{"id":15293,"date":"2018-10-18T16:05:25","date_gmt":"2018-10-18T19:05:25","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=15293"},"modified":"2018-10-24T16:17:06","modified_gmt":"2018-10-24T19:17:06","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-60","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-60\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Ribeiro<\/strong> n\u00e3o \u00e9 um autor dado a temas f\u00e1ceis e convencionais. \u201cFebre de enxofre\u201d, sua primeira incurs\u00e3o no romance, \u00e9 protagonizado por Yuri Quirino, um poeta desiludido com a literatura e com o amor, que recebe uma proposta bizarra de escrever a biografia de um tal Manuel di Paula, um sujeito soturno, que o arrasta para uma jornada de assombros pelas vielas de Buenos Aires. O enredo \u00e9 livremente inspirado no cl\u00e1ssico \u201cFausto\u201d, do alem\u00e3o Wolfgang von Goethe, sobre um homem que negocia a alma com o diabo em troca de um tipo de eternidade, mas tamb\u00e9m pode ser lido como uma investiga\u00e7\u00e3o sobre vampirismo. Em suma, um terror vestido por um escopo mais complexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cGlitter\u201d, que acaba de ser lan\u00e7ado, tamb\u00e9m margeia a fronteira da literatura de g\u00eanero. \u00c9 um romance pop, de certo modo; ou melhor, uma antiutopia pop. Vinte modelos com s\u00e9rios desvios s\u00e3o contratadas pelo estilista e escritor Guilherme de Boaventura para atuarem no experimento La Po\u00e9sie Vivant. Uma esp\u00e9cie de reality show, no qual as participantes ficar\u00e3o confinadas dentro de um shopping center durante um ano, encerrando o ex\u00edlio com um desfile em que ir\u00e3o se suicidar diante de um p\u00fablico selecionado. \u00c9 um livro cr\u00edtico, provocativo, que exp\u00f5e as dissimula\u00e7\u00f5es e os del\u00edrios que (des)governam a sociedade contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o mesmo tom afiado e repleto de personalidade, o autor mineiro radicado na Para\u00edba responde a esta entrevista exclusiva para a Diversos Afins. Ribeiro mira seu olhar sobre sua produ\u00e7\u00e3o e o mercado do livro, observa a gera\u00e7\u00e3o de novos escritores em que est\u00e1 inserido, fala sobre pr\u00eamios liter\u00e1rios, oficinas de cria\u00e7\u00e3o, editoras independentes e o tempo em que morou na Argentina, por conta de um per\u00edodo acad\u00eamico. Uma posi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se exime de tomar partido, sem artificialismo ou disfarce, e at\u00e9 certo ponto provocativa. \u201cAssim como uma modelo com a bunda grande demais pode perder um trabalho, um escritor que passou do ponto ou n\u00e3o respeita as regras do bom mocismo liter\u00e1rio pode perder sua chance de publicar numa editora \u201cimportante\u201d ou at\u00e9 de participar de um evento badalado\u201d, dispara.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15304\" aria-describedby=\"caption-attachment-15304\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Bruno-Ribeiro-int-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15304 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Bruno-Ribeiro-int-1.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Bruno-Ribeiro-int-1.jpg 375w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Bruno-Ribeiro-int-1-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15304\" class=\"wp-caption-text\">Bruno Ribeiro \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Seu primeiro romance, \u201cFebre de enxofre\u201d, pode ser lido como uma revis\u00e3o portenha do \u201cFausto\u201d, de Goethe, no qual o diabo figura entre os personagens centrais. \u201cGlitter\u201d, que acaba de sair, trata de um experimento no qual vinte modelos problem\u00e1ticas s\u00e3o confinadas num shopping, focalizando em seus desmoronamentos psicol\u00f3gicos que resultam em atos de viol\u00eancia repletos de grafismo e baldes de sangue. De maneira involunt\u00e1ria ou n\u00e3o, seus livros t\u00eam a inten\u00e7\u00e3o de se estabelecerem como literatura de g\u00eanero?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> A pergunta \u00e9 muito pertinente, porque adoro me debru\u00e7ar nos procedimentos da literatura de g\u00eanero e creio que eles atuem como um espelho distorcido no meu trabalho. Fa\u00e7o uma literatura de g\u00eanero que nega seus pr\u00f3prios mecanismos, uma esp\u00e9cie de anti-g\u00eanero. \u201cFebre de Enxofre\u201d pode ser lido como um romance de terror, mas tenho consci\u00eancia de que transgrido algumas regras deste tipo de livro, assim como injeto diversas refer\u00eancias pouco comuns ao estilo. J\u00e1 \u201cGlitter\u201d, tem uma chave policial em certos momentos, mas tamb\u00e9m nunca se entrega totalmente ao que podemos chamar de romance policial. E isso tamb\u00e9m ocorre em outros textos, como nos contos de \u201cArranhando Paredes\u201d e nos meus in\u00e9ditos. Eu abra\u00e7o o g\u00eanero em toda sua complexidade no cinema, pois os projetos em que trabalhei como roteirista foram todos de policial, thriller ou terror. Na literatura, utilizo-os como uma sombra que a qualquer momento pode sumir e aparecer no texto, por isso talvez seja dif\u00edcil me estabelecer como autor de g\u00eanero, pois estou sempre por perto, entretanto me esquivando da responsabilidade de ser, de fato, um autor de literatura de g\u00eanero. Neste sentido me inspiro na forma como a literatura latino-americana, especificamente a argentina, lida com essa quest\u00e3o; cito aqui Ricardo Piglia e Borges, que conseguiam brincar e subverter