{"id":15345,"date":"2018-10-22T17:09:53","date_gmt":"2018-10-22T20:09:53","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=15345"},"modified":"2018-12-17T21:49:56","modified_gmt":"2018-12-18T00:49:56","slug":"dedos-de-prosa-i-62","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-62\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Dheyne de Souza<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15346\" aria-describedby=\"caption-attachment-15346\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ana-Matsusaki-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15346 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ana-Matsusaki-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"363\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ana-Matsusaki-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Ana-Matsusaki-1-300x218.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15346\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Ana Matsusaki<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ana, uma promessa<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sempre quis ter uma casa. Mentira. Na verdade sempre tive pavor de geladeiras fog\u00f5es sof\u00e1s essas coisas pesadas que querendo ou n\u00e3o atrapalham a gente a mudar. Se eu pudesse, se eu pudesse mesmo, era outra. \u00c9 o que tento fazer todos os dias. Do mesmo jeito que todos os dias vejo as pessoas fazendo isso. Feliciando-se. Feliciando-se \u00e9 quase que como emulando-se, estuprando-se, niilando-se, s\u00f3 que com a boca levemente curvada n\u00e3o rindo mas sorrindo. Aprendi na tv. Foi mesmo. N\u00e3o vejo muito tv. Mas \u00e0s vezes aprendo. J\u00e1 fiz argui\u00e7\u00e3o sobre isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu quase nunca me apresento, n\u00e3o \u00e9 uma falta de gentileza ou um esbanjar de arrog\u00e2ncia, s\u00f3. Odeio justificativas. Mas meu nome \u00e9 Ana. Como sempre, voc\u00eas j\u00e1 devem estar sacando. Estou na verdade pensando que hist\u00f3ria conto ou invento sobre a minha vida. H\u00e1 pontos de vista demais em mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando me pego pensando, acaricio meu l\u00e1bio. Na verdade esse n\u00e3o \u00e9 um h\u00e1bito meu. Nunca fiz at\u00e9 ent\u00e3o. Mas vi um dia. Um apartamento de Santos. Ela olhava o mar pela pequena fresta dos pr\u00e9dios. As pessoas conversando bebendo fumando rindo muito ao redor. Mas ela estava sozinha, com um ar franc\u00eas. Ela de fato era da Fran\u00e7a. E eu do sof\u00e1 fiquei olhando. Ela tinha as curvas bem finas dos l\u00e1bios. E essa paisagem era realmente um campo no outono em algum lugar da minha mem\u00f3ria europeia de pel\u00edculas. O olhar cor de n\u00f3rdicos levemente parado. Quero dizer que se movia lentamente como se estivesse sugando n\u00e3o o mar da noite, mas subindo sorrateiramente pelas curvas das janelas. \u00c0s vezes inventava obst\u00e1culos nos l\u00e1bios, acariciava-os com for\u00e7a e depois com leveza. Raramente o sentido anti-hor\u00e1rio. Depois de um tempo, soltava a m\u00e3o das montanhas finas. Parava no ar como se segurando entre os dedos um fio de ar. Exatamente isso porque eu podia ouvir dali seu som, um vento. Ela tamb\u00e9m levantava o pesco\u00e7o. Digo, o queixo. Porque era mais belo. \u00c0s vezes algu\u00e9m chamava seu nome. Ela virava a cabe\u00e7a de lado, abaixava at\u00e9 o ombro e sorria, mas estava mais sentindo o cheiro do amaciante da roupa. Mas n\u00e3o me lembro como se chamava. Levemente da sua voz dizendo uma coisa que at\u00e9 hoje tento entender por que, e me arrependo de n\u00e3o ter perguntado. Nunca mais vou saber. Tinha um som de leite a voz dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez assim funcione bem. Contando desse jeito, voc\u00eas entenderam, n\u00e3o foi? Posso fazer um trato, prometer a verdade, ainda que o caminho seja bem mais longo e com fissuras nas pontua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses momentos s\u00e3o mais tensos, n\u00e3o gosto. Vou pensar em uma hist\u00f3ria pra