{"id":14335,"date":"2017-12-26T10:55:19","date_gmt":"2017-12-26T13:55:19","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14335"},"modified":"2017-12-28T17:52:04","modified_gmt":"2017-12-28T20:52:04","slug":"dedos-de-prosa-i-57","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-57\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Anderson Henrique<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14337\" aria-describedby=\"caption-attachment-14337\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Int-BB.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14337 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Int-BB.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"348\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Int-BB.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Int-BB-300x209.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14337\" class=\"wp-caption-text\">Foto: B\u00e1rbara Bezina<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>M\u00e1scaras<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u201cO ser humano \u00e9 o \u00fanico que se falsifica. Um tigre h\u00e1 de ser tigre eternamente. Um le\u00e3o h\u00e1 de preservar, at\u00e9 morrer, o seu nobil\u00edssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo.\u201d<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>(Nelson Rodrigues)<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei dizer quando come\u00e7ou a obsess\u00e3o com as m\u00e1scaras. Quando percebemos, todos estavam com seus rostos cobertos. Ontem mesmo, sentei no \u00f4nibus ao lado de um leopardo. No topo da cabe\u00e7a, duas pequenas orelhas pontilhadas de manchas pretas sobre um fundo amarelado. Julguei que o objeto fosse de acr\u00edlico, mas era pl\u00e1stico. Havia dessas coisas: as classes mais baixas n\u00e3o dispunham de muito dinheiro para investir na confec\u00e7\u00e3o e acabavam improvisando. O resultado, \u00e0s vezes, era desastroso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bela m\u00e1scara, falei na primeira oportunidade, tentando chamar a aten\u00e7\u00e3o do leopardo. Quando ele se voltou para mim, pude ver seus olhos amarelados pelo corte no adere\u00e7o. Talvez eu n\u00e3o tenha mencionado, mas havia m\u00e1scaras para olhos tamb\u00e9m. Come\u00e7ou com as lentes de contato coloridas. Adiante, os rumos da criatividade. O leopardo n\u00e3o respondeu ao meu elogio. Ergueu uma das m\u00e3os como uma garra e fez um som gutural. Cumprimentei-o com um aceno e seguimos viagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheguei ao trabalho atrasado para variar. Pablo veio \u00e0 minha mesa e reclamou dos prazos do projeto em que trabalh\u00e1vamos. Usava uma m\u00e1scara de abracadabra. Alternou o assunto e passou a me contar sobre suas aventuras no final de semana. Sentado sobre a bancada, falou como se as palavras tivessem prazo de validade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ABRACADABRA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ABRACADABR<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ABRACADAB<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ABRACADA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ABRACAD<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ABRACA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ABRC<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ABR<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">AB<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algu\u00e9m se aproximou sorrateiro. Colocou uma das m\u00e3os sobre o ombro de Pablo e perguntou sobre o andamento do projeto. Ele disfar\u00e7ou o embara\u00e7o pelos atalhos da bajula\u00e7\u00e3o. Espetacular essa gaivota, chefe, disse referindo-se \u00e0 m\u00e1scara