{"id":14201,"date":"2017-10-26T17:45:47","date_gmt":"2017-10-26T20:45:47","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14201"},"modified":"2017-12-28T17:55:46","modified_gmt":"2017-12-28T20:55:46","slug":"aperitivo-da-palavra-23","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-23\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cidinha da Silva e a cr\u00f4nica como ato de nomear<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Saulo Dourado<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/CAPA-LIVRO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14203\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/CAPA-LIVRO.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/CAPA-LIVRO.jpg 360w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/CAPA-LIVRO-240x300.jpg 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00fameros sobre a mortalidade negra no Brasil est\u00e3o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para quem quiser buscar e se inteirar. Gr\u00e1ficos, porcentagens, tabelas comparativas, que mostram o mapeamento de homic\u00eddios, um dos mais graves do mundo. Dos 30 mil jovens assassinados em 2012, 77% s\u00e3o pretos ou pardos, diz a Anistia Internacional. A CPI do Senado de 2016 conta que, a cada 23 minutos, um homic\u00eddio de mesma ordem acontece no pa\u00eds, e n\u00e3o h\u00e1 sinais de diminui\u00e7\u00e3o. Nas chacinas, autoridades discutem quantos foram os massacrados afinal, com 1 ou 2 a mais ou menos, como um placar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro <em>#Parem de nos matar!<\/em> (Ijumaa, 2016), de Cidinha da Silva, traz os dados e as evid\u00eancias das mortes f\u00edsicas e simb\u00f3licas de toda uma popula\u00e7\u00e3o, mas os ultrapassa: d\u00e1 forma e nome aos n\u00fameros. Afinal, com valores absolutos se consegue convencer a raz\u00e3o daquilo que deve importar, mas n\u00e3o o afeto. Quanto mais se banaliza em of\u00edcio e em not\u00edcias um acontecimento, menos o sentimos, e disso \u00e9 preciso curar-se. Como ant\u00eddoto, devemos entrar no particular e no mi\u00fado para que fatos se conectem de novo \u00e0s tripas e \u00e0s m\u00e3os, para o sentimento e para o rebote.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00f4nica tem um papel fundamental, o de tornar especial uma pessoa e um acontecimento a ponto de formar o elo de sentimento entre o particular e o todo. Eis o g\u00eanero liter\u00e1rio que Cidinha da Silva conduz com ritmo e amplid\u00e3o, e o mote que ela alcan\u00e7a. Seus textos d\u00e3o nome, corpo e presen\u00e7a: Maria Julia Coutinho, Sueli Carneiro, Ta\u00eds Ara\u00fajo, L\u00e1zaro Ramos, Mirian Fran\u00e7a, Ant\u00f4nio Pomp\u00eao, Luiza Bairros, Aranha, Claudia da Silva Ferreira, Livia Nath\u00e1lia, Liniker&#8230; Em uma cr\u00f4nica sobre a postagem de Fernanda Lima que elogia as empregadas dom\u00e9sticas como \u201cbatalhadoras\u201d, h\u00e1 uma pergunta pontual da autora: \u201cE por que n\u00e3o p\u00f4s os nomes dessas mulheres?\u201d Por que seriam an\u00f4nimas batalhadoras, e mais uma vez todo um povo ser uma massa an\u00f4nima? Esta reivindica\u00e7\u00e3o percorre o livro: a de tirar a mortalha da despersonifica\u00e7\u00e3o, causa e efeito do prosseguimento de um genoc\u00eddio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio da Odisseia de Homero, em que o her\u00f3i Ulisses se salva de Ciclopes ao se chamar Ningu\u00e9m, na realidade brutal e de neglig\u00eancia institucionalizada as quais vivem o povo brasileiro, aquele que for Ningu\u00e9m, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 o alvo f\u00e1cil. N\u00e3o se trata de cada um ascender e se tornar Algu\u00e9m para salvar-se; trata-se de narrarmos e escutar as narrativas dos nomes, como um princ\u00edpio, para que o Algu\u00e9m seja por princ\u00edpio dignidade, e n\u00e3o camadas de oculta\u00e7\u00e3o e cinismo, como \u00e9 no Brasil. \u201c\u00c9 preciso ir mais fundo\u201d, diz Cidinha em <em>Desde dentro<\/em>, \u201c\u00c9 preciso ouvir a estas e a milh\u00f5es de fam\u00edlias desde dentro, desde antes das trag\u00e9dias anunciadas (&#8230;) \u00c9 preciso olhar com os olhos de ver e ouvir com ouvidos de escuta. Desde dentro.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os assuntos de <em>#Parem de nos matar!