{"id":14231,"date":"2017-10-28T14:45:58","date_gmt":"2017-10-28T17:45:58","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14231"},"modified":"2017-12-28T17:55:15","modified_gmt":"2017-12-28T20:55:15","slug":"dedos-de-prosa-ii-50","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-50\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Rita Santana<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_14232\" aria-describedby=\"caption-attachment-14232\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22193016_10214499449420701_1576325781_n.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14232 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22193016_10214499449420701_1576325781_n.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22193016_10214499449420701_1576325781_n.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22193016_10214499449420701_1576325781_n-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14232\" class=\"wp-caption-text\">Pintura: Cl\u00e1udia R. Sampaio<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A FEBRE<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <em>Talvez a cidade seja vista por mim de forma panor\u00e2mica, como se eu n\u00e3o estivesse dentro dela, morando nela, mas de passagem. Do meu \u00f4nibus, olho. Mesmo que eu morra e seja enterrada aqui, eu n\u00e3o sou deste lugar. N\u00e3o tenho v\u00ednculos sentimentais com as suas ruas nem com a sua gente. Gosto muito das casas que resistiram ao tempo e permaneceram intactas no sil\u00eancio arquitet\u00f4nico da Capital, maculadas pela polui\u00e7\u00e3o. Eu aprecio, observo e penso as pessoas e o espa\u00e7o. Mas n\u00e3o sei a cidade. Se soubesse, eu estaria nela. N\u00e3o estou. Os nomes das ruas come\u00e7am a ter algum significado dentro de mim. Os sacolejos do \u00f4nibus, curvas e freadas bruscas tiram o meu pensamento do foco, e a minha aten\u00e7\u00e3o se desvia para algu\u00e9m, um ponto, outra viagem, um cabelo, uma camisa, um cheiro. \u00c9 na minha terra que meus mortos morrem. Vejo na mesma cal\u00e7ada, o edif\u00edcio Haroldo Lima e a igreja Universal do Reino de Deus. Quantos paradoxos atravessam-me! Tenho que fazer a s\u00edntese para n\u00e3o sucumbir, surtar, sofrer! Sinto que sou vigiada.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes, ela, Ver\u00f4nica, sente certo pertencimento, sim, certa ader\u00eancia \u00e0 cidade. Confessar talvez fosse resgat\u00e1-la para o lugar do fracasso. A conquista dos espa\u00e7os \u00e9 ainda mais dura do que supunha desde sempre, e os anos passam. O que h\u00e1 \u00e9 vida e desengano. Dentro, mem\u00f3rias amontoadas e irresol\u00faveis girando como os discos de vinil que vivem dentro do <em>quarto-e-sala<\/em> no Largo 2 de Julho. Um sangramento inconfesso e umas lembran\u00e7as, mais doloridas hoje que ontem, atormentam-na. Veste uma cal\u00e7a jeans, um mocassim vermelho, surrado pra caramba, e aquela velha blusa de malha macia, mole, com pequenas flores brancas sobre o fundo vermelho. O cabelo solto com umas flores de croch\u00ea, cachos mais definidos, fios hidratados, alguns n\u00f3s embara\u00e7ados, creme. Cabelo de mulher negra: macio, mole e muito fino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Sinto-me seguida, guiada nas palavras que uso, nos gestos. Como se houvesse uma intelig\u00eancia a conduzir &#8211; ou tentar \u2013os meus passos. Mas isto n\u00e3o \u00e9 da sua conta, ouviu? N\u00e3o \u00e9 da sua conta o que n\u00e3o quero revelar. N\u00e3o gosto da delatora ignorada que me espia e talvez revele falsas impress\u00f5es sobre mim e sobre a minha intimidade. Originalidade, minha cara, tenha originalidade! O que em mim interessa a voc\u00ea, diz respeito aos seus inconfessos desejos? Nada! Por que, ent\u00e3o, me olha? Dem\u00f4nios!