{"id":14984,"date":"2018-07-27T10:16:25","date_gmt":"2018-07-27T13:16:25","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=14984"},"modified":"2018-08-22T17:52:54","modified_gmt":"2018-08-22T20:52:54","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-59","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-59\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Copa do Mundo de Futebol na R\u00fassia, 06 de julho de 2018. Nas quartas de final, o Brasil \u00e9 eliminado pela B\u00e9lgica, pelo placar de 2 a 1. Agora imagine uma outra situa\u00e7\u00e3o. Aos 48 minutos do segundo tempo, a atacante Roberto Firmino \u00e9 derrubado na pequena \u00e1rea. Com o aux\u00edlio do VAR, o \u00e1rbitro s\u00e9rvio marca a falta. Neymar, ent\u00e3o, pega a bola e se encaminha para a marca do p\u00eanalti. Se fizer o gol, a sele\u00e7\u00e3o brasileira empata e segue viva na prorroga\u00e7\u00e3o. Se perder, o Brasil volta para casa, desmoralizado. O craque do PSG se concentra, mas antes de decidir em qual canto chutar a bola, vem \u00e0 sua mente as intermin\u00e1veis chacotas, as memes escarnecedores, o apelido de eterno cai-cai. Ser\u00e1 que vale a pena fazer o gol para o pa\u00eds que o trata com tamanha zombaria ou agora \u00e9 o momento de dar o troco?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomando as devidas propor\u00e7\u00f5es, Sa\u00fava, o protagonista de \u201cA cobran\u00e7a\u201d, primeiro romance do pernambucano <strong>M\u00e1rio Rodrigues<\/strong>, passa por um dilema parecido. O cen\u00e1rio \u00e9 o mesmo: a Copa do Mundo de Futebol na R\u00fassia. Na final entre Brasil e Alemanha, o capit\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 diante da marca do p\u00eanalti, que poder\u00e1 dar o hexacampeonato ao escrete canarinho. Ocorre que o jogador, de origem humilde, com a inf\u00e2ncia marcada pela pobreza extrema e por traumas familiares, nunca foi bem tratado por esse pa\u00eds que agora depende de apenas um chute certeiro para alcan\u00e7ar a gl\u00f3ria. Est\u00e1 a\u00ed, portanto, a chance de ele se vingar da p\u00e1tria (nada) amada, Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio do que se disse por a\u00ed, M\u00e1rio Rodrigues, sim, usa do futebol para se falar de pol\u00edtica. Mostra os efeitos da corrup\u00e7\u00e3o no alto escal\u00e3o e nas profundezas mais ordin\u00e1rias. Os governos que se alternam sem nunca, de fato, mudar o quadro das mazelas sociais, dos marginalizados, dos abandonados de tudo. Dividido em tr\u00eas eixos narrativos, o romance se constr\u00f3i dentro da hist\u00f3ria mental de seu protagonista. O menino moldado pela mis\u00e9ria, por abusos e aus\u00eancias, que acompanhou o pai ser quebrado pela Era Collor e, agora, enquanto aguarda o \u00e1rbitro autorizar a cobran\u00e7a do p\u00eanalti, avalia se conceder a vit\u00f3ria seria justo ante tudo que passou, ante o que ainda passam milhares de brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, o autor, cuja obra de estreia conquistou o Pr\u00eamio Sesc de Literatura, revela os bastidores de seu livro. O processo criativo, as motiva\u00e7\u00f5es, a influ\u00eancia do famigerado 7 a 1 e o interesse em tratar o futebol em sua voca\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica e como instrumento para se deslindar os contrastes que configuram a sociedade brasileira. Com mesma incis\u00e3o e clareza, M\u00e1rio Rodrigues ainda fala sobre mercado liter\u00e1rio, pr\u00eamios, educa\u00e7\u00e3o, leitores, literatura nordestina e o of\u00edcio da escrita. \u201cEm pa\u00edses perif\u00e9ricos como o nosso, ser escritor \u00e9 uma afronta. Uma excresc\u00eancia. Uma aberra\u00e7\u00e3o\u201d. Pelo visto, n\u00e3o s\u00f3 Sa\u00fava vive um dilema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15052\" aria-describedby=\"caption-attachment-15052\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_0671.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15052 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_0671.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_0671.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_0671-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15052\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Rodrigues \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DIVERSOS AFINS \u2013 \u201cA cobran\u00e7a\u201d se passa durante a partida final de uma Copa do Mundo, na R\u00fassia; exatamente como acabamos de presenciar nos \u00faltimos dias. Como nasceu a ideia para a constru\u00e7\u00e3o do livro? Houve um planejamento para que estivesse pronto e fosse lan\u00e7ado juntamente ao mundial?