{"id":14324,"date":"2017-12-26T10:10:47","date_gmt":"2017-12-26T13:10:47","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14324"},"modified":"2017-12-28T17:51:56","modified_gmt":"2017-12-28T20:51:56","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-55","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-55\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A boa literatura tamb\u00e9m se faz com o n\u00e3o dito. O que o autor guarda entre as dobras da tessitura narrativa, o algo inexpl\u00edcito que se torna uma voz secreta modulando al\u00e9m dos limites da hist\u00f3ria, na apreens\u00e3o do leitor. S\u00e3o as lacunas acortinadas em mist\u00e9rio, as sombras do enredo que concentram, nos sil\u00eancios, seu maior impacto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ningu\u00e9m det\u00e9m a noite<\/em> explora os cantos de obscuridade que tem lugar na natureza humana. Em seu segundo livro de contos, o escritor pernambucano <strong>Nivaldo Ten\u00f3rio<\/strong> comp\u00f5e uma galeria de personagens mobilizados por desejos e terrores interiorizados e, portanto, muitas vezes inauditos. Ainda que situado no espa\u00e7o das cidades pequenas, dos povoados distantes, o palco das verdadeiras a\u00e7\u00f5es est\u00e1 dentro desses indiv\u00edduos incapazes de se desatarem de conflitos e de atos cru\u00e9is para significar suas pr\u00f3prias exist\u00eancias. Um ambiente de reconhecimento onde \u00e9 sempre escurid\u00e3o adentro, ou uma escurid\u00e3o que vive dentro de outra escurid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante dessas t\u00e9tricas experi\u00eancias da vida, a for\u00e7a simb\u00f3lica reside na morte e em suas representa\u00e7\u00f5es. O autor promove as rela\u00e7\u00f5es entre animais noturnos e objetos umbrosos sob o signo da finitude, transformando o universo abstrato, de crises e surtos mentais, numa atmosfera de devaneio atrav\u00e9s da qual se desvela o passado de perdas e de impura forma\u00e7\u00e3o. A prosa de fic\u00e7\u00e3o vagueia pelas rachaduras da realidade, com naturalidade e consci\u00eancia imaginativa, revelando um autor pronto, habilidoso e maduro, detentor de todas as chaves que permite a imers\u00e3o do leitor e nunca os deixa sair, mesmo ao alcan\u00e7ar, transformado, o ponto final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista exclusiva, Nivaldo Ten\u00f3rio mergulha em seu recente trabalho e examina sua atra\u00e7\u00e3o pela subjetividade tem\u00e1tica, apontando os caminhos que percorre da ideia de igni\u00e7\u00e3o at\u00e9 a conclus\u00e3o de um conto. Al\u00e9m disso, explica a sua prefer\u00eancia pelas narrativas breves, a estreia tardia na escrita, suas influ\u00eancias e ang\u00fastias criativas. Natural de um estado-celeiro de grandes escritores, o autor analisa a presen\u00e7a do regionalismo no cen\u00e1rio atual da literatura brasileira, a nova cena de autores nordestinos, a prolifera\u00e7\u00e3o das editoras pequenas e seus efeitos, e a import\u00e2ncia dos pr\u00eamios liter\u00e1rios e da cr\u00edtica especializada. Um olhar apurado e franco sobre o meio liter\u00e1rio, que reflete as intermit\u00eancias do pr\u00f3prio of\u00edcio da escrita. \u201cEscrever talvez seja o modo mais cruel de perder tempo\u201d, observa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14328\" aria-describedby=\"caption-attachment-14328\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/INT-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14328 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/INT-II.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/INT-II.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/INT-II-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14328\" class=\"wp-caption-text\">Nivaldo Ten\u00f3rio \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Ainda que tenham uma constru\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica bem concreta, os contos de \u201cNingu\u00e9m det\u00e9m a noite\u201d s\u00e3o frequentados por personagens que lidam majoritariamente com quest\u00f5es relacionadas ao plano subjetivo, no qual se imp\u00f5em signos e met\u00e1foras como representa\u00e7\u00f5es da finitude. Essa \u00e9 uma caracter\u00edstica muito marcante do seu trabalho, que vem de sua colet\u00e2nea de estreia, \u201cDias de febre na cabe\u00e7a\u201d. O que lhe motiva nessa explora\u00e7\u00e3o interna? Acredita que transitar pelo secreto de seus personagens \u00e9 uma forma de consistir verdade ao seu fazer liter\u00e1rio? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> Grato pela an\u00e1lise, S\u00e9rgio. Acho que foi O\u2019Connor quem disse que a fic\u00e7\u00e3o trata de tudo o que \u00e9 humano e n\u00f3s somos feitos de p\u00f3, e se algu\u00e9m despreza o fato de ser p\u00f3, \u00e9 melhor n\u00e3o tentar escrever fic\u00e7\u00e3o. Ela tem raz\u00e3o. Somos p\u00f3 e parece que n\u00e3o h\u00e1 nada o que possamos fazer a respeito. Herdei isso de meu pai; um melanc\u00f3lico desconsolo com a nossa finitude. Lembro-me que era comum, nos momentos mais felizes ele de repente nos chamar a aten\u00e7\u00e3o para o fato de existir a morte, que estamos sujeitos a este fato inelut\u00e1vel: um dia simplesmente deixaremos de existir. Isto roubava-lhe metade da alegria. Falo no passado, mas ele continua vivo, embora com a idade sobreveio o avan\u00e7o inescrupuloso de uma doen\u00e7a demencial que, pelo menos, deixou-lhe o saldo de n\u00e3o pensar mais na morte. Ent\u00e3o herdei dele esse desconsolo e com o tempo, acho, se transformou em obsess\u00e3o e tema de meus contos, pois o que vejo \u00e9 a dimens\u00e3o tr\u00e1gica do mundo muito al\u00e9m do alcance de nossas a\u00e7\u00f5es. Nossas escolhas n\u00e3o s\u00e3o sempre deliberadas, pensadas e, mesmo que fossem, s\u00e3o elas que definem fatalmente nossas vidas ou \u00e9 a for\u00e7a das circunst\u00e2ncias? Duvido do livre arb\u00edtrio. E \u00e9 essa dimens\u00e3o humana, marcada sobretudo pelo ef\u00eamero, que \u00e9 o objeto de minha literatura. Algu\u00e9m poderia dizer que disso j\u00e1 tratou exaustivamente Faulkner, Philip Roth \u2013 dois autores que continuo lendo depois de muitos anos \u2013 eu poderia citar outros, s\u00e3o muitos, mas o fato \u00e9 que \u00e9 isso o que sempre me fascinou na boa literatura \u2013 n\u00e3o posso esquecer de Machado \u2013 a capacidade de sondar o humano. E tudo isso, claro, n\u00e3o \u00e9 nada se n\u00e3o se consegue progresso na forma, e transitar pelo secreto, como voc\u00ea t\u00e3o bem colocou, foi o modo que encontrei de transformar minha