\u00a0 Sinto que aque\u00e7o e sangro por dentro. A boca inteira traz um gosto de sangue, e a cabe\u00e7a &#8211; toda ela &#8211; parece conter a mesma sensa\u00e7\u00e3o. Sinto-me sozinha, completamente sozinha em todas as minhas horas, sem que exista um par. Apenas a algoz que denuncia as minhas inf\u00e2mias. D\u00e9spota que n\u00e3o olha pra si mesma e n\u00e3o tece seus pr\u00f3prios tecidos, apenas olha e \u00e9 incapaz de manipular o tear; espia e manipula verdades, informa\u00e7\u00f5es. Uma mulher! \u00c9 mulher quem me delata. Habito um vestido de tecido barato, amarronzado, com manchas pretas que remetem \u00e0 \u00c1frica, isto sim! Como acreditar no olhar que interpreta e \u00e9 dono das verdades em narrativa de vida alheia? O olhar que orna o real como bem lhe apetece. Acreditar na edi\u00e7\u00e3o desse olho, na sua montagem autoral?! Cacete!! Sinto frio e sede! Visto calafrios e enigmas. E n\u00e3o desisto de buscar a Poesia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma quinta-feira! In\u00edcio de tarde. Vejam &#8211; eu preciso cumprir o meu destino. O sol est\u00e1 muito forte e aquele \u00f4nibus n\u00e3o entra na esta\u00e7\u00e3o da Lapa. Logo, \u00e9 preciso caminhar at\u00e9 l\u00e1 subindo o Vale do Toror\u00f3. E ela o faz, enquanto olha as vendedoras ocupadas com suas mercadorias, empurrando o pedestre para o asfalto com seus caixotes que me lembram o cen\u00e1rio de pe\u00e7as teatrais que vivem grudadas dentro de mim. Preciso acender velas. Perd\u00e3o! \u00c0s vezes, caio em abstra\u00e7\u00f5es e penso em mim, no meu nome. Ela, Ver\u00f4nica, nossa personagem, v\u00ea beleza nos artefatos, nos objetos expostos, nas cores das malhas grudadas nas manequins cada vez mais pr\u00f3ximas de um ideal de feminilidade baiana. Mas, apesar do cansa\u00e7o, parece sorrir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; N\u00e3o, eu n\u00e3o gosto da Lapa! Eu, verdadeiramente detesto a Lapa e tudo o que a cerca! \u00c9 tudo muito \u00e1spero, seco, escuro, sujo e concreto. O subsolo \u00e9 uma pris\u00e3o! Piso ainda nesta cal\u00e7ada sem olhar por onde ando e sei que preciso estar no agora para vencer o presente a cada passo: e n\u00e3o trope\u00e7ar! Mas como est\u00e1 dif\u00edcil abandonar o passado. Como hoje ele me atravessa e insiste em lembran\u00e7as antes apagadas! Hoje, sangro um pouco mais internamente. Os anos n\u00e3o me livraram de algumas imagens. Algu\u00e9m para telefonar caso aconte\u00e7a alguma coisa comigo? SAMU! E O Sol Tamb\u00e9m se Levanta desatinando sensa\u00e7\u00f5es da leitura de tantos anos atr\u00e1s, como se pudesse me levar de volta \u00e0quelas touradas, e \u00e0s palavras que me trouxeram tanta estranheza; o cheiro das p\u00e1ginas do livro na mem\u00f3ria. E o almo\u00e7o? Comer sozinha. Preciso comprar um abacaxi. Falta-me oxig\u00eanio no c\u00e9rebro! Gosto amargo de sangue na boca, vertigem nos olhos. Confus\u00e3o de sombrinhas, pernas e poemas ca\u00eddos no ch\u00e3o. Rostos de gente que n\u00e3o \u00e9 a minha gente e uma perturba\u00e7\u00e3o nos dedos. O suor. Aquele mau cheiro de minha av\u00f3 em meu corpo, os panos na pele, as pulseiras de ouro de tia Tonha no c\u00e9rebro. E a febre nas pernas!