{"id":14524,"date":"2018-02-04T12:26:12","date_gmt":"2018-02-04T15:26:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14524"},"modified":"2018-04-19T17:27:25","modified_gmt":"2018-04-19T20:27:25","slug":"jogo-de-cena-23","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/jogo-de-cena-23\/","title":{"rendered":"Jogo de Cena"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nuances da diferen\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Vivian Pizzinga <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_14526\" aria-describedby=\"caption-attachment-14526\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Imagem-1-C\u00e1ssia-Damasceno-Foto-Nana-Moraes.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14526 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Imagem-1-C\u00e1ssia-Damasceno-Foto-Nana-Moraes.jpeg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Imagem-1-C\u00e1ssia-Damasceno-Foto-Nana-Moraes.jpeg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Imagem-1-C\u00e1ssia-Damasceno-Foto-Nana-Moraes-300x200.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14526\" class=\"wp-caption-text\">C\u00e1ssia Damasceno \/ Foto: Nana Moraes<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Preto<\/em>, novo projeto da companhia brasileira de teatro, com dire\u00e7\u00e3o de Marcio Abreu e dramaturgia dele, Grace Pass\u00f4 e Nadja Naira, se inicia a partir da fala p\u00fablica de uma mulher negra e \u00e9 fruto de uma investiga\u00e7\u00e3o sobre as formas de lidar com a diferen\u00e7a e, mais do que isso, sobre as formas de recus\u00e1-la em nossas sociedades. E o fruto dessa investiga\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem longe de ser um espet\u00e1culo qualquer, no que traz de riqueza de linguagens, arrojo na montagem e, sobretudo, import\u00e2ncia do assunto tratado. Os desdobramentos do trabalho do grupo no espectador s\u00e3o impacto e reflex\u00e3o, para dizer o m\u00ednimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma fala de Angela Davis, em uma confer\u00eancia realizada em Salvador, Bahia, em 2017, reproduzida no texto de Marcio Abreu no programa da pe\u00e7a, que vale a pena repetir aqui, pois ela \u00e9 a s\u00edntese do que <em>Preto<\/em> consegue promover: \u201cQuando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo \u00e9 desestabilizado a partir da base da pir\u00e2mide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A observa\u00e7\u00e3o de Angela Davis \u00e9 certeira, e talvez sirva para todas as outras bases de pir\u00e2mides sociais mundo afora, e para todos os demais pensamentos que enxergam na luta no coletivo \u2013 e somente no coletivo \u2013 a maneira de mudar radicalmente os alicerces de sistemas habituados ao cacoete da injusti\u00e7a e da desigualdade social, em todos os seus aspectos. E \u00e9 interessante como se pode fazer uma transposi\u00e7\u00e3o dessa fala ao espet\u00e1culo, como se este \u00faltimo conseguisse, em sua dramaturgia, expressar exatamente o que ela aponta, traduzindo a ideia para a linguagem teatral: no in\u00edcio, uma mulher negra se movimenta, \u00e9 a fala de uma mulher negra, como a introdu\u00e7\u00e3o de uma confer\u00eancia ou um semin\u00e1rio, que come\u00e7a questionando a posi\u00e7\u00e3o da mesa e do microfone. Os espa\u00e7os que as coisas ocupam direcionam tamb\u00e9m os espa\u00e7os que as pessoas ocupam, a arquitetura dos lugares tem influ\u00eancia sobre comportamentos (Foucault j\u00e1 observava isso ao estudar o hospital, os manic\u00f4mios e os pres\u00eddios). Mudar os m\u00f3veis, as posi\u00e7\u00f5es, os lugares, as fun\u00e7\u00f5es, os papeis provoca, necessariamente, outras mudan\u00e7as menos concretas e que t\u00eam grande chance de atingir as atitudes e a cultura. Da mesma maneira, nesse in\u00edcio de espet\u00e1culo, tudo come\u00e7a aparentemente de modo obediente, cada coisa no lugar onde se espera que esteja, e a fala da mulher aponta a problem\u00e1tica desses lugares. A partir da\u00ed, o desenrolar do espet\u00e1culo \u00e9 ent\u00e3o uma esp\u00e9cie de furac\u00e3o crescente, de amplia\u00e7\u00e3o das ideias em forma de fala, dan\u00e7a, m\u00fasica, tal como as mulheres negras que, ao se movimentarem na base da pir\u00e2mide, movimentam a pir\u00e2mide inteira. E tudo isso \u00e9 acompanhado pela trilha sonora que Felipe Storino executa ao vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A for\u00e7a e o arrojo perpassam a pe\u00e7a integralmente, desde a delicada e envolvente cena protagonizada por Grace Pass\u00f4 e Renata Sorrah, em que, muito pr\u00f3ximas fisicamente, dividem um mesmo microfone para ir descrevendo uma aproxima\u00e7\u00e3o afetiva e corporal entre mulheres, cujo desfecho brilhante da cena n\u00e3o comentarei para n\u00e3o estragar, at\u00e9 a fant\u00e1stica dan\u00e7a com Felipe Soares e Rodrigo Bolzan, numa esp\u00e9cie de duelo corporal e coreogr\u00e1fico &#8211; o homem branco e o homem negro dan\u00e7arinos &#8211; com enormes cabe\u00e7as que s\u00e3o suas caricaturas, promovendo o contraste entre a express\u00e3o da dan\u00e7a e a inexpressividade da m\u00e1scara.