{"id":14824,"date":"2018-06-26T16:31:41","date_gmt":"2018-06-26T19:31:41","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14824"},"modified":"2018-06-30T18:55:13","modified_gmt":"2018-06-30T21:55:13","slug":"aperitivo-da-palavra-i-21","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-21\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong>Conta\u00e7\u00f5es: a voz que canta <em>ou <\/em>A mem\u00f3ria \u00e9 editada porque nela habita<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><em>Por Marcelo Labes<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Capa-Int.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14827\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Capa-Int.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Capa-Int.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Capa-Int-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sou ainda um leitor antigo da poesia de Tiago D. Oliveira, mas j\u00e1 me considero um leitor pr\u00f3ximo. Tive a oportunidade de ler seus dois primeiros livros de poemas, <em>Distra\u00eddo<\/em> (Pina\u00fana, 2014) e <em>Debaixo do Vazio <\/em>(C\u00f3rrego, 2016), e tive muito prazer em resenhar estas duas obras para a revista Mallarmagens assim que terminei sua leitura. Naquela ocasi\u00e3o, relacionei os dois livros com uma dist\u00e2ncia obstaculizada que exigia do leitor mais que olhos. Explico: diferente do lirismo luso-baiano que hav\u00edamos lido no primeiro livro, o segundo desmontava, passo a passo, a pr\u00f3pria poesia de Tiago e n\u00f3s, leitores, \u00edamos desmontando junto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leitor j\u00e1 de um livro in\u00e9dito, fui h\u00e1 pouco agraciado com a leitura de <em>Conta\u00e7\u00f5es<\/em>, recentemente publicado pela Editora Patu\u00e1. E se eu ainda n\u00e3o havia me recuperado de minha leitura de <em>Debaixo do Vazio<\/em>, esta leitura serviu para me mostrar que de Tiago sempre posso esperar mais, muito mais: eis um poeta que lida com a poesia, pr\u00f3pria e alheia, com uma seriedade e uma dedica\u00e7\u00e3o dif\u00edceis de se deixar passar sem perceber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho comigo que s\u00e3o poucos os temas que os poetas abordam durante a vida. Ou s\u00e3o muitos os temas, mas poucos eixos em torno dos quais estes temas giram. Ou s\u00e3o muitos eixos e temas para uma quantidade limitada de neuroses. Acho que escrever \u00e9 lidar consigo e com sua hist\u00f3ria, sobretudo. Ou tentar lidar, posto que a mem\u00f3ria \u00e9 terreno movedi\u00e7o onde nem sempre conseguimos pisar firme. <em>Conta\u00e7\u00f5es<\/em>, de Tiago D. Oliveira, por\u00e9m, \u00e9 um elevado, um viaduto: o poeta n\u00e3o somente est\u00e1 seguro do que conta como nos convida a transitar com seguran\u00e7a nesse seu mundo feito de ontens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ep\u00edgrafe do itaparicano Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro d\u00e1 o caminho: \u201cJ\u00e1 estou, ou j\u00e1 cheguei \u00e0 altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo\u201d acompanhada da do baiano Jorge Amado: \u201cTudo que \u00e9 bom, tudo que \u00e9 ruim, tamb\u00e9m termina por acabar\u201d. Chamo os aclamados autores para dizer que n\u00e3o h\u00e1 nostalgia em <em>Conta\u00e7\u00f5es<\/em>. H\u00e1 revisita, retorno, recaminho. Nostalgia n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tiago retoma, neste livro, personagens da inf\u00e2ncia baiana que viveram consigo, muito de perto, para investigar em cada uma delas o porqu\u00ea de permanecerem t\u00e3o pr\u00f3ximas. De <em>elzinho<\/em>, abrevia\u00e7\u00e3o carinhosa de <em>cruelzinho<\/em>, menino sem m\u00e3e que se escondia da chuva sob marquises, sabemos atrav\u00e9s de <em>lol\u00f3<\/em>, personagem que \u00e9 narrada pelo poeta num poema pr\u00f3prio dela. O mesmo acontece com <em>z\u00e9 fim<\/em>, que posfacia o poema <em>arlinda de s\u00e3o pedro <\/em>\u2013 uma melanc\u00f3lica narrativa sobre a mulher mais rica e menos amada do pa\u00eds \u2013 para depois ser narrado pelo poeta num poema com seu nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A riqueza de <em>Conta\u00e7\u00f5es<\/em>, eu dizia, n\u00e3o est\u00e1 no que poderia haver de nost\u00e1lgico. Continuo afirmando que a constru\u00e7\u00e3o de Tiago \u00e9 s\u00f3lida, capaz de nos fazer atravessar certos de seus p\u00e2ntanos \u2013 e isso se demonstra na polifonia constante em alguns de seus poemas: n\u00e3o h\u00e1 um poeta, h\u00e1 um homem dilu\u00eddo em sombras, pois o sol da raz\u00e3o talvez desfizesse aquelas mem\u00f3rias pondo-lhes luz em cima. \u00c0 sombra, portanto, caminhamos. Mas nunca incertos, apesar do que apregoa <em>z\u00e9 do rio<\/em>, uma das personagens, ao reclamar que <em>a cabe\u00e7a \/ da gente \u00e9 assim, falha \/ quando a gente mais\u00a0 precisa, \/ diabo de mem\u00f3ria.