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece trope\u00e7ar! N\u00e3o consigo acompanh\u00e1-la agora. Ela, entre a multid\u00e3o de trabalhadores, \u00e9 apenas mais uma a levar empurr\u00f5es, olhares e palavras de estupro. Como s\u00e3o comuns as palavras de estupro nas ruas dessa Bahia! Vence as escadarias e em algum momento se ap\u00f3ia em um homem, sorri uma desculpa e para. Depois prossegue sendo levada pela pressa, pelos atropelos, pelos ambulantes, pelas mercadorias, pelos dvds piratas em abund\u00e2ncia atraindo seus olhos de fadiga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Estranhezas. Sensa\u00e7\u00f5es. Impress\u00f5es. Eu queria estar naquelas p\u00e1ginas novamente. Lembran\u00e7a da alma em sincronia perfeita com os tijolos de uma cidade cujas cores n\u00e3o seriam as do romance lido h\u00e1 tanto tempo, mas cores de um amor abortado entre a ba\u00eda de Todos os Santos e a ba\u00eda do Pontal. O p\u00f4r-do-sol na Sapetinga, um deque, promessas inauditas. E o meu corpo suando frio enquanto resisto e observo o meu ceticismo quanto \u00e0 chegada. Sempre temi encontrar em uma cidade o meu passado, a minha intimidade de outras vidas. N\u00e3o perseguirei Toulouse, nem o Engenho de Santana, nem Milagres, nem Carcassone. Um ch\u00e1 e uns incensos talvez resolvam o meu drama, a minha trag\u00e9dia. Uma caipirinha e um beijo. Eu preciso mesmo \u00e9 de um beijo! N\u00e3o, a boca est\u00e1 muito seca. Quero \u00e1gua! Que calor!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o quase duas horas da tarde. A fome dispara o alarme no corpo da mulher que sigo e as suas pernas doem; acho que tremem; s\u00e3o finas e fracas. Da dist\u00e2ncia em que estou, parece que cambaleiam um pouco. Ver\u00f4nica lamenta a sua peregrina\u00e7\u00e3o e outras mulheres em todo o mundo tamb\u00e9m o fazem, entretanto, seguem. Mas \u00e9 apenas de Ver\u00f4nica o nosso olhar, os nossos gestos in\u00fateis de ajuda, o nosso riso tentando entender a sua alma e inventar fingimentos para o seu caminho, construindo a trilha da sua chegada. Pensando no tempo para que a narrativa se cumpra. Como entender Ver\u00f4nica assim, entre a multid\u00e3o que se esbarra na esta\u00e7\u00e3o da Lapa correndo para alcan\u00e7ar, antes de qualquer pessoa, aquele degrau vazio da escada rolante &#8211; sempre t\u00e3o cheia, insuficiente e suja &#8211; como se estivesse fugindo de algum suspeito? Suspeitando de tantos no medo moderno. Talvez outros j\u00e1 intu\u00edssem a sua exist\u00eancia. Mas n\u00e3o tivessem querido alcan\u00e7\u00e1-la na sua solid\u00e3o sem par; talvez a temessem. N\u00e3o havia para a nossa Ver\u00f4nica a parceria no mundo, a companhia absoluta, mesmo que invis\u00edvel. Ela passava apressada pelos dramas alheios esquecidos em esta\u00e7\u00f5es, em carteiras de identidade perdidas nos banheiros f\u00e9tidos das rodovi\u00e1rias, em ruas f\u00e9tidas do centro de S\u00e3o Paulo, nos arredores das velhas catedrais, nos f\u00e9tidos interregnos de Copacabana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Lembro daquele homem por quem me permiti ficar apaixonada por meses razo\u00e1veis. Ele me beijava em franc\u00eas e queria que eu entendesse a sua l\u00edngua. A l\u00edngua eu entendia bem, sabia entend\u00ea-la, mas o idioma? Assim? De supet\u00e3o? N\u00e3o&#8230;\u00a0 E, ainda por cima, dissera que eu era a primeira a n\u00e3o entender a sua linguagem, me deixando estupidamente grilada durante uns tempos. Depois, dispersei o pensamento, mas de vez em quando me vem &#8211; n\u00e3o mais o homem, aquele rosto eu (quase) esqueci &#8211; mas o substantivo perca, inexistente no idioma oficial, infelizmente. As minhas perdas nunca deixar\u00e3o de ser, realmente, intimamente, as minhas percas, muito mais lindo, mais forte, mais palat\u00e1vel, mais brasileiro, mais meu, mais de quem sabe intuir a l\u00edngua e lamb\u00ea-la. Exaspera-me a ociosidade da gram\u00e1tica. Fico