{"id":14662,"date":"2018-04-18T10:13:46","date_gmt":"2018-04-18T13:13:46","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14662"},"modified":"2018-04-19T17:25:07","modified_gmt":"2018-04-19T20:25:07","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-57","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-57\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Elis Matos<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual sentindo po\u00e9tico ter\u00e1 a vida para algu\u00e9m cujo existir exige re-existir, a todo o momento? Resistir ao \u00f3dio, ao preconceito, \u00e0s m\u00faltiplas viol\u00eancias, e, por uma esp\u00e9cie de catarse, encher o mundo com beleza, movimento e poesia. Com quais cores tinge-se a face dessa artista, que joga com a sua n\u00e3o-exist\u00eancia, com o seu n\u00e3o-lugar no universo das representa\u00e7\u00f5es bin\u00e1rias?\u00a0 De quantas <em>performances <\/em>se constitui o cotidiano dessa poeta multifacetada? Entender o artista como este \u2018ser no mundo\u2019, que reflete, dialoga e problematiza a realidade, nos possibilita definir o fazer art\u00edstico, enquanto ferramenta social. No caso da poesia, por mais intuitivo que seja o ato de escrever, nesta atividade est\u00e3o imbricadas todas as quest\u00f5es que permeiam a exist\u00eancia concreta daquele que escreve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atra\u00eddos por seus escritos, come\u00e7amos a entrevistar <strong>JeisiEk\u00ea de Lundu<\/strong>. Mas, para nossa surpresa, nos deparamos com um del\u00edrio de artista. Uma ang\u00fastia criativa capaz de animar mil corpos e deslumbrar todos os olhares de quem topar pela frente. \u00c9 multi, tem mil facetas, n\u00e3o h\u00e1 como coloc\u00e1-la no singular. JeisiEk\u00ea de Lundu \u00e9 plural. Artista visual, <em>performer<\/em>, poeta, costureira, artes\u00e3 e criatura de si mesma, a monxtra n\u00e3o-bin\u00e1ria nascida na fronteira de Minas\\Bahia, vive em Salvador, onde realiza performances nas ruas, em festivais de m\u00fasica eletr\u00f4nica e na Ter\u00e7a Mais Estranha do Mundo, em que atua como Dramaqueen, e em saraus po\u00e9ticos. Estuda Artes na UFBA, j\u00e1 produziu desde saraus a exposi\u00e7\u00f5es, viradas culturais e shows espet\u00e1culos. Atualmente, flerta com o cinema e com o design de joias. Com poemas publicados na colet\u00e2nea online <em>Profundan\u00e7as 2<\/em>, JeisiEk\u00ea de Lundu fala de suas exist\u00eancias, enquanto artista transexual fora da representa\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria homem\/mulher, por meio do seus escritos e acaba por realizar uma milit\u00e2ncia po\u00e9tica cujos efeitos j\u00e1 se notam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14666\" aria-describedby=\"caption-attachment-14666\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/JeisiEk\u00ea-de-Lundu-Foto-Levi-MendeIn.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14666 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/JeisiEk\u00ea-de-Lundu-Foto-Levi-MendeIn.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/JeisiEk\u00ea-de-Lundu-Foto-Levi-MendeIn.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/JeisiEk\u00ea-de-Lundu-Foto-Levi-MendeIn-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14666\" class=\"wp-caption-text\">JeisiEk\u00ea de Lundu \/Foto: Levi Mendes<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No processo criativo da escrita, \u00e9 profunda a rela\u00e7\u00e3o entre a geografia interior e o local onde nascemos. Em seu poema intitulado <em>Enquanto meus p\u00e9s balan\u00e7am, <\/em>publicado na colet\u00e2nea <em>Profundan\u00e7as 2, <\/em>voc\u00ea faz uma analogia entre seu local de nascimento \u201cfronteira entre Bahia e Mina Gerais\u201d e o seu \u201cn\u00e3o-lugar\u201d entre as categorias de g\u00eanero configuradas unicamente a partir do binarismo homem\/mulher. Discorra a respeito do modo como ocorrem as rela\u00e7\u00f5es entre as suas viv\u00eancias e o processo criativo em sua poesia. