{"id":14519,"date":"2018-02-04T11:37:12","date_gmt":"2018-02-04T14:37:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14519"},"modified":"2018-04-19T17:27:39","modified_gmt":"2018-04-19T20:27:39","slug":"dedos-de-prosa-iii-58","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-58\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Glauber da Rocha<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_14558\" aria-describedby=\"caption-attachment-14558\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/14.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14558 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/14.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"272\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/14.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/14-300x163.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14558\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Raquel Piantino<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EXU PAG\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prometi que nunca mais iria ficar preso por causa de uma mulher: podia ser a Vivi Fernandez, a M\u00f4nica Mattos, a Morgana Dark ou a Fernanda Corr\u00eaa que ia cagar para ela. Foi o que decidi na pris\u00e3o. E n\u00e3o s\u00f3 isto: quando sa\u00edsse, iria viver uma vida honesta, sem feiti\u00e7arias, assassinatos. Mas, ao ver a boazuda da Ana Rita saindo da casa de minha m\u00e3e, n\u00e3o pensei duas vezes para correr atr\u00e1s dela, para me enfiar em mais uma roubada em troca do amor de uma mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela entrou em seu carr\u00e3o, bati na janela, Ana Rita abriu. Olhei para seus olhos e por um instante pensei estar olhando o c\u00e9u. Nunca havia visto olhos azuis t\u00e3o claros como os dela, era linda mesmo, Ana Rita dava de dez a zero nas mulheres das revistas que eu vivia folheando quando estava na pris\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Eu fa\u00e7o o que voc\u00ea quer, \u00e9 s\u00f3 me pagar \u2013 eu fui logo dizendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela abriu a porta e eu entrei, sentando-me no banco do passageiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 A sua m\u00e3e n\u00e3o quis fazer o trabalho para mim&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Que trabalho?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Matar meu esposo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Olha, dona, faz mais de um ano que minha m\u00e3e n\u00e3o faz mais este tipo de trabalho, ela fez o santo&#8230; E quem \u00e9 do santo n\u00e3o pode fazer o mal, s\u00f3 o bem&#8230; Ainda mais quem \u00e9 de Omolu, santo que abomina a maldade&#8230; Mas eu fa\u00e7o&#8230; \u00c9 s\u00f3 pagar bem que fa\u00e7o! \u2013 falei olhando para as suas pernas e depois para os seus olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Interessante.\u00a0 Como \u00e9 seu nome mesmo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Zeca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Zeca, voc\u00ea falou que mata meu esposo. Do que voc\u00ea precisa? \u2013 disse ela, arrancando com o carro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falei para Ana Rita tudo o que precisava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quanto vai dar tudo isto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disse o valor e ela parou o carro perto da ponte, para preencher o cheque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quantos dias, Zeca? \u2013 ela quis saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Dentro de um m\u00eas no m\u00e1ximo ele estar\u00e1 morando com o diabo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Precisa de mais alguma coisa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 S\u00f3 o nome do infeliz e uma foto 3&#215;4, se tiver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chamava-se Ram\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ana Rita tinha uma foto 3&#215;4 do marido na carteira, puxou-a e me deu. Olhei para o indiv\u00edduo: era um homem branco de bigode e sobrancelhas bem pretas, olhar s\u00e9rio, estava de terno e gravata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 E se ele n\u00e3o morrer? \u2013 Ana Rita perguntou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Se ele n\u00e3o morrer na macumba, eu mesmo o mato na paulada. N\u00e3o ser\u00e1 o primeiro&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal como minha m\u00e3e antes de fazer o santo, na segunda-feira n\u00e3o tinha nem para o cigarro. \u00c9 o que diz a B\u00edblia \u2013 se tinha algo que me fazia passar o tempo na pris\u00e3o era a B\u00edblia, a B\u00edblia e as revistas de mulheres peladas \u2013: \u201ctodo presente e todo bem mal adquirido perecer\u00e3o.