{"id":14849,"date":"2018-06-28T11:12:47","date_gmt":"2018-06-28T14:12:47","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14849"},"modified":"2018-08-22T17:55:30","modified_gmt":"2018-08-22T20:55:30","slug":"14849-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/14849-2\/","title":{"rendered":"Aperitivo Palavra II"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cFelicidade \u00e9 a queda, o abismo\u201d<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Gustavo Rios<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Capa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14851\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Capa.jpg\" alt=\"\" width=\"299\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Capa.jpg 299w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Capa-199x300.jpg 199w\" sizes=\"auto, (max-width: 299px) 100vw, 299px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autor de v\u00e1rios livros, entre eles o comovente <em>O ca\u00e7ador de mariposas (<\/em>Mariposa Cartonera, 2013<em>)<\/em>\u00a0e o romance <em>Estrangeiro no labirinto <\/em>(Confraria do Vento, 2013), semifinalista do pr\u00eamio Portugal Telecom, o escritor pernambucano Wellington de Melo deve gostar bastante do que faz &#8211; e ele faz muitas coisas &#8211; para conseguir juntar tudo, ou quase tudo que envolva seu interesse, em seu mais recente livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele, que foi traduzido para o espanhol e franc\u00eas, e \u00e9 editor pelo selo Mariposa Cartonera, com o qual publica diversos autores de forma\u00a0artesanal, \u00e9 tamb\u00e9m figura atuante nos meios liter\u00e1rios, defendendo claramente suas escolhas pol\u00edticas, ministrando oficinas cartoneras pelo Brasil e comandando a Cepe Editora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o bastasse ele \u00e9 professor e tradutor. E um sujeito com estilo (n\u00e3o \u201cestilagem\u201d, \u00e9 bom frisar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Felicidade<\/em>, sua mais recente obra, saiu em 2017 pela Editora Patu\u00e1. O livro em si \u00e9 um primor em sua parte gr\u00e1fica. E um petardo em sua ess\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dividido em tr\u00eas partes (Beleza, Julgamento e Miseric\u00f3rdia), <em>Felicidade<\/em> \u00e9 resultado de um trabalho extremamente po\u00e9tico, sucinto e poderoso. Um trabalho onde o autor consegue unir assuntos relevantes (coletividade, poesia, luta de classes, quest\u00f5es de g\u00eanero etc.) com habilidade, sem se perder no caminho \u2013 at\u00e9 porque o caminho \u00e9 ele quem cria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cada p\u00e1gina o leitor se sente livre para escolher como construir em sua mente essa ou aquela cena (a necessidade b\u00e1sica de \u201centender\u201d o enredo e apreender o estilo, simplificando-os na busca de repeti\u00e7\u00f5es e converg\u00eancias). Por\u00e9m, essa sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 aparente, na medida em que Melo tem o intuito de nos manter por perto, na base da r\u00e9dea curta &#8211; e a tal simplifica\u00e7\u00e3o cai por terra: cada nova leitura for\u00e7a a admitir que algo sempre nos escapa, que n\u00e3o vamos aprisionar a escrita de Wellington. E ficamos gratos por cair na armadilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A poesia (ou prosa po\u00e9tica, fiquem \u00e0 vontade) serve como base para as situa\u00e7\u00f5es a priori surreais, mas que trazem em si o elemento pol\u00edtico t\u00e3o caro ao autor\u2013 falo de 40 pessoas prontas para um suic\u00eddio coletivo na mesma noite em nome de uma causa, dentre outras coisas. Contudo, ao seguir adiante com Ademir, o personagem principal, come\u00e7amos a perceber que as cenas e os acontecimentos se tornam parte do jogo. Um jogo que vai se mostrando profuso, veross\u00edmil e doloroso, onde o indiv\u00edduo n\u00e3o se dilui em nome da tal causa. Para nossa sorte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um jogo saturado de brutalidade, desespero, poesia e coes\u00e3o. Uma incr\u00edvel hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, seguimos. E nos jogamos de edif\u00edcios altos e imponentes em nome de um ideal. E caminhamos pela cidade, onde <em>\u201cDuas colunas com capiteis sobre as quais dormem cabe\u00e7as infantis fraturadas pelo vento e pela cal (&#8230;)\u201d<\/em> surgem numa <em>\u201c (&#8230;) paisagem prec\u00e1ria e teimosa, babel sil\u00eancio argamassa tijolos e desejo\u201d<\/em>. E somos violentados, encarando nosso passado, desprovidos do conceito tacanho de g\u00eanero (uma aposta certeira do escritor, n\u00e3o somente para aderir ao discurso t\u00e3o atual, mas para dar a um dos personagens a merecida amplid\u00e3o), sem paz e sem chances, buscando qualquer tipo de reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada \u00e9 f\u00e1cil em <em>Felicidade<\/em>. Mas tudo \u00e9 sucinto. E direto. E bel\u00edssimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Wellington faz parte