{"id":14510,"date":"2018-02-01T12:27:04","date_gmt":"2018-02-01T15:27:04","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14510"},"modified":"2018-04-19T17:27:52","modified_gmt":"2018-04-19T20:27:52","slug":"aperitivopalavra-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavra-5\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p><strong>As variantes do conto<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Daniel Russell Ribas<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/INT.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14514\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/INT.jpg\" alt=\"\" width=\"290\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/INT.jpg 290w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/INT-193x300.jpg 193w\" sizes=\"auto, (max-width: 290px) 100vw, 290px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de estreia do autor C\u00e9sar Manzolillo, <em>Ang\u00fastia e outros press\u00e1gios funestos<\/em> (Gramma Editora, 2017), possui as marcas de uma obra iniciante. Sem esconder suas refer\u00eancias liter\u00e1rias, tamb\u00e9m demonstra uma vis\u00e3o pr\u00f3pria para as mesmas. Como em projeto \u201cMix Lit\u201d, que promove a constru\u00e7\u00e3o de um novo texto atrav\u00e9s dos trechos previamente conhecidos, Manzolillo relembra seus \u00eddolos em luz pr\u00f3pria. No caso, sua interpreta\u00e7\u00e3o se sustenta acima dos gigantes em que se apoia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estilo breve, quase telegr\u00e1fico de alguns contos, remete a Rubem Fonseca. Contos como \u201cCibele\u201d, \u201cGabriel\u201d e \u201cGilmar\u201d, inclusive, referenciam imediatamente o universo de submundo e viol\u00eancia exposto no seminal \u201cFeliz ano novo\u201d. Entretanto, s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es na maneira como o autor se apropria de sua fonte. Se a secura de Fonseca servia a um prop\u00f3sito realista e de choque, Manzolillo reutiliza esta artimanha como uma forma de conduzir o leitor \u00e0s entrelinhas das narrativas. Ele insinua, no lugar de situar seu receptor. No caso, ele opta por uma desconstru\u00e7\u00e3o. Quando mimetiza na superf\u00edcie o mestre, abre o espa\u00e7o para a an\u00e1lise de seu uso. Manzolillo, ent\u00e3o, oferece uma interpreta\u00e7\u00e3o labir\u00edntica, em que o narrador descreve uma cena que n\u00e3o se apresenta como uma sa\u00edda, mas uma nova passagem para a compreens\u00e3o \u00edntima de seu leitor. O leitor \u00e9 provocado a criar sua vers\u00e3o, como um novo escritor. O autor mostra as ferramentas e oferece as retic\u00eancias entre as frases.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estruturado em relatos breves, todos em 22 linhas, com os nomes de personagens como t\u00edtulos, h\u00e1 um instigante experimento sobre a fun\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. O fato de n\u00e3o se tratar de contos fechados \u00e9 a isca para que o ato da cria\u00e7\u00e3o seja a for\u00e7a motriz. Mais do que a psicologia e o cen\u00e1rio, \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o dos elementos o protagonista frequente do livro. A falta de localiza\u00e7\u00e3o dos atores neste palco, cujas escolhas e vidas s\u00e3o questionadas em m\u00faltiplas vozes, forma uma colcha opaca. O resultado \u00e9 irregular, mas segura o interesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os contos variam em g\u00eanero e alcance. Enquanto alguns s\u00e3o simples em sua estrutura, outros arriscam em uma miscel\u00e2nea de vozes cujo atrativo \u00e9 o impacto. Como em Dalton Trevisan, outro grandioso a que o livro presta homenagem, n\u00e3o \u00e9 necessariamente o ato final o \u00e1pice dram\u00e1tico. A virada pode surgir logo na metade, um efeito que mexe em toda a compreens\u00e3o do resto da hist\u00f3ria. O conto \u201cBianca\u201d \u00e9 um \u00f3timo exemplo. A princ\u00edpio um texto inofensivo, torna-se voraz ap\u00f3s uma frase espec\u00edfica inserida em meio \u00e0s cartas que a protagonista recebe. \u00c9 um \u00f3timo exemplo de como o minimalismo pode abrir o portal para uma nova vis\u00e3o sobre as a\u00e7\u00f5es de seu personagem. O que