{"id":14350,"date":"2017-12-26T15:58:12","date_gmt":"2017-12-26T18:58:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14350"},"modified":"2018-02-07T16:04:45","modified_gmt":"2018-02-07T19:04:45","slug":"aperitivo-da-palavra-24","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-24\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Contos que traduzem a conflitante realidade do povo negro brasileiro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Geraldo Lima<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Capa-de-O-tapete-voador-M.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14354\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Capa-de-O-tapete-voador-M.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Capa-de-O-tapete-voador-M.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Capa-de-O-tapete-voador-M-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristiane Sobral [poeta, escritora, atriz, diretora e professora de teatro, nascida no Rio de Janeiro e radicada em Bras\u00edlia] \u00e9 uma das vozes mais contundentes da literatura negra brasileira. E, ao falar de literatura negra, falo do texto liter\u00e1rio (poesia ou prosa) que, segundo Zil\u00e1 Bernd, no seu livro <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura negra<\/em> (Editora Brasiliense, 1988, p\u00e1g. 95), \u201cconfigura-se como uma forma privilegiada de autoconhecimento e de reconstru\u00e7\u00e3o de uma imagem positiva do negro\u201d. \u00c9, tamb\u00e9m, literatura que tem o compromisso de denunciar a discrimina\u00e7\u00e3o racial e o quadro de exclus\u00e3o em que vive a maior parte da popula\u00e7\u00e3o negra no Brasil. \u00c9, em suma, uma literatura que se prop\u00f5e como militante, engajada, com todos os riscos que isso acarreta. E \u00e9 assim nos dezoito contos que comp\u00f5em o livro <em>O tapete voador<\/em> (Editora Mal\u00ea, 2016), de Cristiane Sobral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse seu livro, Cristiane Sobral nos d\u00e1 mostra de como esse tipo de narrativa se prop\u00f5e como objeto est\u00e9tico e, ao mesmo tempo, como instrumento de conscientiza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo negro sobre a import\u00e2ncia de assumir a sua verdadeira identidade racial e cultural. O confronto, a\u00ed, \u00e9 contra a <em>ideologia do<\/em> <em>embranquecimento<\/em>. A estrat\u00e9gia, nesse caso, \u00e9 tomar uma situa\u00e7\u00e3o cotidiana que exponha o problema da discrimina\u00e7\u00e3o racial ou do conflito identit\u00e1rio do negro brasileiro, de modo objetivo, quase did\u00e1tico, de maneira que o leitor saia da leitura do texto com sua consci\u00eancia mudada, ou, na linha do que alguns dos contos de <em>O tapete voador<\/em> sugerem, renas\u00e7a com nova identidade cultural ou resista sem abrir m\u00e3o das suas convic\u00e7\u00f5es raciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De imediato, ficamos tentados a ver nesse tipo de procedimento liter\u00e1rio um defeito ou uma pobreza est\u00e9tica, ao qual faltaria sutileza na constru\u00e7\u00e3o da narrativa e na representa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica das personagens. Sobre isso, nos alerta Zil\u00e1 Bernd (ibid., p\u00e1g. 98): \u201cAssim, em literatura negra, a quest\u00e3o de avalia\u00e7\u00e3o do n\u00edvel est\u00e9tico atingido n\u00e3o deve se p\u00f4r como elemento exclusivo de an\u00e1lise, ou como preocupa\u00e7\u00e3o \u00fanica da cr\u00edtica. Jack Corzani, autor da importante obra La Litt\u00e9rature des Antilles-Guyane Fran\u00e7aises (1978), (&#8230;) recoloca o problema de privilegiar o est\u00e9tico no estudo de obras que se querem essencialmente funcionais, concluindo que esse crit\u00e9rio corresponderia a condenar a pesquisa, a priori, \u00e0 esterilidade\u201d. Assim, devemos ver, em primeiro plano, o car\u00e1ter de funcionalidade desse tipo de procedimento narrativo para explicitar, no caso, os problemas raciais e sociais que afetam o negro brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 de modo consciente e corajoso que Cristiane se equilibra entre estes dois polos (o est\u00e9tico e o ideol\u00f3gico) na constru\u00e7\u00e3o dos dezoito contos que comp\u00f5em esse seu livro. A sua habilidade na constru\u00e7\u00e3o da narrativa que privilegia o elemento est\u00e9tico e a fabula\u00e7\u00e3o fica vis\u00edvel no conto <em>Bife com batatas fritas. <\/em>Nesse conto, a quest\u00e3o est\u00e9tica e a tem\u00e1tica social s\u00e3o bem articuladas, de modo que o leitor n\u00e3o tem como n\u00e3o se comover com o quadro de mis\u00e9ria e orfandade de uma crian\u00e7a de periferia. Esse \u00e9, ali\u00e1s, um dos melhores contos do volume e poderia figurar em qualquer antologia dos melhores contos brasileiros. No conto <em>O limpador de janelas<\/em>, o que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o modo como a narrativa se constr\u00f3i a partir de frases muito curtas, fragmentadas, o que torna o ritmo acelerado e surpreendente, dando conta das v\u00e1rias perip\u00e9cias amorosas do protagonista. \u00a0Ao final, o personagem Samuel, um quase p\u00edcaro, um \u201cpegador\u201d nato, ver\u00e1 que a sua condi\u00e7\u00e3o de negro em terras tupiniquins vai sempre lhe reservar surpresas desagrad\u00e1veis. Por falar em final, \u00e9 de se observar que h\u00e1, propositalmente, um elevado tom de idealiza\u00e7\u00e3o em alguns casos, beirando o inveross\u00edmil, como o que acontece no conto <em>Metamorfose<\/em>, em que tudo acaba exageradamente bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que predomine o realismo, algumas hist\u00f3rias flertam com o fant\u00e1stico, como nos contos <em>O galo preto<\/em> e <em>A samambaia<\/em>.\u00a0 O tom de sarcasmo, de deboche e de ironia molda algumas dessas narrativas, tornando ainda mais agudo e cr\u00edtico o olhar da autora sobre os epis\u00f3dios de discrimina\u00e7\u00e3o racial e de nega\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria negritude, como \u00e9 o caso dos contos <em>L\u00e9lio<\/em> e <em>Afrodis\u00edaco<\/em> (neste, ironiza-se o propalado vigor sexual dos negros). Ora narradas em terceira pessoa, ora em primeira \u2013 nesse caso, majoritariamente narradas por mulheres \u2013, as hist\u00f3rias comp\u00f5em um painel de situa\u00e7\u00f5es variadas em que o indiv\u00edduo negro se v\u00ea frente a frente com a quest\u00e3o do preconceito racial, da mis\u00e9ria ou da crise de identidade. A subjetividade feminina \u00e9 tamb\u00e9m ponto de destaque nessas hist\u00f3rias de enfrentamento e reconstru\u00e7\u00e3o da imagem, como nos contos <em>Vox mulher<\/em>, em que a protagonista expressa, numa linguagem marcadamente po\u00e9tica e intensa, seus desejos e seu orgulho de ser mulher negra, e <em>Pixaim<\/em>, no qual uma mulher rememora, de modo comovente, sua inf\u00e2ncia passada no Rio de Janeiro e marcada pelo sofrimento de se ver obrigada a mudar sua imagem, com o alisamento desastroso do cabelo, e reafirma, j\u00e1 residindo em Bras\u00edlia, seu orgulho e sua alegria de se ver no espelho como ela realmente \u00e9: uma mulher negra e madura. \u201cA gente s\u00f3 pode ser aquilo que \u00e9\u201d, afirma ao final, num claro recado aos que procuram negar a sua origem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem sempre os personagens s\u00e3o pessoas que negam a sua negritude. Algumas, pelo contr\u00e1rio, assumem a sua ancestralidade e suas caracter\u00edsticas negras e as defendem com convic\u00e7\u00e3o. Tomemos, como exemplo, o conto <em>O tapete voador<\/em>, que abre o volume, e o conto <em>Renascen\u00e7a<\/em>, que o fecha. No primeiro conto, narrado em terceira pessoa, a personagem B\u00e1rbara, de origem humilde e orgulhosa da sua cor, \u00e9 funcion\u00e1ria de uma grande empresa e tem o reconhecimento pelo seu trabalho. No momento, ela pretende se aperfei\u00e7oar mais ainda e pede o apoio da empresa para fazer uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Mas qual n\u00e3o ser\u00e1 o seu