obsess\u00e3o \u2013 que divido com tantos outros \u2013 em literatura. Gosto do texto que sugere mais do que diz, por isso exploro as camadas do conto buscando o sentido secreto por tr\u00e1s das a\u00e7\u00f5es de personagens, e n\u00e3o estou interessado nos grandes feitos, mas nas coisas mais comezinhas, \u00e9 ali que encontramos o humano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Essa humanidade cotidiana tem um apelo muito forte no hist\u00f3rico da literatura pernambucana, seu estado de origem. S\u00f3 para citar dois grandes autores, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto e Osman Lins alimentavam seus fazeres liter\u00e1rios com uma mat\u00e9ria oriunda de um plano subjetivo, mas que ao mesmo tempo refletia caracter\u00edsticas particulares do lugar em que nasceram e estavam inseridos. Outro aspecto era trazer para a fic\u00e7\u00e3o momentos de suas viv\u00eancias. Partindo da men\u00e7\u00e3o ao seu pai, o quanto o fato de ser pernambucano, de ser nordestino, influencia na escolha de seus temas? A sua literatura \u00e9 tamb\u00e9m alimentada por experi\u00eancias pessoais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> Quando eu era s\u00f3 um garoto e morava numa periferia pobre de minha cidade n\u00e3o havia muita coisa bonita do que se orgulhar, a fam\u00edlia sofria os reveses da pobreza, mas meu pai conservava certo orgulho t\u00e3o anacr\u00f4nico quanto suas lembran\u00e7as da fazenda onde nasceu, e de seu velho pai, um modesto e pr\u00f3spero plantador de caf\u00e9 que tamb\u00e9m ostentava fama de valentia. Vov\u00f4 e a fazenda desapareceram, a heran\u00e7a dividida entre tantos irm\u00e3os n\u00e3o deu pra nada. Ent\u00e3o, papai, que n\u00e3o conheceu a pobreza quando era menino, fazia das tripas cora\u00e7\u00e3o para que n\u00e3o sofr\u00eassemos tanto com a nossa. Por exemplo, n\u00e3o queria que os filhos trabalhassem, n\u00f3s dev\u00edamos nos dedicar aos estudos enquanto ele se matava como pequeno negociante do ramo de confec\u00e7\u00f5es. A primeira vez que trabalhei de verdade \u2013 se \u00e9 que podemos chamar de trabalho \u2013 foi quando me alistei para o servi\u00e7o militar. Mas a pobreza estava ali, nem eu nem meu irm\u00e3o desfrut\u00e1vamos de coisas que meninos da nossa idade e de fam\u00edlias mais remediadas podiam dispor. Por volta dos 13 anos me interessei por livros. Sentia-me seduzido pelo objeto, sonhava poder comprar os livros da Bibliex \u2013 biblioteca do Ex\u00e9rcito \u2013 que eram anunciados na TV preto e branco. Eu n\u00e3o sabia o que aqueles livros continham. Eram livros, isso parecia bastar. Veja, S\u00e9rgio \u2013 agora voc\u00ea vai entender por que precisei recorrer a esses dados biogr\u00e1ficos \u2013 eu acho que vivi numa bolha, constru\u00edda com o esfor\u00e7o de papai e mam\u00e3e, fui um menino quieto, solit\u00e1rio, mal sa\u00eda de casa e, quando descobri o prazer da leitura, os livros eram os \u00fanicos endere\u00e7os poss\u00edveis. Lembro-me de passar um per\u00edodo das f\u00e9rias escolares inteiro lendo <em>Anna Karenina<\/em>. As coisas l\u00e1 fora eram o resultado do esfor\u00e7o de meu pai, e n\u00e3o era muito, apenas o suficiente para sobreviver. Um sobrevivente n\u00e3o se sente especial, mas ler Tolst\u00f3i me fazia sentir especial. O livro de Tolst\u00f3i eu consegui na Biblioteca P\u00fablica Municipal, a bibliotec\u00e1ria me deixava levar emprestado os livros, e assim li Victor Hugo, Dumas, Rabelais, Balzac, e n\u00e3o foi nada programado, os livros mais bonitos eram os cl\u00e1ssicos universais, eram os que mais me atra\u00edam. Tamb\u00e9m tinha Machado de Assis, Lima Barreto, Monteiro Lobato e outros, mas naquela \u00e9poca s\u00f3 me interessava pelos autores estrangeiros. Talvez eu buscasse neles geografias diferentes da minha. Aqueles livros com hist\u00f3rias que se passavam t\u00e3o longe, no tempo e no espa\u00e7o, me garantiam uma dist\u00e2ncia maior da pobreza e daquele lugar que as circunst\u00e2ncias me fizeram meu. E agora que falo isso, penso no que diz o Jos\u00e9 Lu\u00eds Passos na apresenta\u00e7\u00e3o do livro, de que os contos ambientados em cidades pequenas aspiram a uma maior largueza espiritual atrav\u00e9s da viagem ou alus\u00e3o \u00e0 cultura estrangeira. Ent\u00e3o, respondendo \u00e0 pergunta, acho que quanto ao tema \u2013 deste livro pelo menos \u2013 ser filho de meu pai e herdar algumas de suas idiossincrasias foi mais forte que ser pernambucano ou nordestino e quanto \u00e0 experi\u00eancia pessoal, acho que algumas est\u00e3o nos contos sim, mas transformadas de tal jeito, que ningu\u00e9m que tenha partilhado comigo tais experi\u00eancias ser\u00e1 capaz de reconhec\u00ea-las.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 \u00c9 curioso voc\u00ea citar esse seu interesse inicial apenas por autores estrangeiros, pois me coloca diante de uma caracter\u00edstica marcante da sua prosa; ou talvez a falta dessa caracter\u00edstica marcante. Embora seja um autor nordestino, seus contos, ao contr\u00e1rio de uma lista imensa de novos e velhos autores, n\u00e3o trazem uma linguagem regional ou s\u00e3o ambientados num cen\u00e1rio expressivamente nordestino ou historicamente nordestino. Desde que come\u00e7ou a escrever, voc\u00ea se preocupou em n\u00e3o se enquadrar no que foi rotulado de \u201cliteratura regionalista\u201d? Ou voc\u00ea acredita que \u00e9 um processo natural da nova literatura brasileira ter um aspecto mais globalizado, independente da regi\u00e3o onde \u00e9 feita?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que um dos melhores \u2013 sen\u00e3o o melhor \u2013 cap\u00edtulo da produ\u00e7\u00e3o da literatura brasileira se deu a partir de 1930 com o Regionalismo de Gilberto Freyre \u2013 certamente um de nossos g\u00eanios \u2013 e falar de Graciliano Ramos, Jos\u00e9 Lins do Rego, Rachel de Queiroz e outros dessa gera\u00e7\u00e3o \u00e9 falar do c\u00e2none da Literatura Brasileira do S\u00e9culo XX. Guimar\u00e3es Rosa tamb\u00e9m \u00e9 regionalista como Faulkner, \u00e9 o escritor regionalista do Sul dos EUA. Mas, quando hoje se taxa um escritor de regionalista, parece que por tr\u00e1s h\u00e1 uma clara inten\u00e7\u00e3o de segrega\u00e7\u00e3o. E eu n\u00e3o sei se voc\u00ea j\u00e1 notou, S\u00e9rgio, mas a mim parece que esse r\u00f3tulo s\u00f3 serve para o escritor nascido no Nordeste, talvez a culpa seja das novelas das oito da Rede Globo, e todos os coron\u00e9is, mocinhos e mocinhas que carregavam no sotaque baiano. N\u00e3o sei. Conhe\u00e7o escritores no meu estado que