com os procedimentos do policial como ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O escritor norte-americano Chuck Palahniuk, autor de \u201cClube da luta\u201d, trafega entre v\u00e1rios planos tem\u00e1ticos \u2013 o terror, a distopia, o consumismo, a pornografia, a f\u00e1bula \u2013 para acertar sempre num alvo: a sociedade de seu pa\u00eds. Com uma forte carga cr\u00edtica, que causa do choque ao riso nervoso, qual \u00e9 o verdadeiro alvo de \u201cGlitter\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> A escritora francesa Christine Angot disse que \u201cescrever \u00e9 sempre violar uma intimidade\u201d. Acredito nessa frase e quando n\u00e3o estou violando a minha, busco violar a de outros ou at\u00e9 a de certas estruturas e campos, como foi o caso de \u201cGlitter\u201d. A ind\u00fastria da moda \u00e9 duramente criticada e \u201cviolada\u201d no meu romance, mas ela \u00e9 uma cortina de fuma\u00e7a. O principal alvo de \u201cGlitter\u201d \u2013 pois existem v\u00e1rios \u2013 e no qual busco as entranhas \u00e9 a religi\u00e3o e o capitalismo. Giorgio Agamben disse que \u201co capitalismo \u00e9 uma religi\u00e3o, e a mais feroz, implac\u00e1vel e irracional religi\u00e3o que jamais existiu, porque n\u00e3o conhece nem reden\u00e7\u00e3o nem tr\u00e9gua\u201d. Este conceito serviu bastante de inspira\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o do livro: uma religi\u00e3o sem fome, pura voragem, glamour e sangue. Pensar que o shopping \u00e9 um sin\u00f4nimo de igreja do capital, aonde a sociedade vai diariamente pagar seus d\u00edzimos e se ajoelhar perante as infind\u00e1veis lojas de departamento \u00e9 assustador. Outra coisa terr\u00edvel \u00e9 pensar que tudo pode e \u00e9 devorado pelo capitalismo, coisa que acontece numa chave dist\u00f3pica em \u201cGlitter\u201d. Pense que alucinado \u00e9 ver diversas obras de arte, desde o mict\u00f3rio de Duchamp at\u00e9 os grafites, estampados em museus e sendo vendidos a pre\u00e7os absurdos para ric\u00f5es que desejam lavar dinheiro e afagar seus egos. Imposs\u00edvel? Com o capitalismo isso acontece: tudo \u00e9 absorvido, at\u00e9 aquilo que nasceu para bater de frente com ele. Em \u201cGlitter\u201d, a pr\u00f3pria morte se torna tend\u00eancia; a tortura de modelos, no futuro remoto que criei, vira purpurina, publicidade, padroniza\u00e7\u00e3o coletiva, novas formas de se vender roupa e encantar os olhos alheios. Por isso que a moda e todos seus melindres, profundezas e superficialidades, belezas e feiuras, sublime e profano, cl\u00e1ssico e vanguarda, \u2013 toda a dicotomia que a envolve \u2013 representa a sociedade e a forma como o capitalismo a atinge: um treco que se molda a qualquer coisa para lucrar, da sarjeta ao luxo, da vida \u00e0 morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea consegue tra\u00e7ar um paralelo entre a experi\u00eancia de confinamento das modelos e o processo de escrita? Ou, porventura, com o mercado liter\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> Sem d\u00favida. Por isso o livro brinca ao colocar as modelos para escreverem poemas e especificamente isso fica mais claro no trecho em que elas est\u00e3o numa livraria do shopping buscando inspira\u00e7\u00e3o. Todos os meus textos ficcionais lidam com o processo criativo. Tento fugir ao m\u00e1ximo dos clich\u00eas ao falar deste tema, que \u00e9 extremamente batido, mas tanto o poeta seduzido por um dem\u00f4nio em \u201cFebre de Enxofre\u201d como as vinte modelos seduzidas pelo estilista ermit\u00e3o em \u201cGlitter\u201d est\u00e3o sendo puxadas para um inferno vasto e que pode ser lido como o dem\u00f4nio da cria\u00e7\u00e3o e as diversas dificuldades que nos rodeiam enquanto artistas; no caso do meu poeta: as dificuldades para sobreviver e escrever uma biografia; no caso das minhas modelos: as dificuldades para sobreviverem e escreverem um poema. Esses personagens precisam lidar com seus problemas e principalmente em manter a sanidade na hora da cria\u00e7\u00e3o. Ambos romances, \u201cFebre de Enxofre\u201d e \u201cGlitter\u201d, mant\u00eam um di\u00e1logo forte com a literatura do s\u00e9culo XIX; os rom\u00e2nticos, os duplos, a decad\u00eancia, a perda da beleza e da pureza, frustra\u00e7\u00f5es, o lirismo carregado na linguagem, a dor do poeta ou do criador em lidar com sua obra, vida, entorno; minha mente ao criar tramas e personagens vai de Mary Shelley e sua criatura arrebatadoramente po\u00e9tica e monstruosa, vindoura da mente do doutor Victor Frankenstein, \u00e0 Charlotte Bront\u00eb, Goethe, Baudelaire, Rimbaud, Stevenson, Edith Wharton, Oscar Wilde, Poe, Bram Stoker, Huysmans, e por a\u00ed vai. Todos esses autores, \u00e0 sua maneira e de diversas formas, lidaram com o mesmo que lido em meu projeto liter\u00e1rio. Quanto ao mercado \u00e9 poss\u00edvel, sim, fazer compara\u00e7\u00f5es entre o liter\u00e1rio e o fashionista. O jovem escritor sofre tanto quanto o jovem modelo, a diferen\u00e7a \u00e9 que o meio liter\u00e1rio esconde sua escrotid\u00e3o por meio da intelectualidade e das etiquetas, o mundo fashion n\u00e3o esconde tanto, o abuso \u00e9 mais expl\u00edcito e visceral. No livro, pergunto se \u201ca morte n\u00e3o \u00e9 a melhor met\u00e1fora da eternidade?