Bianca fez?, o leitor pode se perguntar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 em contos como \u201cArnaldo\u201d e \u201cRita\u201d, as narrativas s\u00e3o diretas, cujo prop\u00f3sito \u00e9 o punch line. Embora sejam seguros, funcionam dentro do corpo da obra. O livro forma um padr\u00e3o em que estes contos funcionam como alicerces, ou \u201crespiros\u201d, para mergulhos mais expressivos na metalinguagem. Manzolillo os intercala, de modo que a leitura de cada unidade passa ligada a uma anterior, mas com um todo que busca a surpresa do leitor. O autor \u00e9 bem-sucedido neste aspecto, pois n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil adivinhar o que vir\u00e1 em seguida. A sensa\u00e7\u00e3o de \u201ccaos organizado\u201d carrega uma vitalidade que sustenta o espet\u00e1culo. Mesmo em contos que n\u00e3o alcan\u00e7am seu potencial, como \u201cSaulo\u201d e \u201cClara\u201d, h\u00e1 uma indaga\u00e7\u00e3o preciosa para manter o interesse. A constru\u00e7\u00e3o, o caminho, vale mais do que a jornada. Se em textos como esses a proposta torna-se mais \u00f3bvia, \u00e9 quando se arrisca na seletividade de informa\u00e7\u00f5es que funciona a contento. Mat\u00e9rias cr\u00edpticas, como \u201cHelena\u201d e \u201cBartolomeu\u201d, mostram que os personagens s\u00e3o o que menos importa na tape\u00e7aria. S\u00e3o meios para um fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A que se destina, ent\u00e3o, <em>Ang\u00fastia e outros press\u00e1gios funestos<\/em>? Com seus altos e baixos, \u00e9 um inteligente exerc\u00edcio sobre escrita iniciante. N\u00e3o ironicamente, diversos textos lidam com escritores em come\u00e7o de carreira. Ao mesmo tempo que mostra uma voz ainda presa a seus \u00eddolos, o efeito final \u00e9 de uma reconstru\u00e7\u00e3o, jamais imita\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma relevante quest\u00e3o que permeia o livro: o que torna um material \u00fanico: originalidade ou uma maneira como nos debru\u00e7amos sobre o passado? Como encaramos o que se passou, expandimos nossa vis\u00e3o de mundo e acrescentamos ao jogo da literatura uma possibilidade refrescante. Nossos mestres n\u00e3o precisam ficar presos numa c\u00e1psula. Podemos resgat\u00e1-los com uma voz nova. A ang\u00fastia da desconstru\u00e7\u00e3o \u00e9 o que surge no livro de C\u00e9sar Manzolillo, cujo press\u00e1gio e a aprecia\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria formam a cumplicidade criativa entre autor e leitor. Se nada \u00e9 o que parece, cabe ao pr\u00f3ximo elemento na cadeia completar os espa\u00e7os em branco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Daniel Russell Ribas<\/em><\/strong><em>\u00a0\u00e9 membro do coletivo liter\u00e1rio <a href=\"http:\/\/clubedaleiturarj.blogspot.com.br\/\"><strong>Clube da Leitura<\/strong><\/a><\/em><em>, no Rio de Janeiro. Escreve cr\u00f4nicas quinzenais no site <a href=\"https:\/\/rubem.wordpress.com\"><strong>RUBEM<\/strong><\/a>. Organizou e participou de diversas colet\u00e2neas de contos. Ganhou o Pr\u00eamio Argos pela edi\u00e7\u00e3o de \u201cMonstros Gigantes \u2013 Kaiju\u201d, em parceria com Luiz Felipe Vasquez.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Russell Ribas comenta a estreia em livro de C\u00e9sar Manzolillo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14511,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3450,2533],"tags":[11,3459,81,3458,189],"class_list":["post-14510","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-123a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-cesar-manzolillo","tag-conto","tag-daniel-russell-ribas","tag-resenha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14510","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14510"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14510\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14600,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14510\/revisions\/14600"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14510"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14510"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14510"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}