{"id":15933,"date":"2018-12-16T13:28:15","date_gmt":"2018-12-16T16:28:15","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=15933"},"modified":"2018-12-17T21:48:07","modified_gmt":"2018-12-18T00:48:07","slug":"dedos-de-prosa-i-63","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-63\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ramayana Vargens<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15939\" aria-describedby=\"caption-attachment-15939\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santos-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15939 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santos-1.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"262\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santos-1.jpg 550w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santos-1-300x143.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15939\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Adelmo Santos<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>HORA LIVRE<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A velha mais velha do asilo. Mesmo banco de todas as tardes. Fundo sombrio da varanda, \u00faltimas luzes cinzentas do crep\u00fasculo. Fala pouco, quase nada. Quando se dirigem a ela, responde cumprimentos, agradece gentilezas e diz am\u00e9m (se for necess\u00e1rio). Falar cansa. Resta ficar pensando, o tempo todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Puro engano, a ideia de que o tempo \u00e9 livre e democr\u00e1tico. Parece que todos t\u00eam direito ao mesmo tempo, que cada um usa como quiser. N\u00e3o \u00e9 bem assim. \u00c9 muito al\u00e9m das medidas conhecidas. Tempo n\u00e3o \u00e9 coisa \u00fanica que se divide, igualmente, entre as pessoas. O tempo corre em velocidade \u00edntima e penetra nos espa\u00e7os vazios de cada vida. Minutos, segundos, horas ou anos podem ter dura\u00e7\u00f5es diferentes para cada indiv\u00edduo \u2013 e demorar o tanto que a subjetividade exige no momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas anos no asilo. Professora aposentada. Vi\u00fava de oficial do ex\u00e9rcito \u2013 met\u00f3dico e previs\u00edvel. Vida programada. Casamento de 52 anos. Rela\u00e7\u00e3o amiga, respeitosa e equilibrada com o militar da artilharia. Muito tempo. N\u00e3o teve filhos. Nenhuma grande paix\u00e3o. Prazeres m\u00ednimos \u2013 nunca teve oportunidade para transgredir. N\u00e3o havia grandes traumas ou trag\u00e9dias para lamentar, mas tamb\u00e9m nada espetacular guardado na mem\u00f3ria. Vida neutra, regular, correta, bem tra\u00e7ada (como os c\u00e1lculos de bal\u00edstica do coronel).\u00a0 Vida repetitiva (como a cad\u00eancia do batalh\u00e3o no desfile da independ\u00eancia, que o marido comandava com tanto orgulho).\u00a0 Estudo e trabalho: \u00fanicas raz\u00f5es que preencheram a vida da mulher. Poucas emo\u00e7\u00f5es fortes para recordar.\u00a0 As melhores lembran\u00e7as vinham das aulas de f\u00edsica, trabalho de d\u00e9cadas, no col\u00e9gio e na faculdade. Considerava um privil\u00e9gio a miss\u00e3o de ensinar o funcionamento do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo mora na alma. O tempo moral, temporal, \u00e9 tempestade, besta, vendaval. O tempo n\u00e3o \u00e9 infal\u00edvel. Errado pensar que o tempo \u00e9 exato e n\u00e3o falha. Falha e falta, porque nasce e morre dentro da gente. Enquanto escorre, tem o tamanho que quiser. \u00c9 m\u00fasica silenciosa que embala o curso do universo. Compasso e ritmo definem sua exist\u00eancia. O tempo \u00e9 inven\u00e7\u00e3o desvairada de cada pessoa, na dan\u00e7a consigo mesma. N\u00e3o \u00e9 coisa geral. Tempo universal (organizado em fatias) \u00e9 como cena parada de um filme \u2013 cinema que vira fotografia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucos parentes, a maioria j\u00e1 morreu. Sobrinhos e fi\u00e9is agregados apareciam vez ou outra \u2013 no anivers\u00e1rio, p\u00e1scoa, v\u00e9spera de natal e coisas assim. Sempre apressados, constrangidos, tentando demonstrar que tinham algo mais importante para fazer.\u00a0 A \u00fanica visita que lhe fazia bem era Ester, ex-aluna que reencontrara, por acaso, no asilo. Duas vezes por m\u00eas, Ester passava l\u00e1 para ver o av\u00f4 e dedicava um bom tempo para conversar com a antiga professora. Ester \u2013 a \u00fanica que n\u00e3o inventava motivos para dizer que estava na hora de ir embora.\u00a0 S\u00f3 sa\u00eda quando a velha dizia que precisava descansar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 s\u00e9culos, o terr\u00edvel v\u00edcio das horas aflige a humanidade. Desde que foi criada a civiliza\u00e7\u00e3o do rel\u00f3gio (para facilitar a divis\u00e3o social dos talentos e reprimir excessos de velocidade de imagina\u00e7\u00e3o), a desconstru\u00e7\u00e3o do tempo \u00e9 considerada insulto cient\u00edfico ou dist\u00farbio pessoal. Dif\u00edcil fazer entender aos viciados em calend\u00e1rios e agendas que \u00e9 imposs\u00edvel regular os momentos e a cad\u00eancia da vida. T\u00e3o esdr\u00faxulo como tentar disciplinar o vento. Ou pensar a sucess\u00e3o das eras como uma sequ\u00eancia cont\u00ednua em dire\u00e7\u00e3o a um futuro fixo (como se s\u00f3 existisse o presente, cuja fun\u00e7\u00e3o seria apagar o passado).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembrou orgulhosa dos exemplos po\u00e9ticos que constru\u00eda para explicar fen\u00f4menos misteriosos com as for\u00e7as da natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A velha professora detestava os livros que ganhava.