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> Sempre apreciei o esporte. \u00c9 tamb\u00e9m do meu interesse a rela\u00e7\u00e3o do futebol com a sociedade brasileira, como marca relevante de nossa constru\u00e7\u00e3o social e cultural. Ap\u00f3s a Copa do Mundo de 2014, a mim ficou patente que uma p\u00e1gina significativa foi virada nessa rela\u00e7\u00e3o entre a sele\u00e7\u00e3o, como heran\u00e7a cultural, e o povo brasileiro. Era algo gestado j\u00e1 h\u00e1 um bom tempo com a expatria\u00e7\u00e3o muito cedo de nossos bons jogadores, criando um abismo de interesse entre os torcedores e os atletas. Uma torcida sem empatia, sem reconhecimentos. Por\u00e9m, o que aconteceu em 2014, com os 7 a 1, foi mais profundo. H\u00e1 duas rupturas ali: a sele\u00e7\u00e3o brasileira se afastou em definitivo (n\u00e3o do torcedor iniciado, com este isso j\u00e1 ocorrera), mas, sobretudo, se alienou daquele torcedor ocasional, o t\u00edpico torcedor de Copa do Mundo. Nossas av\u00f3s, que s\u00f3 assistiam aos jogos da Copa, mesmo elas perderam a sintonia com a equipe. Al\u00e9m disso, o pr\u00f3prio jogo mostrou que, sim, \u00e9ramos vulner\u00e1veis, venc\u00edveis \u2013 e venc\u00edveis com grau de humilha\u00e7\u00e3o in\u00e9dito. A Copa de 2014 partiu a rela\u00e7\u00e3o entre povo e a sele\u00e7\u00e3o. O futebol saiu do campo cultural e social para ser um fator meramente esportivo: isso \u00e9 significativo em excesso como dado hist\u00f3rico. \u201cA cobran\u00e7a\u201d tem a pretens\u00e3o de capturar esse momento. Com uma diferen\u00e7a: como se fosse um movimento de dentro para fora. Que a ruptura ficasse latente a partir do campo de jogo e se dispersasse pela vida p\u00fablica. E que no ponto mais sens\u00edvel do esporte \u2013 uma disputa de p\u00eanaltis na grande final \u2013 n\u00f3s pud\u00e9ssemos refletir sobre o aspecto mais \u00edntimo desta rela\u00e7\u00e3o: querer cort\u00e1-la. O livro ficou pronto em meados de 2017, o que tornou vi\u00e1vel sua publica\u00e7\u00e3o em 2018, no primeiro semestre. Claro que comercialmente seria interessante essa data, pois aproveitaria o fluxo da Copa. Foi isso que fizemos. Obviamente, por\u00e9m, h\u00e1 o desejo de que a for\u00e7a dessa hist\u00f3ria extrapole esse per\u00edodo. As leituras que v\u00eam sendo feitas me deixam muito feliz. Percebo que o livro levanta v\u00e1rias quest\u00f5es pertinentes e aponta para in\u00fameros destinos \u2013 o que provavelmente lhe dar\u00e1 uma vida \u00fatil para al\u00e9m do per\u00edodo de Copa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 No seu livro, temos um jogador de futebol brasileiro diante de um dilema. Se fizer o gol de p\u00eanalti, ele dar\u00e1 o hexacampeonato ao Brasil; se perder o p\u00eanalti, ele se vingar\u00e1 do pa\u00eds que virou as costas para ele durante toda a vida. Na sua opini\u00e3o, qual a melhor leitura para esse drama? A maneira realista ou a aleg\u00f3rica? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> \u00c9 de Nelson Rodrigues a famosa tirada: \u201cA mais s\u00f3rdida pelada \u00e9 de uma complexidade shakespeariana\u201d. Imaginemos, portanto, a final de uma Copa do Mundo disputada com penalidades m\u00e1ximas \u2013 seria o auge dessa dramaticidade. O livro trabalha com um olhar muito pr\u00f3ximo, sobretudo na caminhada do jogador at\u00e9 a marca do p\u00eanalti. Cada detalhe \u2013 gramado, bra\u00e7adeira, bola \u2013 vai ganhando resson\u00e2ncia. Detalhes trabalhados, \u00e0s vezes, de modo claustrof\u00f3bico. Isso, pretendo, d\u00e1 uma dimens\u00e3o quase palp\u00e1vel e real daqueles passos. Mas, como se espera da literatura, a alta, esse cen\u00e1rio \u00e9 feito para acessar outras inst\u00e2ncias da hist\u00f3ria de Sa\u00fava e da experi\u00eancia do leitor. No fundo, o jogador que tem que tomar a decis\u00e3o de se vingar do seu pa\u00eds ou n\u00e3o. \u00c9 met\u00e1fora sobre cada um de n\u00f3s e sobre todos n\u00f3s. Dentre as v\u00e1rias caminhadas, como humanos e cidad\u00e3os, essa alegoria nos \u00e9 oferecida: o prazer ego\u00edsta da vingan\u00e7a \u2013 mesmo justificada \u2013 est\u00e1 acima do bem estar coletivo (mesmo que este seja ilus\u00f3rio e n\u00e3o reconhecido)? No pa\u00eds que herdamos, \u00e9 justo basearmos nossas escolhas e nossas \u00e9ticas pessoais na vantagem individual ou ainda h\u00e1 espa\u00e7o para pensarmos na coletividade? Um \u00fanico momento de gl\u00f3ria pode justificar a vida de um homem e um \u00fanico momento de vingan\u00e7a poderia ter o mesmo efeito?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E um \u00faltimo reflexo: n\u00e3o estamos n\u00f3s, a cada dia, diante deste mesmo p\u00eanalti? \u00c9 no meio dessas ang\u00fastias que encontramos Sa\u00fava. Diferente dele, por\u00e9m, n\u00e3o estamos acompanhados por bilh\u00f5es de espectadores. Estamos sozinhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 A partida em que se ambienta a hist\u00f3ria \u00e9 uma final de campeonato mundial entre Brasil e Alemanha. A escolha do advers\u00e1rio tem a ver com o famigerado 7 a 1, que tomamos na Copa de 2014? E como voc\u00ea desconstr\u00f3i aquele resultado, sabendo hoje de toda a corrup\u00e7\u00e3o que envolveu a prepara\u00e7\u00e3o daquele evento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES &#8211;<\/strong> Na verdade, vejo a Alemanha como o grande rival futebol\u00edstico do Brasil (mais do que a It\u00e1lia \u2013 e nem cito a rivalidade com a Argentina t\u00e3o artificialmente forjada pela Rede Globo). Em n\u00fameros de conquistas e participa\u00e7\u00f5es, em quantidade de gols marcados, em hist\u00f3ria, em peso de camisa, s\u00e3o essas as grandes pot\u00eancias. Mas h\u00e1 algo al\u00e9m: a esp\u00e9cie de jogo, a forma como se pratica o futebol. As escolas. Mesmo os alem\u00e3es tendo nos \u00faltimos anos se aproximado de um futebol mais suave, \u00e9 imposs\u00edvel fugir do pr\u00f3prio DNA. Sintetizando: o futebol alem\u00e3o \u00e9 o m\u00e9todo; o nosso, improviso. S\u00e3o