que nosso gerente usava. \u00c9 um mandri\u00e3o, ele corrigiu. Pablo tentou escapar da situa\u00e7\u00e3o como p\u00f4de: ave magn\u00edfica, sem d\u00favida. Acabei por ajud\u00e1-lo. Abri uma planilha no computador e mostrei ao chefe que o projeto estava no prazo. Mantenha-o em dia, ele disse. Pigarreou, ajustou o n\u00f3 da gravata e saiu. T\u00e1 sabendo que ele vai ser promovido no final do ano? Pablo perguntou assim que o gerente cruzou a porta da sala. Sei. E que diabos \u00e9 um mandri\u00e3o?, emendou. Virei-me para o computador e fiz a pesquisa: Mandri\u00e3o \u2014 Ave da fam\u00edlia <em>Stercorariidae<\/em>, conhecida pelo cleptoparasitismo. Cleptoparasitismo, nova pesquisa: forma de intera\u00e7\u00e3o em que um organismo rouba recursos de outro organismo, geralmente um alimento que o outro capturou ou deixou armazenado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui atendido por um chacal f\u00eamea quando fui ao banco na hora do almo\u00e7o. Tirei do bolso o boleto que precisava pagar e avisei que o c\u00f3digo num\u00e9rico n\u00e3o estava funcionando. Estranho, ela disse. Pegou o papel e come\u00e7ou a digitar a sequ\u00eancia no computador. Por que um chacal? O chacal uiva at\u00e9 a morte, ela disse. Olhou para os lados, confirmou que n\u00e3o era observada e segredou: \u00e9 o que tenho vontade de fazer todos os dias, gritar at\u00e9 a morte. O chacal n\u00e3o \u00e9 o s\u00edmbolo de An\u00fabis? Ela fez que sim com a cabe\u00e7a e a m\u00e1scara acompanhou o movimento, as orelhas compridas do animal sacudindo para a frente e para tr\u00e1s. Os cabelos loiros tamb\u00e9m balan\u00e7aram, escapando pela parte de tr\u00e1s do adere\u00e7o. Ela se levantou, pegou um papel da impressora e me orientou a usar o novo c\u00f3digo de pagamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Combinei um drinque com a mulher-chacal no fim daquele dia. Ela estava sentada em uma mesa pr\u00f3xima ao balc\u00e3o quando cheguei. N\u00e3o foi dif\u00edcil identific\u00e1-la, apesar de n\u00e3o estar mais transfigurada no c\u00e3o eg\u00edpcio. Usava uma m\u00e1scara peculiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 maia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o, \u00e9 celta. Uma amiga trouxe de fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deve ter custado uma fortuna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Custou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea bebe um chope?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o. Um Martini. Com duas azeitonas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedi as bebidas ao primeiro gar\u00e7om que passou. Um chope e um Martini. Com duas azeitonas. O homem-mosca anotou no bloquinho, pediu licen\u00e7a e se retirou para atender outra mesa. O que significa?, perguntei ao examinar a m\u00e1scara que ela usava. Era toda moldada em couro, com ramifica\u00e7\u00f5es que se entrela\u00e7avam de uma extremidade a outra, muito parecida com a folha de uma \u00e1rvore. Os olhos estavam expostos pelas duas aberturas na parte frontal e o corte para o nariz descia em uma abertura at\u00e9 a boca, por onde escapavam l\u00e1bios pintados de azul. Tive vontade de lamb\u00ea-los. N\u00e3o significa nada, ela respondeu. Puxei assunto falando de trabalho, mas ela retesou a conversa. D\u00e9bito, cr\u00e9dito, transfer\u00eancia eletr\u00f4nica. O que quer saber? Sorri em resposta, aproveitando para experimentar a bebida que havia acabado de chegar. Ela prosseguiu: se \u00e9 para falar de trabalho, vamos morrer de t\u00e9dio. Recuei e disse que entendia. O que fa\u00e7o tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 nada interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conversa engrenou. Sorrimos