feliz quando encontro percas na boca do povo. Percas s\u00e3o p\u00e9rolas na boca do povo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 vai ela! Na sua arrog\u00e2ncia de personagem! O sol penetra seu tecido e enfraquece suas certezas. Titubeia um pouco tonta, enquanto sobe a ladeira, mas sabe que chegar\u00e1. A press\u00e3o est\u00e1 caindo por causa do sol, da fome e do cansa\u00e7o, da menstrua\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima e das frustra\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Respira um pouco e para diante do vendedor de \u00e1gua de coco. Bebe toda a \u00e1gua sentindo-se revigorar imediatamente. Agradece ao mo\u00e7o oriental com um sorriso e segue levando consigo o seu encantamento, sua simpatia her\u00f3ica, seu charme silencioso. O sol parece que est\u00e1 posto sobre a Pra\u00e7a da Piedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Quase morri outro dia atropelada por um \u00f4nibus defronte ao quartel do corpo de bombeiros. Eu atravessava a rua distra\u00edda \u2013 talvez pensando no caruru da corpora\u00e7\u00e3o suspenso por falta de verbas ou talvez pensando naquela cor para um vestido ou na intensidade da cor ou nos homens do calend\u00e1rio, na \u00e1gua, em Luma &#8211; quando ouvi um freio brusco ao meu lado. Segui, sem olhar a face met\u00e1lica da morte. E agora aqui. Estamos aqui! Estou perdendo a ortografia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um carro buzina agora mesmo diante do seu corpo quase curvo com o peso das sensa\u00e7\u00f5es. Sequer olha para o motorista e segue, querendo chegar em casa. A avenida Sete n\u00e3o percebe o epis\u00f3dio. Os transeuntes transitam son\u00e2mbulos entre os ambulantes, volantes, voli\u00e7\u00f5es, buzinas, pernas, barracas e desejos. \u00c9 preciso segui-la antes que se perca ou morra. Para no mercadinho e compra um abacaxi maduro e cheiroso, al\u00e9m da farinha. Olha as pimentas frescas. Pensa se ver\u00e1 aquele rapaz suave que a deixa tonta. Ou sou eu a pensar naquele rapaz suave, doce, leve, l\u00e9pido? Quem fica tonta? O repolho roxo \u00e9 pequeno. Pensa na sua textura e na sua cor, no barulho da tritura\u00e7\u00e3o. Chega ao edif\u00edcio com o cansa\u00e7o das oper\u00e1rias. O elevador est\u00e1 quebrado novamente e somente ela, \u00e0quela hora, sobe a escada. Quase sempre que sobe aqueles degraus, \u00e9 rezando o pai nosso. V\u00ea as plantas da vizinha sobre o muro e sente uma alegria, uma esp\u00e9cie de consolo, subvers\u00e3o da sujeira. As chaves. Abre a porta, segurando a sacola com os livros entre as pernas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; O apartamento me resguarda. Tiro os sapatos, respiro e entro. Deixo os livros no sof\u00e1 e abro a janela da sala. Beber \u00e1gua gelad\u00edssima! \u00c9 a ordem do organismo inteiro. Embrulhos sobre a pia. Estico as pernas no sof\u00e1 e tento relaxar um pouco, sacudo as pernas, p\u00e9s descal\u00e7os. O suor ensopou toda a roupa e o meu rosto. Com as m\u00e3os, tento amenizar o suor. \u00c9 preciso me esticar antes de qualquer coisa. Penso no quanto devem ter me achado repugnante na rua, com tanto suor. Penso no caldo de cana que eu detesto porque um dia me causou enj\u00f4o. Alguns rostos me viam todos os dias saindo para a esta\u00e7\u00e3o \u00e0s cinco e meia da manh\u00e3, driblando os camel\u00f4s e toda esp\u00e9cie de ambulantes que organizavam suas mercadorias. As engenhocas eram papel\u00f5es, lonas e ferragens que se transformavam em tendas. Olho o mofo das paredes do apartamento rec\u00e9m pintado, lembro das baratas que surgem \u00e0 noite, e da velha casa do passado com tantos mofos e telhados pict\u00f3ricos, bicicletas e po\u00e7o, cisternas, ton\u00e9is e t\u00faneis. Os sonhos que me perseguem naquela casa. A profundidade escura do passado. Os gritos das mulheres violentadas, agredidas, ecoavam nas paredes do edif\u00edcio. Meus gritos e meus sil\u00eancios tamb\u00e9m formavam o coro no po\u00e7o do elevador.