca para se ajudarem a se vestir. Os meninos iam pelo outro lado, distantes. E esses meninos, apesar de pr\u00f3ximos naquela geografia de Magdaluz, a cada dia, se tornavam mais distantes. Muito mais tarde, com a idade avan\u00e7ada, e as durezas da vida, n\u00e3o os via com os seus pr\u00f3prios olhos e nem os sentia com os seus restantes de sentidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era bom estar sentada na cadeira da escola, apesar de p\u00e9ssima, mas era o que tinha. A manh\u00e3 a passar a rabiscar cadernos, a juntar palavras naquele \u00fanico livro, n\u00e3o era ruim. As duas filas das carteiras, de um lado as meninas e do outro os meninos, mostravam as divis\u00f5es entre eles. A professora era rigorosa, e mesmo no intervalo n\u00e3o as deixavam ir longe, esconderem-se. Os \u00f3culos da professora deviam ter graus demais para enxergar t\u00e3o longe. A sua amiga mais \u00edntima, Eufr\u00e1sia, de cabelos louros, pele branca como a neve, aparentava inoc\u00eancia, mas era uma diaba por dentro. Os quinze anos das duas emparelhavam entendimento, embora Mercedes se resguardasse nos \u00edmpetos. J\u00e1 Francisca n\u00e3o era bem assim. Por ter um ano a mais das duas, envolvia-se com Eufr\u00e1sia em perip\u00e9cias demais para a \u00e9poca. As trocas de bilhetes eram constantes e os assuntos, claro, eram sobre os meninos. Mercedes era quem acobertava os encontros delas com eles quando dos intervalos. Estava sempre atenta a todos os passos da professora e dos seus \u00f3culos longitudinais. Inventava sons, batia palmas sem ver para qu\u00ea, cantava o que n\u00e3o sabia cantar, gargalhava por nada. Tudo para avisar \u00e0s meninas das investidas da professora. Depois em casa, Francisca contava tudo, mas jurava de p\u00e9s juntos, que tudo n\u00e3o passava de beijos, s\u00f3 beijos. Conte-nos, dizia Mercedes, os detalhes. Francisca minuciava cada a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o. Helena ouvia e imaginava tudo. Como as demais tamb\u00e9m. No final cada irm\u00e3 guardava pra si aquele segredo como algo mais precioso do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eufr\u00e1sia n\u00e3o deixou a escola. Eufr\u00e1sia casou, teve filhos e se separou do marido para viver com outro, e depois com outro e, hoje, n\u00e3o se sabe do paradeiro dela. Mercedes riu, enquanto sentia a chuva naquela escurid\u00e3o de l\u00e1 de fora. Dentro de casa, as luzes bruxuleantes dos candeeiros tornavam as irm\u00e3s e a m\u00e3e imagens fantasmag\u00f3ricas. Quando elas se moviam, as sombras nas paredes se encontravam como a se engalfinharem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na mistura dos sons nos telhados, dos chinelos pela casa, deixava Mercedes entregue a devaneios e, ao mesmo tempo, atenta a tudo. Achava os movimentos da casa o seu mundo mais profundo. A chuva trazia, al\u00e9m dos fantasmas nas paredes, os vultos do passado. Na propor\u00e7\u00e3o em que a chuva se fincava na noite, a casa enchia-se dos parentescos vultos, vizinhos e figuras desfiguradas. Mercedes recebeu todos eles, entre desconfiada e deslumbrada. A tia Andaluzia gostava de falar alto, e foi logo expondo o seu ponto de vista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o: \u201ca seca me d\u00e1 agonia por ter que comer carne seca e farinha. N\u00e3o tenho nada contra o gosto, mas minhas dentaduras n\u00e3o aguentam\u201d.\u00a0 Tratava logo em tirar do bolso do vestido o naco de fumo e a palha de milho. Insumos para o cigarro de cheiro maldito. N\u00e3o se importava para o torcer de narizes dos outros. \u201cretirem-se os incomodados. O terreiro \u00e9 o local ideal para as bestas\u201d. E continuava a falar, sempre se referenciando \u00e0 dona da casa. A cada palavra a sair da boca, enxovalhada de fumo e fuma\u00e7a, o olho direito fechava. Era a forma viciosa, um tique nervoso a deixar a outra pessoa a querer lhe imitar. Pelo olho fechado a fuma\u00e7a soltava-se e enuviava aquele sentido incomum. Os gestos das m\u00e3os em jogar para uma e outra o cigarro de palha mordiscado era outro gesto intranquilo. Tia Andaluzia n\u00e3o era normal. Espalhafatosa, apesar do corpo magro, ao chegar num ambiente tomava conta de tudo. Os outros eram os outros.