op\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas, as duas melhores j\u00e1 feitas nesse esporte. Mas \u00e9 imposs\u00edvel fugir do 7 a 1. A maior vergonha da hist\u00f3ria do futebol. A possibilidade de uma catarse n\u00e3o poderia ser descartada. Como tudo no livro, todavia, \u00e9 uma catarse m\u00f3dica, nos p\u00eanaltis. Mas s\u00f3 teria sentido contra a Alemanha, nosso algoz. Para o bem e para o mal, o esporte espelha a vida. Por mais que, com o tempo, os aspectos extracampo possam contribuir para certas explica\u00e7\u00f5es, \u00e9 o resultado que fica para a hist\u00f3ria. Podemos pensar no acaso que foi o Brasil de 1982 perder para a It\u00e1lia com tr\u00eas gols do corrupto Paolo Rossi; podemos pensar no craque Zico perdendo um p\u00eanalti em 1986, porque n\u00e3o estava plenamente recuperado de contus\u00e3o; podemos pensar na \u00e1gua batizada que os argentinos deram a Branco na copa de 1990; e na misteriosa convuls\u00e3o do \u201cFen\u00f4meno\u201d, em 1998. Tudo isso, por\u00e9m, orbita sem relev\u00e2ncia diante do astro significativo: o placar e a elimina\u00e7\u00e3o. Por mais que o neg\u00f3cio futebol tenha se corrompido \u2013 e se corrompeu de modo imperdo\u00e1vel em todos os seus patamares \u2013, o esporte continuar\u00e1. E ser\u00e1 efetivamente o que foi feito em campo que ser\u00e1 lembrado. De modo que para sempre o 7 a 1 representar\u00e1 uma vergonha inapag\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O protagonista do seu livro \u00e9 um jogador de futebol que teve uma inf\u00e2ncia miser\u00e1vel, como \u00e9 comum a milhares de jogadores brasileiros que vieram dos espa\u00e7os marginalizados das grandes cidades. Um menino ruivo, de apelido Sa\u00fava, com um drama familiar bem pesado, que encontrou na bola um instrumento de salva\u00e7\u00e3o. Como foi dar vida a este protagonista? Foi inspirado em aspectos da realidade ou \u00e9 produto estritamente da fic\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> \u00c9 preciso antes uma nota t\u00e9cnica. Em fic\u00e7\u00e3o, acredito que o personagem \u00e9 essencial, tudo emana dele. \u00c9 o personagem que d\u00e1 vida \u00e0 narrativa. Para que o argumento de \u201cA cobran\u00e7a\u201d funcionasse, seria preciso um protagonista com v\u00e1rias especificidades. N\u00e3o poderia ser um zagueiro-brucutu que daria um bico para fora na hora do p\u00eanalti nem tampouco o craque-instagram que daria uma cavadinha humilhando o goleiro desesperado. Deveria ser um volante: o elo entre a defesa e o ataque. A mais amb\u00edgua das posi\u00e7\u00f5es do futebol: aquele que pode ser a s\u00edntese do que de mais fino j\u00e1 foi apresentado no futebol (Beckenbauer) com o que mais bruto foi apresentado (Dunga). Depois, entra a composi\u00e7\u00e3o f\u00edsica: Sa\u00fava \u00e9 ruivo. \u00c9 um alien\u00edgena, um estranho no futebol brasileiro. Quantos atletas ruivos defenderam a sele\u00e7\u00e3o brasileira? Esse aspecto f\u00edsico deixam inseguras nossas conclus\u00f5es. Esse sujeito seria capaz de tudo. Al\u00e9m disso, Sa\u00fava \u00e9 o capit\u00e3o do time (a formiga que trabalha pela coletividade). A b\u00fassola moral. Guarda em si uma obriga\u00e7\u00e3o: ele \u00e9 farol n\u00e3o pela t\u00e9cnica, mas pela seriedade, pela entrega que demonstra em campo. E \u00e9 exatamente essa entrega que justifica qualquer atitude tomada por ele. Fiquei muito feliz com a maneira com que esse personagem descambou para as p\u00e1ginas. \u00c9 dif\u00edcil esquec\u00ea-lo e esquecer seu drama depois de habitar sua mente naqueles segundos que o levam ao p\u00eanalti, naquelas p\u00e1ginas que levam \u00e0 cobran\u00e7a. Por\u00e9m, seria necess\u00e1rio que Sa\u00fava tivesse uma hist\u00f3ria que oferecesse verossimilhan\u00e7a \u00e0s suas poss\u00edveis escolhas diante do goleiro alem\u00e3o. Ent\u00e3o, colocamos aquele menino em seu processo de forma\u00e7\u00e3o \u2013 como dito: nem um pouco f\u00e1cil. Entram a\u00ed a fabula\u00e7\u00e3o e a inven\u00e7\u00e3o, o car\u00e1ter mesmo da literatura. Manusear como t\u00edteres aqueles infelizes personagens, o pai e a m\u00e3e, para que eles fornecessem a mat\u00e9ria humana complexa que gerou nosso capit\u00e3o, Sa\u00fava. E, claro, minha posi\u00e7\u00e3o preferida em campo, at\u00e9 hoje, \u00e9 a de volante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 A literatura ficcional brasileira tem um hist\u00f3rico de bons livros sobre futebol. Eu cito Nelson Rodrigues, Moacyr Scliar e S\u00e9rgio Sant&#8217;Anna, por exemplo, como grandes autores que se debru\u00e7aram sobre o tema. No caso da prepara\u00e7\u00e3o de \u201cA cobran\u00e7a\u201d, voc\u00ea chegou a criar uma bagagem bibliogr\u00e1fica para estruturar seu livro ou n\u00e3o precisou, pois imaginou o futebol mais como um dispositivo para dar forma ao seu enredo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> Minha rela\u00e7\u00e3o com o futebol sempre foi muito pr\u00f3xima, tanto praticando quanto assistindo. Acho mesmo que h\u00e1 algo de especial, de superior, neste esporte. As mesmas palavras e impress\u00f5es podem ser aplicadas \u00e0 literatura. Acho mesmo que h\u00e1 algo especial nesta arte. De modo que livros sobre futebol \u2013 sobretudo de grandes autores \u2013 foram sempre um interesse meu. Al\u00e9m dos citados, ainda lembro com destaque de contos do Marcelo Moutinho, do Rubem Fonseca, o livro do Laub, os ensaios do Wisnik e do Hil\u00e1rio Franco. Assim, naturalmente, ao longo da minha forma\u00e7\u00e3o de leitor, essa bagagem, de modo natural, vinha sendo montada. Essas leituras \u2013 embora prazerosas \u2013 pouco influenciaram na escrita efetiva de \u201cA cobran\u00e7a\u201d. As maneiras como as engrenagens do livro foram dialogando pediam certas escolhas t\u00e9cnicas e formais muito espec\u00edficas, exclusivas desta hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15053\" aria-describedby=\"caption-attachment-15053\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_0684.