{"id":14710,"date":"2018-04-18T16:43:01","date_gmt":"2018-04-18T19:43:01","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14710"},"modified":"2018-06-30T18:57:10","modified_gmt":"2018-06-30T21:57:10","slug":"aperitivopalavra-6","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavra-6\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p><strong>L\u00facida distra\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p><em>Por Saulo Dourado<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Capa-Livro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14712\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Capa-Livro.jpg\" alt=\"\" width=\"323\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Capa-Livro.jpg 323w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Capa-Livro-215x300.jpg 215w\" sizes=\"auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Temos Vagas<\/em> \u00e9 o t\u00edtulo do primeiro poema de <em>O Exerc\u00edcio da Distra\u00e7\u00e3o <\/em>(Penalux, 2017), de K\u00e1tia Borges. A escolha da entrada funciona como um aviso na porta: aqui o pre\u00e7o do feij\u00e3o cabe no poema. Se em <em>N\u00e3o h\u00e1 vagas<\/em> Gullar reclama que a poesia s\u00f3 traz \u201chomens sem est\u00f4mago\u201d, a primeira parte do livro de K\u00e1tia se chama \u201cComo se fosse o \u00f3rg\u00e3o vivo\u201d. Mas a sutileza e a transmuta\u00e7\u00e3o \u00e9 que o \u00f3rg\u00e3o vivo tamb\u00e9m \u00e9 o pr\u00f3prio poema. Em <em>O gourmet moment\u00e2neo<\/em>, versos de Margaret Atwood est\u00e3o em papel amassado, no meio de uma aula, \u201cpassados em m\u00e3o em m\u00e3o como se fosse o \u00f3rg\u00e3o vivo\u201d. O ciclo se completa: a poesia, qual um contrabando no mundo oficial, a um s\u00f3 tempo evidencia o cotidiano e se torna outra coisa, reinventando-o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outras refer\u00eancias a autores aparecem quase p\u00e1gina a p\u00e1gina. Poder\u00edamos chamar de intertextualidade, se nesse <em>O Exerc\u00edcio <\/em>o tema da saudade e da aus\u00eancia n\u00e3o aparecesse com tanta frequ\u00eancia. Como muitos versos parecem conversas com pessoas ausentes, o uso do contato com outros autores parece tamb\u00e9m um bate-papo com uma gente que n\u00e3o est\u00e1 ali, ou seja, gente como Quintana e Bandeira seriam conhecidos \u00edntimos que deixam saudades como os amados e os amigos da vida do eu-l\u00edrico. O cotidiano na poesia de K\u00e1tia Borges assume assim o di\u00e1logo permanente com pessoas invis\u00edveis, e o seu olhar as traz para a presen\u00e7a, as coloca ao lado da pedra na praia. <em>Odisseia<\/em> mostra:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">J\u00e1 n\u00e3o espero teu regresso<br \/>\nenquanto te\u00e7o \u2013 a beleza<br \/>\nservir\u00e1 para os que chegam<br \/>\nainda que inalcan\u00e7\u00e1vel<br \/>\naos que retornam.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">H\u00e1 certa \u00cdtaca intang\u00edvel<br \/>\nem meu peito<br \/>\nque n\u00e3o se demora.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Um segundo e verte-se<br \/>\nv\u00f3rtice inating\u00edvel<br \/>\nem Itaparica \u2013 e na dura<br \/>\npedra fria dos dias deposita<br \/>\nseus destro\u00e7os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma tend\u00eancia ao imaterial, ao universal \u2013 uma \u201ccerta \u00cdtaca intang\u00edvel\u201d -, mas que logo se verte e se toma pela realidade mais imediata, ainda que pior, fria e destro\u00e7ada. \u00c9 uma decis\u00e3o de conduta que faz desta <em>distra\u00e7\u00e3o <\/em>n\u00e3o uma fuga, um alheamento, um devaneio para sair do mundo tal como \u00e9, e sim o aproveitamento das brechas das coisas para trazer o \u201cinating\u00edvel\u201d para c\u00e1, do c\u00e9u das ideias para as \u00e1guas do tempo e das \u00e1guas para o solo da vida vivida. Se na primeira grande sequ\u00eancia de poemas podemos sentir \u00e0s vezes ainda o peso do Intang\u00edvel, e algumas oscila\u00e7\u00f5es em <em>Cais<\/em> e <em>A dor fantasma<\/em> com desejos contradit\u00f3rios por um mundo que n\u00e3o est\u00e1 aqui, a partir de <em>Alegria Alegria<\/em> a poesia de K\u00e1tia escolhe a vontade de enxergar ao redor (com a ironia, claro, de \u201cperder os \u00f3culos na bolsa\u201d e s\u00f3 encontr\u00e1-los nos \u201ccabelos\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do verso \u201cNada no bolso ou nas m\u00e3os\u201d \u2013 que foi um desprendimento para Caetano Veloso em rela\u00e7\u00e3o aos deveres de sua \u00e9poca, j\u00e1 uma cita\u00e7\u00e3o d\u2019<em>As Palavras<\/em>, de Sartre, no qual o fil\u00f3sofo se entende liberado de sua neurose burguesa enquanto busca de ser um homem de exce\u00e7\u00e3o -, K\u00e1tia se descontrai. Seus versos ficam mais cheios de coisas, justo porque \u00e9 preciso perd\u00ea-las. &#8220;Imersa, sigo firme\/no exerc\u00edcio que me atrela\/a este of\u00edcio: perder coisas&#8221;. Para perder \u00e9 preciso estar em permanente contato, sentir, pegar, observar, escolher. \u00c9 a partir da\u00ed que seu olhar pelo cotidiano assume o seu ponto mais alto, e longe da banalidade ou do excesso de idealismo, alcan\u00e7a o meio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o poema <em>Odisseia <\/em>condensa o primeiro movimento do livro, o singelo <em>Pragmatismo <\/em>poderia representar o segundo. &#8220;Tenho me ocupado com coisas pr\u00e1ticas.