\u201d, e a frase se encaixa em moda e literatura. Autor morto n\u00e3o vende mais livros? Modelo ou estilista morto n\u00e3o vende mais roupa? Quando Alexander McQueen se matou, suas roupas e looks esgotaram ao redor do mundo. E isso tudo \u00e9 reflexo da alucina\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica que vivemos, o que me faz pensar que toda distopia, por mais bizarra que seja, acaba se tornando palp\u00e1vel. Basta ver o que vivemos ultimamente no Brasil: nada \u00e9 t\u00e3o absurdo que n\u00e3o possa se tornar realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 H\u00e1 poucos meses, o meio liter\u00e1rio foi sacudido pela apari\u00e7\u00e3o de um pr\u00eamio internacional para livros in\u00e9ditos, cujo vencedor levaria a bagatela de 200 mil euros. Passado o furor inicial, descobriu-se que era uma grande fraude, criada para sustentar uma performance art\u00edstica realizada durante a \u00faltima Festa Liter\u00e1ria de Paraty \u2013 Flip. Ao investigar com agudeza os interst\u00edcios do universo da moda, voc\u00ea tamb\u00e9m intenciona expor um mecanismo de artificialidades que movimenta o mercado liter\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> A literatura ainda \u00e9 muito conservadora e isso me inquieta bastante, pois como disse C\u00e9sar Aira, ela \u00e9 a \u201crainha das artes\u201d, tudo cabe dentro dela, e mesmo assim nossa amada ainda \u00e9 a mais t\u00edmida nas transgress\u00f5es de forma e conte\u00fado. Sobre o pr\u00eamio internacional que voc\u00ea fala, o Babel Book Award, eu o achei bem instigante. Tenho algumas cr\u00edticas? Obviamente, mas pelo menos estremeceu um meio que \u00e9 movido por fa\u00edscas fracas demais, sabe? \u00c9 tudo muito morno no meio liter\u00e1rio. E quando algo pega \u201cfogo\u201d, sempre \u00e9 de forma burlesca, tosca, sem no\u00e7\u00e3o, realizada por meninos birrentos e eg\u00f3latras. Por isso sou f\u00e3 do Kenneth Goldsmith, poeta americano que criou a Escrita N\u00e3o-Criativa e causa arrepio nos arcaicos da literatura. E no Brasil, claro, sou f\u00e3 do Ricardo L\u00edsias, que escreveu a orelha de \u201cGlitter\u201d e \u00e9 um dos escritores contempor\u00e2neos brasileiros que mais admiro, exatamente porque seu projeto liter\u00e1rio sai da zona de conforto e n\u00e3o fica s\u00f3 na repeti\u00e7\u00e3o. O artificial em \u201cGlitter\u201d pode ser comparado com o mercado liter\u00e1rio no sentido da plasticidade deste meio: as falsidades, risadinhas, panelinhas&#8230; E assim como uma modelo com a bunda grande demais pode perder um trabalho, um escritor que passou do ponto ou n\u00e3o respeita as regras do bom mocismo liter\u00e1rio pode perder sua chance de publicar numa editora \u201cimportante\u201d ou at\u00e9 de participar de um evento badalado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Um dos aspectos curiosos de seu livro \u00e9 que muitas de suas modelos n\u00e3o t\u00eam nomes comuns, sendo denominadas por atos de linguagem que misturam caracter\u00edsticas f\u00edsicas, adjetivos, estados emocionais e designa\u00e7\u00f5es parentais, a exemplo de Netinha Abusada. Lembrou-me, de imediato, o romance \u201cO Todo-ouvidos\u201d, do b\u00falgaro Elias Canetti, que \u00e9, de fato, um estudo de caracteres, previsto como uma forma de protesto contra a import\u00e2ncia que o personagem assumiu, ao longo do tempo na literatura, tornando-se maior que a pr\u00f3pria narrativa em que est\u00e1 inserido. No caso de \u201cGlitter\u201d, qual foi sua motiva\u00e7\u00e3o ao criar esses nomes bizarros?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> Gosto muito de f\u00e1bulas e a ideia partiu muito dessa refer\u00eancia. Fora isso, eu queria criar arqu\u00e9tipos da moda, por isso pensei em nomes que pudessem representar n\u00e3o s\u00f3 uma modelo, mas um nicho. A \u201cpunk\u201d que poderia ser colocada no nicho de uma Kate Moss da vida, a \u201cnetinha\u201d mimada, a noiva que foge do casamento e tenta a sorte no mundo da moda, a princesinha do Projac, representando as modelos que trabalham na TV, a negra que \u00e9 taxada de louca, a miss universo, a pol\u00eamica, a maconheira, a suicida, a fofinha, a que morou fora, a da cidade pequena, e enfim, cada nome parte deste pressuposto de causar um estranhamento e tentar resumir um perfil estereotipado de top model.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Ao longo do livro, al\u00e9m de sobreviver ao confinamento, as modelos t\u00eam de protagonizar um grande desfile final e escrever um poema. Obviamente que est\u00e1 a\u00ed inserido uma ironia cr\u00edtica, mas a quem ela se dirige? Ao mercado que despreza a poesia? \u00c0s editoras pequenas que revelam poetas a cada semana? Ao g\u00eanero em si?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> A frase que conduz meus trabalhos liter\u00e1rios vem do Charles Baudelaire: \u201cseja poeta, mesmo na prosa\u201d. No meu mestrado de Escrita Criativa, meu tutor foi um poeta, o Guillermo Saavedra, e quando ele terminou de ler \u201cFebre de Enxofre\u201d, disse enfaticamente que eu era um poeta escondido no corpo de romancista. Eu amo poesia e ela me influencia muito. Matar poetas e tortur\u00e1-los em meus livros \u00e9 uma forma de botar para fora minha frustra\u00e7\u00e3o por n\u00e3o ser um poeta. Quanto \u00e0 cr\u00edtica, ela vem do mesmo lugar que partiu a do \u201cFebre de Enxofre\u201d: o excesso de poetas e a falsa glamouriza\u00e7\u00e3o em cima deles, o mercado que n\u00e3o sabe onde coloc\u00e1-los, os bons poetas que morrem sem ser publicados, a estranheza deste g\u00eanero que parece n\u00e3o se encaixar em nenhum lugar. A poesia \u00e9 a liberdade total, sem ressalvas, \u00e9 o mais perto que temos dos procedimentos das vanguardas na literatura, e por isso sempre a levo comigo, pois a poesia \u00e9 o n\u00e3o-lugar, e essa posi\u00e7\u00e3o