n\u00e3o gostam de ser chamados de regionalistas s\u00f3 porque suas hist\u00f3rias s\u00e3o ambientadas no Nordeste. Ronaldo Correia de Brito n\u00e3o gosta, Raimundo Carrero tampouco, e eles t\u00eam toda raz\u00e3o. Quanto a mim, posso garantir, n\u00e3o houve inten\u00e7\u00e3o nenhuma de querer evitar o r\u00f3tulo, nunca me vi pensando na quest\u00e3o, os contos eram escritos e s\u00f3 me dava conta da ambienta\u00e7\u00e3o deles n\u00e3o evocar o Nordeste quando algu\u00e9m me chamava a aten\u00e7\u00e3o para o fato. Confesso que acho algo desnecess\u00e1rio, principalmente num conto, o autor se preocupar em dizer que sua personagem parou pra descansar no trecho tal da Conde da Boa Vista, no Recife, ou que seu carro foi guinchado da BR Lu\u00eds Gonzaga, em S\u00e3o Caetano, at\u00e9 Caruaru. Ao mesmo tempo, acho que n\u00e3o \u00e9 isso de descrever o ambiente ou n\u00e3o que vai determinar se o conto presta. Apenas n\u00e3o acho necess\u00e1rio. Nunca estive interessado no homem ou mulher de Recife ou de S\u00e3o Paulo ou da pequena cidade onde moro, minha Garanhuns de clima ameno, localizada mil metros acima do mar e seus 130 mil habitantes, que h\u00e1 anos nem sobe nem desce no censo, pois l\u00e1 impera a imobilidade. Estou interessado sim nos homens e mulheres e no que eles possuem de humano, n\u00e3o importa se transitam na Avenida Santo Ant\u00f4nio ou Quinta Avenida. Outro dia li a entrevista de um escritor brasileiro, desses que andam na moda. Ele dizia que n\u00e3o acredita nessa coisa de \u201cser brasileiro\u201d.\u00a0 N\u00e3o sei o que pensaria Jos\u00e9 de Alencar se um vidente lhe dissesse que mais de cem anos depois dele um escritor importante e brasileiro faria tal declara\u00e7\u00e3o. Alencar e seu projeto de constru\u00e7\u00e3o da identidade cultural do Brasil, ele e seu romance ambicioso em conter toda geografia. A mesma rea\u00e7\u00e3o teria o M\u00e1rio de Andrade, que, ao modo dos artistas de sua gera\u00e7\u00e3o e seu car\u00e1ter an\u00e1rquico, tamb\u00e9m ambicionou dar continuidade \u2013 de um modo diferente, claro, cr\u00edtico e coisa e tal \u2013 ao tal projeto de constru\u00e7\u00e3o da identidade cultural. Macuna\u00edma \u00e9 sem d\u00favida o romance tese dessa empreitada. Mas o fato \u00e9 que o tal escritor da entrevista talvez n\u00e3o esteja enganado. Quase cem anos depois dos gritos e berros que ecoaram no teatro municipal de S\u00e3o Paulo, ainda estamos em forma\u00e7\u00e3o e a \u00fanica conclus\u00e3o que chegamos \u00e9 que n\u00e3o somos negros nem brancos nem \u00edndios. Mas teve um tempo, S\u00e9rgio, que eu achava estranho o fato de gostar tanto dos romances americanos da d\u00e9cada de 20, por exemplo, ambientados na Fran\u00e7a e que falam de homens e mulheres \u2013 de quem uma escritora se referiu como gera\u00e7\u00e3o perdida \u2013 vivendo o entre guerras e a frustra\u00e7\u00e3o de ser humano e o quanto isso representa de impot\u00eancia e fragilidade. Cheguei a escrever para um amigo, lamentando essa falha no meu car\u00e1ter. Por que eu me sinto mais identificado com Fitzgerald do que Graciliano, e por que \u201cKind of blue\u201d me encanta mais do que Samarica Parteira? N\u00e3o estou dizendo que nossos escritores e m\u00fasicos sejam melhores ou piores. Estou dizendo que um livro ou disco, escrito ou gravado quase cem anos atr\u00e1s e milhares de quil\u00f4metros longe de meu pa\u00eds me encanta e me causa felicidade. De algum modo e apesar de todo estranhamento, eu, nascido em Pernambuco, Nordeste do Brasil, me encontro ali. Vislumbro meu reflexo. E como minha literatura primeiramente nasceu do reflexo de meu gosto de leitor, isso talvez responda tua pergunta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Aproveitando que falou de r\u00f3tulos e da cria\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos, queria me aprofundar nesse assunto e perguntar sobre a rela\u00e7\u00e3o dos autores que n\u00e3o est\u00e3o nas chamadas rotas Sul-Sudeste do mercado liter\u00e1rio. Durante muito tempo (e ouso dizer que a imagem permanece fora do Brasil) os livros dessa regi\u00e3o eram consumidos em fun\u00e7\u00e3o de seus aspectos ex\u00f3ticos, sertanistas. Hoje, a impress\u00e3o que tenho \u00e9 que melhorou, baseado no reconhecimento de autores citados, como Ronaldo Correia de Brito, Raimundo Carreiro e Jos\u00e9 Luiz Passos, al\u00e9m da grande Maria Val\u00e9ria Rezende e de novos autores, a exemplo de D\u00e9bora Ferraz e Franklin Carvalho. No entanto, voc\u00ea, que vive a realidade dessa regi\u00e3o, como enxerga o interesse das editores e dos leitores (e, por que n\u00e3o, tamb\u00e9m dos cr\u00edticos) para com os autores fora desses centros? Voc\u00ea acredita que h\u00e1, ou j\u00e1 sofreu, algum tipo de discrimina\u00e7\u00e3o pelo fato de n\u00e3o fazer parte de um c\u00edrculo espec\u00edfico, de n\u00e3o socializar com o editor X ou com o autor Y?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> Acho que o problema da dificuldade de ser lido ou editado n\u00e3o est\u00e1 no fato de viver, de fazer literatura no Nordeste. Acredito que problemas similares encontram escritores espalhados no Brasil, mesmo no Sul e no Sudeste. A quest\u00e3o \u00e9 de outra ordem e tem a ver com leitores. Poetas e contistas \u2013 com raras exce\u00e7\u00f5es \u2013 n\u00e3o est\u00e3o exatamente na ordem do dia. Fazer o tipo de literatura que eu fa\u00e7o significa escrever quase exclusivamente para outros escritores. \u00c0s vezes, tenho a impress\u00e3o de que estamos presos numa esp\u00e9cie de autofagia. Nos eventos de literatura escritores falam para escritores, enquanto o resto do mundo est\u00e1 lendo o \u00faltimo livro do Dan Brown, do Paulo Coelho ou do Stephen King etc. Uma amiga minha, tamb\u00e9m escritora e que mora em Portugal, me diz que l\u00e1 \u00e9 a mesma coisa. Acho que vivemos a crise do leitor. Thomas Mann, num ensaio sobre Tchekhov faz a sua mea culpa e reconhece que n\u00e3o levava a s\u00e9rio a forma breve do conto, estava interessado nas grandes catedrais dos romances de f\u00f4lego. N\u00e3o \u00e9 o caso do leitor de hoje, este s\u00f3 est\u00e1 interessado no livro da moda, em bruxos e vampiros, e necessita, mais do que ningu\u00e9m, de muita autoajuda para suportar a exist\u00eancia. \u00c9 o que aquece o mercado. Outro dia vi, no Globo News Literatura, a Luciana Villas-Boas, a antiga editora da Record, hoje agente liter\u00e1ria, que costumava aconselhar escritores a n\u00e3o escrever conto ou poesia porque n\u00e3o vende, falar de uma dessas novas autoras, surgidas na