de forma espont\u00e2nea. Sorrimos quando sorrir significava apenas ser cort\u00eas e tamb\u00e9m quando era apenas o pincel da novidade falando por n\u00f3s. Seu nome era In\u00eas. Nome espanhol. Pura, casta ou cordeiro. Pesquisei o que podia sobre o nome antes do encontro, mas, na hora, n\u00e3o tive coragem de mencionar. In\u00eas n\u00e3o me parecia nada daquilo. Fa\u00e7o anivers\u00e1rio hoje, ela falou. S\u00e9rio? N\u00e3o, \u00e9 brincadeira. S\u00f3 queria ver sua rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fomos para minha casa depois do bar. Entre len\u00e7\u00f3is, ela confessou: lembra da hist\u00f3ria do anivers\u00e1rio? Lembro. Fa\u00e7o 35. Ent\u00e3o era verdade? Era, foi um dos motivos de ter aceitado seu convite. Fui at\u00e9 a geladeira e peguei um bolinho recheado que estava guardado h\u00e1 semanas, sobras do anivers\u00e1rio de um sobrinho. Enfiei um palito de f\u00f3sforo no doce e levei at\u00e9 o quarto. Risquei na lateral da caixa e acendi. N\u00e3o d\u00e1 para comer, mas voc\u00ea pode fazer um pedido. Ela fez. Depois apagou a chama com um sopro cuidadoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">In\u00eas examinava alguns livros em minha estante quando regressei da cozinha. Observei-a de um \u00fanico \u00e2ngulo, mas pude v\u00ea-la por v\u00e1rios outros. Os cabelos que escapavam da m\u00e1scara estavam amassados e desordenados pelo tempo na cama. Vi a mulher um pouco acima do peso e as dobrinhas entre a barriga e as costelas. Pude ver os homens que antes ocuparam meu lugar; homens de prazer e dor, homens que sequer foram homens. Havia uma mulher tamb\u00e9m. \u00danica, mas inesquec\u00edvel. Vi um aborto, o medo dos filhos na hora errada. Vi seu primeiro emprego, uma loja em um <em>shopping<\/em>, horas de p\u00e9 em um salto desconfort\u00e1vel atendendo a desejos e a mau humor. Trocou de trabalho outras nove vezes, o sal\u00e1rio pouco, a perspectiva inexistente. A vida no banco n\u00e3o parecia t\u00e3o ruim daquele \u00e2ngulo. Vi expectativas est\u00e9reis. Casa, marido e filhos afogados em uma banheira rachada. Vi que gostava de artesanato, que decorava seu apartamento com pequenos apetrechos de materiais reciclados. Fazia maratona de com\u00e9dias rom\u00e2nticas no s\u00e1bado \u00e0 noite, enredos repetidos que n\u00e3o tinham qualquer rela\u00e7\u00e3o com sua vida amorosa. Foi \u00e0 \u00cdndia certa vez. Juntou dinheiro e foi. Classe econ\u00f4mica, hotel modesto. Economias que custaram uma fortuna. Conheceu um guru por l\u00e1. Deuses de mil bra\u00e7os e conceitos dif\u00edceis de explicar. Destruir para construir. N\u00e3o era t\u00e3o complicado. Queria ir para o Egito tamb\u00e9m, mas n\u00e3o deu. N\u00e3o por enquanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ah, ent\u00e3o voc\u00ea tamb\u00e9m gosta do Egito!, ela comentou ao dedilhar a lombada de um livro sobre Nefertite. Por isso reconheceu a m\u00e1scara do chacal. Fiz que sim com a cabe\u00e7a. Ela tirou o livro do lugar e come\u00e7ou a passar as p\u00e1ginas. Ainda estava nua, apenas a m\u00e1scara celta a ocultar o rosto. Comentei o que havia descoberto naquela tarde, que o chacal sequer existia no Egito. N\u00e3o pude ver a express\u00e3o de curiosidade por tr\u00e1s do adere\u00e7o, mas sabia que tinha despertado sua aten\u00e7\u00e3o. Prossegui: algu\u00e9m confundiu o chacal com um bicho parecido, tipo um c\u00e3o selvagem, e a lenda pegou. Imagina s\u00f3: voc\u00ea \u00e9 um deus, e os s\u00faditos o associam ao animal errado. Ela sorriu. Seus l\u00e1bios n\u00e3o estavam mais azuis, as cores espalhadas por partes distintas de meu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pablo soube de minha paix\u00e3o por In\u00eas ap\u00f3s dois meses