\u201d Isto est\u00e1 no livro do Eclesi\u00e1stico. No livro do Eclesi\u00e1stico a gente encontra todas as respostas da vida. Nele diz tamb\u00e9m: \u201co trabalhador dado ao vinho n\u00e3o se enriquecer\u00e1, e aquele que se une \u00e0s prostitutas \u00e9 um homem sem valor algum\u201d. Eu era assim. Um homem sem valor algum, sempre entregue \u00e0 cacha\u00e7a e \u00e0s prostitutas de toda estirpe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No m\u00eas seguinte, Ana Rita apareceu. O carro dela estava todo sujo, com a lama da favela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sujei todo meu carro&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o carro que est\u00e1 sujo n\u00e3o, dona. Voc\u00ea tamb\u00e9m est\u00e1&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Onde? \u2013 disse ela, olhando para a sua roupa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Esque\u00e7a. Diga&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela me olhou nos olhos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 O homem est\u00e1 mais vivo do que antes&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Droga!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 E agora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Agora vou ter que fazer outro trabalho no cemit\u00e9rio, para um exu pag\u00e3o. O problema \u00e9 que acabou o dinheiro, preciso de mais algum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo contrariada, Ana Rita me deu mais dinheiro. Fui num cemit\u00e9rio bem assombrado, \u00e0 meia-noite. A lua estava minguante. Se voc\u00ea deseja acabar com a vida de uma pessoa, tem que ser nessa lua. Porque a lua estava minguante n\u00e3o dava para ver quase nada na minha frente. Me cuidava para n\u00e3o acabar trope\u00e7ando numa tumba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta vez n\u00e3o levei um bode, s\u00f3 um galo preto, u\u00edsque e charutos. Fui indo. Eu precisava chegar l\u00e1 no fim, onde os trabalhos s\u00e3o feitos. De vez em quando encontramos algu\u00e9m no caminho, mas desta vez n\u00e3o tinha ningu\u00e9m, nem o coveiro cuidando das covas. Olhei para os lados, acendi as velas e fiz o trabalho. Terminei tudo r\u00e1pido e sa\u00ed daquele cemit\u00e9rio assombrado. Depois fiquei em casa, esperando not\u00edcias de Ana Rita. Passou uma semana e ela apareceu novamente, mas desta vez irritada porque o feiti\u00e7o n\u00e3o tinha vingado:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 O santo de seu esposo \u00e9 muito forte, ele deve ser de Ogum ou de Xang\u00f4. Na macumba n\u00e3o vai ter jeito. Vai ter que morrer na paulada mesmo. Mas vou ter que cobrar por esse servi\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Vou ter que gastar mais dinheiro, Zeca?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quantos desta vez?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falei o valor e Ana Rita concordou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Mas \u00e9 o seguinte. Eu tenho que prestar algum servi\u00e7o na casa, para bolar o melhor plano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Vou dispensar o jardineiro. Voc\u00ea entra no lugar dele, na segunda-feira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ok.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ana Rita estava indo embora quando lhe pedi um dinheiro adiantado. Ela reclamou, mas acabou me concedendo. Passei o s\u00e1bado e domingo bebendo, fumando e me deitando com as prostitutas de um bordel bem fuleiro perto de casa. Na segunda-feira pedi dinheiro emprestado para minha m\u00e3e, para comprar um passe de \u00f4nibus e uma carteira de cigarros. Ela me olhou com o olhar atravessado, sabia que eu estava tramando o mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pode ficar tranquila, minha m\u00e3e, arrumei um trabalho, de jardineiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o me engana, filho. \u00c9 na cadeia que voc\u00ea quer passar a maior parte de sua vida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha m\u00e3e tinha uma intui\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria, como a maioria dos filhos e filhas de Omolu. Muitas vezes ela nem precisava abrir as cartas ou jogar os b\u00fazios para saber o que seu cliente precisava. Eu sabia se era coisa boa ou n\u00e3o conforme o tempo da consulta: quando o cliente queria algo mal, ela j\u00e1 o dispensava, quando o