contar. Depois volto. Engra\u00e7ado que quando voltei fiquei pensando um bom tempo se voltava e apagava um pouco ou se n\u00e3o. Idiota isso, mas sincero. Se \u00e9 que se d\u00e1 cr\u00e9dito ao mas depois de v\u00edrgula, hoje em dia. Quem \u00e9 que sabe correr de justificativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As coisas ficaram mais dif\u00edceis. Minhas hist\u00f3rias das hist\u00f3rias diminu\u00edram com o tempoa vidaacontaalamaoremoacamaaporradacultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como as pessoas conseguem escrever fumando, me pergunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu digo, na minha cabe\u00e7a mesmo. Eram mais ramificadas, digamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o que eu n\u00e3o lembre. Assim, n\u00e3o muito cronol\u00f3gica e ordenadamente. Muitos buracos. H\u00e1 espa\u00e7os em branco impenetr\u00e1veis. Talvez nem com a psican\u00e1lise. Aprendi muito bem como cerc(e)\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, especificamente, n\u00e3o \u00e9 um dia muito bom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uns dias atr\u00e1s algu\u00e9m buzinou e n\u00e3o soube se era para mim. Esse tipo de n\u00e3o resposta que fico guardando na mem\u00f3ria. N\u00e3o exatamente nessa propor\u00e7\u00e3o. Tentei ilustrar. Preciso pensar em alguma coisa r\u00e1pido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes me pego pensando que, se n\u00e3o fosse a B\u00edblia, eu teria me suicidado na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Menos, bem menos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu nome \u00e9 Ana. N\u00e3o tenho filhos, n\u00e3o tenho ningu\u00e9m. Quase um aforismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem sabe na pr\u00f3xima tentativa eu possa ser melhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cidade quente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cidade quente gemia. Madrugada de final de agosto. A Avenida Goi\u00e1s. Rua de sombra, de vapor, de um galho quebrado. Outro. Mais perto. O vento, ela pensava. O vento, na verdade, ia se aposentando aos poucos nessa \u00e9poca do ano. As folhas ao vento, dizia bem baixo. Quebrando galhos? Poderia parar, mas a possibilidade de ouvir o som mais perto, o som mais r\u00e1pido, o som mais real, n\u00e3o. Uma moto passou t\u00e3o devagar que escondeu o grito do galho. Mas foram instantes. Ela sequer olhou. N\u00e3o estou com medo, tremia. O frio da madrugada na cidade quente \u00e9 uma esp\u00e9cie de h\u00e1lito m\u00f3bil. Arriscou levantar os olhos do all star preto pu\u00eddo para uma fachada de pr\u00e9dio art d\u00e9co. Se fosse outra cidade, todos tirariam fotos. Mas na cidade quente a gente se acostuma a olhar sapatos, an\u00fancios, smartphones. Ela apertou a m\u00e3o no bolso da cal\u00e7a jeans, mas desistiu das horas. Perdeu a contagem da proximidade do som do galho. Mas ele vinha. Sem certeza, atravessou a rua. Os bancos da avenida chamavam. Foi uma das primeiras avenidas que conseguiu identificar quando se mudou. Tinha 16 anos? Foram os bancos da Avenida Goi\u00e1s. Os transeuntes da Rua 4 empatando os sebos. O Eixo Anhanguera cavando o sol no asfalto. Mas agora era madrugada e o asfalto urrava mudo. Tivesse coragem, molhava a m\u00e3o na fonte onde tanta gente j\u00e1 se banhou. Mas faltavam s\u00f3 quatro quarteir\u00f5es para subir pro apartamento, fumar um cigarro, tomar uma tequila ouro e fotografar da janela a mem\u00f3ria do medo do som do galho na velha Avenida Goi\u00e1s. Tinha o h\u00e1bito de olhar o ch\u00e3o, o resto que fica no ch\u00e3o. E na cidade quente o ch\u00e3o \u00e9 rico de hist\u00f3ria. J\u00e1 descobriu pilhas, an\u00e9is, tickets, moedas, suores, seus relic\u00e1rios. Por isso cometeu o deslize de diminuir demais o passo. Era o bra\u00e7o de uma boneca. N\u00e3o se abaixou para pegar porque sabia que estava muito perto tanto quanto n\u00e3o sabia que. O acaso? A \u00faltima lembran\u00e7a poderia ter sido o bra\u00e7o da boneca. Mas a m\u00e3o no seio na cal\u00e7a