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15053 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_0684.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_0684.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_0684-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15053\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Rodrigues \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 No seu livro anterior, \u201cReceita para se fazer um monstro\u201d, os contos tamb\u00e9m tratam de personagens com inf\u00e2ncias fraturadas, convertidas numa fase de desarranjo emocional, de falhas e de crueldades sofridas e infligidas. Voc\u00ea consegue estabelecer uma liga\u00e7\u00e3o entre seus dois livros? E h\u00e1, em seu est\u00edmulo criativo, uma preocupa\u00e7\u00e3o permanente em dar voz a personagens marginalizados?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> \u00c9 do Paulo Mendes Campos aquele belo verso: \u201cSou restos do menino que passou\u201d. H\u00e1 tamb\u00e9m aquela frase-clich\u00ea do Br\u00e1s Cubas: \u201cO menino \u00e9 o pai do homem.\u201d \u00c9 imposs\u00edvel fugir da inf\u00e2ncia \u2013 e l\u00e1 est\u00e3o recept\u00e1culos de boa parte da fic\u00e7\u00e3o que foi produzida. \u00c9 para mim um espa\u00e7o essencial \u00e0 cria\u00e7\u00e3o. Na minha biografia, h\u00e1 um dado que \u00e9 importante. Tive inf\u00e2ncia sem traumas: fam\u00edlia estruturada, lar sem viol\u00eancia, financeiramente sem pobreza extrema e sem riqueza ostentosa. Isso me deu, creio, o distanciamento necess\u00e1rio para pensar e refletir sobre as outras inf\u00e2ncias, alheias a minha. E que tipo de repercuss\u00e3o inf\u00e2ncias disfuncionais gerariam na alma e na \u00edndole e nas a\u00e7\u00f5es desses personagens quando na vida adulta. Tanto o protagonista sem nome do \u201cReceita&#8230;\u201d como o Sa\u00fava de \u201cA cobran\u00e7a\u201d s\u00e3o resultados diretos de suas inf\u00e2ncias torpes \u2013 e que, agora, est\u00e3o diante de momentos crucias de suas trajet\u00f3rias. H\u00e1 algo neles, contudo, que \u00e9 muito caro a mim. Longe de qualquer tipo inescap\u00e1vel de determinismo, eles seguram as r\u00e9deas de suas vidas, de suas escolhas. Eles pr\u00f3prios asseguram que t\u00eam o poder de escolher, o prazer e o \u00f3dio lhes pertencem, a responsabilidade \u00e9 deles \u2013 e n\u00e3o fogem disso. Esses seres humanos no limiar de suas decis\u00f5es me interessam. E acho que devem interessar \u00e0 literatura. Nesse ponto, os livros dialogam muito. A literatura \u00e9 a maior lente de aumento que existe: n\u00e3o d\u00e1 para desperdi\u00e7ar essa ferramenta \u2013 mesmo, como se sabe, tendo ela perdido relev\u00e2ncia social no \u00faltimo s\u00e9culo. Acho enfadonha essa literatura ensimesmada que vem sendo feita no Brasil (uma ressalva: feita e incensada; porque h\u00e1 outra literatura, fort\u00edssima, pujante e original \u2013 e que passa ao largo desse pat\u00e9tico mainstream liter\u00e1rio brasileiro). Ent\u00e3o, realmente, n\u00e3o me ocupo com escritores-personagens que passam uma temporada macamb\u00fazia em Paris e acham que isso \u00e9 mat\u00e9ria de interesse para a literatura e leitores. O abismo \u00e9 o que me interessa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Embora tenha esse apelo do futebol, seu livro problematiza alguns assuntos sempre atuais acerca do contexto social brasileiro, como a pobreza, o descaso total do Estado, a corrup\u00e7\u00e3o, a inefici\u00eancia dos mecanismos de servi\u00e7o p\u00fablico. Voc\u00ea \u00e9 a favor do uso da literatura como ve\u00edculo de den\u00fancia? Acredita que, por fatores que est\u00e3o al\u00e9m do pendor art\u00edstico-criativo, falta engajamento para grande parte dos autores brasileiros?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES &#8211;<\/strong> Em primeiro lugar devo dizer que n\u00e3o h\u00e1 nada de errado em um autor ter consci\u00eancia pol\u00edtica. Ali\u00e1s, o ideal \u00e9 que ele a tenha e seja \u00e9tico e coerente com a defesa da mesma. Militante at\u00e9, se for o caso. O Rubem Figueiredo diz taxativo: \u201cA literatura \u00e9 pol\u00edtica\u201d, algo que endosso. E mais: uma obra liter\u00e1ria pode mudar (antes mais do que hoje, em virtude do esvaziamento social do discurso liter\u00e1rio) os paradigmas de um povo. Vejamos a obra de Graciliano Ramos, meu escritor favorito. Vejamos a foto do Garc\u00eda Lorca recitando poemas contra os fascistas que o fuzilariam: \u00e9 das coisas mais forte feitas por um ser humano. Por\u00e9m, \u00e9 preciso cuidado: uma vez eu (escritor) descobrindo uma demanda