<\/em> s\u00e3o tantas vezes cr\u00edticas ao lugar da banalidade das informa\u00e7\u00f5es: as m\u00eddias em geral. A princ\u00edpio, pode-se questionar: se h\u00e1 tantos casos cru\u00e9is contra a juventude preta, guerra civil entre policiais e narcotr\u00e1fico, por que dedicar tr\u00eas cr\u00f4nicas a Maju do Jornal Nacional, programa de uma emissora eminentemente chapa branca? Est\u00e1 diretamente ligado, pois \u00e9 preciso assistir e cobrar no palco dos afetos, em filmes, partidas de futebol, novelas, palestras, minist\u00e9rios, \u00e0queles com os quais a como\u00e7\u00e3o, a admira\u00e7\u00e3o, os desejos se tornem vistas e refletidas. Eu preciso ver aquele que me faz sentir: eu preciso sentir candura ou raiva, ternura ou desprezo sem elos espec\u00edficos de corpo e de pele. \u00a0Tudo aquilo que dirige os afetos a tornar um massacre um fato menos sens\u00edvel \u00e9 c\u00famplice de seus acontecimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem o sentimento, \u00e9 muito mais f\u00e1cil esquecer-se e deixar acontecer. Eu particularmente fico contente por este livro ter-me feito passar irrita\u00e7\u00f5es, n\u00e1useas, estranhezas, como\u00e7\u00f5es, raivas e risos, ter-me deixado baqueado em uma tarde de domingo. Quer dizer que h\u00e1 energia de movimento pelas p\u00e1ginas e que passam por mim. Porque sentir \u00e9 dar for\u00e7a, \u00e9 vigor de natureza, e nessa dan\u00e7a n\u00e3o h\u00e1 sentimento ruim ou bom, h\u00e1 aquela que provoca o movimento de dentro para fora, a vontade de ser para al\u00e9m de si. H\u00e1 m\u00e9todos de a\u00e7\u00e3o? Provoca-se a consci\u00eancia como as cr\u00f4nicas \u00e0 Carolina Dieckmann e \u00e0 Patr\u00edcia Moreira, ou por marchas, rolezinhos e protestos, ou por dentro das estruturas para refaz\u00ea-las, como a pol\u00edtica em Luiza Bairros, ou a m\u00fasica de Ellen e o humor de Chris Rock na abertura do Oscar. Ou tudo junto, nisto como em tudo que envolvam coletividades e mudan\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o v\u00e1rios os subtemas dentro de um grande tema, em circunst\u00e2ncias diversas. O cronista tamb\u00e9m \u00e9 um rebatedor: a realidade se lan\u00e7a plural e inveross\u00edmil, e a cr\u00f4nica a devolve menos bruta, talvez mais brutal, tangida por olhar e saliva. O cronista cria ve\u00edculos de sensa\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m organiza e interliga acontecimentos, d\u00e1 linhas de pensamentos. <em>#Parem de nos matar!<\/em>, ent\u00e3o, enquanto uma compila\u00e7\u00e3o de dezenas de textos, est\u00e1 sob o desafio de tra\u00e7ar algum caminho, de ligar uma ideia \u00e0 outra, e ganhar unidade. Consegue. A princ\u00edpio, pensei que fosse uma ordem cronol\u00f3gica dos acontecimentos, depois vi que era por temas, e talvez sejam os dois movimentos se costurando. Misturou-se a tal ponto que um texto mais denso, como \u201cTempo Novo!\u201d, que vai do racismo no futebol ao golpe parlamentar de 2016, seja coeso com o belo \u201cMatias e o Boneco de Star Wars\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, me deixo levar totalmente por uma cr\u00f4nica como \u201cObitu\u00e1rio de uma lembran\u00e7a\u201d<em>,<\/em> com a qual me reconhe\u00e7o nas palavras de conselho feitas da autora ao amigo anos antes, e aqui a recorto:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00c9s a primeira pessoa de meu c\u00edrculo pr\u00f3ximo de conviv\u00eancia assassinada e quero que seja a \u00faltima. N\u00e3o sei lidar com isso e n\u00e3o quero aprender. Sou fraca e insignificante. N\u00e3o tenho a for\u00e7a da poeta que declara firme: Dos nove homens de minha fam\u00edlia assassinados, sete foram mortos pela pol\u00edcia&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada um dos que se vai nesse massacre \u00e9 a primeira de algum c\u00edrculo, \u00e9 sentido com uma for\u00e7a que n\u00e3o acreditar\u00edamos se apenas o subtra\u00edmos ou o somamos. Do contr\u00e1rio, se n\u00e3o conseguimos religar as dores aos sentidos, o que sen\u00e3o as palavras para fazerem a for\u00e7a de liga\u00e7\u00e3o? As cr\u00f4nicas, lumiares das pequenezas, indo do cada um para o todo, e do todo para cada um, formam. O livro de Cidinha da Silva re\u00fane.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Saulo Dourado<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador\/Ba. Autor dos livros de contos \u201cO Mar e Seus Descontentes\u201d (Via Litterarum) e \u201cO Autor do Le\u00e3o\u201d (FB Publica\u00e7\u00f5es), al\u00e9m de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saulo Dourado lan\u00e7a seu olhar para a cronista Cidinha da Silva<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14202,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3394,2533],"tags":[3412,11,3411,378,189,3410],"class_list":["post-14201","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-121a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-parem-de-nos-matar","tag-aperitivo-da-palavra","tag-cidinha-da-silva","tag-cronica","tag-resenha","tag-saulo-dourado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14201"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14207,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14201\/revisions\/14207"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14202"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}