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JeisiEk\u00ea de Lundu &#8211;<\/strong> Para pensar no que voc\u00ea chama de geografia interior busco o deslocamento. Nasci em uma fam\u00edlia crist\u00e3 tradicional, fui educada dentro desses preceitos, esse corpo que desde a primeira inf\u00e2ncia j\u00e1 percebe que n\u00e3o faz parte daquele territ\u00f3rio. Dentro de si cresce uma imensa vontade de buscar novas experi\u00eancias para desvendar o seu interior, essa viagem emancipat\u00f3ria, n\u00e3o s\u00f3 de lugar &#8211; tornando o n\u00e3o-lugar um habitat &#8211; mas tamb\u00e9m de identidade, vagar por territ\u00f3rios outros me permitiu entender a transitoriedade, que \u00e9 como enxergo tanto minha cria\u00e7\u00e3o, quanto minha identidade de g\u00eanero. E a escrita encontra o lugar de cartografia, como alfinetes em um mapa na parede, marcando tanto o tempo-espa\u00e7o, quanto o corpo e a experi\u00eancia. Hoje, sou artista visual, trabalho com a imagem, com a forma, as linhas e a cor, e \u00e9 interessante que at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s eu tinha a escrita como uma ferramenta de registro do tempo e das minhas rela\u00e7\u00f5es. Colocava esses escritos na gaveta, guardava esses restos de papel, meados de letras e encontros de palavras para futuras medita\u00e7\u00f5es. No rio dos encontros fui despertada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; <em>Profundan\u00e7as 2<\/em>, obra colaborativa lan\u00e7ada em plataforma online pela Voo Audiovisual, em 2017, \u00e9 descrita por sua organizadora, a professora mestra e <em>performer <\/em>Daniela Galdino, como \u201cresultado de uma desobedi\u00eancia \u00e0 din\u00e2mica do mercado liter\u00e1rio marcada pela hierarquia\u201d. Nesse sentido, qual a sua opini\u00e3o acerca do significado desta colet\u00e2nea para o contexto do sul baiano? E, em maior escala, no contexto brasileiro atual? Fazer parte do conjunto de dezesseis escritoras in\u00e9ditas (em sua maioria) e dezenove <em>fot\u00f3grafes<\/em>, oriundas de diversas cidades baianas e de outros estados brasileiros, que comp\u00f5e esta colet\u00e2nea, gerou frutos em seu fazer criativo e na sua vis\u00e3o de si, enquanto escritora? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JeisiEk\u00ea de Lundu &#8211;<\/strong> \u00c9 sempre dito pela m\u00eddia que n\u00f3s &#8211; pessoas que vivem nesse \u2018continente\u2019 que chamamos Brasil &#8211; lemos muito pouco. Mas o que nunca \u00e9 colocado em reflex\u00e3o \u00e9 o acesso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Onde ela se concentra? Quem s\u00e3o os protagonistas da produ\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o? Quem tem lugar de destaque nas feiras liter\u00e1rias? \u00c9 uma resposta dif\u00edcil? Eu diria que n\u00e3o, j\u00e1 que ela \u00e9 a mesma se realocarmos a pergunta para outros campos da arte e da pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o da sociedade. Uma pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagn\u00e8, da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), revela esses dados: os autores, na maioria, s\u00e3o brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo (47,3% e 21,2%). O que vivemos na arte de escrever est\u00e1 ligado a quem pode falar &#8211; escrever nesse caso &#8211; contar sua hist\u00f3ria e se fazer vis\u00edvel nessa mata fechada e espinhosa que \u00e9 a literatura. Eu passava por um per\u00edodo bem dif\u00edcil, quando recebi uma mensagem de Daniela Galdino me convidando para fazer parte da antologia.\u00a0 De in\u00edcio, me questionei se eu escrevia. Rabisco frases h\u00e1 muito tempo, mas contava minhas hist\u00f3rias para eu mesma, sempre enxerguei como di\u00e1rio, cartografias que guardava em uma gaveta. Selecionei alguns textos que estavam mais pr\u00f3ximos e enviei. N\u00e3o sei bem ao certo o que passou na cabe\u00e7a daquela criatura, me selecionou e hoje estou publicada junto com Lanmi Carolina, minha irm\u00e3 travesti que fez fotografias incr\u00edveis para a mesma colet\u00e2nea. Perceber que o que eu escrevia podia dialogar com outras pessoas, que aquelas palavras poderiam servir de flecha, chamar para reflex\u00e3o foi um dos primeiros impactos que tive com a antologia. Encontrar escritoras, perceber pessoas pr\u00f3ximas abrindo suas gavetas e revelando seus escritos em recitais ou nas redes sociais, mostra que j\u00e1 existe fruto desse trabalho nessas a\u00e7\u00f5es. Hoje escrevo mais do que antes, entendo melhor o que \u00e9 essa visceralidade, que vem e s\u00f3 nos deixa quieta quando o papel est\u00e1 borrado de tinta. Escrevo pra respirar, para que as palavras n\u00e3o me sufoquem, para que