social, a necessidade de um determinado grupo de press\u00e3o, uma vez determinada uma pauta politicamente correta, ent\u00e3o eu (escritor) montaria uma obra ficcional para afagar esses nichos e por eles ser aceito e endeusado e reconhecido e a partir da\u00ed ter minha literatura (duvidosa) apreciada e circulante. Isso \u00e9 falho. J\u00e1 o \u00e9 do ponto de vista est\u00e9tico, do ponto de vista \u00e9tico \u00e9 um acinte. Ocorre que, na minha concep\u00e7\u00e3o de arte, a literatura est\u00e1 acima, n\u00e3o necessariamente dissociada, mas acima de discuss\u00f5es e conting\u00eancias pol\u00edticas. A literatura \u00e9 maior, simples assim. Como Goya, na Espanha deflagrada, que colocou sua arte acima da politicagem. E, no entanto, ser\u00e1 \u201cOs desastres da guerra\u201d o testemunho mais visceral e pungente de sua \u00e9poca e a cr\u00edtica intermin\u00e1vel dos desmandos dos poderosos. \u201cA cobran\u00e7a\u201d n\u00e3o \u00e9 um livro pusil\u00e2nime. \u00c9 livro corajoso. Que n\u00e3o se esconde do zeitgeist em que vivemos. Mas eu n\u00e3o aponto caminhos em minha literatura. Proselitismos. N\u00e3o h\u00e1 didatismo, beletrismo e autoajuda. Minha obra \u00e9 labirinto. Joga o leitor nos canais e corredores. H\u00e1 a direita e h\u00e1 a esquerda e h\u00e1 o centro. E, neste labirinto, est\u00e1 Ast\u00e9rio, o minotauro.\u00a0 Se voc\u00ea vai escapar dali com um fio de ouro na m\u00e3o e a l\u00e2mina banhada pelo sangue antropobovino ou se ter\u00e1 seus fatos eviscerados pelos chifres pontudos do boi-real \u00e9, mais do que escolha, compet\u00eancia de cada leitor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Estamos num ano interessante, em que tivemos uma Copa do Mundo de Futebol seguida de uma elei\u00e7\u00e3o para a presid\u00eancia do Brasil. Nos anos 70, no auge da ditadura, a conquista do campeonato mundial foi intensamente utilizada como pe\u00e7a de propaganda pelos militares. Tra\u00e7ando um paralelo com seu livro, qual o perigo que o futebol pode oferecer quando visto sob o prisma pol\u00edtico? E parafraseando Nelson Rodrigues, futebol \u00e9 mesmo o \u00f3pio do povo brasileiro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> O poder de penetra\u00e7\u00e3o emotiva na alma coletiva de um povo que o esporte possui j\u00e1 foi in\u00fameras vezes aventado e aplicado. Vejamos, por exemplo, Mandela e o r\u00fagbi na \u00c1frica do Sul p\u00f3s-apartheid, os panteras negras nas Olimp\u00edadas de 1968 e ainda Muhammad Ali. \u00c9 dado da natureza, tamb\u00e9m, que autoridades se apropriem disso para adapt\u00e1-lo a seus discursos, sejam eles nacionalistas, partid\u00e1rias, xenof\u00f3bicos etc. Capitalizar em cima de vit\u00f3rias esportivas \u00e9 algo a sempre ficarmos atentos. A Copa de 1970 foi emblem\u00e1tica nesse sentido, sobretudo quando lembramos que M\u00e9dici realmente gostava de futebol e entendia de seus meandros. Por\u00e9m, esse perigo j\u00e1 foi mais real. Hoje, como disse, a rela\u00e7\u00e3o do brasileiro comum com o futebol mudou sobremaneira. Durante a Copa da R\u00fassia, poucas ruas foram decoradas com as cores da sele\u00e7\u00e3o; houve alunos meus (portanto, a nova gera\u00e7\u00e3o) que perguntaram por que n\u00e3o haver aula durante o jogo da sele\u00e7\u00e3o brasileira? O n\u00famero de pessoas realmente apaixonadas pelo futebol, aquele futebol do dia a dia, no Brasil, \u00e9 relativamente pequeno. Mesmo um hexacampeonato ter\u00e1 pouca influ\u00eancia nos caminhos pol\u00edticos da na\u00e7\u00e3o. Como Sa\u00fava, ser\u00e1 a revolta \u00edntima e individual, somada \u00e0s revoltas de cada um, a \u00fanica for\u00e7a transformadora deste pa\u00eds, se a apatia n\u00e3o nos vencer a todos. A met\u00e1fora do Nelson envelheceu. Assim como o \u00f3pio e a hero\u00edna deram lugar a outras drogas, o que nos aliena hoje, como povo, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o esporte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Com o seu primeiro livro, voc\u00ea conquistou o Pr\u00eamio Sesc de Literatura, na categoria Contos. Diante da realidade do mercado liter\u00e1rio brasileiro, qual o maior benef\u00edcio de se ganhar um pr\u00eamio de literatura e qual a maior ilus\u00e3o que um autor premiado pode ter?<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> Sou um defensor e admirador ferrenho do Pr\u00eamio Sesc, antes mesmo de t\u00ea-lo conquistado. \u00c9 a maior iniciativa para os escritores iniciantes da literatura brasileira. O Henrique Rodrigues e o Fred Girauta, que encabe\u00e7am o projeto, s\u00e3o dois sujeitos que tenho na mais alta admira\u00e7\u00e3o pelo belo trabalho que fazem, pelos nomes que t\u00eam revelado, pelos livros que surgiram a partir desse pr\u00eamio. E, claro, fa\u00e7o men\u00e7\u00e3o \u00e0 Editora Record, que acreditou no projeto l\u00e1 nos idos de 2003. O pr\u00eamio se bifurca em dois grandes benef\u00edcios. Primeiro, o selo de uma grande editora. Embora isso n\u00e3o chancele sua obra em rela\u00e7\u00e3o a voc\u00ea mesmo (afinal, subtende-se que um escritor deva ter a autocr\u00edtica necess\u00e1ria para saber quando seu trabalho tem for\u00e7a ou quando \u00e9 franco, sem necessidade de chancelas externas), impressiona a maneira diferenciada como o mercado, os leitores e a m\u00eddia veem um livro publicado