{"id":14887,"date":"2018-06-29T11:49:40","date_gmt":"2018-06-29T14:49:40","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14887"},"modified":"2018-08-22T17:54:49","modified_gmt":"2018-08-22T20:54:49","slug":"jogo-de-cena-25","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/jogo-de-cena-25\/","title":{"rendered":"Jogo de Cena"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abismos entre \u00e9tica e moral <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><em>Por Vivian Pizzinga<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14888\" aria-describedby=\"caption-attachment-14888\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rose-1-_-Foto-Paula-Kossatz.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14888 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rose-1-_-Foto-Paula-Kossatz.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rose-1-_-Foto-Paula-Kossatz.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rose-1-_-Foto-Paula-Kossatz-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14888\" class=\"wp-caption-text\">Rose \/ Foto: Paula Kossatz<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O espet\u00e1culo <em>Rose<\/em> tem texto de Cecilia Ripoll e foi eleito como a melhor dramaturgia escrita durante as atividades da turma de 2017 do N\u00facleo de Dramaturgia SESI cultural (Rio de Janeiro), coordenado por Diogo Liberano. A dire\u00e7\u00e3o de Vin\u00edcius Arneiro, excelente, e a atua\u00e7\u00e3o do elenco, \u00e0 altura do texto, d\u00e3o vida a esse drama que tem um vi\u00e9s pol\u00edtico com modera\u00e7\u00e3o, no que diz respeito \u00e0s quest\u00f5es mais abrangentes de distribui\u00e7\u00e3o de renda e desigualdade social (sem ser panflet\u00e1rio, sem ser chato, sem ser did\u00e1tico e sem ser raso) e a fatos espec\u00edficos da pol\u00edtica nacional. \u00c9 sempre o ato, o gesto e o acontecimento que norteiam o vi\u00e9s pol\u00edtico que a pe\u00e7a carrega, necess\u00e1rio e na justa medida, com lances de humor que os atores, conferindo personalidade e trejeitos a seus personagens, ajudam a construir (vide \u00c2ngela C\u00e2mara e sua afeta\u00e7\u00e3o para sentar na cadeira, ou M\u00e1rcio Machado e a voz empostada quando interpreta o deputado ou seus falsos brios quando assume a fun\u00e7\u00e3o de novo diretor da escola a moralizar o espa\u00e7o escolar onde a protagonista trabalha).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rose \u00e9 merendeira de escola p\u00fablica e sofre vendo que a comida n\u00e3o \u00e9 suficiente para as crian\u00e7as que l\u00e1 estudam. Al\u00e9m disso, a comida que vem \u00e9 inconsistente, o feij\u00e3o \u00e9 ralo, a qualidade n\u00e3o \u00e9 boa. As crian\u00e7as sentem fome. Ent\u00e3o, ela come\u00e7a a adoecer e tira licen\u00e7a, indo trabalhar na casa de dona Celina, sem carteira assinada, protegendo o filho da patroa e mantendo sua filha escondida no quarto. Rose \u00e9 um mist\u00e9rio para esse filho, curioso com a porta fechada de seu quarto e com as banhas da funcion\u00e1ria. Maria Juliana, a filha de Rose, interpretada por Natasha Corbelino (cheia de carisma), \u00e9 uma figura \u00e0 parte. Sua indigna\u00e7\u00e3o por ter de ficar escondida e pelas desigualdades que observa com perspic\u00e1cia, como a comida que sobra e vai fora ap\u00f3s as festas no apartamento e a comida que falta na escola onde Rose \u00e9 merendeira, expressam-se em uma mistura engra\u00e7ada de sarcasmo e cinismo. Para completar o elenco, h\u00e1 ainda o diretor Renato, que expressa a contradi\u00e7\u00e3o entre o legal e o leg\u00edtimo, ou a moral e a \u00e9tica: nem tudo o que \u00e9 legal \u00e9 \u00e9tico ou leg\u00edtimo e vice-versa. Isso fica evidente no di\u00e1logo que ele tem com Rose sobre a estrat\u00e9gia (clandestina) utilizada pela protagonista para resolver o problema da merenda na escola.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14889\" aria-describedby=\"caption-attachment-14889\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rose-2-_-Foto-Paula-Kossatz.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14889 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rose-2-_-Foto-Paula-Kossatz.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rose-2-_-Foto-Paula-Kossatz.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rose-2-_-Foto-Paula-Kossatz-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14889\" class=\"wp-caption-text\">Rose \/ Foto: Paula Kossatz<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O espet\u00e1culo vai num crescendo, como se um percurso para que os absurdos explodam e aconte\u00e7am fora do terreno da sutileza e se escancarando como deve ser necessitassem mesmo de um processo, de certo metabolismo: h\u00e1 v\u00e1rias rela\u00e7\u00f5es acontecendo paralelamente, n\u00facleos de tens\u00e3o e afeto s\u00e3o despertados como se pequenos mundos que ora se afastam, ora se tocam e diversas vezes se interpenetram durante a trama. H\u00e1 certo hipnotismo do menino (atua\u00e7\u00e3o de Thiago Catarino), que tem medo de