internet e que escreve excelentes livros, inspirada no &#8220;Cinquenta tons de cinza&#8221;. A Luciana garantia que n\u00e3o se tratava de mero pastiche da E.L. James, como se isso fosse uma garantia do talento liter\u00e1rio da mo\u00e7a. Essa autora, de quem nos fala a Luciana, provavelmente n\u00e3o vai ser resenhada por voc\u00ea, S\u00e9rgio, mas, num tempo incrivelmente curto, j\u00e1 vendeu mais de 100 mil exemplares. N\u00e3o quero parecer pessimista ou despeitado, mas \u00e9 a realidade. Tamb\u00e9m sei que voc\u00ea n\u00e3o estava se referindo a esse tipo de livro, quando me fez a pergunta, mas \u00e9 preciso entender que primeiro o problema \u00e9 de leitores. N\u00e3o h\u00e1 leitores interessados em literatura, falo de algu\u00e9m que vai a uma livraria para comprar a nova tradu\u00e7\u00e3o do Gombrowicz porque est\u00e1 a fim de ler um bom livro, um livro instigante. E n\u00e3o vale se for da \u00e1rea, nada de jornalista cultural, cr\u00edtico ou escritor, falo de um cara comum, que dirige um t\u00e1xi ou \u00e9 m\u00e9dico ou estudante de engenharia. Ent\u00e3o, S\u00e9rgio, n\u00e3o \u00e9 morar longe do centro \u2013 embora isso atrapalhe um pouco, sem d\u00favida \u2013 o maior problema. J\u00e1 foi por isso que Osman Lins pediu demiss\u00e3o, juntou os trapos e trocou Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o por S\u00e3o Paulo, mas isso foi na d\u00e9cada de 60, quando n\u00e3o existia internet.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 A sua resposta \u00e9 muito pertinente e me conduz a duas reflex\u00f5es. A primeira \u00e9 relacionada ao que chamou de crise de leitor, diante da qual estou completamente de acordo. O caso \u00e9 que, na contram\u00e3o dessa situa\u00e7\u00e3o preocupante, temos um cen\u00e1rio liter\u00e1rio onde nunca se publicou tanto quanto hoje. Isso tem a ver, \u00f3bvio, com o surgimento de in\u00fameras editoras pequenas e com a possibilidade cada vez mais acess\u00edvel da autopublica\u00e7\u00e3o. Qual, na sua opini\u00e3o, ser\u00e1 o efeito dessa equa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fecha e que se torna gradualmente mais complexa? Acredita que a facilidade com que se publica neutralizou um filtro editorial e, atualmente, a quantidade alimenta um cat\u00e1logo contumaz de livros n\u00e3o lidos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> Voc\u00ea tem toda raz\u00e3o quando usa o termo contram\u00e3o. De fato \u00e9 muito f\u00e1cil publicar um livro hoje, as editoras pequenas surgem como resist\u00eancia, mas tamb\u00e9m como neg\u00f3cio, uma vez que na maioria delas \u00e9 o autor o respons\u00e1vel em pagar a gr\u00e1fica. Al\u00e9m do livro, temos a internet, mas apesar dela e sua facilidade e sedu\u00e7\u00e3o, a publica\u00e7\u00e3o em papel continua o sonho de consumo e o fetiche da maioria de quem escreve um livro e deseja v\u00ea-lo publicado. \u00c9 uma equa\u00e7\u00e3o mesmo, e para mim esquizofr\u00eanica, uma vez que me confirma a suspeita de que no Brasil \u2013 n\u00e3o sei l\u00e1 fora \u2013 existem mesmo mais escritores do que leitores. E a maior parcela dela \u00e9 de um tipo estranho de escritor, a parcela de escritores que n\u00e3o compram livros, logo n\u00e3o leem. Conhe\u00e7o alguns do tipo, quase sempre se consideram injusti\u00e7ados e quando a gente pergunta o que est\u00e3o lendo respondem que n\u00e3o leem porque temem a famigerada influ\u00eancia. Algo em que notamos um grande zelo pela pr\u00f3pria escrita. Fico imaginando como seria aquecido nosso mercado livreiro se todos os escritores comprassem livros. E n\u00e3o sei, S\u00e9rgio, confesso que n\u00e3o consigo explicar esse fen\u00f4meno de tanta gente escrevendo e publicando, sempre achei que o escritor surgia por causa de amor e obsess\u00e3o pelos livros \u2013 acho que foi meu caso \u2013 ou como resultado de uma grande experi\u00eancia, do tipo que \u00e9 preciso registrar no papel para alertar a todos de um grande mal ou de uma grande injusti\u00e7a, o genoc\u00eddio de um povo, por exemplo ou por algo \u2013 e vou citar Augusto dos Anjos \u2013 como uma vontade absurda de ser Cristo para sacrificar-se pela humanidade, mas acho que \u00e9 sentimentalismo da minha parte. Tantos escritores talvez seja s\u00f3 uma forma \u2013 para muitos deles, pelo menos \u2013 de querer aparecer na foto. O homem nunca gostou tanto da pr\u00f3pria imagem como nos nossos dias. Mas nem tudo \u00e9 ruim; contrariando o tal filtro editorial, fico muito feliz quando \u00e9 inclu\u00eddo, entre os finalistas de grandes pr\u00eamios, autores autopublicados ou de pequenos selos editoriais. J\u00e1 faz muito tempo que lamentamos n\u00e3o existir mais cr\u00edtica liter\u00e1ria nos jornais, lamentamos a morte de cadernos de literatura etc, isso talvez seja o que mais atrapalha, mas apesar de toda dificuldade \u2013 em raz\u00e3o dessa quantidade absurda de livros publicados todos os dias \u2013 \u00e9 poss\u00edvel sim reconhecer um bom livro. Talvez o reconhecimento n\u00e3o venha na hora, talvez demore ou s\u00f3 ocorra postumamente, mas vem. E quanto \u00e0 enorme quantidade de lixo publicado, a boa not\u00edcia \u00e9 que o papel \u00e9 biodegrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14329\" aria-describedby=\"caption-attachment-14329\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/INT-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14329 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/INT-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/INT-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/INT-1-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14329\" class=\"wp-caption-text\">Nivaldo Ten\u00f3rio \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Sinceramente, considero o reconhecimento p\u00f3stumo a circunst\u00e2ncia mais desleal que possa ocorrer com um escritor. Mas voltando a segunda reflex\u00e3o, seus dois livros foram publicados por uma editora pequena. Foi uma decis\u00e3o deliberada ou chegou a mandar o original para uma editora grande e n\u00e3o houve o interesse? Voc\u00ea mencionou o lado comercial das editoras pequenas e, na minha opini\u00e3o, a qualidade gr\u00e1fica da maioria desses selos pequenos nada deixa a desejar quando comparada a de uma grande editora. Os problemas s\u00e3o justamente a divulga\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o. A partir de sua experi\u00eancia, quais s\u00e3o os pr\u00f3s e os contras que um autor lan\u00e7ado por uma editora pequena acaba por se deparar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> Eu