um suspiro novo venha. N\u00e3o sou a primeira pessoa trans a publicar, tiveram v\u00e1rias outras, n\u00e3o \u00e9 algo novo, mas ainda existe pouca visibilidade. <em>Profundan\u00e7as 2<\/em> causou muita coisa dentro de mim e sei que o mesmo aconteceu com as v\u00e1rias escritoras e fotografes, que publicaram junto comigo. Reunir escritoras, em sua maioria nordestinas, que n\u00e3o t\u00eam a escrita como profiss\u00e3o, mas que t\u00eam pot\u00eancia e exist\u00eancia como discurso \u00e9 uma desobedi\u00eancia, como fala a pr\u00f3pria organizadora. <em>Profundan\u00e7as<\/em> \u00e9 um ato de guerrilha e na m\u00e3o da cada combatente tem uma vara de cansan\u00e7\u00e3o esperando o momento certo para o ataque.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No poema <em>Enquanto meus p\u00e9s balan\u00e7am<\/em>, ao declarar seu n\u00e3o-lugar no mundo das representa\u00e7\u00f5es, como nos versos <em>\u201cnem menino nem menina\u201d\/ sempre do lado de fora, sempre \u00e0 margem\u201d<\/em>, voc\u00ea demarca, ao mesmo tempo, seu lugar de luta. Os lugares da invisibilidade, da n\u00e3o representa\u00e7\u00e3o, \u00a0o \u201cn\u00e3o lugar\u201d, expostos no poema, denotam total conson\u00e2ncia entre uma poesia quase autobiogr\u00e1fica e sua postura combativa. Conte-nos como ocorreu o processo criativo desta poesia, em especial, na qual a pulsa\u00e7\u00e3o dos desejos conduz a fluidez dos corpos para longe de qualquer categoriza\u00e7\u00e3o estanque do g\u00eanero. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JeisiEk\u00ea de Lundu &#8211; <\/strong><em>Enquanto meus p\u00e9s balan\u00e7am<\/em> come\u00e7ou a ser desenhada na rua, depois de uma ofensa, fui atacada e estava voltando para casa com a mente cheia de questionamentos, do tipo: \u2018quem eu sou no mundo e de como isso interfere em como as pessoas em volta me leem\u2019, e de \u2018como minha postura pode interferir nas minhas rela\u00e7\u00f5es\u2019. Naquele momento, foi como um manifesto pra mim mesma, foi escrita no in\u00edcio de 2016, estava voltando de um tour pelo nordeste, onde me aproximei de pessoas com posicionamentos pol\u00edticos, que me trouxeram v\u00e1rias reflex\u00f5es importantes. Essa viagem tamb\u00e9m me trouxe \u00e0 tona quest\u00f5es geopol\u00edticas, entender esse tr\u00e2nsito que fiz da fronteira de Bahia-Minas para a capital baiana. Tudo isso influenciou, criei um v\u00eddeo-art para trabalhar a poesia em outra linguagem. Agora, eu acredito que o poema fala por si. \u00c9 de longe uma das coisas mais potentes que j\u00e1 criei, no n\u00edvel que d\u00e1 conta de si, \u00e9 a poesia por ela mesma. Ela conta de mim, sem que eu me apresente. Ou ela me apresenta, sem que eu conte de mim. Diferente dos outros escritos \u00e9 a poesia que recitei logo, em poucos dias soltei-a na rua. Foi como uma resposta ao ataque, e um grito (sabe?) que n\u00e3o era pedido de socorro, <em>Isso \u00e9 um grito de alerta, n\u00e3o de socorro. <\/em>\u00c9 an\u00fancio de guerra, como um: tenha cuidado!\u00a0 O que vem depois de mim pode te confundir ainda mais. Por mais que a categoriza\u00e7\u00e3o dos corpos seja r\u00e1pida, a fuga e a desobedi\u00eancia \u00e0s normativas s\u00e3o ainda mais velozes. Os corpos est\u00e3o nascendo cada vez mais desprogramados \u2013 e aqui eu n\u00e3o t\u00f4 falando de biologia \u2013 longe de mim. Estamos reprogramando as culturas, culturas que oprimem e dilaceram desejos s\u00e3o, sim, alvo dessa reprograma\u00e7\u00e3o. Que \u00e9 o sentido no qual termino o poema<em>: <\/em><em>criando leitos para que outres des\u00e1guem.<\/em>&#8211; abriram espa\u00e7o para que eu pudesse escrever e caminhar sem medo, \u00e9 essa tamb\u00e9m uma das minhas fun\u00e7\u00f5es no campo do desejo, ser rio para que outres naveguem e naveguem com seguran\u00e7a. Eu tenho certeza que n\u00e3o escrevo sozinha, que escrevo com muitas e para muitas, que as palavras que marcam esse papel n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 minhas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; S\u00e3o tempos de problemas pol\u00edticos e sociais graves no Brasil. As minorias que, no decorrer da hist\u00f3ria, foram subalternizadas convivem com um perigo constante. Neste contexto, como voc\u00ea compreende o papel da arte, enquanto ferramenta de cr\u00edtica social? No que toca a