{"id":14882,"date":"2018-06-29T11:35:37","date_gmt":"2018-06-29T14:35:37","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14882"},"modified":"2018-08-22T17:55:00","modified_gmt":"2018-08-22T20:55:00","slug":"dropssetimaarte-15","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dropssetimaarte-15\/","title":{"rendered":"Drops da S\u00e9tima Arte"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Guilherme Preger <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esplendor. Jap\u00e3o\/Fran\u00e7a. 2017. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/ESPLENDOR-CAPA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14884\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/ESPLENDOR-CAPA.jpg\" alt=\"\" width=\"306\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/ESPLENDOR-CAPA.jpg 306w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/ESPLENDOR-CAPA-204x300.jpg 204w\" sizes=\"auto, (max-width: 306px) 100vw, 306px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Esplendor<\/em> (<em>Hikari) <\/em>\u00e9 o filme da diretora japonesa Naomi Kawase que ganhou pr\u00eamio do J\u00fari, no festival de Cannes de 2017. \u00c9 a terceira vez que a diretora foi premiada no festival. Em 2007, com <em>Mogari no Mori <\/em>(<em>A floresta dos lamentos<\/em>) ela ganhou como melhor filme. Em 1997, com <em>Suzaku<\/em>, teve o pr\u00eamio de melhor diretora. Ela \u00e9 pouco conhecida do p\u00fablico brasileiro, por\u00e9m em 2011 o CCBB fez uma retrospectiva de sua obra, que conta com v\u00e1rios document\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seus filmes s\u00e3o delicados e intimistas. Uma das caracter\u00edsticas principais de sua obra \u00e9 explorar a t\u00eanue separa\u00e7\u00e3o entre document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o. Seus filmes ficcionais muitas vezes s\u00e3o filmados como documentais e com frequ\u00eancia atuados por atores n\u00e3o profissionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Esplendor<\/em> conta a inusitada hist\u00f3ria de Misako (vivida por Ayame Misaki), uma jovem mo\u00e7a respons\u00e1vel por escrever legendas de filmes para cegos. O filme de Kawase se inicia por cenas de Misako descrevendo para alguns cegos que avalizam seu trabalho as cenas de um filme projetado. Seu trabalho \u00e9 uma experi\u00eancia para levar o cinema para deficientes visuais e, com um pequeno grupo de teste escolhido, Misako verifica se sua vers\u00e3o \u00e9 adequada para esse p\u00fablico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14883\" aria-describedby=\"caption-attachment-14883\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ayame-Misaki-interpretando-a-protagonista-Misako-Divulga\u00e7\u00e3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14883 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ayame-Misaki-interpretando-a-protagonista-Misako-Divulga\u00e7\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ayame-Misaki-interpretando-a-protagonista-Misako-Divulga\u00e7\u00e3o.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ayame-Misaki-interpretando-a-protagonista-Misako-Divulga\u00e7\u00e3o-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14883\" class=\"wp-caption-text\">Ayame Misaki interpretando a protagonista Misako \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Descrever um filme para cegos n\u00e3o \u00e9 exatamente uma tarefa f\u00e1cil. Ap\u00f3s a proje\u00e7\u00e3o, os cegos avaliam se o filme foi bem compreendido por eles, se sua descri\u00e7\u00e3o foi suficiente para levar uma experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica aos deficientes. Misako ent\u00e3o ouve muitas cr\u00edticas de seu pequeno p\u00fablico de teste. Sua descri\u00e7\u00e3o esteve aqu\u00e9m da experi\u00eancia de vozes e ru\u00eddos percebidos pelos deficientes. Um deles, Nakamori (vivido por Masatoshi Nagase, ator que tamb\u00e9m participa de <em>Patterson<\/em>, de Jim Jarmusch), fot\u00f3grafo que est\u00e1 perdendo a vis\u00e3o, avalia que Misako se perdeu no excesso de detalhes, distraindo a aten\u00e7\u00e3o dos cegos, e perdendo o essencial da obra cinematogr\u00e1fica. Misako tem ent\u00e3o de refazer seu trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o filme aborda a irredut\u00edvel diferen\u00e7a entre o dizer e o mostrar: as palavras e as imagens nunca podem se ajustar perfeitamente. O trabalho de Misako est\u00e1 condenado a uma insuper\u00e1vel insatisfa\u00e7\u00e3o, que provoca uma enorme ang\u00fastia na jovem. Ora sua descri\u00e7\u00e3o entra em pormenores dispens\u00e1veis, prejudicando a concentra\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, ora sua conten\u00e7\u00e3o impede a viv\u00eancia do filme pelos cegos por falta de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais sutil do que esta. Numa das cenas do filme, Misako introduz uma interpreta\u00e7\u00e3o subjetiva de uma cena, o que provoca protestos de seu p\u00fablico por estar induzindo uma leitura. Quando remove sua interpreta\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o \u00e9 o fot\u00f3grafo que lamenta que a cena tenha se tornado t\u00e3o vazia. \u00c9 nesse momento que Misako responde que talvez lhe faltasse imagina\u00e7\u00e3o, o que o faz deixar o teste indignado e ferido, provocando um conflito entre os dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que est\u00e1 em jogo no filme delicado de Naomi Kawase s\u00e3o os modos de sensibilidade que uma obra desperta, que tipos de afetos ela movimenta. A quest\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 se uma descri\u00e7\u00e3o verbal jamais nos d\u00ea a verdade de uma imagem, ou quantas palavras s\u00e3o necess\u00e1rias para descrev\u00ea-la. O problema est\u00e1 no mist\u00e9rio da