{"id":15024,"date":"2018-07-29T11:47:15","date_gmt":"2018-07-29T14:47:15","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=15024"},"modified":"2018-10-24T16:25:01","modified_gmt":"2018-10-24T19:25:01","slug":"dedos-de-prosa-26","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-26\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00a0Jorge Mendes<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15095\" aria-describedby=\"caption-attachment-15095\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/12-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15095 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/12-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"406\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/12-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/12-1-300x244.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15095\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Mar\u00eda Tudela<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SOBRE OS OMBROS DO VENTO VELOZ QUE ME LEVA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ontologia voraz<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">o tempo tem dentes afiados e come pelas bordas. voc\u00ea n\u00e3o percebe o estrago, a eros\u00e3o abrindo buracos escuros no peito e pratica esportes monocrom\u00e1ticos, se socializa com os vermes, decora as senhas. segue o esquema. o tempo \u00e9 um bom c\u00e3o de ca\u00e7a e se alimenta de sombras e psicopatologias. voc\u00ea sente calafrios, flutua entre nuvens desidratas, faz pactos com a insolv\u00eancia, \u00e9 seduzido pelos que sabem manipular o gelo. o tempo tem os olhos de vidro que emba\u00e7am e hipnotizam e voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 vivo nem morto e ningu\u00e9m d\u00e1 a m\u00ednima. o tempo sofre do v\u00edcio em adrenalina e vertigens. o tempo sussurra em seus ouvidos o primeiro nome do inimigo e engatilha a pistola nos seus t\u00edmpanos. o tempo est\u00e1 parado na esquina vendendo rel\u00f3gios, negociando destro\u00e7os e doen\u00e7as de pele. o tempo acumula rancores e vaidades em caixinhas espelhadas. o tempo entra no morma\u00e7o, trava o cora\u00e7\u00e3o. o tempo tem as pontas dos dedos geladas e um manto negro sobre os ombros. o tempo vai domesticar todos os sonhos, corromper a natureza dos p\u00e1ssaros. o tempo \u00e9 o outro, todos os outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>sitiado<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">cercado por bichinhos de estima\u00e7\u00e3o, orqu\u00eddeas rancorosas e teorias motivacionais. cercado por perfis megaloman\u00edacos, necrol\u00f3gicos recreativos e hinos de louvor. cercado por incensos e britadeiras. cercado pelo bizarro, por imagens da destrui\u00e7\u00e3o e helic\u00f3pteros. cercado pelos c\u00e3es da pol\u00edcia militar, gerentes do tr\u00e1fico e garotas anor\u00e9ticas que me monitoram pelo google. cercado por flores de perfumes degradantes, por p\u00e1ssaros autistas, gatos obesos e crian\u00e7as em tons de cinza. cercado por energ\u00e9ticos, depressivos, anticorrosivos. cercado pelas vozes dos alto-falantes, por fogos de artif\u00edcio, pelos gritos e tiros de ar-15. cercado pelo morma\u00e7o, pelo frio calor. cercado por corpos e objetos que provocam dor e fazem sangrar. cercado por m\u00e1scaras, pr\u00f3teses, luvas de borracha, gadgets e met\u00e1foras da carnificina. cercado por deuses de pl\u00e1stico e caixas de supermercado. cercado por passeatas e paredes, orix\u00e1s, gases lacrimog\u00eaneos e erva daninha. cercado pelo invis\u00edvel horror e por todo o lixo que existe ao meu redor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>necrosociety<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00e9 preciso acalmar o medo com voos panor\u00e2micos no elevador de vidro, pr\u00f3teses sensoriais, tabletes, ansiol\u00edticos. \u00e9 preciso acalmar o medo levantando peso, clareando os dentes, eliminando gordura. \u00e9 preciso acalmar o medo com mantras, mentiras, hinos de louvor, esgoto, efus\u00f5es de ervas m\u00e1gicas, gadgets. \u00e9 preciso acalmar o medo bebendo do veneno incandescente. \u00e9 preciso acalmar o medo no com\u00e9rcio dos corpos, na sala escura com aparelhos de tv, indo dan\u00e7ar com os trapaceiros. \u00e9 preciso acalmar o medo negociando com os deuses e os dem\u00f4nios da dissimula\u00e7\u00e3o, com doses cavalares de t\u00e9dio e tinturas para o rosto. \u00e9 preciso acalmar o medo com alvejantes, sucos de clorofila, recebendo propinas e esp\u00edritos da maledic\u00eancia. \u00e9 preciso acalmar o medo com barbit\u00faricos l\u00edricos, falcatruas, c\u00e2meras de seguran\u00e7a, estelionato. \u00e9 preciso acalmar o medo molhando de sangue, suborno e mis\u00e9ria as m\u00e3os dos homens p\u00fablicos. \u00e9 preciso acalmar o medo ficando r\u00edgido e desidratado. \u00e9 preciso acalmar o medo como fazem os cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>addiction blues<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ela diz