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Liga a tev\u00ea para se sentir acompanhada. Certifica-se de que n\u00e3o h\u00e1 homens na obra de um sobrado pr\u00f3ximo. Despe-se. Antes, olha-se ao espelho e percebe uns sinais no rosto, t\u00edpicos da fam\u00edlia do seu pai. Umas pintinhas pretas. Segura os seios suados, suspende-os, aperta-os e sorri. As rugas sobre o nariz delineando o tempo. Caio chega confuso \u00e0 mem\u00f3ria. Vontade de ter morangos frescos. Perdi os tomates maduros na geladeira. O banho libert\u00e1-la-\u00e1 de tudo aquilo, do cansa\u00e7o, da dor nos tornozelos, nos m\u00fasculos. Olha os cris\u00e2ntemos dentro do jarro azul e sabe que eles, mesmo murchando, a salvar\u00e3o de Salvador e da sua m\u00e1quina incessante de moer vidas, comer pernas e devorar os sonhos mais delicados, pelo menos durante uma semana. Pensa em O Jogo de If\u00e1 de Sonia Coutinho. A cidade come os nossos sonhos com as impossibilidades. A cor da pele aqui tamb\u00e9m \u00e9 uma conquista cotidiana, com guerras impens\u00e1veis. A cidade ilumina os sonhos da gente com os espa\u00e7os ensolarados e cheios da arquitetura que n\u00e3o ilude mais a sua\/minha expectativa. Cuidado ao partir, cuidado! Qual \u00e9 o seu interior? A pergunta ressoa pelo ch\u00e3o frio. Umas lembran\u00e7as teimam em lhe invadir hoje. A tarde come\u00e7a a ficar nublada, o peso das nuvens recai sobre o seu \u00e2nimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Observo o recrudescimento das cenouras na geladeira. Se ao menos eu fosse f\u00e1cil, Deus! Por que me deste a vis\u00e3o? Alguma coisa na cidade me aprisiona. Serei eu a minha pr\u00f3pria cela? Meus naufr\u00e1gios naqueles navios noturnos ser\u00e3o criados pela minha pr\u00f3pria mente? Haver\u00e1 tempo de ser quem eu pretendia? O meu projeto de gente? Ou terei que atravessar eternamente o sacrif\u00edcio e o desvio do t\u00fanel? Amolar a faca e imolar a garganta.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00e1gua do chuveiro hoje cair\u00e1 por mais tempo. Pega a toalha e come\u00e7a a se enxugar, mas n\u00e3o quer sair; volta para a ducha como se ainda n\u00e3o tivesse entrado e tenta concentrar-se novamente no banho, no agora. Esfor\u00e7a-se para n\u00e3o pensar na conta do telefone que j\u00e1 chegou, mas pensa. Depois disso, o de sempre: cochilo, almo\u00e7o, janela, lixo na porta, correspond\u00eancias, lou\u00e7as, lousas. Novamente tenta seguir o ritual do banho, mas veio o calafrio ainda debaixo da \u00e1gua. Sabia da sua for\u00e7a, por isso buscou a toalha com sofreguid\u00e3o. Era tarde, caiu lentamente no ch\u00e3o e quis paralisar o corpo, conter o bater dos dentes, mas era in\u00fatil. Soergueu-se com desespero por pura consci\u00eancia da solid\u00e3o e por medo de morrer ali tremendo de frio. Consegue chegar at\u00e9 a sua cama e cobre o corpo com o edredom. Paralisa os movimentos e lentamente consegue escapar do tremor. Permanece apenas respirando, im\u00f3vel. O corpo est\u00e1 quente, as pernas ardem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veio o inc\u00eandio. A partir daquele momento, todos os velhos sobrados ru\u00edram sobre aquela mulher. A sensa\u00e7\u00e3o de abandono entrou pela janela com as lufadas de fuma\u00e7a que se misturavam na atmosfera l\u00e1 fora. Ela olhava