\u00a0 Foi assim que ela entrou na casa, j\u00e1 por volta da madrugada, encharcada da chuva. Foi assim, tamb\u00e9m, em outros dias quando a chuva veio t\u00e3o forte que n\u00e3o quis voltar de onde veio. \u201cO marido se ajeita\u201d. Ficou uma semana com a irm\u00e3 de roupa \u00fanica. As de baixo a irm\u00e3 precisou comprar. O cunhado foi aos solavancos, no lombo do jumento, a resmungar inj\u00farias para si, a comprar no com\u00e9rcio calcinhas para Tia Andaluzia. As filhas, naquele dia, n\u00e3o aguentaram de tanto rir. Queriam ver a encomenda, o tipo. Mas o pai sob protestos aos quatro ventos enviou a mercadoria pela vizinha. Chegou horas depois trazido pelo animal afogado na cacha\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra personagem, a se livrar da chuva, foi Tio Nonato. Ao entrar trouxe na apar\u00eancia, de nota, o rente cabelo \u00e0 brilhantina. O cuidado com aquela indument\u00e1ria era de causar coment\u00e1rios. Anexado pelo bigode fino, sempre penteado. Ambos os toques negros pela tinta rejuvenescedora. Trazia no bolso o pente fino, guardado como rel\u00edquia, parte do corpo, parte da vida. Juntados os irm\u00e3os sob o aguaceiro e aos olhos e mente de Mercedes, a noite arrastou-se diferente. Tio Nonato comentou sobre o cunhado ca\u00eddo para depois deix\u00e1-lo largado igual a todos. Os irm\u00e3os enfiaram-se na cozinha e beberam garrafas de caf\u00e9 ao gosto das palavras e mem\u00f3rias elucidadas. Mercedes ficou no canto da porta a ouvir aquelas vozes misturadas do al\u00e9m e do presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tio Nonato tamb\u00e9m ficou p\u00f3s-chuva. Deixou a mulher na cidade distante, e acompanhou a Tia Andaluzia em visita \u00e0 irm\u00e3. Foi num per\u00edodo de dois dias que Tio Nonato revelou-se do\u00eddo pela paix\u00e3o do passado. Em outras visitas \u00e0 cidade de Magdaluz, h\u00e1 muito tempo, conheceu uma mulher. Trovadora, audaciosa, bonita, indecifr\u00e1vel por fim. Amor, paix\u00e3o, atra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se sabe. O que se sabe foi o rapto da mulher casada, not\u00edcia afora. A esposa de Tio Nonato soube e aguentou e chamou a amante de rapariga, praguejou, desejou morrer, serenou. Suportou o tempo de seis meses em que o aventureiro e apaixonado cabra desnudou-se das suas responsabilidades de marido. O filho de uma \u00e9gua fugiu como o diabo foge da cruz. Fugiu como quem buscava nas carnes da outra o que n\u00e3o encontrava em casa. Voltou tempos depois ao largar a mundana quando abusou. Entregou de volta ao marido como objeto usado, e aquele tra\u00eddo a recebeu. E agora, no encharque da chuva, Tio Nonato mergulhou-se na cacha\u00e7a a lembrar das aventuras e de querer saber do paradeiro da aventureira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi assim a noite toda a lembran\u00e7a, a mem\u00f3ria a misturar-se com a realidade. As vozes das irm\u00e3s com a da m\u00e3e fizeram com que Mercedes confundisse o real do imagin\u00e1rio. Por\u00e9m n\u00e3o deu para confundir quando as telhas dan\u00e7aram. As telhas n\u00e3o suportaram o soprar do vento. Muitas foram arrastadas. Buracos se abriram no telhado. A chuva a continuar forte, tanto fora como dentro de casa, deixou a todas em p\u00e2nico. O pai jogado e agora molhado. Era preciso sacudi-lo. Mas antes as irm\u00e3s e a m\u00e3e trataram de aparar o aguaceiro; cobrir os parcos m\u00f3veis; de vassouras e rodos a puxar o excesso. O pai era um m\u00f3vel-im\u00f3vel que podia inundar-se, por enquanto. Todas se molharam. O cuidado estava tamb\u00e9m em Helena. O cuidado estava nas lou\u00e7as e na \u00faltima feira do m\u00eas. Helena se salvou, mas a feira foi de porta afora. A mistura aguou. A m\u00e3e quis ir atr\u00e1s, mas foi impedida pelas filhas. Todas as roupas molhadas, grande parte dos m\u00f3veis. Quando o pai foi arrastado pela leveza do \u00e1lcool, a m\u00e3e atirou-se para impedi-lo. Foi ent\u00e3o que as irm\u00e3s notaram o grande amor da m\u00e3e pelo pai. E nessa divis\u00e3o de \u00e1gua entre os pais e as filhas, Mercedes tornou-se pioneira no estilo de vida que iria perdurar por todos os dias vindouros. Mesmo Helena com suas dificuldades, sentiu o quanto aquele epis\u00f3dio as marcaria para sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Anchieta Mendes<\/em><\/strong><em>, natural de Juazeiro do Norte-CE, \u00e9 escritor com pr\u00eamios liter\u00e1rios e contos publicados em v\u00e1rias antologias. \u00c9 autor de \u201cValados de giz\u201d (Romance), \u201cAlquimia\u201d (Romance \u2013 Multifoco) e \u201cBicho Metropolitano\u201d (Contos \u2013 Penalux).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Densas imagens intimistas num conto de Anchieta Mendes<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14197,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3394,2534],"tags":[3408,81,41,3409],"class_list":["post-14196","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-121a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-anchieta-mendes","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-quando-a-chuva-molha-a-alma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14196","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14196"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14196\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14199,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14196\/revisions\/14199"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14197"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}