espanto e a sua decep\u00e7\u00e3o ao ser levada \u00e0 presen\u00e7a do presidente, que deve autorizar esse apoio, e encontrar l\u00e1, no posto mais alto, um homem negro? A decep\u00e7\u00e3o ficar\u00e1 por conta do que ele, partindo da sua estrat\u00e9gia de ascens\u00e3o profissional e social, vai lhe aconselhar a fazer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua apar\u00eancia. No segundo conto, tamb\u00e9m narrado em terceira pessoa, encontramos a personagem Teresa prestes a romper com a sua orienta\u00e7\u00e3o religiosa. Negra, charmosa e orgulhosa da sua cor, sente-se preterida pelos homens negros da igreja evang\u00e9lica que ela frequenta. \u201cTeresa gostava muito da sua igreja, mas seu corpo negro tamb\u00e9m sentia naquele ambiente o peso do preconceito, da discrimina\u00e7\u00e3o. Isso gerava muitos questionamentos. Por que n\u00e3o despertava o interesse dos rapazes da congrega\u00e7\u00e3o? (&#8230;) O fato \u00e9 que, naquela comunidade, os homens negros normalmente costumavam casar com mulheres brancas&#8230;\u201d O fato de ser independente e ter um estilo pr\u00f3prio (\u201cn\u00e3o alisava os cabelos\u201d), chocava os outros fi\u00e9is, e sempre era aconselhada a mudar a sua apar\u00eancia. Assim como B\u00e1rbara, s\u00f3 lhe resta resistir e ir em busca de um conv\u00edvio em que seja valorizada sem precisar negar a sua identidade racial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num pa\u00eds em que a representatividade da popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 baix\u00edssima nos meios liter\u00e1rios, nos quais circulam com maior desenvoltura as obras dos autores brancos e das autoras brancas, \u00e9 de se celebrar o trabalho de escritores e escritoras como Cristiane Sobral, que d\u00e3o voz e vez em suas narrativas e poemas \u00e0 nossa gente t\u00e3o exclu\u00edda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Geraldo Lima <\/em><\/strong><em>\u00e9 natural de Planaltina-GO e reside em Bras\u00edlia, DF. \u00c9 escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, \u201cBaque\u201d (conto, LGE Editora), \u201cUM\u201d (romance, LGE Editora), \u201cTessel\u00e1rio\u201d (minicontos, Selo 3&#215;4, Editora Multifoco), \u201cTrinta gatos e um c\u00e3o envenenado\u201d (teatro, Ponteio Edi\u00e7\u00f5es) e \u201cUma mulher \u00e0 beira do caminho\u201d (Editora Patu\u00e1). Participou de algumas antologias liter\u00e1rias e tem textos publicados em jornais, suplementos liter\u00e1rios, revistas impressas e revistas eletr\u00f4nicas, sites e blogs. \u00c9 autor do roteiro do longa de fic\u00e7\u00e3o \u201cO colar de Coralina\u201d \u2013 dire\u00e7\u00e3o de Reginaldo Gontijo \u2013 e da pe\u00e7a de teatro \u201cTrinta gatos e um c\u00e3o envenenado\u201d, encenada em 2016 em Bras\u00edlia. E-mail: <\/em><a href=\"mailto:gera.lima@brturbo.com.br\"><em>gera.lima@brturbo.com.br<\/em><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Lima reflete sobre \u201cO tapete voador\u201d, livro de contos de Cristiane Sobral <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14351,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3428,2533,16],"tags":[419,3434,250,3435,189],"class_list":["post-14350","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-122a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-contos","tag-cristiane-sobral","tag-geraldo-lima","tag-o-tapete-voador","tag-resenha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14350","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14350"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14350\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14356,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14350\/revisions\/14356"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14351"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14350"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14350"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14350"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}