assustada. As labaredas cresciam no interior do pr\u00e9dio defronte do seu edif\u00edcio. Conseguiu levantar e caminhar at\u00e9 a janela. A imagem da desola\u00e7\u00e3o dos moradores, a agita\u00e7\u00e3o e a gritaria. Dentro de si, tantas vozes querendo falar. E o calafrio oprimido apenas pelo medo de perecer sem defesas. Desligou a televis\u00e3o e deu um telefonema in\u00fatil. N\u00e3o havia conforto do outro lado nem reconcilia\u00e7\u00e3o nem socorro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, \u00e9 noite. Ela ouve a m\u00fasica de olhos fechados e come\u00e7a a dan\u00e7ar na sala. Fica em p\u00e9 na escrivaninha e v\u00ea o mundo mais amplo e se v\u00ea maior diante do mundo e sente desejo de abra\u00e7ar toda a Ba\u00eda. H\u00e1 mosquitos circulando o espa\u00e7o, a l\u00e2mpada e uma vontade de comer chocolate e lambuzar a boca. A m\u00fasica de Ella penetra seus sentidos e os tecidos ficam arrepiados. Ela faz movimentos leves do bal\u00e9 cl\u00e1ssico que aprendeu em aulas de dan\u00e7a afro com Zebra e murmura a cantiga, o refr\u00e3o. O corpo sua e o vento frio penetra as prateleiras da estante. <em>Toulouse! <\/em>Ver\u00f4nica agora caminha sozinha nos labirintos da cidade cor-de-rosa. Olha a feira nas cal\u00e7adas e os objetos vendidos ali. Garrafas, antiguidades, roupas usadas, porta-retratos, frascos de perfume. M\u00fasicos se apresentam em cada esquina e d\u00e3o ao ar uma atmosfera agrad\u00e1vel de que a arte est\u00e1 em todos os lugares, principalmente nas ruas. Estala os dedos e morde os l\u00e1bios ao som das Timbilas, marimbas e dan\u00e7a. Eu tamb\u00e9m desejo dan\u00e7ar, Ver\u00f4nica! Mas ela n\u00e3o me ouve, apenas grita: <em>Nunca mais na sua vida ligue para mim. Voc\u00ea n\u00e3o sabe que hoje \u00e9 o meu anivers\u00e1rio! <\/em>Ou\u00e7o Billy, ou\u00e7o Ella. H\u00e1 sussurros em seus lamentos.<em> Ouvimos outrora Sarah Vaughan em uma vitrola antiga, bebemos vinho. A noite ia serena e carregada de sil\u00eancios, car\u00edcias &#8211; <\/em>nunca houvera car\u00edcias ali<em>, e escurid\u00e3o. Apenas as sombras que vinham do beco dos artistas traziam o movimento do mundo l\u00e1 fora e as m\u00fasicas que se misturavam com as nossas.\u00a0 <\/em>As nossas sombras dan\u00e7avam no apartamento; sim, agora eu tamb\u00e9m dan\u00e7o. <em>Ele tremia de uma forma violenta e eu nunca soube perguntar por que os tremores, por que a impot\u00eancia, por que n\u00e3o aprofundamos absolutamente nada, sequer as carnes. <\/em>A arquitetura da cidade espezinha os que v\u00eam do meu interior. <em>Preciso renovar o meu arm\u00e1rio, entende? Sair desta! Cair fora! Preciso perder a minha pr\u00f3pria pele e emergir outra figura. Ainda quero perseguir o cometa Lulin ou qualquer outro astro que me fa\u00e7a sair da minha pr\u00f3pria atmosfera dom\u00e9stica, caseira. Pensei que a ideologia estivesse enterrada e morta, mas n\u00e3o est\u00e1. O elevador quebrava sempre que eu tentava buscar \u00e1gua mineral do outro lado da rua, numa esquina em que uma costureira aplicava o seu comercial na janela: costura-se, conserta-se. E eu pensava: Morre-se! Na entrada do meu apartamento: Morre-se. Como em Pompeia: A Casa do Poeta Tr\u00e1gico, mas, aqui, apenas: Morre-se! <\/em>O<em> vento entrava pelo apartamento inteiro e sobre a minha cabe\u00e7a cansada destilava um ar frio de resgate dos sentidos perdidos durante o sol sem almo\u00e7o, sem \u00e1gua. Aquele homem proferia as promessas do passado e beijava a minha boca como sempre, engolindo tudo no tempo da eternidade. E ele j\u00e1 n\u00e3o era. <\/em>Os bombeiros erguem suas escadas, gruas, rep\u00f3rteres, gritos, e