em todos os seus buracos acordou de gritos alguns galhos que ainda n\u00e3o pegaram no sono no alto dos pr\u00e9dios cansados. Na Avenida Goi\u00e1s, que l\u00e1stima, logo agora que estava a dois quarteir\u00f5es de casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foda-se. Era s\u00f3 no que ele pensava enquanto andava mais r\u00e1pido. Atr\u00e1s da garota de blusa de al\u00e7a. Poderia correr, mas. Foda-se. Uma moto quase. O cabelo dela tremia. Era bonito isso de os bra\u00e7os se abra\u00e7arem como se fosse frio naquela cidade de fogo atravessando a rua. A madrugada \u00e9 uma solid\u00e3o sem fome. Quando o bra\u00e7o da noite desliza. Se Deus quiser que assim seja, ela vai diminuir o passo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma garota na Avenida Goi\u00e1s sendo seguida, mas isso s\u00e3o horas. Vou devagar. Se ela estiver sem suti\u00e3, n\u00e3o posso fazer nada, as pessoas precisam aprender a viver. Ela n\u00e3o tem a capacidade de olhar pra mim e pedir ajuda. O cara tamb\u00e9m nem me parece uma m\u00e1 pessoa. Agora quem procura acha. Quer saber foda-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 pensei em chamar a pol\u00edcia quando vi l\u00e1 embaixo na Avenida Goi\u00e1s aquela mo\u00e7a que parecia uma boneca quebrada, devia estar com um medo enorme, se fosse eu correria. Ou eu mesma vou. Mas com a dor que estou nas pernas at\u00e9 eu conseguir descer n\u00e3o vou sequer ver o que aconteceu. Ai meu deus uma moto. Hoje em dia moto \u00e9 uma coisa que n\u00e3o d\u00e1 pra aguentar nessa cidade. Se eu estou na rua \u00e0 noite, mas n\u00e3o t\u00e3o tarde, e passa uma moto, eu j\u00e1 mudo meu destino, sei l\u00e1. Nunca se sabe. Antes prevenir. Ela atravessou a rua, gra\u00e7as a deus vai dar tudo certo. Espera. Como assim, minha filha? Agiliza. Sai da\u00ed, sai. Ai meu deus do c\u00e9u, miseric\u00f3rdia. Carlos Andr\u00e9, acorda, me d\u00e1 o rem\u00e9dio, corre! Esse calor do c\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adolescente \u00e9 estuprada e morta na Avenida Goi\u00e1s na madrugada desta ter\u00e7a-feira. Sem testemunhas no local, pol\u00edcia segue investiga\u00e7\u00e3o. Prefeito promete reformar asfalto. Os ip\u00eas-rosas est\u00e3o morrendo enquanto florescem os ip\u00eas-amarelos. Bala perdida mata motociclista no centro. A temperatura continua alta na capital.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.dheyne.wordpress.com\"><strong><em>Dheyne de Souza<\/em><\/strong><\/a><em> est\u00e1 em Goi\u00e2nia-GO. Tem um livro de poemas publicado (\u201cPequenos Mundos Ca\u00f3ticos\u201d, PUC\/Kelps, 2011). Em breve, lan\u00e7ar\u00e1 o livro, tamb\u00e9m de poemas, chamado \u201cL\u00e2mina\u201ds (Martelo Casa Editorial). Publica poemas, prosemas e e-books no seu blog. Tem um canal no <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/pequenosmundospoeticos.\">YouTube<\/a>, em parceria com Hel\u00f4 Sanvoy, com leitura e vocaliza\u00e7\u00e3o de poesia.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A for\u00e7a intimista dos pequenos contos de Dheyne de Souza <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15346,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3559,2534],"tags":[419,41,781,3578,3579,149],"class_list":["post-15345","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-127a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-dheyne-de-souza","tag-lamina","tag-pequenos-mundos-caoticos","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15345","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15345"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15345\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15353,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15345\/revisions\/15353"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15346"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15345"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15345"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15345"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}