cliente queria algo bom, a consulta demorava. Eu sabia que Ana Rita n\u00e3o queria algo bom porque do mesmo jeito que entrou, saiu. \u00c9 impressionante ver o quanto que a beleza n\u00e3o define o car\u00e1ter de uma pessoa: quem iria dizer que uma mulher angelical como Ana Rita n\u00e3o passava de uma bandida? A beleza f\u00edsica \u00e9 a maior das ilus\u00f5es, toda ilus\u00e3o \u00e9 uma pris\u00e3o, como eu era um sujeito que vivia iludido, vivia preso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheguei sete horas da manh\u00e3 na casa da Ana Rita. Casa n\u00e3o, uma mans\u00e3o! Ela me deu o macac\u00e3o de jardineiro e me mostrou a dispensa com as ferramentas de trabalho: tinha enxada, p\u00e1s pequenas e p\u00e1s grandes, picaretas, serrotes. Era ali tamb\u00e9m o meu canto, onde eu devia almo\u00e7ar e descansar. Queria me ver trabalhando, para n\u00e3o levantar suspeitas. Eu odeio trabalhar, ainda mais debaixo do sol. Na cadeia recusei todos os trabalhos que diminu\u00edssem a minha pena. Mas fazer o qu\u00ea? Trato \u00e9 trato e eu iria ter que trabalhar debaixo daquele sol que \u00e0s sete da manh\u00e3 j\u00e1 estava forte pra cacete.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi o que fiz at\u00e9 o meio-dia, quando Ram\u00e3o chegou, em sua BMW branca. Estava vestido tal como na foto 3&#215;4. N\u00e3o suava, \u00e9 claro, quem vai suar dentro de uma BMW? Ao me ver me cumprimentou, mas fez com um desinteresse pr\u00f3prio de quem n\u00e3o gosta da ral\u00e9. Me deu mais vontade de mat\u00e1-lo. Fiquei pensando na origem de Ana Rita: de onde ela veio, da vida honesta ou das cal\u00e7adas da vida? Por que queria matar seu esposo? S\u00f3 pelo dinheiro ou por \u00f3dio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ram\u00e3o era um pol\u00edtico corrupto, um deputado. Um \u00edmpio. O \u00edmpio que pensava da seguinte maneira, com seus comparsas: \u201ctiranizamos os justos na sua pobreza (o pobre), n\u00e3o poupemos as vi\u00favas (e as m\u00e3es solteiras) e n\u00e3o tenhamos considera\u00e7\u00e3o com os cabelos brancos do anci\u00e3o (os aposentados)\u201d. Ele diz: \u201cque a nossa for\u00e7a seja o crit\u00e9rio do direito, porque o fraco, na verdade, n\u00e3o serve para nada!\u201d. \u00c9 assim que pensa o pol\u00edtico corrupto, era assim que certamente pensava o deputado Ram\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hora do almo\u00e7o Ana Rita mandou a Luana, sua cozinheira, trazer um prato de comida: seria o mesmo que foi servido em sua mesa? A cozinheira era uma mulher negra e bondosa, carregava uma corrente bem fina no pesco\u00e7o, com um pingente do Cristo Crucificado. Ela era simp\u00e1tica, n\u00e3o muito bonita, mas uma mulher que pelo jeito parecia saber colocar o homem no caminho estreito, no caminho correto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conversamos um pouco. Gostou de conversar comigo. Toda vez que ela vinha me trazer o almo\u00e7o, convers\u00e1vamos. Ela me falava passagens b\u00edblicas que eu j\u00e1 estava cansado de saber, contudo com um sentido diferente, com um significado diferente: enquanto eu lia procurando a lei, ela lia buscando o amor. Me envergonhei. Comecei a me interessar por Luana. Ela era um anjo que Deus havia enviado em minha vida, a melhor coisa que podia fazer era casar com uma mulher feito a Luana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensando assim, veio a vontade de desistir do plano de matar Ram\u00e3o, de me arrepender, de trabalhar honestamente e de devolver \u00e0 Ana Rita todo o dinheiro que tomei dela. Pensei em me converter, em deixar esses exus pag\u00e3os que eu me envolvia de lado e colocar Jesus no altar da minha vida, tornar-me um justo, andar lado a lado com as entidades de luz, com os anjos e os ap\u00f3stolos. Ainda dava tempo. O ladr\u00e3o que foi crucificado com Jesus se arrependeu antes de morrer e Cristo o perdoou. N\u00e3o sei se ele teve uma grande recompensa nos c\u00e9us, mas com certeza entrou ao lado do Filho de Deus e, portanto, protegido. Era melhor fazer o mesmo. Chegar em Luana e dizer: case comigo! Foi o que fiz. Quando ela entregou o meu prato de comida l\u00e1 naquela dispensa escura, eu peguei em sua m\u00e3o e a pedi em casamento:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Casamos em tua igreja, Luana, e seremos felizes, com a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Est\u00e1 bem, Zeca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Ana Rita era uma mulher astuciosa e malvada. No Eclesi\u00e1stico est\u00e1 escrito que \u201ca mulher maldosa \u00e9 como um jugo de bois