viol\u00eancia contra transexuais, a sua poesia pode ser entendida como um espelho de den\u00fancia, por exemplo? Em quais outros campos da cr\u00edtica social sua escritura perpassa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JeisiEk\u00ea de Lundu &#8211; <\/strong>\u00c9 bem verdade que os problemas sociais que dizem respeito \u00e0 popula\u00e7\u00e3o dissidente vivem momentos de ebuli\u00e7\u00e3o, tanto no que tange \u00e0s lutas, visibilidade e conquistas, quanto a resist\u00eancia. N\u00f3s n\u00e3o morremos agora mais do que antes, mas tamb\u00e9m o n\u00famero de pessoas trans que s\u00e3o cruelmente assassinadas ou se suicidam ainda \u00e9 alarmante, e ainda falamos muito pouco sobre isso. A arte sempre teve em suas caracter\u00edsticas a cr\u00edtica como um ponto muito forte. Em tempos turbulentos, isso se torna quase que uma obriga\u00e7\u00e3o, quase que um dever do artista analisar o tempo em que vive e falar sobre ele, usando c\u00f3digos e linguagens. Por outro lado, a arte tamb\u00e9m se apropria de pautas emergentes para criar po\u00e9ticas e fomentar a cria\u00e7\u00e3o, o que eu n\u00e3o vejo como um problema por si s\u00f3, desde que o sujeito, que se apropria, saiba realmente o que est\u00e1 acontecendo. Um exemplo disso s\u00e3o espet\u00e1culos de teatro retratando a vida e a luta de pessoas trans, protagonizados por artistas cisg\u00eaneros que n\u00e3o t\u00eam elementos em suas viv\u00eancias para tratar de um assunto t\u00e3o vasto e potente. Ignoradas a exist\u00eancia e arte de pessoas trans, que s\u00e3o varridos dos espa\u00e7os de cria\u00e7\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o e fomento de seu fazer art\u00edstico. E aqui cito o MONART, Movimento\u00a0Nacional\u00a0de Artistas Trans, que recentemente lan\u00e7ou um manifesto sobre esse assunto, acredito que \u00e9 de suma import\u00e2ncia ler e acompanhar essa pauta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu entendo que, enquanto biografia, o meu trabalho, se denuncia ou critica, \u00e9 porque vai de encontro a uma norma, ao binarismo, ao mundo encaixotado em identidades fixas e castradoras. Acredito que, quando lan\u00e7ada, a palavra pode atingir n\u00e3o sei ao certo qual a estaca que segura essa estrutura toda, mas sei que existe pot\u00eancia nesse lan\u00e7amento. Se atingir\u00e1 um alvo, ou n\u00e3o, o importante \u00e9 que houve o deslocamento e o percurso em que isso acontece. Seria prepot\u00eancia uma artista tra\u00e7ar a rota de sua arte e ter plena certeza do que\/onde ela vai atingir. A arte \u00e9 muito mais ampla e viva. N\u00f3s estamos morrendo. Se levarmos em conta as estat\u00edsticas, meu corpo tem menos de 10 anos de vida, posso ser atacada a qualquer momento, ainda mais com a for\u00e7a da onda do conservadorismo querendo nos arrastar e nos lan\u00e7ar contra as pedras. Criar, ver meu trabalho publicado em uma antologia t\u00e3o forte, que re\u00fane artistas com uma representatividade t\u00e3o ampla, como a <em>Profundan\u00e7as 2<\/em>, j\u00e1 \u00e9, por si s\u00f3, uma cr\u00edtica. No entanto, minha principal cr\u00edtica \u00e9 continuar viva, \u00e9 subir no palco, empunhar o pincel ou caneta, minha cr\u00edtica \u00e9 rasgar o v\u00e9u da arte elitista e privilegiada e dizer que n\u00f3s, apesar das pedradas, continuamos vivas!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Al\u00e9m de poeta, voc\u00ea \u00e9 tamb\u00e9m artista visual e <em>performer<\/em>.\u00a0 O que nos faz pensar uma exist\u00eancia multifacetada de Jeisiek\u00ea de Lundu, enquanto artista. Quais as rela\u00e7\u00f5es estabelecidas entre estes v\u00e1rios lugares de atua\u00e7\u00e3o art\u00edstica, aos quais voc\u00ea disponibiliza seu tempo e d\u00e1 vaz\u00e3o a sua criatividade? As quest\u00f5es de g\u00eanero s\u00e3o postas em discuss\u00e3o em suas performances. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s artes visuais, existe alguma conex\u00e3o entre a poesia e sua produ\u00e7\u00e3o neste campo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JeisiEk\u00ea de Lundu &#8211; <\/strong>Tenho me considerado uma artista visual, n\u00e3o que eu atue somente nessa \u00e1rea. Viajo no audiovisual com certa frequ\u00eancia, mas a arte visual me d\u00e1 possibilidades para flertar com temas que acredito terem maior import\u00e2ncia para a cria\u00e7\u00e3o que desenvolvo. Dentro dessa caixa de multifaces da linguagem, consigo transitar pelo tridimensional, trazendo estruturas e subvertendo no corpo, nesse sentido, entendo o corpo como suporte &#8211; tanto de a\u00e7\u00e3o quanto de discurso. E, para isso, eu recorro \u00e0 <em>performance art<\/em>, uma linguagem que bebe muito de outras linguagens da arte, se apropria de ferramentas e subverte conceitos, ressignificando os sentidos, para, nesse lugar, conseguir falar sobre o que \u00e9 minha exist\u00eancia, sobre minha vis\u00e3o de resist\u00eancia, de coletividade, de constru\u00e7\u00e3o social, de normativas sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizer o que se pensa em arte \u00e9 um trabalho muito doloroso. Falar sobre assuntos emergentes \u00e9 mais complicado ainda. Quando voc\u00ea constr\u00f3i uma c\u00e9lula art\u00edstica falando sobre \u201co vento que passou e arrancou a flor do jardim\u201d, pode at\u00e9 ser que nenhum questionamento ocorra, ou que venham aplausos, contratos ou coisas do tipo. Mas, quando se tem trabalhos que questionam atitudes e performam lugares, que a estrutura n\u00e3o quer que seja vis\u00edvel, o questionamento nem sempre \u00e9 feito baseado na obra em si, mas no sujeito que cria. Ou seja, no sujeito que se apropria da linguagem para questionar. Eu trago isso, nesse momento, porque meu lugar enquanto artista \u00e9 questionado, minha arte \u00e9 poucas vezes vista como ela \u00e9 de fato. Meu corpo \u00e9 questionado, minha validade enquanto artista \u00e9 questionada pelo simples fato de n\u00e3o corresponder a uma expectativa hegem\u00f4nica. E isso n\u00e3o acontece somente comigo, v\u00e1rias artistas do meu c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo sofrem com atitudes parecidas. Corpos que deveriam &#8211; segundo a l\u00f3gica higienista &#8211; nem existir, quanto mais se afirmar enquanto artista. Isso acontece com v\u00e1rias amigas da Casa Monxtra \u2013 coletivo de arte dragg formado por artistas negras, n\u00e3o bin\u00e1rias, mulheres, perif\u00e9ricas &#8211; do qual fa\u00e7o parte aqui em Salvador. V\u00e1rios ataques e questionamentos acontecem n\u00e3o pela qualidade ou pela est\u00e9tica abordadas no trabalho, mas sim por quem protagoniza o trabalho e usa o discurso para enfiar o dedo nas feridas da sociedade. Agora sim, respondendo \u00e0 pergunta, eu n\u00e3o consigo deslocar a escrita da visualidade porque de certa forma uma linguagem nutre a outra, a escrita comp\u00f5e a imagem e o contr\u00e1rio tamb\u00e9m acontece. Boa parte dos textos publicados em <em>Profundan\u00e7as 2 <\/em>\u00a0fizeram parte de uma <em>performance<\/em> que fiz com Lanmi Carolina, em 2016, denominada <em>\u201cRapina &#8211; ou a metamorfose do ser\u201d<\/em>. Os escritos eram parte da bagagem que carregamos na cria\u00e7\u00e3o e na execu\u00e7\u00e3o da obra. A escrita em algumas obras \u00e9 como o registro fotogr\u00e1fico, s\u00f3 que em grafia, n\u00e3o em luz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14667\" aria-describedby=\"caption-attachment-14667\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/JeisiEk\u00ea-de-Lundu-Foto-Lanmitripoli-com-retouch-de-Juan-Pablo-Gutierez.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14667 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/JeisiEk\u00ea-de-Lundu-Foto-Lanmitripoli-com-retouch-de-Juan-Pablo-Gutierez.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/JeisiEk\u00ea-de-Lundu-Foto-Lanmitripoli-com-retouch-de-Juan-Pablo-Gutierez.png 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/JeisiEk\u00ea-de-Lundu-Foto-Lanmitripoli-com-retouch-de-Juan-Pablo-Gutierez-300x169.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14667\" class=\"wp-caption-text\">JeisiEk\u00ea de Lundu \/ Foto: Lanmitripoli com retouch de Juan Pablo Gutierez<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Haja vista a quantidade de colaboradores, podemos dizer que a obra <em>Profundan\u00e7as 2<\/em> se desdobrou em um coletivo, que tem desenvolvido o evento chamado <em>Roda de Conversas em Profundan\u00e7as<\/em>. Tendo circulado por cidades da Bahia e Pernambuco, a roda intenciona conversar com o p\u00fablico, entre outros temas, a respeito das formas de ativismo liter\u00e1rio, circula\u00e7\u00e3o alternativa, sentidos da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica em tempos de golpe(s). Como foi e est\u00e1 sendo participar destas rodas de conversa? H\u00e1 algo de provocador nas plateias que t\u00eam frequentado? Como ocorrem essas trocas? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JeisiEk\u00ea de Lundu &#8211; <\/strong>Na \u00e9poca da publica\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o achava que tinha feito pacto de sangue com Daniela Galdino (risos). Mas se configurou em coisa parecida, viu? (mais risos). Brincadeiras \u00e0 parte ou n\u00e3o, eu participei de uma roda de conversa e estou indo pra segunda agora. A primeira foi no campus do IFBA, em Ilh\u00e9us, o p\u00fablico de secundaristas, funcion\u00e1rios e professores do campus, dentro de uma semana de atividades bem intensa. Eu cheguei um dia antes e tive o prazer enorme de conhecer Aildil Ara\u00fajo Lima (escritora cachoeirana), ganhei dela o livro <em>Mulheres Sagradas<\/em>, passamos boa parte da noite e da manh\u00e3 sentadas na varanda conversando, fumando e bebendo caf\u00e9. J\u00e1 havia come\u00e7ado a roda de conversa ali e n\u00e3o tinha me dado conta. Convers\u00e1vamos sobre a \u201cescrevinh\u00eancia\u201d, sobre a palavra &#8211; como encontramos com ela. Foi um momento \u00fanico, marcou muito minha trajet\u00f3ria. De manh\u00e3 encontramos Daniela e seguimos para o IFBA. Eu estava super nervosa, falar sobre minha escrita (coisa h\u00e1 pouco revelada), mesmo tendo experi\u00eancia com palco, ali na frente de v\u00e1rios adolescentes me gerou um frio na barriga de primeira vez assim. Foi interessante, a din\u00e2mica da roda aconteceu e li um texto sobre uma agress\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 bem uma narrativa, eu criei alguma coisa, unindo experi\u00eancias negativas com agress\u00f5es e como isso se fixou em meu inconsciente. Como a sensa\u00e7\u00e3o de ser agredida sempre volta e como a\u00e7\u00f5es do cotidiano podem se tornar disparadores para essas lembran\u00e7as ruins. Eu estava lendo de cabe\u00e7a baixa, quando terminei, v\u00e1rias pessoas estavam chorando, em prantos mesmo, nunca havia lido um texto meu em p\u00fablico pra tanta gente, e, quando termino, tem l\u00e1grimas &#8211; aquilo foi desconcertante. Eu n\u00e3o sabia se tentava sair dali, ou se chorava junto, mas eu n\u00e3o queria chorar, minha mente come\u00e7ou a pensar mil coisas. No fim da roda, fui almo\u00e7ar no restaurante do campus e me sentei com alguns adolescentes, que fizeram parte da plateia. Ouvi hist\u00f3rias muito parecidas com as que eu vivi, foi reconfortante ouvir deles uma resposta e saber que as palavras, de certa forma, tocaram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A internet se constituiu numa importante plataforma de divulga\u00e7\u00e3o art\u00edstica deste s\u00e9culo. Esta entrevista, por exemplo, ser\u00e1 divulgada no universo do www, seus poemas tamb\u00e9m foram publicados na\u00a0 colet\u00e2nea <em>Profundan\u00e7as 2<\/em>, \u00a0que tem disponibiliza\u00e7\u00e3o online. Qual sua rela\u00e7\u00e3o art\u00edstica com as redes? Tem pensado em algum projeto art\u00edstico voltado para internet ou j\u00e1 utiliza as redes como maneira de divulgar sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica? <\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JeisiEk\u00ea de Lundu &#8211; <\/strong>Minha vida na arte come\u00e7ou e a internet j\u00e1 n\u00e3o era mais \u201cmato\u201d. Eu n\u00e3o conheci o tempo em que a divulga\u00e7\u00e3o e a promo\u00e7\u00e3o da arte estavam fora do campo virtual. De certa forma, o virtual interfere no modo como fazemos arte, de como formatamos nosso trabalho para caber nesse suporte. Existe certa preocupa\u00e7\u00e3o, eu diria, mais com o mundo virtual do que com o dito real, se \u00e9 que ele existe! N\u00e3o sei, talvez esse mundo dos bits e do www seja o real. Em <em>Profundan\u00e7as<\/em>, isso se tornou uma coisa interessante, o lance do livro digital, publicado em uma plataforma, o que gera uma certa democratiza\u00e7\u00e3o da linguagem, a\u00ed volta para o que eu j\u00e1 havia dito antes, sobre \u00a0\u201cquem pode ler?\u201d, \u201cquem pode escrever?