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O lirismo m\u00faltiplo e multiplicado da voz de Tiago permite que n\u00e3o haja um, mas v\u00e1rios <em>eus-l\u00edricos <\/em>\u2013 j\u00e1 que a mem\u00f3ria, esse terreno pantanoso, n\u00e3o pertence a uma, mas a diversas pessoas. Por isso, podemos \u00e0s vezes nos perguntarmos se quem fala \u00e9 o poeta ou uma de suas personagens que a mem\u00f3ria, turva, na confus\u00e3o da lembran\u00e7a, tornou a escrevente destes versos. Como em <em>dia de fevereiro<\/em>, onde em torno de um corpo que boia nas \u00e1guas, o poema esclarece, confundindo: \u201cenquanto as autoridades respons\u00e1veis \/ n\u00e3o chegavam para dar um fim ao espet\u00e1culo, \/ ambulantes vendiam bebidas e espetinhos. \/ crian\u00e7as corriam, outros dan\u00e7avam, \/ o sentido da vida, do que era el\u00e1stico\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bahia, Itaparica, lugares onde nunca estive, mas que conhe\u00e7o atrav\u00e9s da poesia de Tiago, e que relembro como se tivesse l\u00e1 vivido; inclusive \u00e9 minha a pergunta que faz o poema: \u201ctoda dor \u00e9 esquecida, \/ toda fome \u00e9 suprimida, \/ todo morador \u00e9 turista, \/ ou seria, \/ todo turista \u00e9 morador?\u201d. N\u00e3o h\u00e1, aqui, em momento algum, uma territorialidade excludente, mas a partir do que suponho ser viver num dos maiores rinc\u00f5es tur\u00edsticos do pa\u00eds, me pergunto \u2013 ou \u00e9 a poesia de Tiago que pergunta atrav\u00e9s de mim \u2013 se h\u00e1 quem seja de fato baiano na Bahia, Itaparicano em Itaparica, que n\u00e3o sejam os devoradores de fotos e paisagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta \u00e0 pergunta anterior \u00e9 <em>sim<\/em>, h\u00e1 personagens para al\u00e9m das criadas pelos romancistas e poetas rom\u00e2nticos; h\u00e1 pessoas para al\u00e9m das personagens de Jorge Amado e Tiago nos faz ter com elas, cara a cara, como num encontro adiado por muito tempo, mas que finalmente alcan\u00e7a o contato quase f\u00edsico, quase real, deixando de ser mem\u00f3ria para habitar a imagina\u00e7\u00e3o comum a quem tenha de quem se lembrar: \u201clizete \/ enlouqueceu \/ quando belo fug\u00eddio a abandonou no altar, \/ n\u00e3o antes de mat\u00e1-lo \/ com 42 facadas no mesmo lugar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 isso em poesia: quando os <em>comos<\/em> importam mais do que <em>os qu\u00eas. <\/em>Mas se as experimenta\u00e7\u00f5es com as vozes \u2013 que se misturam \u2013 nos d\u00e3o oportunidade de contato com uma escrita inovadora e forte, h\u00e1 que se pensar que quando o poeta volta-se para si e os seus, ele procura nesse n\u00e3o apenas resolver-se, pois que a poesia confessional e memorial\u00edstica pode ser desinteressante. N\u00e3o: Tiago vai mais longe e busca de suas ruas, as nossas; de sua inf\u00e2ncia, a nossa; de suas personagens, as minhas e, certamente, as tuas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o poemas ou retratos tirados por uma c\u00e2mera antiga. Antiga? Se contarmos que dos 80 para c\u00e1 a tecnologia tem nos deixado tontos, penso que sim: somos antigos os da d\u00e9cada de 80. J\u00e1 antigos. E compartilho deste sentimento de que se n\u00e3o resgatarmos o que nossos olhos viram e aquilo pelo que o cora\u00e7\u00e3o bateu forte (e hoje bate com saudade, ainda mais quando as recorda\u00e7\u00f5es afloram), seremos n\u00f3s mesmos esquecidos. E n\u00e3o podemos esquecer nem deixar que esque\u00e7am as pequenezas que nos fizeram gente, subst\u00e2ncia de nossa poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tiago, que experimenta com sua poesia desde o primeiro livro, teve <em>Debaixo do Vazio<\/em>, aquele monolito instigante, uma mostra de um poeta <em>para fora<\/em>, em contato com o mundo que o rodeia. <em>Conta\u00e7\u00f5es <\/em>nos mostra o poeta voltado para dentro: da mem\u00f3ria e da poesia \u2013 mas fazendo crescer a pr\u00f3pria obra, que deixa agora de ter lado de dentro e lado de fora, e passa a ser o grande momento em que o poeta, novamente e ainda mais, se revela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Marcelo Labes <\/em><\/strong><em>nasceu em Blumenau-SC, em 1984. \u00c9 autor de Fala\u00e7\u00f5es [EdiFurb, 2008], Porque sim n\u00e3o \u00e9 resposta [Ant\u00edtese, Hemisf\u00e9rio Sul, 2015], O filho da empregada [Ant\u00edtese, Hemisf\u00e9rio Sul, 2016], Trapa\u00e7a [Oito e Meio, 2016] e Enclave [Patu\u00e1, 2018]. Integrou a mostra Poesia Agora (edi\u00e7\u00e3o carioca), em 2017. Tem poemas publicados em Mallarmagens, Livre Opini\u00e3o \u2013 Ideias em Debate, Ru\u00eddo Manifesto, Enfermaria 6 e Revista Lavoura. Edita a revista eletr\u00f4nica \u2018<\/em><a href=\"http:\/\/opoemadopoeta.wordpress.com\/\"><em>O poema do poeta<\/em><\/a><em>\u2019, onde publica originais manuscritos, esbo\u00e7os e rabiscos de poetas e ficcionistas.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo Labes visita \u201cConta\u00e7\u00f5es\u201d, novo livro do poeta Tiago D. 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