nunca mandei meus livros para editoras grandes. De antem\u00e3o, j\u00e1 intu\u00eda o resultado, na melhor das hip\u00f3teses uma carta educada dizendo que a editora n\u00e3o trabalha com meu perfil de escrita. O dinheiro movimenta o mundo. Quando mencionei o lado comercial das editoras pequenas quis dizer que elas utilizam estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia e, entre essas estrat\u00e9gias, a parceria com o autor \u00e9 uma alternativa vi\u00e1vel se se deseja algum lucro, no final. Imagino que uma editora pequena que publica 500 exemplares de um autor ainda desconhecido, embora bom contista, poeta ou mesmo romancista, corre s\u00e9rio risco de n\u00e3o conseguir s\u00f3 com a venda dos livros tirar os gastos da gr\u00e1fica. As distribuidoras ficam com a por\u00e7\u00e3o maior do bolo e algumas livrarias cobram caro, algumas chegam a exigir 50 por cento. Tamb\u00e9m concordo com voc\u00ea, \u00e9 excelente a qualidade gr\u00e1fica de algumas editoras pequenas. Imagino que fazer o livro bonito acaba sendo uma estrat\u00e9gia comercial j\u00e1 que o p\u00fablico dessa editora, embora pequeno, \u00e9 exigente. Tem bom gosto. Divulga\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o s\u00e3o problemas s\u00e9rios enfrentados at\u00e9 por m\u00e9dias editoras. N\u00e3o \u00e9 em toda livraria que voc\u00ea encontra um livro da Iluminuras ou Editora 34, s\u00f3 pra citar duas que gosto. E se publicaram autor brasileiro, contempor\u00e2neo, pior. Para o autor que se autopublica \u00e9 um problema irrevers\u00edvel, apenas minimizado pelos selos pequenos. Acho que as livrarias tamb\u00e9m n\u00e3o ajudam e talvez a culpa n\u00e3o seja delas, afinal h\u00e1 tantas publica\u00e7\u00f5es de vampiros, bruxos e pastiches de 50 tons de cinza no mercado que as prateleiras simplesmente n\u00e3o cabem. Por isso, algumas ainda concordam em disponibilizar o livro no cat\u00e1logo virtual. O Brasil \u00e9 enorme e tal, mas o problema, insisto, \u00e9 mesmo a falta de leitor. Outro dia ouvi que um autor \u2013 n\u00e3o me lembro quem \u2013 que ganhou o pr\u00eamio S\u00e3o Paulo verificou, um ano depois do an\u00fancio do pr\u00eamio, ter vendido 100 livros. Parece mentira, mas n\u00e3o entendo porque algu\u00e9m mentiria sobre isso. O livro f\u00f4ra publicado por um grande selo, parece que tamb\u00e9m ganhara o pr\u00eamio Sesc e, com toda m\u00eddia e prest\u00edgio do pr\u00eamio, aumentou suas vendas em apenas 100 livros. Gosto da editora pequena. Algumas alcan\u00e7aram respeito e isso, no fundo, \u00e9 o que importa. Fazem um livro bonito e, sem muita pretens\u00e3o, encontram o leitor especial, interessado em boa literatura. Se o mercado n\u00e3o \u00e9 milion\u00e1rio, a culpa n\u00e3o \u00e9 dela. Faz seu papel e o autor encontra seu lugar. Pequenas tiragens e distribui\u00e7\u00e3o \u2013 mesmo longe do ideal \u2013 possibilitam que o livro circule, concorra a pr\u00eamios e seja resenhado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Essa hist\u00f3ria do autor premiado \u00e9 ver\u00eddica, eu o conhe\u00e7o pessoalmente. Mas o final da sua resposta me instigou uma provoca\u00e7\u00e3o: diante do que chamamos de crise de leitor, voc\u00ea acredita que o autor que lan\u00e7a uma edi\u00e7\u00e3o de 500 exemplares, por uma editora pequena, tem muito mais uma preocupa\u00e7\u00e3o em colocar um crach\u00e1 de escritor e entrar para um clube do que ser realmente lido? Neste caso, o livro n\u00e3o seria mais um dispositivo para uma satisfa\u00e7\u00e3o pessoal do que um meio pelo qual ele possa alcan\u00e7ar o objetivo final de toda obra liter\u00e1ria, a aten\u00e7\u00e3o do leitor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> Falei em 500 exemplares porque \u00e9 o n\u00famero que muitas editoras que trabalham com gr\u00e1fica <em>offset<\/em> sugerem, 300 ou 500 exemplares. Quanto mais diminui o n\u00famero de exemplares, mais caro o livro fica. Meu \u201cDias de febre na cabe\u00e7a\u201d, edi\u00e7\u00e3o do autor, a primeira edi\u00e7\u00e3o, foram 500 exemplares. Na \u00e9poca eu sugeri 300, mas a diferen\u00e7a que a gr\u00e1fica fazia no pre\u00e7o era rid\u00edcula. Ent\u00e3o fiz os 500 mesmo sabendo que se livrar deles seria t\u00e3o dif\u00edcil quanto se livrar de um corpo. Sim, tem a hist\u00f3ria do crach\u00e1 de escritor, concordo com voc\u00ea, mas no meu caso foi s\u00f3 essa l\u00f3gica de gr\u00e1fica <em>offset<\/em>. Algumas editoras est\u00e3o trabalhando com tiragens bem pequenas, 70, 100 exemplares. Acho o ideal, se houver procura do livro \u00e9 s\u00f3 imprimir mais exemplares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea h\u00e1 pouco citou rapidamente os pr\u00eamios liter\u00e1rios. Com o mercado editorial cada vez mais fechado, acredito que \u00e9 senso comum de que vencer um pr\u00eamio liter\u00e1rio \u00e9 a maneira mais mete\u00f3rica de se projetar um escritor. Quando se \u00e9 uma estreia, pode ser at\u00e9 perigoso, pois o autor carrega consigo a responsabilidade de entregar um segundo livro, pelo menos, \u00e0 altura do anterior. O que pensa sobre os pr\u00eamios liter\u00e1rios? E, ultimamente, os pr\u00eamios no Brasil t\u00eam agraciado muitos autores nordestinos. O pr\u00eamio Sesc, por exemplo, teve suas \u00faltimas edi\u00e7\u00f5es dominadas por novos autores do Nordeste, tanto na categoria Romance quando na categoria Conto. Como explicar isso? Voc\u00ea consegue identificar uma gera\u00e7\u00e3o de jovens autores ganhando corpo na regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> Devo dizer que pra mim n\u00e3o \u00e9 surpreendente que pr\u00eamios liter\u00e1rios agraciem autores do Nordeste. Acho que o Nordeste tem uma s\u00f3lida tradi\u00e7\u00e3o de excelentes escritores. Por acaso me lembro do pol\u00eamico Bruno Tolentino, ele que era do Rio, poeta erudito que n\u00e3o gostava do Modernismo nem da Cultura Popular, disse uma vez: tirem a Literatura do Nordeste do Brasil, restaria o qu\u00ea? Sem bairrismo, de fato o Nordeste \u00e9 rico em escritores, Pernambuco ent\u00e3o nem se fala. Manuel Bandeira, Osman Lins, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto \u2013 um dos poucos autores brasileiros que j\u00e1 foi citado para ganhar o Nobel \u2013 e Gilberto Freyre, reconhecido no mundo como um g\u00eanio. Uma boa representa\u00e7\u00e3o da literatura contempor\u00e2nea tamb\u00e9m \u00e9 de Pernambuco. Apenas citando os escritores que residem aqui penso em Raimundo Carrero e Fernando Monteiro, s\u00f3 pra mencionar dois. E se falamos em escritores que adotaram