\u201d, sobre o qu\u00e3o inacess\u00edvel \u00e9 publicar escritos no mercado editorial no Brasil e na m\u00e3o de quem isso est\u00e1. A <em>internet <\/em>possibilita trazer para a luz pessoas an\u00f4nimas, escondidas pelo v\u00e9u da invisibilidade, guardadas na \u201cescrotid\u00e3o\u201d das m\u00e1quinas. O simples ato de postar um texto em uma plataforma pode transformar toda uma cadeia, alterar v\u00e1rias rotas. Atualmente, eu trabalho muito com visualidades, usando meu corpo como plataforma para a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, e a internet \u00e9 sim a maneira mais f\u00e1cil de divulgar esse trabalho e ter um retorno e um contato maior com o p\u00fablico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 bastante estreita a rela\u00e7\u00e3o entre refer\u00eancias e rever\u00eancias, seja em qual campo de trabalho estivermos falando. Sem rever\u00eancias, quase imposs\u00edvel ter refer\u00eancias. E o contr\u00e1rio tamb\u00e9m poder ser verdadeiro. No fazer art\u00edstico, esta conex\u00e3o aparece de maneira ainda mais intuitiva e forte. Comente sobre as rever\u00eancias que norteiam o seu conjunto de refer\u00eancias, na constitui\u00e7\u00e3o de seu leque de mem\u00f3rias enquanto poeta e performer. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JeisiEk\u00ea de Lundu &#8211; <\/strong>N\u00e3o se escreve sozinha, por mais que o ritual de escrita seja solit\u00e1rio. No pr\u00f3prio ato de empunhar a caneta e rabiscar o papel, v\u00e1rias m\u00e3os fazem essa a\u00e7\u00e3o em conjunto, seja de forma consciente ou n\u00e3o. Eu estou falando sobre aquelas que n\u00e3o podem escrever ou sobre aquelas que escreveram antes de mim, e aqui trago minha refer\u00eancia, Simone Portugal, escritora baiana, que publicou, artesanalmente, seu primeiro livro, <em>Filosofia do esgoto<\/em>, e vende de forma aut\u00f4noma e independente &#8211; traz em suas linhas a revolta e o esc\u00e1rnio como po\u00e9tica. Eu reverencio tamb\u00e9m Suzernagle Bento, poeta sertaneja, residente em Salvador, que carrega a seca e as mem\u00f3rias do sert\u00e3o para enaltecer as bravas mulheres do semi-\u00e1rido brasileiro. Enalte\u00e7o e trago pra esse pante\u00e3o de mulheres Michelli Mattiuzzi, <em>performer<\/em> e escritora negra, que trava uma imensa guerra para ser artista, nessa parte colonizada do planeta, jogando contra a branquitude e denunciando o racismo. Enalte\u00e7o Annie Ganzala &#8211; grafiteira e aquarelista &#8211; que carrega a po\u00e9tica sapat\u00e3o em seus murais e aquarelas. Enalte\u00e7o Negrindia &#8211; Gabi &#8211; poeta, sapat\u00e3o, m\u00e3e, cartoneira, distribuidora de zines e cadernos artesanais, que luta bravamente para construir novas distopias. Hija del Perra, Gisberta Kali, Vanusa Alves, Tieta do Agresta, Lanmi Carolina, Aranda Sousa, Frut\u00edfera Ilha. \u00c9 bem mais que um leque, \u00e9 uma arvore que d\u00e1 frutos muito grandes, nessa revolta que \u00e9 fazer poesia, fa\u00e7amos poesia, os fascistas odeiam poesia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Ao escrever, brincamos com as linhas do tempo. Passado e futuro podem se entrela\u00e7ar numa dan\u00e7a jamais imaginada. Como sua poesia lida com o tempo? Como a mente criativa de JeisieK\u00ea de Lundu trabalha os acontecimentos do passado? Sublimando-os? E como s\u00e3o as proje\u00e7\u00f5es de futuro? H\u00e1 alguma bandeira de re-exist\u00eancia hasteada com desejos de mudan\u00e7as? \u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JeisiEk\u00ea de Lundu &#8211; <\/strong>\u00c0s vezes, o sentimento de revolta \u00e9 t\u00e3o grande que n\u00e3o sentimos o tempo, a escrita \u00e0s vezes fica estagnada, parada, feito \u00e1gua barrenta, o sentimento de paralisia causa pessimismo. Voc\u00ea n\u00e3o consegue enxergar quais a\u00e7\u00f5es podem mover e causar transforma\u00e7\u00f5es. As utopias desaparecem da mente, o que sente \u00e9 que tudo se petrificou e s\u00f3 existe o regresso como caminho. Eu tenho certo receio com a linearidade do tempo. \u00c0s vezes, minha mente da um <em>bug <\/em>e come\u00e7o a pensar que vivemos em c\u00edrculos, que o tempo \u00e9 um c\u00edrculo e n\u00e3o uma linha &#8211; como ditam por a\u00ed. Quando escrevo, estou sempre pensando sobre isso, de como podemos projetar passado no futuro e presente no passado, de como essas no\u00e7\u00f5es de tempo est\u00e3o imbricadas e s\u00e3o complementares e divergentes. Seria determinista entender o passado como ponto fundante para o futuro, seria aceitar a linha do tempo simplesmente, acreditar