de inc\u00f4modo em que ela reside, de n\u00e3o fazer parte nem do mercado nem daquilo que est\u00e1 fora dele, me interessa muito enquanto escritor. A poesia \u00e9 repleta de t\u00e9cnicas e regras e, paradoxalmente, tamb\u00e9m \u00e9 indom\u00e1vel e libert\u00e1ria, e \u00e9 essa pegada dicot\u00f4mica que busco na minha literatura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u201cGlitter\u201d foi finalista do Pr\u00eamio Kindle de Literatura. Anteriormente, voc\u00ea tinha sido revelado entre os vencedores do Pr\u00eamio Brasil em Prosa, promovido numa parceria entre o jornal O Globo e a Amazon. O que significa isso, afinal? Qual o resultado pr\u00e1tico para a carreira de um jovem autor ganhar um pr\u00eamio? Olhando para tr\u00e1s, voc\u00ea percebe que lhe ajudou de alguma forma ou \u00e9, no fim das contas, apenas uma informa\u00e7\u00e3o boa para constar na biografia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> Ajuda a ganhar alguns leitores e espa\u00e7os, mas acredito que pesa mais na biografia do que numa alavanca rumo ao sucesso. Assim, consegui entrada em alguns eventos, como a Flinksampa e FLIP, mas n\u00e3o \u00e9 algo que tento levar tanto em considera\u00e7\u00e3o quando estou escrevendo. \u00c9 bom? Sim. \u00c9 essencial para mim? N\u00e3o. A escritura sempre vence, pois j\u00e1 nasceu derrotada e n\u00e3o tem mais nada a perder: seja com trof\u00e9u ou com sarjeta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Falando em biografia, apesar do holofote dos pr\u00eamios, seus dois livros (e, aqui, falo sem qualquer ideia de desmerecimento) foram publicados por editoras com circula\u00e7\u00e3o mais restrita. Voc\u00ea chegou a tentar um contato com os grandes grupos editorias; utilizar da repercuss\u00e3o dos pr\u00eamios para chamar aten\u00e7\u00e3o para seus livros? Ou foi mesmo uma op\u00e7\u00e3o, pois enxerga a literatura brasileira sendo produzida dentro de uma nova configura\u00e7\u00e3o? Qual \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com as editoras?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> Vivemos no tempo do autor, onde somos zagueiro, meio de campo, atacante e goleiro ao mesmo tempo. Neste novo tempo, a editora surge mais como uma parceira a meu ver do que algu\u00e9m extremamente decisivo na minha vida liter\u00e1ria. Atualmente ando tentando uma aproxima\u00e7\u00e3o com editoras maiores, mas porque o livro que pretendo apresentar para elas seria interessante que tivesse uma maior distribui\u00e7\u00e3o. Cada livro tem sua demanda e \u00e9 assim que penso quando vou tentar public\u00e1-los. Sobre a minha rela\u00e7\u00e3o com os editores e editoras, afirmo que sempre foi \u00f3tima; sou amigo do pessoal da Penalux, P\u00e1tua, Moinhos, Escaleiras, Cousa, Bartlebee, Mondrongo, e acho muito gratificante que assim seja. Juntos somos mais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea tamb\u00e9m tem publicado o livro de contos \u201cArranhando paredes\u201d, que foi traduzido para o espanhol e lan\u00e7ado pelo selo argentino Outsider. Essa aproxima\u00e7\u00e3o vem de um per\u00edodo em que voc\u00ea estudou literatura em Buenos Aires. Dessa experi\u00eancia, voc\u00ea consegue opinar se os caminhos para um autor iniciante s\u00e3o menos pedregosos na Argentina que no Brasil? O que tem de diferente na maneira de se compreender a nova literatura entre esses dois pa\u00edses?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> \u00c9 pedregoso tamb\u00e9m. Escritor se fode em todo canto. As diferen\u00e7as come\u00e7am com a forma que o mercado lida com a literatura, vejo que l\u00e1 a coisa funciona de uma maneira mais justa, principalmente a aproxima\u00e7\u00e3o das editoras com livrarias, que me parece menos predat\u00f3ria. Outra coisa que muda \u00e9 o grande n\u00famero de editoras independentes de qualidade, fen\u00f4meno que estamos come\u00e7ando a ver brotar no Brasil. Outro ponto \u00e9 que na Argentina h\u00e1 mais leitores e formas de se destacar no meio liter\u00e1rio. No Brasil ainda estamos muito ligados a isso de ganhar pr\u00eamios, por exemplo, como forma de chancelar sua obra. N\u00e3o vi isso por l\u00e1. \u00c9 importante faturar um pr\u00eamiozinho? \u00c9, mas pelo tempo em que vivi l\u00e1, notei que n\u00e3o \u00e9 isso que far\u00e1 voc\u00ea alcan\u00e7ar um status mais interessante no meio liter\u00e1rio ou sequer receber alguns aplausos. Existem outros processos e maneiras para ser lido e conseguir se destacar, e essa pluralidade de caminhos \u00e9 uma das coisas mais interessantes na vida liter\u00e1ria argentina. Mas tirando esses pontos, muitos autores argentinos que conheci reclamavam tanto quanto n\u00f3s aqui do Brasil. A dor \u00e9 a mesma, mas talvez a deles seja mais doce. Culpa do tango e de Borges.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15306\" aria-describedby=\"caption-attachment-15306\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Bruno-Ribeiro-int-2-m.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15306 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Bruno-Ribeiro-int-2-m.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Bruno-Ribeiro-int-2-m.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Bruno-Ribeiro-int-2-m-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15306\" class=\"wp-caption-text\">Bruno Ribeiro \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Assim como no cinema, a literatura argentina \u00e9 melhor que a brasileira?