os moradores do sobrado que chegam. Mulheres correm. Uma delas se deixa ficar na cal\u00e7ada com a m\u00e3o na cabe\u00e7a, segurando o pensamento que teima em fugir daquele lugar, o arm\u00e1rio, as contas, as roupas dos filhos que estavam na escola, fog\u00e3o, presta\u00e7\u00f5es do ferro novo, a narrativa e a minha vida em inc\u00eandios. Sinto o calor, pade\u00e7o. O peso do seu nome nas costas e uma vontade de rezar. Chorar por aqueles a quem amara. Os amores perdidos. Enxugar as faces de cada um; perpetu\u00e1-las em seus len\u00e7\u00f3is at\u00e9 a eternidade. Buscando entre os astros o abra\u00e7o do pai, sem que o tocasse, entendendo a comunica\u00e7\u00e3o das energias, onde \u00e9 prescind\u00edvel o toque. Assim ela o fazia: enxugava as dores dos homens a quem amara no seu v\u00e9u, no seu colo abnegado, mas fal\u00edvel, inquieto, insatisfeito, febril e irado. Santo sud\u00e1rio de imagens, mem\u00f3rias. Expuls\u00e1-los do seu templo de v\u00e1rias formas, a todos, num s\u00f3 \u00edmpeto! Com a ira santa das f\u00eameas que despertam para a indiferen\u00e7a eloquente do macho; a ira das vi\u00favas afortunadas que gritam e s\u00e3o ouvidas na arena. A minha ver\u00f4nica \u00e9 mulher de sanhas e louca, por isso, Santa. \u00c9 mulher de \u00eaxtases quando toma o ch\u00e1, quando se entrega na medita\u00e7\u00e3o, quando goza em machos e em preces, quando faz sil\u00eancios c\u00edclicos. E quando dan\u00e7a! Agora eu ou\u00e7o o Bolero de Ravel no circo com todo o grupo presente, cumprindo a determina\u00e7\u00e3o c\u00eanica do meu diretor, indo pra tantas viagens desconhecidas, quase sem volta. <em>Pedra. E Ele na vidra\u00e7a da janela, com palavras de um poema destinado a outra, a amea\u00e7ar as minhas\/suas certezas. <\/em>Ela cresce. Sinto que o seu tormento tamb\u00e9m a mim me atormenta um pouco. Terei fome, tamb\u00e9m eu? Terei tamb\u00e9m eu estas v\u00edboras dentro de mim e do meu estado inerme de existir? Eu, a narradora fria que se surpreende ao tamb\u00e9m suar? Seria da narradora tamb\u00e9m o suor? E o orgasmo? Serei eu de natureza goz\u00e1vel tamb\u00e9m e humana? Terei tamb\u00e9m eu um sexo e um discurso, assim como as ver\u00f4nicas que se mostram nas telas, nos v\u00e9us? Eu beijo&#8230;\u00a0 E o meu nome? <em>Estou no Beco dos Artistas e me observo diante de uma parede de bar pintada, enquanto o artista pl\u00e1stico tenta, b\u00eabado, explicar o seu processo criativo, certamente bem mais interessante que a obra, caso conseguisse express\u00e1-lo. Era Sarah cantando e voc\u00ea viciado, sem que eu soubesse dos rituais em coca\u00edna. Equus no palco e voc\u00ea tremendo ao meu lado, acho que por puro tes\u00e3o \u00e0queles cavalos magn\u00edficos, ou a coca\u00edna? E tantos desejos circulando no meu sangue, perpassando vertigens e j\u00e1 n\u00e3o era voc\u00ea o homem com quem eu tentava uma transa s\u00e9ria, madura: &#8211; Foi bom pra voc\u00ea, mas eu estou aqui, desse jeito ainda! Houve uma segunda vez? N\u00e3o sei! N\u00e3o sei! Os di\u00e1rios, as cartas e as receitas m\u00e9dicas soltas no ch\u00e3o do apartamento, expostos aos olhares dos amigos que chegavam e os amigos dos amigos desconhecidos que atropelavam minhas palavras e; tamb\u00e9m eu b\u00eabada, atropelada pelo \u00f4nibus durante a dura\u00e7\u00e3o daquele beijo. <\/em>Eu tamb\u00e9m vivi tudo isso, em algum lugar!