desajustado; quem a possui \u00e9 como aquele que pega um escorpi\u00e3o\u201d. Seu esposo e eu est\u00e1vamos nas m\u00e3os de um, pronto para nos ferroar sem d\u00f3. Falei com ela, disse:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ana Rita, n\u00e3o quero mais matar ningu\u00e9m nesta vida. Por mais que seu marido mere\u00e7a morrer, que seja pelas m\u00e3os de outro justiceiro, n\u00e3o eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falei-lhe que iria arrumar um emprego e que iria devolver todo dinheiro que me deu, centavo por centavo. Mas Ana Rita, como disse, era uma mulher astuciosa e malvada. Disse-me que n\u00e3o confiava que longe dela pudesse lhe devolver o que devia, que seria mais correto de minha parte ficar e pagar com meu trabalho. Todo m\u00eas ela descontaria a metade de meu ordenado. Em tr\u00eas meses estava livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miseravelmente, aceitei. \u201cToda mal\u00edcia \u00e9 leve, comparada com a mal\u00edcia de uma mulher\u201d, j\u00e1 dizia Eclesi\u00e1stico e eu ca\u00ed na sua mal\u00edcia. No fim de um expediente, quando Ram\u00e3o estava viajando, Ana Rita me ofereceu um copo de vinho. Eu teria rejeitado tranquilamente se n\u00e3o tivesse visto pelo decote de sua blusa seus seios brancos bem redondos e soltos, desprotegidos. Eram como ma\u00e7\u00e3s suculentas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o resisti, esqueci meu compromisso com Luana e tomei num gole s\u00f3 todo o copo de vinho. Bebi outro copo cheio e mais outro. O vinho reacendeu o fogo de minhas paix\u00f5es e quando vi estava na cama da pecadora. Entrei nela como um animal, virei Ana Rita de um lado, de outro, fi-la segurar firme nas barras de ferro de sua cama! Quando ca\u00ed estremecido de gozo, ela pediu:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Mata ele para mim, meu homem, mata?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Mato sim!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois dias depois Ram\u00e3o estava de volta. Quando deu meu hor\u00e1rio, sa\u00ed da casa deles e fiquei l\u00e1 fora, esperando o telefonema de Ana Rita, me informando se Ram\u00e3o j\u00e1 dormia. Luana saiu um pouco depois, mas n\u00e3o me viu, pois eu estava atr\u00e1s de uma \u00e1rvore. Onze da noite Ana Rita ligou. Pulei o port\u00e3o da casa, fui at\u00e9 \u00e0 dispensa, peguei uma p\u00e1 e entrei na casa. Ana Rita, com uma camisola vermelha, abriu-me a porta. Ram\u00e3o roncava. Cheguei perto dele e comecei a desferir os golpes com a p\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele deve ter morrido na primeira, que acertei em cheio em sua cabe\u00e7a. Fui para cima de Ana Rita, para beij\u00e1-la. Ana Rita n\u00e3o quis meu beijo, escapou dos meus bra\u00e7os, sacou o celular e ligou para a pol\u00edcia. Tive vontade de mat\u00e1-la, mas o desespero de ser preso foi maior, sa\u00ed correndo. A pol\u00edcia me pegou a dez quadras da casa dela. Fui preso e enquadrado no artigo 157 seguido pelo 213. Hoje, aqui na cadeia, cada vez que vejo uma de minhas revistas de mulheres peladas, fa\u00e7o a mesma promessa de sempre: nunca mais volto para a cadeia por causa de uma mulher! Nunca!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Glauber da Rocha<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritor e professor. Formado em filosofia e em pedagogia, com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em educa\u00e7\u00e3o especial inclusiva. Mora em Campo Grande, MS. Publicou \u201cPelas ruas de tua cidade, \u00f3 morena!\u201d (poesias\/2018) e \u201cCr\u00f4nicas Para o Face\u201d (cr\u00f4nicas\/ 2018). Para 2018, pretende lan\u00e7ar dois livros de contos: \u201cCom os dentes que ainda me restam\u201d e \u201cmatando an\u00f5es\u201d.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atropelos do desejo num conto de Glauber da Rocha <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14558,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3450,2534],"tags":[81,41,3469,3470],"class_list":["post-14519","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-123a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-exu-pagao","tag-glauber-da-rocha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14519","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14519"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14519\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14562,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14519\/revisions\/14562"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14558"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}