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> \u00c9 um pouco complexo dizer que uma literatura \u00e9 melhor do que a outra. O Brasil vive um momento de eclos\u00e3o, anda se publicando muito e tem gente boa pra caramba \u00e0 solta, assim como o mercado argentino tamb\u00e9m est\u00e1 pipocando. Tem coisas boas e ruins em ambos cen\u00e1rios. O cinema argentino mesmo chegou aonde chegou por causa de anos e mais anos de investimentos, coisa que s\u00f3 come\u00e7amos a ter recentemente, e os louros disso j\u00e1 est\u00e3o surgindo: muitos filmes brasileiros come\u00e7aram a aparecer nos principais festivais de cinema do mundo e est\u00e3o se multiplicando por a\u00ed: n\u00e3o s\u00f3 em quantidade, mas em qualidade. Com a literatura a coisa n\u00e3o muda muito de figura, o mercado argentino \u2013 apesar dos pesares \u2013 investiu mais no decorrer do tempo, distribuiu melhor tamb\u00e9m, tanto que isso de autor argentino sair vendendo livro pelo inbox de Facebook \u00e9 algo rar\u00edssimo; em Buenos Aires mesmo, onde vivi, estudei e convivi com escritores por quatro anos, acho que d\u00e1 pra contar no dedo de uma m\u00e3o as vezes que vi isso acontecer; geralmente o autor lan\u00e7a seu livro e o divulga nas redes, mas falando para o pessoal ir comprar nas livrarias. Ou seja, a distribui\u00e7\u00e3o e o n\u00famero de tiragem s\u00e3o melhores do que no Brasil, onde colocar um livro pra vender na livraria \u00e9 praticamente pedir para falir. Fora ver livros de editoras pequenas sendo vendidos em livrarias grandes, \u00e9 preciso ressaltar tamb\u00e9m a tremenda for\u00e7a das livrarias pequenas e independentes; l\u00e1 tem muitas e elas conseguem sobreviver e aquecer o mercado. Fora aquilo que todos j\u00e1 sabem: na Argentina tem mais leitores. Ent\u00e3o, a quest\u00e3o de melhor ou pior acaba se tornando pequena quando comparamos com esses termos que s\u00e3o t\u00e3o importantes quando tratamos de distribui\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de literatura e arte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Ainda no universo do conto, al\u00e9m do seu livro, voc\u00ea \u00e9 muito ativo na participa\u00e7\u00e3o e na organiza\u00e7\u00e3o de antologias de narrativas breves. Percebendo a dificuldade do mercado liter\u00e1rio de lan\u00e7ar novos autores, voc\u00ea considera que participar de antologias, de coletivos liter\u00e1rios, \u00e9 uma forma eficaz de apresentar os primeiros textos? \u00c9 poss\u00edvel ter uma carreira independente e ter relev\u00e2ncia dentro do meio liter\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> Eu organizo antologias por acreditar de verdade no projeto e principalmente nos autores que convido. \u201cCem anos de amor, loucura &amp; morte\u201d, \u201cL\u00edngua Rara\u201d, \u201cEstamos aqui\u201d, \u201cUm Jardim de Promessas\u201d, todas foram antologias que organizei mais pela paix\u00e3o do que pelo retorno. Publicar em antologias \u00e9 uma boa maneira de come\u00e7ar a publicar, de apresentar um primeiro texto, mas convenhamos que pouqu\u00edssimas pessoas leem antologias. Pra vender \u00e9 extremamente dif\u00edcil e quando voc\u00ea vende raramente algu\u00e9m l\u00ea. Mas estamos a\u00ed, na luta e organizando antologias, fazer o qu\u00ea? O meio liter\u00e1rio ainda tem suas resist\u00eancias com os escritores independentes. Muitos insistem em dizer que n\u00e3o, mas \u00e9 vis\u00edvel essa resist\u00eancia e preconceito. Seja como for, sou mais integrado do que apocal\u00edptico, pois vejo que a abertura para os independentes, seja em pr\u00eamio, festas, publica\u00e7\u00f5es, espa\u00e7os ou eventos, est\u00e1 aumentando e isso \u00e9 \u00f3timo. Pode melhorar? Pode, mas pelo menos o barco est\u00e1 andando e aos poucos vamos quebrando a roda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9 muito ativo nas novas plataformas de publica\u00e7\u00e3o e nas redes sociais. Para um autor que n\u00e3o conta com o aparato de divulga\u00e7\u00e3o que envolve os livros lan\u00e7ados pelos grandes grupos editoriais, tais ferramentas s\u00e3o fundamentais para apresentar, anunciar e badalar um livro e a pr\u00f3pria carreira. No entanto, a larga exposi\u00e7\u00e3o acabou constituindo um espa\u00e7o tamb\u00e9m favor\u00e1vel a vaidades, rixas, cabotinices e quebra-paus. H\u00e1 um limite para o bom-senso nas redes? Ou \u00e9 cada um por si mesmo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> \u00c9 preciso ter bom senso na vida como um todo, n\u00e3o s\u00f3 na internet. Infelizmente, muitos autores pensam que est\u00e3o em seus banheiros e saem vomitando merda pra caramba por a\u00ed. Mas essas presepadas fazem parte do processo, pois as redes sociais democratizam de forma grandiloquente seus espa\u00e7os, ent\u00e3o temos acesso a coisas incr\u00edveis e, logo em seguida, a coisas escrotas. S\u00e3o as dores e amores da democracia e eu prefiro isso a uma rede que censure discursos e diga o que pode ou n\u00e3o pode. A internet ajuda bastante na divulga\u00e7\u00e3o dos meus textos, sem d\u00favidas. Se n\u00e3o fossem as redes sociais, uma boa porcentagem da literatura contempor\u00e2nea brasileira estaria sem meios de se divulgar. A web veio para ficar e \u00e9 uma ferramenta extremamente v\u00e1lida e \u00fatil para romper com a di\u00e1spora existente no mundo liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 J\u00e1 que estamos na seara da cr\u00edtica, recentemente a Folha de S\u00e3o Paulo publicou um artigo em defesa da cr\u00edtica negativa, na qual a autora do texto reclamava o direito de tratar o livro (e consequentemente o autor) \u201ca chibatadas\u201d. Seus livros, pelo que eu me recordo, foram bem recebidos pela cr\u00edtica, sendo um deles, inclusive, selecionado por um renomado cr\u00edtico como um dos melhores lan\u00e7amentos do ano. Mas se fosse de outra forma: como reagiria se algum de seus romances fosse defenestrado? E como funciona sua rela\u00e7\u00e3o com a cr\u00edtica liter\u00e1ria: acha importante, n\u00e3o lhe interessa ou entende como um tipo de conceito de avalia\u00e7\u00e3o ultrapassado? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> A cr\u00edtica \u00e9 essencial. O sentido de uma obra passa pela m\u00e3o do leitor e os grandes livros s\u00e3o aqueles com uma ambiguidade potente o bastante para conseguir se reinventar durante os s\u00e9culos. Vide Madame Bovary ou Dom Casmurro: um leitor acha isso, outro acha aquilo, e essa pluralidade de leituras \u00e9 o que enriquece um livro. A import\u00e2ncia do cr\u00edtico passa neste ponto: \u00e9 um escritor \u2013 pois vejo o cr\u00edtico como um escritor \u2013 que disseca uma obra e a amplia, nunca fecha. Cr\u00edticos que fecham livros dentro de conceitos restritos e predeterminados me incomodam. Ou seja, acho v\u00e1lido um livro ser duramente criticado, mas que isso seja explicado tecnicamente e que o cr\u00edtico n\u00e3o isole o livro e suas possibilidades, que deixe algo em aberto, que jogue as v\u00edsceras do livro no palco, mas que n\u00e3o o resuma a adjetivos banais e reducionistas. Fora os cr\u00edticos que fecham ao inv\u00e9s de abrir as obras, outra coisa que me incomoda \u00e9 a agenda de muitos deles. O meu inc\u00f4modo surge ao ver certos cr\u00edticos descendo o pau em livros de editoras pequenas e exaltando os de editora grande e, s\u00f3 vez ou outra, descendo o pau em um livro das grandes. \u00c9 s\u00e9rio que editora pequena s\u00f3 publica porcaria? N\u00e3o tem unzinho que preste? Aparentemente \u00e9 muito f\u00e1cil jorrar verdades absolutas sobre um meio liter\u00e1rio que voc\u00ea s\u00f3 conhece um peda\u00e7o. De meton\u00edmias e bocas grandes o mundo t\u00e1 cheio, mas se debru\u00e7ar de fato sobre um universo para assim, e s\u00f3 assim, dar uma opini\u00e3o relevante sobre um mundo t\u00e3o complexo e vasto como o liter\u00e1rio nacional \u00e9 mais dif\u00edcil e poucos o fazem.\u00a0 Nesses casos, o que vejo \u00e9 a boa e velha torre de marfim reinando, pois impor uma agenda claramente conservadora e que s\u00f3 elogia um lado&#8230; N\u00e3o vale \u00e9 de nada para mim. Um cr\u00edtico liter\u00e1rio deve ter uma agenda ampla, sem conservadorismos e preconceitos, e caso n\u00e3o seja assim, acredito que deva ser honesto sobre suas inten\u00e7\u00f5es pelo menos, porque sen\u00e3o passa uma imagem errada e totalmente ultrajante a meu ver. Se o cr\u00edtico tem uma responsabilidade, essa \u00e9 a de ser transparente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Al\u00e9m de autor de fic\u00e7\u00e3o, voc\u00ea tamb\u00e9m ministra cursos e oficinas liter\u00e1rias. Muito se discute sobre a capacidade desses laborat\u00f3rios de escrita de formarem um escritor em contrapartida ao que \u00e9 considerado, por alguns, como uma aptid\u00e3o, uma qualidade inata. Da sua experi\u00eancia, o que de fato uma oficina pode oferecer para quem pretende ingressar na literatura? Um escritor, afinal, pode ser \u201censinado\u201d a escrever bem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO &#8211;<\/strong> Inicialmente, a experi\u00eancia me inquietou. Hoje, sinto-me realizado nesta posi\u00e7\u00e3o de professor de escrita criativa. Acompanhar e ler textos de diversos g\u00eaneros e estilos \u00e9 um verdadeiro aprendizado. Aprendi a ler de tudo, pois um professor de escrita criativa precisa estar aberto para todos os tipos de literatura, afinal, s\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel avaliar tecnicamente uma obra que fuja do seu agrado. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas aprendi. Uma oficina pode entregar t\u00e9cnicas, procedimentos liter\u00e1rios e principalmente leituras. Uma indica\u00e7\u00e3o de livro pode mudar a vida de um aluno. Outra coisa importante \u00e9 aprender a ler, esmiu\u00e7ar de verdade um texto, a linguagem, trama, personagens. Ler o amigo de oficina \u00e9 mais importante do que escrever, pois ao julgar o texto alheio voc\u00ea indiretamente est\u00e1 aprendendo a avaliar o seu texto tamb\u00e9m. Aprender a escrever \u00e9 algo estranho e que sempre me soa pesado, apesar de achar que uma pessoa pode aprender a escrever bem, obviamente. A diretora do meu mestrado de escrita criativa, a poeta argentina Maria Negroni, no primeiro dia de aula disse que o objetivo da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o n\u00e3o era de formar escritores e sim de criar espa\u00e7os para encorajar as d\u00favidas e perguntas, pois a verdadeira escritura sempre \u00e9 uma arte subjetiva, acima inclusive da mat\u00e9ria que esteja sendo estudada. Assino embaixo disso a\u00ed. Ricardo Piglia disse que \u201ca literatura \u00e9 a experi\u00eancia mais intensa que existe\u201d. At\u00e9 hoje, essa frase \u00e9 o meu lema neste of\u00edcio t\u00e3o \u00e1rduo. E tento pass\u00e1-la para os meus alunos, pois, sem processo, confronto, intensidade e puls\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 escritura. Seja sacra ou profana, sem gana, n\u00e3o rende. Resumindo: \u00e9 poss\u00edvel sair mais \u201cenriquecido\u201d literariamente de uma oficina, curso ou p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de escrita criativa, mas se a pessoa vai se tornar ou n\u00e3o um escritor, isso \u00e9 algo que s\u00f3 as suas obras poder\u00e3o dizer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Nesse mesmo campo, a sua conviv\u00eancia com jovens que pretendem se tornar escritores lhe mostra que h\u00e1 neles a forma\u00e7\u00e3o de leitor. Os jovens est\u00e3o preocupados em ler bem, investigar com afinco o que est\u00e1 acontecendo na literatura contempor\u00e2nea brasileira, ou sofrem do mesmo mal que acomete os leitores em geral?