em predestina\u00e7\u00e3o, talvez, que tudo est\u00e1 escrito ou pronto pra ser vivido, sem a necessidade da mudan\u00e7a. Aqui, eu quero retornar ao pessimismo, pensar a mudan\u00e7a nos tempos que estamos vivendo, pode ser revolu\u00e7\u00e3o, mas em meu caso \u00e9 um tanto pessimista. Hastear bandeiras e lutar tem se tornado cada dia mais imposs\u00edvel. As for\u00e7as est\u00e3o cada vez mais mi\u00fadas, eu tenho sido pessimista. Meu desejo tem sido acordar e continuar viva, como aquela frase pichada em muro: \u201cA gente combinou de n\u00e3o morrer\u2019\u201d. A\u00ed mora a mudan\u00e7a, talvez quando os corpos dissidentes tiverem o direito de viver, simplesmente, continuar existindo, a\u00ed sim, possivelmente, alguma mudan\u00e7a pode ocorrer; antes disso, n\u00e3o acredito em nada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Falando em futuro, terminamos esta entrevista com votos de ainda mais progressos em sua multifacetada carreira e perguntando a cerca dos planos subsequentes. H\u00e1 algo em mente que possa ser contado \u00e0 Diversos Afins? Quais seus planos mais imediatos? E, a longo prazo, quais suas metas art\u00edsticas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JeisiEk\u00ea de Lundu &#8211; <\/strong>Sempre digo que sou uma artista multilinguagem, atuo na<em> performance<\/em>, no v\u00eddeo, na tela, na escultura, na costura e a m\u00fasica sempre foi um desejo e uma vontade. Agora, estou trabalhando num projeto muito lindo, n\u00e3o cantando, que ainda n\u00e3o desenvolvi isso, mas na dire\u00e7\u00e3o de visualidade da banda Saramandaia, um grupo de artistas residentes em Salvador, falando sobre dissid\u00eancias, pol\u00edtica, arte, inclus\u00e3o e temas emergentes. \u00a0Tem sido um trabalho muito forte e lindo. Para al\u00e9m disso, a Casa Monxtra com <em>A terca mais estranha do mundo<\/em>, no bar \u00c2ncora do marujo, todas as ter\u00e7as-feiras, e estou rabiscando e enchendo uma gaveta para editar um livro(digital) que espero lan\u00e7ar esse ano ainda &#8211; uma mistura de contos, poemas e textos sobre dissid\u00eancia, corpo <em>ciborg<\/em> e exist\u00eancias \u00e0 margem. V\u00e1rias ideias na mente e a tentativa que ela mesma n\u00e3o se sabote, porque a pr\u00f3pria estrutura j\u00e1 faz esse trabalho bem feito. Mas vamos seguindo o baile e fazendo o que tem que ser feito. Ai, estou super empolgada com tudo isso qu<em>e Profundan\u00e7as<\/em> me proporcionou! Foi lindo demais! Aproveito para agradecer a Daniela pelo convite sempre, a todas as pessoas que comp\u00f5em esse projeto mais que maravilhoso, a todas que leram e compartilharam a ideia, e por mais agregadoras e engrandecedoras como esta. Gratid\u00e3o sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Elis Matos<\/em><\/strong><em> \u00e9 \u201ccria\u201d da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunica\u00e7\u00e3o Social, especialista em Gest\u00e3o Cultural e mestranda em Linguagens e Representa\u00e7\u00f5es. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edi\u00e7\u00f5es. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lan\u00e7ou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai!\u00a0 Aprendeu a sonhar uma vida justa at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias&#8230;<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mergulhando nos sens\u00edveis trajetos guiados pela resist\u00eancia e pela identidade, Elis Matos entrevista a poeta e multifacetada artista JeisiEk\u00ea de Lundu <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14663,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3478,16,2539],"tags":[3482,63,3485,3481,489,3483,3484],"class_list":["post-14662","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-124a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-elis-matos","tag-entrevista","tag-identidade","tag-jeisieke-de-lundu","tag-pequena-sabatina","tag-resistencia","tag-transexual"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14662","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14662"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14662\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14669,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14662\/revisions\/14669"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14663"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}