de encontros. Sem o menor vest\u00edgio de hesita\u00e7\u00e3o, me fez a pergunta mais impertinente de seu repert\u00f3rio: e ent\u00e3o, como \u00e9 o rosto dela? Repreendi meu amigo por sua indiscri\u00e7\u00e3o, mas ele foi insistente. Tirou o telefone do bolso, pressionou a tela algumas vezes e me pediu segredo. Era a foto de Cl\u00e1udia, uma estagi\u00e1ria que trabalhava no RH da empresa. Pude reconhecer os olhos castanhos e os cabelos anelados que se escondiam por tr\u00e1s das m\u00e1scaras que ela costumava usar. A foto trazia o rosto nu de Cl\u00e1udia, que sorria e fazia uma posi\u00e7\u00e3o atrevida para a c\u00e2mera. Sardas avermelhadas polvilhavam as bochechas, a curva do rosto era angular e pequenas depress\u00f5es se formavam nas extremidades dos l\u00e1bios. Era uma jovem de beleza excepcional. N\u00e3o diga nada a ningu\u00e9m, meu amigo repetiu. Estamos saindo h\u00e1 apenas uma semana. \u00c9 nosso segredo. Concordei com a cabe\u00e7a, ainda entorpecido pela imagem que h\u00e1 pouco estava diante de meus olhos. Pablo, com a indol\u00eancia que lhe era peculiar, voltou a perguntar: e In\u00eas, como \u00e9? Fui evasivo mais uma vez. Afirmei que ela era uma mulher distinta, que n\u00e3o havia revelado seu rosto ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conversa com Pablo inquietou meus pensamentos. Transformou uma leve curiosidade em obsess\u00e3o. Uma semana apenas, uma semana de envolvimento com a estagi\u00e1ria, e ele j\u00e1 estava com a foto do rosto dela em seu telefone. O desejo pelo rosto de In\u00eas n\u00e3o era novidade, mas eu estava aguardando a ocasi\u00e3o apropriada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">In\u00eas n\u00e3o p\u00f4de se encontrar comigo naquela noite. Sozinho em casa, elaborava hip\u00f3teses quanto ao formato de seu rosto. Tentei dormir, mas estava agitado. Fui at\u00e9 o computador e digitei um endere\u00e7o. Era um <em>site<\/em> pornogr\u00e1fico. No menu de op\u00e7\u00f5es, selecionei a categoria mais requisitada pelos usu\u00e1rios. Um filme apareceu no monitor. A atriz, apenas de m\u00e1scara, provocava o homem. Serpenteava em sua frente, enrodilhando-se em seu corpo, tocando-o onde ele precisava ser tocado, ora gentil, ora com firmeza. Copularam, treparam, satisfizeram-se. Em poucos minutos, o \u00e1pice: a atriz remove a m\u00e1scara e a ejacula\u00e7\u00e3o \u00e9 despejada em seu rosto. <em>Maskless facial cumshot<\/em>. O gozo, o pensamento em In\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O assunto das m\u00e1scaras foi revisitado em sonho. In\u00eas relutava ante meu pedido. Exigiu explica\u00e7\u00f5es ao ceder. Queria saber a raz\u00e3o pela qual eu estava sempre com o mesmo adere\u00e7o. N\u00e3o tem mist\u00e9rio, respondi. \u00c9 s\u00f3 porque todos usam. Ningu\u00e9m estranha que voc\u00ea esteja sempre com a mesma?, ela emendou. S\u00f3 no come\u00e7o. Depois deixa de ser relevante. Satisfeita com minha explica\u00e7\u00e3o, In\u00eas levou as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a e revelou a face. Havia um rosto de serpente sobre o adere\u00e7o. Eu podia ver as presas e a l\u00edngua bifurcada. O susto me fez recuar. In\u00eas ergueu novamente as m\u00e3os e retirou a pele escamosa, uma segunda m\u00e1scara. No lugar de seu rosto, um rubi de cor p\u00farpura, a face s\u00f3lida como a pedra de sangue. Ela seguiu, desgrudando camadas e mais camadas de seu rosto. Assustado, acordei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou direto em nosso encontro seguinte. Digo a In\u00eas que desejo ver sua face. Ela \u00e9 reticente na resposta e se esquiva. Digo que sei o quanto de intimidade aquilo exige de um casal. Pego em suas m\u00e3os para convenc\u00ea-la de que j\u00e1 