imagina\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, no seu poder de n\u00e3o parar na imagem, mas sempre ir al\u00e9m dela. N\u00e3o \u00e9 que as palavras n\u00e3o se adequem \u00e0s imagens, mas que a pr\u00f3pria imagem n\u00e3o cabe em si mesma. <em>Esplendor<\/em> tem um filme dentro de um filme. O filme que assistimos \u00e9 uma indaga\u00e7\u00e3o sobre o que significa ver um filme. Com olhos abertos ou fechados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das caracter\u00edsticas da c\u00e2mera de Kawase \u00e9 seu \u00e2ngulo fechado, seu foco curto. Vemos detalhes dos rostos e dos corpos, recantos de salas e cantos, folhas na floresta e r\u00e9stias solares. Vemos sempre as partes dos lugares, mas n\u00e3o o espa\u00e7o todo. Por um lado essa agudeza do foco simula uma restri\u00e7\u00e3o visual que se aproxima da baixa vis\u00e3o do fot\u00f3grafo e dos outros cegos. Por outro, a c\u00e2mera fechada responde a uma po\u00e9tica da intimidade que \u00e9 uma das marcas mais pessoais da est\u00e9tica de Naomi Kawase.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14885\" aria-describedby=\"caption-attachment-14885\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Matoshi-Nagase-na-pele-do-personagem-Nakamori-Divulga\u00e7\u00e3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14885 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Matoshi-Nagase-na-pele-do-personagem-Nakamori-Divulga\u00e7\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Matoshi-Nagase-na-pele-do-personagem-Nakamori-Divulga\u00e7\u00e3o.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Matoshi-Nagase-na-pele-do-personagem-Nakamori-Divulga\u00e7\u00e3o-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14885\" class=\"wp-caption-text\">Matoshi Nagase na pele do personagem Nakamori \/ Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o que essa ou qualquer obra est\u00e9tica nos d\u00e1, s\u00e3o tra\u00e7os incompletos que n\u00e3o descrevem totalmente um mundo. S\u00e3o fragmentos de mundos que precisam ser recompostos. Por isso \u00e9 que existe tanta permeabilidade entre o document\u00e1rio e a fic\u00e7\u00e3o. Por vezes nos esquecemos de que nossa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre parcial, que para ver algo \u00e9 preciso deixar de ver outro algo. Toda percep\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre perspectiva, isto \u00e9, parcial e incompleta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A po\u00e9tica da intimidade de Naomi Kawase \u00e9, portanto, uma est\u00e9tica de \u00e2ngulos fechados, de proximidade, em que as vis\u00f5es panor\u00e2micas e totalizadoras n\u00e3o entram. Seu primeiro document\u00e1rio chamava-se justamente: \u201cS\u00f3 foco no que me interessa\u201d. Um cinema do foco e da subjetividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse espa\u00e7o de intimidade torna-se uma zona de indiscernibilidade entre fic\u00e7\u00e3o e realidade, pois cada fragmento observado deve levar \u00e0 recomposi\u00e7\u00e3o de um mundo. Por isso, numa cena marcante de <em>Esplendor<\/em>, quando Misako est\u00e1 perdida na floresta \u00e0 procura de sua m\u00e3e desmemoriada, ela se relembra de uma experi\u00eancia vivida com seu pai quando era crian\u00e7a naquele mesmo bosque, que logo a seguir \u00e9 relembrada por sua m\u00e3e que n\u00e3o a viveu, mas possivelmente tomou conhecimento da experi\u00eancia por palavras do pai ou de Misako. Assim, a jovem entende que as palavras s\u00e3o tamb\u00e9m elas fragmentos de mundos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, a descri\u00e7\u00e3o de uma cena \u00e9 tamb\u00e9m um tra\u00e7o que nos conduz a outro mundo, ou a outro tra\u00e7o. <em>Esplendor<\/em>, com seus jogos de luzes e sombras, nos conta a hist\u00f3ria de uma mo\u00e7a japonesa que descobre que cada palavra pode ser um proj\u00e9til capaz de abrir uma fenda na superf\u00edcie de uma vida por onde um mundo pode furtivamente penetrar atrav\u00e9s de um feixe obl\u00edquo de luz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7coGuoLt-RE\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Guilherme Preger<\/em><\/strong><em> (1966) \u00e9 escritor e engenheiro, natural do Rio de Janeiro. \u00c9 autor de Capoeiragem (7Letras, 2003) e Extrema l\u00edrica (Oito e Meio, 2014). \u00c9 um dos organizadores do Clube da Leitura. Participou como autor e editor das quatro colet\u00e2neas do coletivo. \u00c9 mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Teoria Liter\u00e1ria pela UERJ, com pesquisa sobre as rela\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia e literatura.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme japon\u00eas \u201cEsplendor\u201d no mergulho cr\u00edtico de Guilherme Preger<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14883,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3508,2535],"tags":[115,13,3522,1204,3524,3523,3525],"class_list":["post-14882","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-125a-leva","category-drops-da-setima-arte","tag-cinema","tag-drops-da-setima-arte","tag-esplendor","tag-guilherme-preger","tag-hikari","tag-japao","tag-naomi-kawase"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14882","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14882"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14882\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14929,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14882\/revisions\/14929"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14883"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14882"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14882"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14882"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}