que sou feio, confuso e indiferente \u00e0 luz do sol e tenta me prender dentro do cubo de gelo. ela simula caridade e ataques card\u00edacos pra que eu entre em transe e frite na fervura. em seu planetinha corrosivo existem plantas carn\u00edvoras, tempestades el\u00e9tricas, coca\u00edna. ela corrompe minha natureza de p\u00e1ssaro, me passa mal\u00e1ria e os barbit\u00faricos. ela se finge de morta e eu s\u00f3 no conhaque. ela l\u00ea o que escrevo sentada s\u00f3 de calcinha na mesa da cozinha e diz que n\u00e3o tem tempo nem paci\u00eancia prus meus paradoxos e viagens suicidas ao redor do fogo. ela ri do meu medo, me aprisiona em espelhos que s\u00e3o frios frios frios. ela me leva pru fundo do mar e me deixa an\u00eamico, aflito, incomunic\u00e1vel. ela tem um jeito de mexer nos cabelos curtos que desestabiliza as s\u00f3lidas estruturas. ela me olha de longe, sem piscar, e ainda d\u00f3i. ela me beija com desespero e ternura, ela me ama com tigres e punhais, ela corr\u00f3i meu voo de \u00edcaro, apaga meus passos, me abandona em labirintos, acende meu desejo, morde meus mamilos e \u00e9 por isso que eu bebo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>inintelig\u00edvel\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">existe algo de sublime e sujo no amor. algo que faz o assoalho tremer e que incomoda a vizinhan\u00e7a. existe algo no amor que fura a pele e deixa rastros de sangue pelo ch\u00e3o da cozinha. existe algo no amor que provoca febres, corros\u00f5es, desmoronamentos. existe algo no amor que embriaga os p\u00e1ssaros e nos faz dan\u00e7ar violentos e descontrolados ao redor da fogueira. existe algo no amor que \u00e9 doce, \u00e1cido, incandescente. existe algo no amor que alucina, causa sonambulismo, desafia a gravidade e faz voar. existe algo no amor que provoca espasmos, psicoses, infec\u00e7\u00f5es e ainda goza. existe algo no amor que cavalga os ventos, arranha a carne e as paredes, corta os cabelos bem curtos, abre oceanos e produz cegueira e uma severa forma de dor. existe algo no amor que n\u00e3o tem cura, que \u00e9 loucura, perversidade e canibalismo. existe algo no amor que dispensa explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>chroma key<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">um romance parecido com filme super 8 e rastros de fogo. um romance com h\u00e1lito de vodca, com formigas correndo na corrente sangu\u00ednea, pista magn\u00e9tica e flores carn\u00edvoras. um romance que solte as m\u00e3os na curva fechada, que abra asas quando pular do d\u00e9cimo segundo andar. um romance atravessado na cal\u00e7ada atrapalhando os pedestres. um romance sem dia seguinte, com olheiras fundas e olhar obstinado. um romance vol\u00e1til que levite sobre os inc\u00eandios. um romance com os cabelos molhados pela tempestade, que solte fa\u00edscas e choque el\u00e9trico a cada beijo. um romance inesperado, sem ponto final, que comece pelo fim, que encante meu corpo e me fa\u00e7a dan\u00e7ar o blues.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>sobre os ombros do vento veloz que me leva<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">talvez n\u00e3o haja tempo nem paci\u00eancia pra esperar pelo sol. preciso acender fogueiras e deixar o fogo se alastrar. a garota linda me ama e me odeia e mora longe numa casa cheia de gatinhos psic\u00f3ticos. eu encaro paredes, minto pru chefe e pru sub-chefe e de noite viro drag\u00e3o da lua e fa\u00e7o sobrevoos. existe dor nas coisas que toco com a ponta dos dedos, pessoas insalubres no fim do arco-\u00edris, disson\u00e2ncias e tempestades que n\u00e3o me deixam mentir. sigo s\u00f3 de encontro ao inimigo. por livre e espont\u00e2nea vontade caio em todas as armadilhas. sou fraco para os c\u00e1lculos. talvez n\u00e3o haja amor, doses de conhaque, neblina e manh\u00e3 seguinte. preciso ir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>devir<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">para o medo da morte doses cavalares de adrenalina e nuvens. para o desejo que arde fogo alto, brasa viva, solst\u00edcio. para o beijo outro beijo outro beijo outro beijo. para o sangue que corre pelas veias oxig\u00eanio e matilha. para os olhos andr\u00f4medas, luas de virgem, calafrios. para o passado, o presente e o futuro as \u00e1guas dos rios, a dura luz do dia. para todas as coisas que existem e para as que est\u00e3o por vir o fundo do mar, a matem\u00e1tica do sol, a pureza do sal e o que escrevo aqui sozinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Jorge Mendes<\/em><\/strong><em> \u00e9 formado em hist\u00f3ria, \u201cquase\u201d p\u00f3s-graduado em teoria da comunica\u00e7\u00e3o pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por a\u00ed), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cacha\u00e7a, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ningu\u00e9m por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os rasgos da carne nas breves narrativas de Jorge Mendes 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