por uma grande editora. E inevitavelmente isso abra portas \u2013 falando de maneira madura, \u00e9 uma mudan\u00e7a de patamar para o escritor (volto a dizer: n\u00e3o uma mudan\u00e7a de seu talento, mas da visibilidade que esse poss\u00edvel talento recebe). O outro benef\u00edcio: o circuito que o Sesc faz com os ganhadores, estes participando de palestras e mesas pelo Brasil afora: a quantidade de pessoas com quem voc\u00ea dialoga neste ano que compreende o pr\u00eamio \u00e9 incr\u00edvel. Aprende-se muito. Alguns funcion\u00e1rios do Sesc s\u00e3o artistas brilhantes e o conv\u00edvio com eles \u00e9 muito interessante. E h\u00e1 o contato com os leitores. Pessoas que efetivamente leram seu livro, sem o ran\u00e7o intelectual\u00f3ide de certas leituras. Leram pelo prazer da imers\u00e3o em um personagem e em um mundo, seu mundo e seu personagem. \u00c9 sempre uma troca muito rica. Por exemplo: tive a honra de participar em Paraty de um clube de leitores \u2013 pessoas que leram e debateram meu livro durante um m\u00eas e, no final do per\u00edodo, fui at\u00e9 eles para conversarmos sobre a obra. Imagine-se a quantidade de coisas que descobri sobre meu pr\u00f3prio livro&#8230; al\u00e9m disso, fizeram aqui em Pernambuco uma amostra de teatro onde as hist\u00f3rias do \u201cReceita&#8230;\u201d foram encenadas e ent\u00e3o vi o personagem pular das p\u00e1ginas \u2013\u00a0 sem d\u00favida, experi\u00eancias que n\u00e3o t\u00eam pre\u00e7o. Sem o Pr\u00eamio Sesc, simplesmente elas n\u00e3o iriam existir. Quanto \u00e0 principal ilus\u00e3o: acredito que tudo decorre de uma vis\u00e3o equivocada sobre o of\u00edcio de escrever e sobre o mercado liter\u00e1rio. Alguns escritores colocam o of\u00edcio no mundo do showbizz, encarando a si mesmo como popstar, uma diva. Esperam camarotes com infinitas toalhas brancas, paparazzi, contas milion\u00e1rias: \u00e9 a paulo-coelhiza\u00e7\u00e3o da literatura. N\u00e3o \u00e9 por a\u00ed que a escrita caminha. A literatura \u00e9 a confec\u00e7\u00e3o lenta e silenciosa de uma obra. \u00c9 o principal patrim\u00f4nio de um escritor. O pr\u00eamio, seja ele pecuni\u00e1rio e de outra ordem (dar visibilidade), \u00e9 apenas um incentivo, por vezes m\u00f3dico, para que essa obra seja constru\u00edda. Aparecer na TV, ser popular no Facebook, frequentar certa cena liter\u00e1ria, coisas que pr\u00eamios proporcionam, n\u00e3o devem ser nunca a raz\u00e3o de ser de um escritor. E n\u00e3o \u00e9. A vela do escrit\u00f3rio de Flaubert servindo na madrugada de pequeno farol para os barcos de Rouen \u00e9 o melhor s\u00edmbolo para um escritor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DIVERSOS AFINS \u2013 Ainda em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00eamio, voc\u00ea \u00e9 um autor do Nordeste do pa\u00eds, que atingiu visibilidade nacional em raz\u00e3o de o seu livro ter sido publicado por um grande grupo editorial. Olhando com dist\u00e2ncia essa realidade, voc\u00ea acredita que teria chance de publica\u00e7\u00e3o com tamanha amplitude, caso n\u00e3o tivesse sido premiado? Ainda \u00e9 necess\u00e1rio o autor estar no eixo Rio-S\u00e3o Paulo para que seu trabalho consiga ser enxergado?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> N\u00e3o. N\u00e3o haveria a menor chance de publicar por uma grande casa editorial sem o caminho aberto pelo Pr\u00eamio Sesc. N\u00e3o \u00e9 que o mercado liter\u00e1rio brasileiro seja fechado. \u00c9 simples: n\u00e3o existe efetivamente o mercado liter\u00e1rio no Brasil. Ningu\u00e9m est\u00e1 interessado em descobrir o grande romance brasileiro. Naturalmente, existem os autores estabelecidos que interessam \u00e0s casas editoriais (mesmo que seus livros atuais n\u00e3o tenham nenhum valor efetivo) e outros autores novos que, por um motivo ou outro (um agente liter\u00e1rio mais influente ou se enquadram em certos nichos de cor, op\u00e7\u00e3o sexual e classifica\u00e7\u00e3o social-financeira), fazem parte desses portf\u00f3lios. Mas uma pol\u00edtica de fomento \u00e0 nova literatura n\u00e3o existe. Tornou-se muito f\u00e1cil no Brasil imprimir um livro, mas publicar um livro \u00e9 das coisas mais dif\u00edceis. Explico: contratar um servi\u00e7o de uma gr\u00e1fica ou de uma gr\u00e1fica camuflada de editora \u00e9 f\u00e1cil. Mas o escoamento desse material \u00e9 sempre muito angustiante. \u00c9 o momento em que se percebe que voc\u00ea n\u00e3o tornou p\u00fablica sua obra, n\u00e3o houve a publica\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea apenas imprimiu seu texto. Estar no eixo Rio-S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda muito. Com minha personalidade, se eu morasse em Ipanema ou nos Jardins, no Complexo do Alem\u00e3o ou em Itaquera, n\u00e3o publicaria meus livros sen\u00e3o atrav\u00e9s de um pr\u00eamio como o Sesc. A mera situa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica n\u00e3o ajudaria em nada. O que ajuda \u2013 e agora n\u00f3s entraremos num terreno mais capcioso \u2013 \u00e9 o que chamam, termo horr\u00edvel, de network, sua rede de trabalho. \u00c9 voc\u00ea estar disposto a fazer o jogo. Como se diz no esporte: \u201cJogo \u00e9 jogado, lambari \u00e9 pescado.