Pernambuco, temos o grande Ariano Suassuna da Para\u00edba (hoje um cl\u00e1ssico da Literatura Brasileira), Ronaldo Correia de Brito e Sidney Rocha, do Cear\u00e1, autores com uma s\u00f3lida literatura, todos premiados. Autores que nunca deixaram o Recife. J\u00e1 faz alguns anos o estado criou um pr\u00eamio que s\u00f3 premia autores que residem em Pernambuco, o Pr\u00eamio Pernambuco \u2013 que recentemente algu\u00e9m teve a infeliz ideia de mudar o nome para Hermilo Borba Filho, tamb\u00e9m ele um intelectual de destaque e excelente dramaturgo pernambucano. O pr\u00eamio tem revelado autores at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9ditos e de not\u00e1vel qualidade liter\u00e1ria, espalhados na regi\u00e3o metropolitana e interior do estado. De fato, o pr\u00eamio tem poder de revelar o autor, embora isto n\u00e3o queira dizer que todo autor premiado \u00e9 um grande autor. S\u00e3o muitas circunst\u00e2ncias e pesa o fator sorte. Mas ajuda, principalmente quando democr\u00e1tico e livre de preconceitos. Por isso, gosto quando encontro, entre os finalistas de grandes pr\u00eamios, livros de autores autopublicados ou de pequenos selos editoriais, isso denota honestidade. Acho que a gente vai precisar de mais tempo e o olhar a uma certa dist\u00e2ncia para perceber se aqui, na regi\u00e3o, houve de fato uma nova gera\u00e7\u00e3o de escritores fazendo literatura de verdade. Nesse momento, pelo menos, s\u00f3 posso dizer que h\u00e1 muita gente escrevendo e o que se v\u00ea publicado aqui n\u00e3o \u00e9 de jeito nenhum inferior ao que se v\u00ea publicado no Sul-Sudeste.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Falando em dist\u00e2ncia, durante seu of\u00edcio criativo h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o com o leitor, quem a sua hist\u00f3ria poder\u00e1 atingir e o que pode despertar nela? Certa vez, fiz uma pergunta parecida para um autor, que respondeu n\u00e3o pensar no leitor, pois escrevia para ele mesmo. Achei a resposta arrogante e narcisista. O que pensa sobre isso? O leitor n\u00e3o deveria fazer parte, em algum momento, do processo de constru\u00e7\u00e3o de um livro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> O leitor \u00e9 fundamental. Preocupa-me muito o leitor. Morro de medo do leitor pouco generoso, o leitor que l\u00ea em metr\u00f4s, olhando para o rel\u00f3gio, hiperativo, que manipula o celular, que consulta as redes sociais enquanto l\u00ea. Tenho medo que minha literatura, para este leitor, assuma algum tipo de hermetismo do qual n\u00e3o me sinto culpado. O conto \u00e9 irm\u00e3o da poesia, requer mais de uma leitura. Ningu\u00e9m l\u00ea um poema uma s\u00f3 vez. Quantas vezes eu j\u00e1 n\u00e3o li &#8220;Opi\u00e1rio&#8221;?, Decerto muitas. Sem o leitor minha literatura fica incompleta. Voc\u00ea poderia dizer, com toda raz\u00e3o, que sem o leitor nenhuma literatura acontece. De fato. O pr\u00f3prio processo de escrita se completa com o leitor. Por isso, necessito de um leitor que me d\u00ea a m\u00e3o, necessito de sua paci\u00eancia e disposi\u00e7\u00e3o para amarrar as pontas, quando se fizer necess\u00e1rio, de um leitor que saiba ler os sil\u00eancios, que se interesse pela outra hist\u00f3ria que todo conto conta e sinta prazer em despender toda energia que a leitura lhe exige. O leitor que idealizo \u00e9 um leitor especial e por ele sinto enorme apre\u00e7o. A gente se esfor\u00e7a para escrever um livro melhor que outro. Acho que este livro que acabei de escrever \u00e9 mais maduro que o anterior, mas s\u00f3 quem pode de fato julgar isto \u00e9 o leitor. Por outro lado, n\u00e3o perco o sono por causa do leitor de gosto m\u00e9dio, o leitor dos livros da moda, o leitor apenas interessado em puro entretenimento. \u00c9 claro que todos os dias eu o espero de bra\u00e7os abertos, mas n\u00e3o vou perder o dia se ele me ignorar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Seguindo nessa linha do leitor, ultimamente surgiu um movimento do leitor sens\u00edvel, que tem feito inclusive universidades retirarem de seus cat\u00e1logos obras com conte\u00fado considerado controverso. Seus contos, por outro lado, trazem para seus enredos temas pesados, envolvendo fortemente a mis\u00e9ria humana. Como enxerga essa press\u00e3o que existe hoje para limar da literatura temas pol\u00eamicos que possam ferir certos grupos? Isso lhe faz repensar a ideia de um conto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> O primeiro r\u00e9u desse caso, se n\u00e3o me engano, foi Monteiro Lobato. Queriam censurar e cortar trechos de sua obra por causa do tratamento que Tia Nast\u00e1cia \u2013 por ser negra \u2013 recebia. E a\u00ed me lembro do Oscar Wilde: um livro n\u00e3o \u00e9 moral ou imoral, \u00e9 bem ou mal escrito; eis tudo. Ele tem raz\u00e3o. No caso do Lobato, principalmente, tem a quest\u00e3o do contexto hist\u00f3rico. Eu n\u00e3o acredito numa obra liter\u00e1ria que se constitua num panfleto mesmo que as raz\u00f5es sejam as melhores, imagine quando as raz\u00f5es s\u00e3o as de promover discrimina\u00e7\u00e3o racial ou de qualquer natureza. A obra de Monteiro Lobato n\u00e3o me parece um panfleto, aquilo que Narizinho diz sobre a negritude de Tia Nast\u00e1cia \u00e9 corroborado pelo esp\u00edrito de \u00e9poca. E quem fala \u00e9 a personagem. N\u00e3o existe boa arte pautada em normas de conduta, etiquetas e outras frescuras. \u00c9 s\u00f3 olhar para o passado, o que \u00e9 que hoje todos acham do processo por imoralidade que sofreu Madame Bovary? Veja, durante essas discuss\u00f5es eu esperei que algu\u00e9m se manifestasse sobre a B\u00edblia, pois \u00e9 dif\u00edcil encontrar um livro t\u00e3o politicamente incorreto. Ali h\u00e1 desde discrimina\u00e7\u00e3o contra a mulher a genoc\u00eddios determinados pelo pr\u00f3prio Deus. No Dec\u00e1logo, exatamente no d\u00e9cimo mandamento, Ele determina que o homem n\u00e3o deve cobi\u00e7ar o servo de seu pr\u00f3ximo, e a\u00ed n\u00e3o precisa recorrer a exegese para intuir que para Deus a escravid\u00e3o era perfeitamente aceit\u00e1vel. Natural. E diferentemente de Monteiro Lobato, um homem do final do s\u00e9culo XIX in\u00edcio do XX, Deus n\u00e3o \u00e9 um reles mortal, sujeito ao condicionamento cultural. Ent\u00e3o \u00e9 uma grande besteira esse neg\u00f3cio, come\u00e7a-se mal porque come\u00e7a-se descriminando umas obras e deixando outras de lado em nome da mais pura e genu\u00edna hipocrisia. Mas acho que quem deve se encarregar de julgar \u00e9 o leitor. O leitor faz a leitura que quiser. Estabelecer uma