<em> E voc\u00ea chegava de outro encontro. E aquele beijo, ap\u00f3s licores caros e queijos fartos \u00e0 mesa de um restaurante onde eras percorriam todos os cantos do muro, hermeticamente fechado, consolidando um discurso de aliena\u00e7\u00e3o do mundo l\u00e1 fora. E o pedido para que eu fosse sentar ao seu lado e o n\u00e3o seguido do seu corpo me beijando at\u00e9 hoje? Onde estou? A pista traz luzes e \u00e9 noite. Luzes de estrelas na estrada. Quantas luzes! Quem guiava o voiture enquanto nos beij\u00e1vamos na estrada de Montppelier a Itacar\u00e9? Enquanto nos refugi\u00e1vamos nos caf\u00e9s das cal\u00e7adas para apreciarmos aquele c\u00e9u azul, ainda sem trio el\u00e9trico, nem turistas invasores?<\/em> Ele nunca soube que voc\u00ea era uma artista! \u2013 ele nunca ouviu o que voc\u00ea falava, nem o seu sil\u00eancio! Ele s\u00f3 via o seu umbigo e o seu p\u00eanis. <em>Estou perdendo o desejo de continuar sendo esta mulher. Falo com paredes, mas principalmente, com barcos e homens do mar, inalcan\u00e7\u00e1veis. Queria me despir de todas as tibiezas. Sou muito fraca! Muito fraca. <\/em>Ele nunca soube que voc\u00ea falava. <em>O beijo no \u00e1trio da igreja de Santo Ant\u00f4nio com a lua na boca quase a dizer que ama e o infinito sutil dentro de mim, como se f\u00f4ssemos eternos naquele lugar diante do sagrado e da heresia da lua. Os sapos continuam caindo do c\u00e9u, minha orqu\u00eddea! Como eu entendo os sapos caindo do c\u00e9u sobre nossas cabe\u00e7as naquele filme. <\/em>Atrav\u00e9s da garrafa de vinho ou da ta\u00e7a de Martini, ela viu a imagem da mulher, cuja sombra dan\u00e7ara com ela a noite inteira e, ao perceber que tinha sido vista, correra para a parede e fora aprisionada como musgo, pelo mofo esverdeado. <em>A outra me olha assustada pelo flagra e parece tornar-se uma ninfa, um fauno, uma \u00e1rvore, talvez um ir\u00f4ko, um musgo. Ou sou eu a figura esmagada no mofo cujos olhos de espanto ainda gritam dentro de mim? Suo, suo, suo e fecho os olhos para um longo beijo. Daquela mulher, eu s\u00f3 conseguira arrancar o nome: Berenice. Mas a vida sempre escapou-me. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Rita Santana<\/em><\/strong><em> \u00e9 uma ilhoa! Em ess\u00eancia, cada vez mais solit\u00e1ria e dedicada \u00e0 escrita de forma indisciplinada, talvez ca\u00f3tica, mas com determina\u00e7\u00e3o absoluta. Publiquei em 2004 o livro Tramela (pr\u00eamio Braskem\/contos); em 2006 o selo Letras da Bahia selecionou e publicou o Tratado das Veias (poesia.\u00a0 Alforrias (poesia) \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o da Editus\/2012 e consta da bibliografia do Mestrado em Letras da UESC\/2018. Sou atriz, o que facilita vivenciar meus dramas como se assistisse a um espet\u00e1culo, com certo distanciamento, e professora, o que me possibilita trocar aprendizagens cont\u00ednuas e enlouquecer um pouco mais. Profundamente triste com o destino do Pa\u00eds: da\u00ed a necessidade cada vez maior da Arte e do seu desnudamento.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mar\u00e9s intimistas num conto in\u00e9dito de Rita Santana<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14232,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3394,2534],"tags":[3421,81,41,1086],"class_list":["post-14231","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-121a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-a-febre","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-rita-santana"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14231","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14231"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14231\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14238,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14231\/revisions\/14238"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14232"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}