\u201d Se o sujeito estiver disposto a mendigar amizade de grupelhos de escritores com certa influ\u00eancia sobre certos grupelhos de editores, paparic\u00e1-los em oficinas liter\u00e1rias pagas ou acompanh\u00e1-los em eventos esvaziados de p\u00fablico nos quais eles participam e ser aquele seguidor ferrenho em suas redes sociais, forjar talvez uma amizade artificial (ambos sabendo dessa artificialidade), o sujeito assim pode receber, um belo dia, algum tipo de convite, uma inser\u00e7\u00e3o no famigerado mundo liter\u00e1rio. Mas \u00e9 preciso ter a \u00edndole necess\u00e1ria para isso. Nem todos t\u00eam. Eu n\u00e3o tenho. Grupelhos autorreferentes s\u00e3o aquela imagem do Paul Auster: a fachada bonita de um castelo, mas quando voc\u00ea se aproxima \u00e9 de papel\u00e3o. Ao atravessar a fachada, n\u00e3o h\u00e1 nada l\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15054\" aria-describedby=\"caption-attachment-15054\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_0670.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15054 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_0670.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_0670.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/IMG_0670-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15054\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rio Rodrigues \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea trabalha com escrita e literatura, ensinando reda\u00e7\u00e3o para adolescentes. Constantemente, pesquisas d\u00e3o conta de um n\u00famero ainda inexpressivo de brasileiros que leem ou mesmo que se envolvem com a literatura na condi\u00e7\u00e3o de h\u00e1bito e de lazer. Da sua experi\u00eancia di\u00e1ria, como enxerga esse panorama? Os jovens est\u00e3o lendo de fato, demonstrando interesse pela literatura, ou ainda estamos longe de uma gera\u00e7\u00e3o efetivamente de leitores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> A resposta varia. Meus alunos s\u00e3o bons leitores. \u00c9 comum v\u00ea-los com livros nas m\u00e3os \u2013 mas \u00e9 preciso fazer um recorte espec\u00edfico. Acabo dando aula, na maioria das vezes, para alunos de certa classe social mais privilegiada, onde o acesso ao livro n\u00e3o \u00e9 algo ex\u00f3tico, poderia dizer que \u00e9 algo natural. H\u00e1 livros no seu cursinho em abund\u00e2ncia e disponibilidade, h\u00e1 livros em casa. Os pais t\u00eam condi\u00e7\u00f5es, se os meninos assim quiserem, de bancar a aquisi\u00e7\u00e3o de livros para que seus filhos os leiam. Por\u00e9m, mesmo nesse caso raro, a literatura consumida \u00e9 muito espec\u00edfica. N\u00e3o h\u00e1 a\u00ed nenhuma cr\u00edtica, mas s\u00e3o s\u00e9ries superficiais e h\u00e1 pouqu\u00edssima transi\u00e7\u00e3o dessa literatura para algo mais apurado artisticamente ou temas mais sofisticados e camadas mais profundas. Em resumo, h\u00e1 um momento em que o jovem perde esse \u00edmpeto leitor. O papel do professor \u00e9 fazer essa ponte. Muitas vezes, contudo, os jos\u00e9s de alencar inviabilizam o di\u00e1logo e a sensibilidade dos jovens leitores com o potencial da literatura. O professor atento faz a media\u00e7\u00e3o, ganha leitores. Mas h\u00e1 poucos desses professores. Saindo desse nicho socialmente privilegiado, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 d\u00edspar. \u00c9 deprimente. N\u00e3o teremos uma gera\u00e7\u00e3o de leitores. O livro \u00e9 inacess\u00edvel para a maioria dos jovens brasileiros. Os poucos que t\u00eam acessos a eles n\u00e3o t\u00eam o n\u00edvel de leitura capaz de lhes fornecer a abstra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 leitura: h\u00e1 decodifica\u00e7\u00e3o de letras e fonemas, apenas. Existe uma luta, em boa parte da nossa sociedade, pela sobreviv\u00eancia imediata. Nesse mundo, o livro e a literatura n\u00e3o s\u00e3o realidades distantes, s\u00e3o realidades inexistentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 A educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 na literatura na mesma propor\u00e7\u00e3o que a literatura est\u00e1 na educa\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> Infelizmente, n\u00e3o. H\u00e1 muito pouca literatura na educa\u00e7\u00e3o. De modo geral, as aulas de literatura s\u00e3o sucateadas, mec\u00e2nicas, decorebas. O curr\u00edculo escolar \u00e9 anacr\u00f4nico, e n\u00e3o adaptado \u00e0s necessidades et\u00e1rias e de maturidade dos alunos. Parece mesmo que a literatura na educa\u00e7\u00e3o, na escola, \u00e9 forjada de tal modo a afastar leitores. Nos vestibulares e no Enem, que poderiam servir como farol para o que \u00e9 feito em sala de aula, cada vez mais a literatura se encontra subalterna \u2013 mesmo em provas essencialmente de interpreta\u00e7\u00e3o de texto. Nestas, textos t\u00e9cnicos, cient\u00edficos e jornal\u00edsticos predominam. \u00c9 realidade: a literatura est\u00e1 esvaziada \u2013 e a escola reflete a sociedade (n\u00e3o o contr\u00e1rio). A vis\u00e3o jesu\u00edtica de educa\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o estimulava a criatividade e apenas a apreens\u00e3o nos fez muito mal. E literatura \u00e9 criatividade. Por outro lado, quanta educa\u00e7\u00e3o e quanto ensinamento guarda um bom texto liter\u00e1rio! Quanto a literatura nos educa! Como pessoas, como cidad\u00e3os, como cr\u00edticos. Como transformadores de uma realidade individual