descansar e morrer, pela filha de Rose, e todas as emo\u00e7\u00f5es que transbordam desse afeto in\u00e9dito para ele. H\u00e1 a estrat\u00e9gia de Rose para fazer justi\u00e7a e levar comida da casa de dona Celina para a escola e o desconforto moral (e desprovido de \u00e9tica) do diretor da escola, que usa todas as oportunidades para exercer e demonstrar por\u00e7\u00f5es fartas de demagogia, dramas tolos e falsos dilemas. H\u00e1 a incomunicabilidade de dona Celina com seu filho, o pavor do toque e do abra\u00e7o, a dist\u00e2ncia que se alarga entre eles e, por outro lado, encurta entre ele e Rose. H\u00e1 o ci\u00fame da filha de Rose e, finalmente, a preocupa\u00e7\u00e3o de dona Celina em agradar o deputado que desvia merenda, na festa em sua casa, em paralelo ao \u00f3dio de Rose em rela\u00e7\u00e3o a ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre outras possibilidades que a pe\u00e7a oferece para discuss\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o, tem\u00e1ticas variadas que margeiam a quest\u00e3o principal, o cerne \u00e9 mesmo de doer: afinal, ningu\u00e9m acha ruim o suficiente o desvio de verbas p\u00fablicas que seriam destinadas \u00e0 merenda escolar, mas se torna question\u00e1vel uma funcion\u00e1ria levar a comida que sobra da festa da madame para as crian\u00e7as da escola. Ningu\u00e9m acha ruim o suficiente porque, se fosse suficiente, j\u00e1 n\u00e3o seria poss\u00edvel continuar acontecendo. Mas Rose, a quem Dida Camero empresta brilhante atua\u00e7\u00e3o, protagonista que n\u00e3o tem papas na l\u00edngua, acha ruim o suficiente e n\u00e3o espera que outros venham resolver o problema da forma que se apresenta diariamente diante de seus olhos, em um sofrimento \u00e9tico capaz de adoecer qualquer trabalhador que estivesse em seu lugar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_14890\" aria-describedby=\"caption-attachment-14890\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rose-3_-Paula-Kossatz.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14890 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rose-3_-Paula-Kossatz.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rose-3_-Paula-Kossatz.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rose-3_-Paula-Kossatz-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14890\" class=\"wp-caption-text\">Rose \/ Foto: Paula Kossatz<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os paralelismos desdobram-se: num apartamento de 400 metros quadrados, o quarto da empregada tem 4 metros e \u00e9 ali que a filha tem que ficar o dia inteiro. Esse \u00e9 o territ\u00f3rio que lhe \u00e9 destinado: o espa\u00e7o \u00e9 escasso, a comida \u00e9 rala, h\u00e1 uma classe que recebe sempre menos (e n\u00e3o se trata de manique\u00edsmo barato, a realidade \u00e9 exatamente essa). O aluno da escola p\u00fablica n\u00e3o pode provar salm\u00e3o e a empregada n\u00e3o pode querer fazer curso de ingl\u00eas: isso poder\u00e1 soar absurdo (o salm\u00e3o na boca do pobre) ou se tornar ris\u00edvel (o ingl\u00eas na boca da trabalhadora dom\u00e9stica).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, o cen\u00e1rio \u00e9 tamb\u00e9m \u00f3timo e simples: diversas carteiras escolares s\u00e3o posicionadas como numa sala de aula, e \u00e9 por entre elas, sobre elas, por baixo delas, desviando-se delas e as embaralhando que as cenas v\u00e3o acontecendo. A maneira como as cadeiras s\u00e3o posicionadas e reposicionas e ajustadas e novamente deslocadas se torna uma pequena express\u00e3o do caos e do cinismo que se alternam no palco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Vivian Pizzinga<\/em><\/strong><em> lan\u00e7ou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos p\u00e9s (Oito e meio, 2015), al\u00e9m de ter participado de algumas colet\u00e2neas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patu\u00e1, 2016). Trabalha tamb\u00e9m com psican\u00e1lise e Sa\u00fade do Trabalhador.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pe\u00e7a \u201cRose\u201d \u00e9 objeto das densas percep\u00e7\u00f5es de Vivian Pizzinga<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14888,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3508,2537],"tags":[12,3334,3526,96,2716],"class_list":["post-14887","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-125a-leva","category-jogo-de-cena","tag-jogo-de-cena","tag-peca","tag-rose","tag-teatro","tag-vivian-pizzinga"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14887","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14887"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14887\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14892,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14887\/revisions\/14892"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14888"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14887"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14887"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14887"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}