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> Uma professora de Campina Grande, Anna Giovanna, passou o meu romance \u201cFebre de Enxofre\u201d para os seus alunos lerem. O resultado foi sensacional: os alunos se vestiram como os personagens do livro, criaram cartazes e banner, e eles fizeram uma sabatina incr\u00edvel comigo. Muitos ali leram muito bem o meu livro e tascaram perguntas instigantes e profundas. Eram alunos do segundo ano e, veja bem, essa \u00e9 uma \u00e9poca da vida onde dizem que a garotada quer saber de tudo, menos ler. Claro que n\u00e3o vou pegar este recorte da minha vida para falar que os jovens amam ler, mas o utilizo para falar que quando um professor luta para colocar na m\u00e3o dos seus alunos obras mais desafiantes, instigantes, e, melhor ainda, botam o autor dessa obra na sala de aula, a coisa muda um pouco. Porque muitos alunos ainda veem escritores como seres arcaicos, corcundas, velhos chatos, mortos. Logo, apresentar um escritor local para eles e o livro dessa pessoa, mostrar que \u00e9 poss\u00edvel fazer uma literatura distinta daquilo que eles precisam ler para passar do ENEM, pode sim mudar suas vidas. Enquanto professor, eu sempre apresento trechos de livros de escritores independentes. Quando leio o come\u00e7o do romance \u201cPalavras que devoram l\u00e1grimas\u201d, do Roberto Menezes, a galera vibra, adora, assim como quando leio o come\u00e7o visceral e l\u00edrico de \u201cNossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida\u201d, da Micheliny Verunschk. O mesmo ocorre quando leio trechos de \u201cModos inacabados de morrer\u201d, do Andr\u00e9 Timm. \u201c\u00c9 s\u00e9rio que pode fazer isso na literatura?\u201d, muitos alunos perguntam. S\u00e3o obras que dificilmente cairiam na m\u00e3o da galera, ent\u00e3o \u00e9 bacana falar que esses livros est\u00e3o sendo lan\u00e7ados atualmente e por autores vivos. Quando ministro oficinas em col\u00e9gios, um ou outro tem interesse em se aprofundar no que apresento, e \u00e9 nisso que creio: nos pequenos atos e revolu\u00e7\u00f5es. N\u00e3o penso em mudar o todo, mas se conseguir impactar uma pessoa ali, pra mim j\u00e1 t\u00e1 valendo. Forma\u00e7\u00e3o de leitores \u00e9 isso: um trabalho de formiguinha, que deve ser feito com paci\u00eancia e paix\u00e3o, sem esperar grandes e imediatos retornos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Hoje h\u00e1 um consenso desanimador de que quem realmente l\u00ea os livros dos autores nacionais s\u00e3o os pr\u00f3prios autores nacionais. Isso, ao meu ver, configura-se em raz\u00e3o de algumas circunst\u00e2ncias: a falta de distribui\u00e7\u00e3o, as baixas tiragens, a crise do mercado editorial e o baixo consumo dos leitores. Publicar um livro diante de todos esses obst\u00e1culos, portanto, n\u00e3o seria mais um capricho? Literatura, no Brasil, \u00e9 mais paix\u00e3o e resist\u00eancia que a constru\u00e7\u00e3o de uma carreira?<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> J\u00e1 parei pra pensar sobre isso: por que eu publico um livro? \u00c9 dif\u00edcil pensar em que estado eu estou na minha \u201ccarreira\u201d. Tanto que nem uso o termo carreira liter\u00e1ria, e sim vida liter\u00e1ria. Nem \u00e9 para pagar de diferent\u00e3o, mas \u00e9 por pensar de verdade que a literatura atravessa mais a minha vida do que uma carreira. Fora o bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1 de s\u00f3 recebermos 10% do livro e tudo isso, o que mais ferra nossa vida \u00e9 a distribui\u00e7\u00e3o. O pessoal do cinema sofre o mesmo. Se houvesse uma distribui\u00e7\u00e3o melhor, a coisa mudava. Basta ver o caso do Giovanni Martins e o seu \u201cO sol na cabe\u00e7a\u201d. Um livro de literatura e n\u00e3o um best-seller exportado ou um livro de youtuber vendendo pra caramba? Como pode isso? Distribui\u00e7\u00e3o, boa tiragem e investimento. Sem dinheiro, \u00e9 complicado de chegar, por isso mesmo que a internet e os diversos meios alternativos de publica\u00e7\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o importantes. Bater de frente com o mercado \u00e9 dar soco em ponta de faca, a verdade \u00e9 que precisamos estar em outros lugares e driblar as imposi\u00e7\u00f5es do capitalismo. Por isso participo de todos os eventos que me chamam, vou para as escolas, feiras, puteiros, igrejas, at\u00e9 pra livraria eu vou se me chamar, porque \u00e9 importante ocupar os espa\u00e7os e jorrar sua palavra \u2013 literatura \u2013 no ouvido alheio. No final das contas, o que me importa \u00e9 tentar estar nesses lugares sem fazer tantas concess\u00f5es tamb\u00e9m, sabe? Sigo o lema do Zagallo: \u201cvoc\u00eas v\u00e3o ter que me engolir\u201d. Minha literatura \u00e9 isso e fim de papo. E \u00e9 uma luta tremenda seguir essa linha intransigente, vez ou outra at\u00e9 penso se publicar \u00e9 tudo isso mesmo, at\u00e9 porque vou continuar escrevendo, publicando ou n\u00e3o, mas a\u00ed penso um bocado e decido entrar no jogo, afinal de contas, apesar das desgra\u00e7as, pelo menos eu me divirto um pouco e consigo um ou outro