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14527\" aria-describedby=\"caption-attachment-14527\" style=\"width: 333px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Imagem-2-Renata-Sorrah-e-Grace-Pass\u00f4_Preto_Foto_Nana-Moraes.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14527 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Imagem-2-Renata-Sorrah-e-Grace-Pass\u00f4_Preto_Foto_Nana-Moraes.jpeg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Imagem-2-Renata-Sorrah-e-Grace-Pass\u00f4_Preto_Foto_Nana-Moraes.jpeg 333w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Imagem-2-Renata-Sorrah-e-Grace-Pass\u00f4_Preto_Foto_Nana-Moraes-200x300.jpeg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14527\" class=\"wp-caption-text\">Renata Sorrah e Grace Pass\u00f4 \/ Foto: Nana Moraes<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cena em que C\u00e1ssia Damasceno se apresenta prometendo sambar, para depois prometer cantar, e depois prometer ficar sozinha para o p\u00fablico, traz tamb\u00e9m uma palpita\u00e7\u00e3o qualquer dif\u00edcil de explicar, talvez por gerar a expectativa de que algo supostamente \u00f3bvio vai acontecer, a mulher negra com voz potente e gingado prestes a entreter uma plateia: ela vai, volta, abre a boca como quem est\u00e1 na imin\u00eancia de um grito ou uma nota ou um protesto, sai e retorna, e nada acontece do que se espera acontecer, embora tudo aconte\u00e7a do que n\u00e3o se espera acontecer. Essa cena, como a pe\u00e7a inteira, promove um desarranjo nas expectativas tradicionais, nas ideias prontas, porque cutuca uma quest\u00e3o primordial: como lidar com a imagem e o que esperar da imagem? A imagem do branco, a imagem do negro, a imagem do artista, a imagem da mulher brasileira que samba e rebola, a imagem do prazer, a imagem que o outro faz de n\u00f3s e sobre a qual n\u00e3o temos a menor possibilidade de ajuste, retifica\u00e7\u00e3o ou controle, como lidar com isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntas sobre \u201ccomo voc\u00ea se v\u00ea\u201d ou \u201ccomo \u00e9 carregar a sua imagem por a\u00ed\u201d ou \u201cvoc\u00ea tem problema com a imagem\u201d ou \u201cposso ent\u00e3o tirar uma foto\u201d geram desconforto e reflex\u00e3o por parte dos atores-protagonistas, cujas contradi\u00e7\u00f5es ficam expl\u00edcitas na discrep\u00e2ncia entre respostas dadas e comportamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao final da apresenta\u00e7\u00e3o a que tive oportunidade de assistir fascinada e capturada, observei que, ap\u00f3s os aplausos, a plateia foi se retirando do Teatro III do CCBB de modo silencioso. As pessoas pareciam impactadas, e em vez de interagirem entre si comentando sobre a pe\u00e7a ou o que quer que fosse, sa\u00edam um pouco mudas, talvez porque a montagem seja mesmo de tirar o f\u00f4lego e o ch\u00e3o, gerando certa dose de fascina\u00e7\u00e3o que \u00e9 preciso mais sentir do que falar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Vivian Pizzinga<\/em><\/strong><em> lan\u00e7ou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos p\u00e9s (Oito e meio, 2015), al\u00e9m de ter participado de algumas colet\u00e2neas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patu\u00e1, 2016). Trabalha tamb\u00e9m com psican\u00e1lise e Sa\u00fade do Trabalhador.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivian Pizzinga escreve sobre \u201cPreto\u201d, pe\u00e7a que sonda as diferen\u00e7as humanas<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14525,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3450,2537],"tags":[12,3334,3460,2716],"class_list":["post-14524","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-123a-leva","category-jogo-de-cena","tag-jogo-de-cena","tag-peca","tag-preto","tag-vivian-pizzinga"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14524","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14524"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14524\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14599,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14524\/revisions\/14599"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14525"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}