daquele time de escritores que subverte a l\u00f3gica na descri\u00e7\u00e3o de qualquer cena, seja ela crucial ou simplesmente transi\u00e7\u00e3o entre acontecimentos: s\u00e3o frases curtas e afiadas, em diferentes ritmos. Contudo, essa subvers\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a impossibilidade da leitura e do entendimento, mas a chance de multiplicar esse entendimento, essa constru\u00e7\u00e3o \u2013 sempre lembrando de que existe uma trama por tr\u00e1s e que nada \u00e9 gratuidade, muito menos confus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o foi raro me deparar com trechos onde supus n\u00e3o entender a \u201dcena\u201d e o momento. Todavia, uma nova leitura (a doce armadilha do autor) me fez perceber as diversas chances de reconstruir aquilo, sem sair do rumo \u2013 o lance da r\u00e9dea curta. Eu poderia reinventar um determinado instante, um rosto, uma dor, um suic\u00eddio, mas estava sempre jogando dentro das regras estipuladas pelo escritor pernambucano, pois havia uma hist\u00f3ria a ser narrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o a cena era recontada, sempre com um novo brilho (n\u00e3o me arrisco a entregar o enredo, por medo que isso reduza as escolhas do leitor; e vamos em frente).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num texto onde <em>\u201c(&#8230;) pombos de chumbo e acr\u00edlico zumbem (&#8230;)\u201d<\/em>; onde os sorrisos dos meninos est\u00e3o <em>\u201c(&#8230;) mergulhados no v\u00e1cuo (&#8230;)\u201d<\/em>, \u00e9 fundamental entender que, mais cedo ou mais tarde, durante a leitura, estaremos subjugados e entregues. E que os trechos acima, ainda que pare\u00e7am bel\u00edssimas falcatruas po\u00e9ticas, servem para compor a narrativa. Na base da boa literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>Felicidade<\/em> existe maestria na condu\u00e7\u00e3o do texto. H\u00e1 uma trama sutil em sua forma (poesia ou prosa po\u00e9tica, mais uma vez fiquem \u00e0 vontade), mas brutal em sua ess\u00eancia (a sequ\u00eancia dos acontecimentos, a tal hist\u00f3ria; a morte e o esquecimento como atos pol\u00edticos; o passado dos personagens \u00e0 tona).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um movimento de distra\u00e7\u00e3o nos custa o retorno \u00e0 p\u00e1gina. E esse retorno, curiosamente, pouco nos custa \u2013 considerando o ganho na nova leitura, sai barato, uma pechincha. \u00c9 nessa volta que surge o renovado entendimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E um novo livro aparece. Com a mesma trama, todavia: \u00e9 o desejo do autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liberdade conduzida em <em>Felicidade<\/em> nos permite interpreta\u00e7\u00f5es, mas sem nos perder numa narrativa il\u00f3gica e supostamente po\u00e9tica \u2013 aquele amontoado de palavras soltas; a manjada armadilha das vanguardas vazias, onde o leitor \u00e9 sempre o ignorante, n\u00e3o importa se a obra foi publicada em mandarim: a gente que se vire com a \u201clisergia autoral\u201d do g\u00eanio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Wellington nos mostra que a literatura de qualidade, aquela que arrebata e instiga, sempre \u00e9 resultado de escolhas, labuta e talento. E que \u00e9 poss\u00edvel converter em poesia qualquer enredo, causa, trag\u00e9dia, narrativa ou recurso liter\u00e1rio, sem se extraviar no percurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Felicidade<\/em> deve ter tamb\u00e9m alguma rela\u00e7\u00e3o com o trabalho de um bom carpinteiro (Monteiro Lobato foi mais feliz no uso da met\u00e1fora, mas enfim), consciente do resultado de seu of\u00edcio. Um tro\u00e7o que transforma madeira rude em alicerce. Aprumado e firme, sim senhor. Mas igualmente repleto do que a literatura e a arte t\u00eam de melhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Gustavo Rios<\/em><\/strong><em> \u00e9 baiano e escritor invis\u00edvel. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O olhar de Gustavo Rios para o novo livro de Wellington de Melo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14854,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3508,2533],"tags":[11,2713,2411,2255,189,496,3517],"class_list":["post-14849","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-125a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-felicidade","tag-gustavo-rios","tag-patua","tag-resenha","tag-romance","tag-wellington-de-melo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14849","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14849"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14849\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14857,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14849\/revisions\/14857"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14854"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14849"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14849"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14849"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}