leitor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voltando ao seu primeiro romance, \u201cFebre de enxofre\u201d, temos um v\u00ednculo entre dois personagens que se conforma uma rela\u00e7\u00e3o de vampirismo. Logo no in\u00edcio de \u201cAnos de forma\u00e7\u00e3o\u201d, Emilio Renzi, alter ego do escritor argentino Ricardo Piglia, tenta definir o que \u00e9 a escrita para si; \u201cseria uma mania, um h\u00e1bito, um v\u00edcio\u201d, ele se pergunta, sem chegar a uma conclus\u00e3o. O que \u00e9 essa necessidade de escrever? Tornar-se escritor \u00e9, de fato, um pacto vampiresco? Algo que se aloja dentro de si e cresce na depend\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> Amo essa ideia do pacto vampiresco, provavelmente por me sentir como um escritor do s\u00e9culo XIX vivendo no XXI: a cria\u00e7\u00e3o pra mim bebe bastante do romantismo, decadentismo e simbolismo. A diferen\u00e7a \u00e9 que eu sugo essa inspira\u00e7\u00e3o e injeto uma boa carga de humor e deboche nela, pois a transgress\u00e3o pra mim s\u00f3 funciona se houver riso e certa desconstru\u00e7\u00e3o, ou seja: um n\u00e3o se levar t\u00e3o a s\u00e9rio. Quanto a isso, admiro e me inspiro muito no Michel Houellebecq; ele tamb\u00e9m bebe de influ\u00eancias rom\u00e2nticas e decadentistas do s\u00e9culo XIX, mas consegue reinventar os lugares comuns e seriedades dos autores deste per\u00edodo com sua linguagem e olhar repletos de contemporaneidade e humor \u00e1cido. No excelente texto \u201cPermanecer Vivo: um m\u00e9todo\u201d, ele diz que &#8220;um poeta morto n\u00e3o escreve. Da\u00ed a import\u00e2ncia de permanecer vivo&#8221;. Acho que essa frase consegue condensar tudo o que penso enquanto projeto liter\u00e1rio: h\u00e1 humor, poesia, absurdo, cinismo, profundeza. O humor \u2013 aquele debochado que critica e fala verdades afiadas \u2013 \u00e9 uma ferramenta essencial nos meus livros, assim como a pr\u00f3pria descren\u00e7a nos procedimentos que utilizo. E por isso que nego o g\u00eanero e tudo que devoro para escrever um livro tamb\u00e9m&#8230; \u00c0s vezes nego at\u00e9 a linguagem. A depend\u00eancia \u00e0 escrita, aquele velho jarg\u00e3o compat\u00edvel comigo e v\u00e1rios comparsas: \u201cescrevo para sobreviver\u201d, por exemplo, \u00e9 muito tosco. N\u00e3o h\u00e1 como falar uma frase dessas sem colocar uma gargalhada em seguida; \u00e9 meio sofr\u00edvel ver gente levando a s\u00e9rio a desgra\u00e7a que \u00e9 escrever. O v\u00edcio pra mim, o pacto vampiresco e infind\u00e1vel do escritor que aloja e n\u00e3o sai mais, \u00e9 como um bobo da corte flutuando em abismos de mentirinha, mas que se o cara pular no negrume se tornam reais e ele afunda; \u00e9 o sorriso e o susto, o grotesco inserido numa grande gargalhada, e \u00e9 neste campo t\u00e3o conflitante que estou na literatura, mergulhado em um pacto que causa depend\u00eancia e risos nervosos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Seria poss\u00edvel recriar o mesmo experimento de \u201cGlitter\u201d, por\u00e9m com escritores? Qual seria a din\u00e2mica e quem voc\u00ea acha que deveria participar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BRUNO RIBEIRO \u2013<\/strong> Seria poss\u00edvel, claro! O Manuel da Costa Pinto faria as vezes do estilista ermit\u00e3o de \u201cGlitter\u201d e selecionaria vinte e um escritores para participar do \u201cA Literatura Viva\u201d: uma esp\u00e9cie de grande sarau que seria finalizado com o fuzilamento dos escritores. O assassino que estaria respons\u00e1vel pela chacina l\u00edrica seria o franco-atirador Marcelino Freire; segue a lista dos vinte e um: eu, Roberto Menezes, voc\u00ea (S\u00e9rgio Tavares), Aline Bei, Bernardo Carvalho, Tiago Germano, Cl\u00e1udia Lemes, D\u00e9bora Gil Pantale\u00e3o, Adriane Garcia, Cristina Judar, Noemi Jaffe, Mike Sullivan, Ricardo L\u00edsias, Adriana Brunstein, Tadeu Sarmento, Eduardo Sabino, Irka Barrios, Micheliny Verunschk, Ana Paula Maia, Mariana Bas\u00edlio e Andr\u00e9 Timm. Mas, assim como todos os conflitos que ocorrem dentro da nossa bolha liter\u00e1ria, a plateia descobriria rapidamente que as balas eram de mentira e que os vinte e um escritores s\u00f3 estavam simulando suas mortes: era uma performance para divulgar uma antologia de contos e poemas sobre o tema: A MORTE DO AUTOR. Todos aplaudiriam e se abra\u00e7ariam no final do ato; tirar\u00edamos muitas fotos para o Facebook e, enquanto um escritor bravo dava um soco murcho no peito de um escritor chor\u00e3o, ir\u00edamos pra casa rastejando e carregando nossas vit\u00f3rias e louros nas costas cansadas de tanto escrever e tirar fotos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa conversa franca e provocativa sobre literatura, S\u00e9rgio Tavares entrevista o escritor Bruno Ribeiro<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15302,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3559,16,2539],"tags":[3568,63,489,1023],"class_list":["post-15293","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-127a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-bruno-ribeiro","tag-entrevista","tag-pequena-sabatina","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15293","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15293"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15293\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15308,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15293\/revisions\/15308"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15302"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}