censura em nome do politicamente correto \u00e9 no m\u00ednimo rid\u00edculo. N\u00e3o me interessa se Celine era antissemita e simpatizante do nazismo, a mim s\u00f3 interessa o assombro que me causou <em>Viagem ao fim da noite<\/em>, al\u00e9m do mais ali n\u00e3o h\u00e1 nada que promova as ideias infelizes do autor. A prop\u00f3sito disso, reconhe\u00e7o um bom autor pela sua capacidade de fazer a clara distin\u00e7\u00e3o entre suas ideias, ideologias e a literatura. Conhe\u00e7o escritores que tamb\u00e9m s\u00e3o meus amigos e s\u00e3o, na vida privada, pessoas de forte ardor religioso, e n\u00e3o s\u00e3o poucos, pessoas capazes de uma f\u00e9 que eu n\u00e3o consigo entender que raios de improbidade intelectual os fazem acreditar nos disparates e contos de fadas de suas religi\u00f5es, pessoas com uma vis\u00e3o que eu s\u00f3 consigo atribuir ao intelecto mais simpl\u00f3rio, mas que no caso deles n\u00e3o \u00e9, pois n\u00e3o s\u00e3o ignorantes, alguns t\u00eam mais cultura e leram mais do que eu. Ent\u00e3o, s\u00e3o quest\u00f5es que eu nem procuro inquirir \u2013 tenho mais com que me ocupar \u2013 no fundo o que me interessa \u00e9 que em seus livros n\u00e3o h\u00e1 nada disso e at\u00e9 os invejo por conseguirem tal distanciamento. Mas acho que acabei fugindo um pouco da pergunta. E n\u00e3o, essa press\u00e3o e sensibilidade de tais grupos jamais me fariam repensar a ideia de um conto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Por outro lado, voc\u00ea consegue identificar determinados escritores que se colocam por detr\u00e1s de uma causa, da bandeira de uma minoria, de uma ideologia, e se utilizam desse expediente para chamar aten\u00e7\u00e3o para seus escritos? Percebe que a m\u00eddia especializada foca, em muitos casos, na condi\u00e7\u00e3o social desse tipo de escritor e se esquece de avaliar o valor liter\u00e1rio, se o livro \u00e9, no m\u00ednimo, bom?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> Num mundo que n\u00e3o l\u00ea, talvez n\u00e3o seja t\u00e3o ruim chamar a aten\u00e7\u00e3o para um livro em raz\u00e3o de seu apelo social. Sem d\u00favida, h\u00e1 tais escritores e acho at\u00e9 que s\u00e3o muitos, e suas bandeiras chamam sim a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e de leitores que se veem ali representados. Imagino que deve existir escritores bons e ruins fazendo isso. A mim s\u00f3 interessa a literatura. Literatura pela literatura. Se algu\u00e9m consegue fazer os dois, se consegue que o carro-chefe seja a for\u00e7a do texto e n\u00e3o o apelo social, tem a minha aten\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o \u00e9 de se admirar que a m\u00eddia se interesse e promova livros medianos, como voc\u00ea coloca, mas que levantam bandeiras de grande apelo social. A m\u00eddia est\u00e1 interessada em not\u00edcia. Por literatura se interessa um n\u00famero bem menor de pessoas e isso n\u00e3o vende jornais, n\u00e3o d\u00e1 ibope.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14330\" aria-describedby=\"caption-attachment-14330\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/INT-III.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14330 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/INT-III.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/INT-III.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/INT-III-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14330\" class=\"wp-caption-text\">Nivaldo Ten\u00f3rio \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Mas ainda, por mais estranho que pare\u00e7a, s\u00e3o justamente os cadernos e os suplementes liter\u00e1rios que permanecem valorizados pelos autores, quando buscam uma resenha ou a divulga\u00e7\u00e3o de seus livros. No Brasil, ainda resiste uma cultura de associar proje\u00e7\u00e3o aos grandes jornais impressos, de n\u00e3o dar o valor devido ao espa\u00e7o virtual, \u00e0 aten\u00e7\u00e3o dada aos livros nos sites, blogues e afins. Como analisa essa transi\u00e7\u00e3o? Os espa\u00e7os virtuais reservados \u00e0 literatura s\u00e3o uma maneira de compensar a falta de espa\u00e7o na m\u00eddia impressa ou estamos diante de uma nova gera\u00e7\u00e3o de cr\u00edticos, que lidam com a literatura segundo a realidade de seu tempo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> Acho que s\u00e3o os dois, S\u00e9rgio. Sem d\u00favida, h\u00e1 uma nova gera\u00e7\u00e3o de cr\u00edticos mais antenados com as novas tecnologias e a literatura perdeu espa\u00e7o na m\u00eddia impressa. Talvez o crescimento de uma esteja atrelado ao desaparecimento da outra. Aqui em Pernambuco, noto uma resist\u00eancia. H\u00e1 bons jornalistas interessados em escrever sobre literatura. Temos um suplemento cultural, o <em>Pernambuco<\/em>, que \u00e9 um dos melhores cadernos de literatura publicados no Brasil. Quanto \u00e0 prefer\u00eancia dos autores em verem suas obras divulgadas por cadernos e grandes jornais, deve ser um reflexo do pr\u00f3prio desejo de se ver publicado em papel. O cara publicou um livro nas redes sociais e tem milhares de seguidores, mas s\u00f3 se sente publicado de verdade quando seu livro est\u00e1 \u00e0 venda nas livrarias. \u00c9 o fetiche, \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o. Mesmo os escritores comerciais se sentem assim. Parece que o papel tem o poder de tornar oficial. \u00c9 verdade que quando sai em jornal uma resenha aquilo s\u00f3 \u00e9 lido por meia d\u00fazia de pessoas. Todos s\u00f3 tomam conhecimento quando o link da mat\u00e9ria \u00e9 divulgado nas redes sociais. Acho que essa cr\u00edtica em blogues e sites vai crescer e vai ganhar mais prest\u00edgio \u00e0 medida que as publica\u00e7\u00f5es em jornais ficarem mais raras e, se n\u00e3o desaparecerem dos grandes jornais, existir\u00e3o apenas em jornais como <em>Rascunho<\/em> ou publica\u00e7\u00f5es artesanais para um n\u00famero pequeno de assinantes. As facilidades que a internet oferece impediriam que hoje o Osman Lins desistisse de tudo, no Recife e Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o, e fizesse a mesma viagem que os sertanejos faziam para S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 E no seu caso? Incomoda-lhe ou, de alguma forma, desanima adentrar uma dessas mega livrarias e n\u00e3o encontrar os seus livros? Qual a extens\u00e3o que voc\u00ea almeja para sua carreira, para sua escrita?