\/Se h\u00e1 \u00e1gua ou n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua no pote do cachorro\u201d. Ao descrever acontecimentos de um dia, com o c\u00e3o cego, as pistas de skate no Jardim dos Namorados, sente-se a vida ali, e o que poderia ser a burocracia do dia-a-dia \u00e9, com uma disposi\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito maior, a pr\u00f3pria vida. Os versos finais trazem o segredo e quase pedem a cumplicidade do leitor: &#8220;\u00c0s vezes penso que seria bom ter um c\u00e1gado,\/daqueles que se escondem durante anos debaixo dos m\u00f3veis,\/de modo que fosse sempre necess\u00e1rio procur\u00e1-lo&#8221;. Como no poema <em>Inf\u00e2ncia <\/em>de Drummond, a pr\u00f3pria hist\u00f3ria se torna mais bonita que a de Robinson Cruso\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terceira parte de <em>O Exerc\u00edcio da Distra\u00e7\u00e3o<\/em> traz um t\u00edtulo autoexplicativo: <em>As Pequenas Vilanias da Cidade<\/em>. \u00c9 quando o cotidiano p\u00fablico, vis\u00edvel nas cal\u00e7adas, marquises e pra\u00e7as, \u00e9 feito de tristezas e brutalidades. Na lida di\u00e1ria da cidade, a rotina \u00e9 forte, as ruas n\u00e3o perdoam, a noite por vezes \u00e9 indigesta. O eu-l\u00edrico, que poderia se distanciar das cenas como um mero olhar externo, poetiza uma rela\u00e7\u00e3o imbricada com o que v\u00ea, e faz de seu sentimento o sentimento da cidade, e vice-versa, a exemplo de \u201cA Pra\u00e7a da Piedade\u201d. \u00a0Um <em>blues <\/em>da piedade? Seus poemas tornam-se mais pr\u00f3ximos ao rock, letra, m\u00fasica e refer\u00eancia, como j\u00e1 \u00e9 uma marca em outros livros, <em>Balada de Janis <\/em>(P55, 2010), <em>Ticket Zen <\/em>(Escrituras, 2011) e <em>S\u00e3o Selvagem <\/em>(P55, 2014). Se nos livros anteriores j\u00e1 estavam o rock\u2019n\u2019blues, o I ching, a prote\u00e7\u00e3o de Arcanjo Miguel e \u201co pre\u00e7o do feij\u00e3o\u201d, em <em>O Exerc\u00edcio de Distra\u00e7\u00e3o<\/em> os poemas ganham ainda mais em precis\u00e3o, vis\u00e3o de mundo e imagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>The End<\/em>, poema final do livro, tal qual na m\u00fasica de mesmo t\u00edtulo dos Beatles no <em>Abbey Road<\/em>, o livro compreende seu caminho e seu sentido de <em>distra\u00e7\u00e3o<\/em>:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">essa vida que sabemos sem lugar,<br \/>\nposto que o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o se publica<br \/>\nnos murais, \u00e9 \u00f3cio diluindo o sangue,<br \/>\nmanchetes sem fundo<br \/>\nde verdade, qualquer distra\u00e7\u00e3o<br \/>\nque agrade a audi\u00eancia.<br \/>\nSobre o tempo, n\u00e3o sou dessas.<br \/>\nQuando des\u00e7o a Contorno,<br \/>\na beleza me golpeia feito o vento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Saulo Dourado<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador\/Ba. Autor dos livros de contos \u201cO Mar e Seus Descontentes\u201d (Via Litterarum) e \u201cO Autor do Le\u00e3o\u201d (FB Publica\u00e7\u00f5es), al\u00e9m de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O novo livro de K\u00e1tia Borges aos olhos de Saulo Dourado<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14711,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3478,2533],"tags":[11,2896,3497,189,3410],"class_list":["post-14710","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-124a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-katia-borges","tag-o-exercicio-da-distracao","tag-resenha","tag-saulo-dourado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14710","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14710"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14710\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14758,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14710\/revisions\/14758"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14711"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14710"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14710"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14710"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}