alcan\u00e7amos aquele est\u00e1gio, mas ela profetiza que n\u00e3o dever\u00edamos nos apressar. Acontecer\u00e1 quando houver de acontecer. Minha consci\u00eancia discorda, mas aceito o argumento. Daria o tempo que In\u00eas julgasse necess\u00e1rio, mesmo que a recusa gotejasse d\u00favidas em minha consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">In\u00eas adormeceu em minha cama certa noite ap\u00f3s esgotarmos nossas energias. Cedi \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o diante da m\u00e1scara a evocar o rosto de Circe em uma das pinturas de Waterhouse. Virou-se para o lado durante um pesadelo e balbuciou palavras incompreens\u00edveis. A m\u00e1scara prendeu no travesseiro e saiu do lugar, revelando parte de seu queixo. Levei uma das m\u00e3os at\u00e9 seu rosto. Com um dos dedos puxei o adere\u00e7o com delicadeza, mas In\u00eas despertou. Levantou-se da cama, preocupada em cobrir o rosto e destruiu qualquer reconcilia\u00e7\u00e3o com olhos de f\u00faria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levou algum tempo, mas consegui convenc\u00ea-la a perdoar meu gesto impensado. Um caminho de desculpas e agrados at\u00e9 reconstruir o que possu\u00edamos. Um pedido especial feito a um artes\u00e3o a convenceu em definitivo. Presenteei-a com uma pequena est\u00e1tua do reencontro de Ulisses e Pen\u00e9lope. Aos p\u00e9s de Ulisses, a inscri\u00e7\u00e3o: In\u00eas. Abaixo de Pen\u00e9lope, meu nome. Ela colocou o objeto sobre a estante e, emocionada, atirou-se em meus bra\u00e7os. Tomou ent\u00e3o a decis\u00e3o que eu tanto ansiava: p\u00f4s a m\u00e3o sobre a nuca e removeu a m\u00e1scara. Vi seu rosto alvo, um equil\u00edbrio entre a simetria e um leve desalinho. Os cabelos loiros ca\u00edram em suaves cachos sobre a testa e pelos ombros. A mulher diante de mim revelava uma beleza que minha expectativa n\u00e3o tinha sido capaz de elaborar. Chegou ent\u00e3o minha vez. Tomando a iniciativa, In\u00eas colocou a m\u00e3o por tr\u00e1s de meu pesco\u00e7o e retirou a m\u00e1scara. Surpreendeu-se ao ver os olhos castanhos, a boca fina e a pele marcada pela barba por fazer \u2014 a face id\u00eantica \u00e0 m\u00e1scara que h\u00e1 anos eu usava.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/anelisasangravaflores.blogspot.com.br\"><strong><em>Anderson Henrique<\/em><\/strong><\/a><em> nasceu no Rio de Janeiro e \u00e9 formado em Letras. Possui textos publicados em colet\u00e2neas e premiados em concursos liter\u00e1rios. Seu livro de estreia,\u00a0\u201cAnelisa sangrava flores\u201d, foi publicado em 2014 pela\u00a0<\/em><em>editora Penalux. \u201cChame como quiser\u201d \u00e9 seu segundo livro.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As marcas metaf\u00f3ricas da narrativa de Anderson Henrique<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14336,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3428,2534,16],"tags":[3430,81,41,3431],"class_list":["post-14335","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-122a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-anderson-henrique","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-mascaras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14335","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14335"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14335\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14358,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14335\/revisions\/14358"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14336"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14335"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14335"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14335"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}