e, qui\u00e7\u00e1, social. Milton Hatoum: \u201cSe n\u00e3o fosse a literatura, eu seria um bobalh\u00e3o\u201d \u2013 \u00e9 uma verdade. N\u00e3o h\u00e1 forma melhor de aprender sobre o Norte deste pa\u00eds do que num livro como \u201cEu receberia a pior not\u00edcias dos seus lindos l\u00e1bios\u201d, de Mar\u00e7al Aquino, nem sobre o Nordeste num livro como \u201cEmiss\u00e1rios do Diabo\u201d, de Gilvan Lemos. Como n\u00e3o aprender tudo sobre a sombra do nazismo depois de ler Bruno Schulz e sobre a coloniza\u00e7\u00e3o da \u00c1frica depois de \u201cO cora\u00e7\u00e3o das trevas\u201d? O para\u00edso \u00e9 uma esp\u00e9cie de biblioteca, diz o poeta. Mas n\u00e3o podemos obrigar ningu\u00e9m a entrar nele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Muito se fala do esporte, entre os quais o futebol, como ferramenta elementar para oferecer um futuro melhor para crian\u00e7as oriundas de comunidades de baixa renda, em muitos casos dominadas pelo crime. Na sua opini\u00e3o, a literatura pode ter ou tem esse mesmo poder de transforma\u00e7\u00e3o social?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> Em teoria, sim; na pr\u00e1tica, n\u00e3o. A literatura perdeu sua fun\u00e7\u00e3o social (n\u00e3o quer dizer que um dia, no futuro, n\u00e3o possa ser reconquistada, embora n\u00e3o acredite nisso). Ela interessar\u00e1 cada vez mais a um grupo menor de pessoas. Imaginemos a matem\u00e1tica e o xadrez, ramos do conhecimento apaixonantes, mas deslocados da realidade, embora sideradores de grupos espec\u00edficos. Este \u00e9 o futuro da literatura: tornar-se cada vez mais o conhecimento de um grupo, uma seita de iniciados. H\u00e1, inclusive, quem defenda que a literatura s\u00f3 sobreviver\u00e1 assim. Se arvorar a um papel de transformadora dos h\u00e1bitos sociais e culturais, \u00e9 erro. O vi\u00e7o estaria exatamente em sua introspec\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 lamento nessa vis\u00e3o. Perdemos muitas oportunidades. Afunilando para o Brasil, em v\u00e1rios anos de relativa estabilidade econ\u00f4mica e pol\u00edtica, n\u00e3o soubemos transferir para a educa\u00e7\u00e3o o protagonismo. Preferimos consumir celulares em vez de cultura, bibel\u00f4s em lugar de livros&#8230; Poder\u00edamos estar vendo, agora, a aurora de uma nova gera\u00e7\u00e3o leitora, cr\u00edtica e consciente, mas observamos o nascer de pensamentos ainda mais retr\u00f3grados. \u00c9 o pre\u00e7o que pagamos. H\u00e1 livros transformadores. Mas est\u00e3o lacrados, perdidos em alguma prateleira empoeirada de rar\u00edssimas bibliotecas p\u00fablicas \u2013 que nunca est\u00e3o abertas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 No Brasil, \u00e9 mais f\u00e1cil ser escritor ou jogador de futebol?<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> Houve tempo em que ser jogador de futebol era coisa de malandro, de vagabundo, de quem n\u00e3o queria trabalhar. Hoje, essa vis\u00e3o mudou radicalmente. H\u00e1 pais que fazem disso a meta de vida de seus filhos, mesmo antes destes aprenderem a caminhar direito. O irm\u00e3o do Ronaldinho e o pai do Neymar s\u00e3o prova disso. De modo que dif\u00edcil mesmo \u00e9 ser escritor. Em pa\u00edses perif\u00e9ricos como o nosso (mas isso acontece em menor grau em v\u00e1rias partes do mundo), ser escritor \u00e9 uma afronta. Uma excresc\u00eancia. Uma aberra\u00e7\u00e3o. Meu amigo (e um dos melhores contistas em atividade no pa\u00eds), Nivaldo Ten\u00f3rio, tem uma imagem perfeita: o escritor est\u00e1 em seu escrit\u00f3rio compondo o livro que vai mudar a literatura brasileira, ent\u00e3o a mulher o recorda de que \u00e9 preciso limpar as bostas do cachorro no quintal. A literatura \u00e9 menos importante do que as fezes a serem recolhidas. Ser escritor, no Brasil, \u00e9 tentar compor uma obra, mesmo rodeado de fezes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Se voc\u00ea estivesse no lugar de Sa\u00fava, marcaria ou perderia o p\u00eanalti? Por qu\u00ea? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00c1RIO RODRIGUES \u2013<\/strong> Eu perderia o p\u00eanalti. Pois quem n\u00e3o reage, rasteja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trazendo \u00e0 tona as marcas de sua viv\u00eancia com a Literatura, o escritor M\u00e1rio Rodrigues \u00e9 entrevistado por S\u00e9rgio Tavares <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15050,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3532,16,2539],"tags":[3547,63,254,3546,489,1023],"class_list":["post-14984","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-126a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-a-cobranca","tag-entrevista","tag-escritor","tag-mario-rodrigues","tag-pequena-sabatina","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14984","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14984"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14984\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15055,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14984\/revisions\/15055"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15050"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14984"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14984"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14984"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}