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> Tudo o que almejo para minha carreira de escritor come\u00e7a e termina no texto, quanto ao resto n\u00e3o \u00e9 de meu controle. O meu livro n\u00e3o se encontra em mega livrarias \u2013 pelo menos o livro f\u00edsico \u2013 n\u00e3o por ser de p\u00e9ssima qualidade. \u00c9 exatamente o contr\u00e1rio. Quando entrei pela primeira vez na Livraria Cultura, da Avenida Paulista, n\u00e3o pude acreditar no que via. Mais da metade da livraria era dedicada aos livros da moda. \u00c9 f\u00e1cil reconhecer pelo colorido das capas. N\u00e3o bastou que algu\u00e9m tivesse escrito um livro t\u00e3o ruim como &#8220;Crep\u00fasculo&#8221;, era preciso que aparecesse um monte de imitadores com novos Crep\u00fasculos que ganhariam as prateleiras de tais livrarias. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o tenho culpa se impera um gosto ruim ou mediano, se todo mundo parece t\u00e3o carente de autoajuda e entretenimento que s\u00f3 aspira a mais bruxos e lobisomens em aventuras sensacionais. Mas eu estaria mentido se n\u00e3o dissesse que todo escritor deseja sim encontrar seu livro nas vitrines de livrarias. Alguns, quando encontram, chegam at\u00e9 a fotografar e exibir no Facebook, coitados, como um acontecimento realmente fabuloso. E talvez seja mesmo. Ent\u00e3o, S\u00e9rgio, n\u00e3o me preocupo com isso. Interessa-me fazer um livro melhor do que o \u00faltimo. Este livro, acredito, \u00e9 melhor do que o anterior, pois minha maior motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 escrever cada vez melhor, embora isso, claro, quem julga \u00e9 o leitor, seja l\u00e1 onde ele estiver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Talvez seja uma heresia perguntar isso para um contista por excel\u00eancia, mas voc\u00ea j\u00e1 pensou em escrever um romance? Caso n\u00e3o, o que o afasta do g\u00eanero? Caso sim, esse seria um pr\u00f3ximo livro? Ali\u00e1s, j\u00e1 tem um novo projeto liter\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> Nunca tentei escrever um romance \u2013 apesar de ser um leitor de romances \u2013 mas j\u00e1 pensei sim, embora nunca tenha levado a termo, sequer come\u00e7ado. Encontro no conto o g\u00eanero necess\u00e1rio para minha cria\u00e7\u00e3o. H\u00e1 as press\u00f5es do mercado (que, \u00e9 claro, eu n\u00e3o levo a s\u00e9rio) e dos amigos (que n\u00e3o sabem apreciar o conto), pois \u00e9 comum coisas do tipo: e quando vai sair o romance?, como se todo esfor\u00e7o para escrever o conto fosse balela, um talento desperdi\u00e7ado. N\u00e3o por tais raz\u00f5es, o mercado que se dane e os amigos que aprendam a ler. Mas vou escrever. N\u00e3o digo que j\u00e1 tenho um projeto, \u00e9 s\u00f3 uma ideia que vem me assombrando ultimamente, de transformar um dos contos \u2013 porque me sugere uma narrativa de f\u00f4lego maior, o caso da tartaruga \u2013 em romance. Vou escrever, mas n\u00e3o tenho pressa. Sempre admirei os escritores obcecados por sua obra, que nos d\u00e3o a ideia de que viveram apenas para escrever, como os russos e Balzac, por exemplo, mas tenho uma natureza infelizmente indolente, depois de um livro preciso de um tempo, mais do que razo\u00e1vel, para de novo me sentar e escrever. Tenho f\u00f4lego de contista, nunca estive interessado em quantidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Diante de todas as frustra\u00e7\u00f5es e contratempos que trouxemos \u00e0 tona, por que ent\u00e3o continuar a escrever? Vale a pena ser escritor no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NIVALDO TEN\u00d3RIO &#8211;<\/strong> Publiquei a primeira vez com mais de 30 anos. Escrever sempre foi mais importante do que publicar. A gente n\u00e3o escreve porque isso vai mudar nossa vida. N\u00e3o vamos ficar ricos e nunca acreditei no exerc\u00edcio da escrita como terapia. Escrever, ent\u00e3o, nunca representou obter algum tipo de vantagem. Acho que todo escritor tem dificuldade de responder esta pergunta. Hoje, mais do que nunca, quando para tudo que se faz, logo se espera obter resultados, lucros, vantagens. \u00c9 isso ou voc\u00ea est\u00e1 perdendo tempo, dizem os pragm\u00e1ticos. Escrever talvez seja o modo mais cruel de perder tempo. N\u00e3o h\u00e1 garantias. Se escrevo e, se continuo escrevendo, fa\u00e7o porque sentiria muito se algo acontecesse que me impedisse de escrever. N\u00e3o acho que seja mais f\u00e1cil ser escritor em outro pa\u00eds. Quando a gente pensa no s\u00e9culo XX, uma parcela significativa da grande literatura que aparece foi escrita na Am\u00e9rica Latina do Terceiro Mundo, com problemas de ditaduras e analfabetismo. Faulkner, Carson McCullers e Flannery O\u2019 Connor escreveram no Sul dos EUA de pobreza, Ku Klux Klan e fanatismo religioso. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 num pa\u00eds com problemas sociais resolvidos e \u00edndice zero de analfabetismo o lugar ideal para escrever e ser lido. N\u00e3o h\u00e1 lugar ideal para escrever. Ouvi de uma editora francesa que, em Paris, o escritor ou escritora lan\u00e7a seu livro nas livrarias pequenas, lugares aconchegantes, cheias de hist\u00f3rias, com fotos de Hemingway penduradas nas paredes. Os lan\u00e7amentos contam sempre com um p\u00fablico de 30 pessoas, no m\u00e1ximo, entre as quais se contam esposa, filhos, pais, parentes e amigos do escritor. O problema \u00e9 maior, vai al\u00e9m das fronteiras, e tem a ver com a perda de certa no\u00e7\u00e3o da subjetividade. Mas uma coisa eu posso garantir, em todo tempo e em todos os lugares houve e h\u00e1 dificuldades, nenhuma delas, entretanto, \u00e9 p\u00e1reo para o desejo de escrever.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num di\u00e1logo sobre o fazer liter\u00e1rio e seus desafios contempor\u00e2neos, S\u00e9rgio Tavares entrevista o escritor Nivaldo Ten\u00f3rio<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14325,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3428,16,2539],"tags":[63,3429,8,1023],"class_list":["post-14324","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-122a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-nivaldo-tenorio","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14324","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14324"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14324\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14334,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14324\/revisions\/14334"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14325"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14324"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14324"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14324"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}