\u00a0 Hist\u00f3rias tolas, manuais de autoajuda, medita\u00e7\u00e3o, pensamento positivo ou mensagens religiosas de prepara\u00e7\u00e3o para a morte. Preferia fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, aventuras que desafiavam a intelig\u00eancia e propunham novos pensamentos. Gostava mais dos cl\u00e1ssicos. A imagina\u00e7\u00e3o dos autores da atualidade ficava cada vez mais tecnol\u00f3gica do que cient\u00edfica. O desastre estava a\u00ed: pouca ci\u00eancia para muita tecnologia. Ultimamente, mantinha no colo o pequeno volume que Ester trouxe de presente. Os Crononautas (tradu\u00e7\u00e3o horr\u00edvel), que narra viagens no tempo de um grupo de cientistas, que descobre equa\u00e7\u00f5es mentais que permitem deslocamentos no espa\u00e7o com a for\u00e7a do pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se deve acreditar que o tempo s\u00f3 caminha para frente. Nada mais falso. O tempo \u00e9 et\u00e9reo e vol\u00e1til. Pode andar para frente, para tr\u00e1s, para cima, para baixo e para qualquer lado. O tempo \u00e9 invis\u00edvel. Lugar m\u00f3vel, abstrato, onde fica guardado tudo que existe, existiu ou existir\u00e1.\u00a0 Voa, na velocidade total de todas as gal\u00e1xias, sendo capaz de atingir qualquer dist\u00e2ncia cab\u00edvel no universo. \u00c0s vezes, fica entupido num canto sem sa\u00edda. Como dentro da garganta daquele velho com cara de monstro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O av\u00f4 de Ester n\u00e3o gostava da velha.\u00a0 A neta parecia mais interessada na professora maluca do que nos problemas de sa\u00fade que ele relatava com profundo sentimento de car\u00eancia e abandono. Maldizia a tarde que Ester reconheceu a professora, solit\u00e1ria, no canto da varanda. Foi ele que come\u00e7ou a espalhar que a velha era um perigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Minha neta contou que ela \u00e9 um g\u00eanio. Sabe tudo sobre energia nuclear. Foi at\u00e9 convidada para trabalhar na Nasa, mas o marido n\u00e3o concordou. Cuidado com ela! \u00c9 meio desequilibrada. Tenho certeza que est\u00e1 aprontando alguma coisa. Olha a cara dela: parece que vive com raiva da humanidade.\u00a0 Gente assim \u00e9 capaz de tudo. J\u00e1 imaginou se ela resolve fabricar uma bomba? Provocar uma explos\u00e3o, causar um curto, um inc\u00eandio&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo perde vida com a ideologia do tempo aprisionado. Intelig\u00eancias criativas s\u00e3o bloqueadas e se atrofiam. Tempo expresso em n\u00fameros; tempo vigiado em tabelas e prazos; tempo apertado em competi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia. Na vida corrida, condicionada a datas e compromissos marcados, sentimentos fraternos e respeito solid\u00e1rio s\u00e3o rebarbas de excessos. Tempo engarrafado, paralisante, epidemia de ang\u00fastia, destrui\u00e7\u00e3o da harmonia natural e ilus\u00e3o de um futuro salvador. Droga pesada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tempo \u00e9 liberdade! Abaixo opressores e compressores do tempo! Tempo livre. Solto e vago!\u00a0 O tempo \u00e9 leito de luz e usina de mem\u00f3ria \u2013 confinado, compromete compet\u00eancias do esp\u00edrito e altera a hierarquia dos desejos. Cada esp\u00e9cie \u00e9 especialista em saber viver \u2013 entender o tempo que tem. Vida e morte, no mesmo trampolim. O mesmo ponto pode ser princ\u00edpio ou fim. Depende da conven\u00e7\u00e3o. O amarelo \u00e9 a menor dist\u00e2ncia entre o verde e o azul. Quantos tons existem entre os dois? Cor \u00e9 luz dilu\u00edda no calor do tempo.\u00a0 Enquanto existir fusos hor\u00e1rios, cron\u00f4metros e formas de medir o tempo, as pessoas n\u00e3o ser\u00e3o livres para perceber as verdadeiras varia\u00e7\u00f5es das cores e as pulsa\u00e7\u00f5es mutantes das estrelas. O tempo limitado no ciclo das horas aprisiona a humanidade na periferia da terra. Por isso, ficamos isolados de outras civiliza\u00e7\u00f5es extraterrestres. \u00c9 preciso libertar o tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O velho implicante foi quem ficou mais alegre, quando o diretor do asilo avisou que a professora n\u00e3o podia mais ficar interna na casa.\u00a0 Cleptomania. Encontraram diversos rel\u00f3gios, desaparecidos dentro do asilo, escondidos no quarto da velha. S\u00f3 n\u00e3o entenderam por que tinham sido destru\u00eddos com tanta viol\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>Ramayana Vargens<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritor, jornalista, professor de literatura, diretor teatral e membro da Academia de Letras de Ilh\u00e9us. \u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mist\u00e9rios do tempo num conto in\u00e9dito de Ramayana Vargens<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15934,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3582,2534,16],"tags":[81,41,3586,182],"class_list":["post-15933","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-128a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-ramayana-vargens","tag-tempo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15933","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15933"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15933\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15940,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15933\/revisions\/15940"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15934"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15933"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15933"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15933"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}