{"id":15959,"date":"2018-12-16T19:27:10","date_gmt":"2018-12-16T22:27:10","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=15959"},"modified":"2019-03-16T20:16:16","modified_gmt":"2019-03-16T23:16:16","slug":"aperitivo-da-palavra-ii-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-ii-8\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Trote no pelo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Daniel Russell Ribas<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Di\u00e1rio-A-mulher-e-o-cavalo-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16013\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Di\u00e1rio-A-mulher-e-o-cavalo-1.jpg\" alt=\"\" width=\"271\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Di\u00e1rio-A-mulher-e-o-cavalo-1.jpg 271w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Di\u00e1rio-A-mulher-e-o-cavalo-1-203x300.jpg 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 271px) 100vw, 271px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra \u201cdi\u00e1rio: a mulher e o cavalo\u201d, da autora Julia Raiz, \u00e9 um ser de dois corpos que se fundem em plena corrida. Na dualidade entre interno e externo, tanto na forma quanto na narrativa, forja-se o elemento que conduz \u00e0 unidade no grau confessional e liter\u00e1rio. Trata-se da mudan\u00e7a de totem para o arqu\u00e9tipo, o sagrado que se torna um princ\u00edpio plat\u00f4nico. A superf\u00edcie vislumbra ideias complexas em uma linguagem direta e cuja abordagem determina uma eventual reformula\u00e7\u00e3o da mesma. Em um exame minucioso, encontra-se uma investiga\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do tempo: a cronologia pelos movimentos executados a cada trecho, em que musicalidade \u00e9 uma coautora, no lugar de uma medi\u00e7\u00e3o acumulativa. Sem exibicionismos, experimenta como as sensa\u00e7\u00f5es, por mais comuns em descri\u00e7\u00e3o, s\u00e3o \u00fanicas quando aplicadas \u00e0 individualidade. Assim, como a pessoa que ler\u00e1 decodificar\u00e1 estas percep\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 o importante. Tudo est\u00e1 no texto, atrav\u00e9s de ritmo e s\u00edmbolos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fio-condutor est\u00e1 presente no t\u00edtulo: em um di\u00e1rio, a mulher investiga a si e o que a cerca, a partir de um ve\u00edculo, o cavalo, um guia hostil para reflex\u00f5es. O fasc\u00ednio se desenha na grada\u00e7\u00e3o em que estes objetos de estudo se organizam a uma condi\u00e7\u00e3o de autodescoberta. A vis\u00e3o de fora da narradora para os dois seres, civilizada e selvagem, cujo enlace em uma criatura pr\u00f3pria \u00e9 t\u00e3o imprevis\u00edvel (\u00e0 primeira vista) quanto inevit\u00e1vel (ao fim). A mulher e o cavalo se unem no enfrentamento ao cotidiano que busca domestic\u00e1-las. Pode-se citar dois trechos do cap\u00edtulo 5 de \u201cMulheres que correm com lobos\u201d, de Clarissa Pinkola\u00a0Est\u00e9s: \u201c\u2026 se quisermos ser alimentados por toda a vida, precisaremos encarar e desenvolver um tipo de relacionamento com a natureza da vida-morte-vida\u201d e \u201cO que se teme pode fortalecer. Pode curar\u201d. Essa est\u00e1 presente na ep\u00edgrafe que sintetiza miopatia como o efeito colateral de uma for\u00e7a que n\u00e3o pode ser contida, pois seria mortal. Ela retoma esta ideia de forma mais expl\u00edcita no trecho: \u201cDepois, se este fosse um grande romance, o escritor escreveria que os cavalos se re\u00fanem \u00e0 noite, de costas para a fogueira e cantavam baixinho pedindo paz aos esp\u00edritos enganados\u201d. Aquelas que matam, como a mulher do pm, ou mulheres que se matam, como Sylvia Plath, olham para seus pares em sua jornada por uma individualidade em que matadores montam cavalos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Remete-se a Jung, quando se refere ao cavalo como s\u00edmbolo do irracional m\u00e1gico, cujos impulsos ocultam sua incapacidade de consci\u00eancia: \u201cAssim sendo, o \u201ccavalo\u201d \u00e9 um equivalente de \u201cm\u00e3e\u201d, com uma t\u00eanue diferen\u00e7a na nuan\u00e7a do significado, sendo o de uma, vida origin\u00e1ria e o de outra, a vida puramente animal e corporal. Esta express\u00e3o, aplicada ao contexto do sonho, leva \u00e0 seguinte interpreta\u00e7\u00e3o: A vida animal se destr\u00f3i a si mesma\u201d. Julia Raiz prop\u00f5e uma releitura, em que a vida animal se reconstr\u00f3i a partir do conhecimento de sua condi\u00e7\u00e3o de oprimida e opressora para ent\u00e3o construir uma nova e \u00fanica consci\u00eancia. Em outro trecho do livro: \u201cA menina que encontrei na lanchonete falou que as mulheres t\u00eam que fazer que nem os cavalos na umbanda: transmitir. Eu n\u00e3o entendi. Mas eu sei que as mulheres est\u00e3o interligadas, nossas mentes formando uma grande rede\u201d. Esta grande rede s\u00f3 pode ser acessada atrav\u00e9s de uma leitura particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A t\u00e9cnica \u00e9 honesta, com pontuais interven\u00e7\u00f5es em seu formato, como na entrada em que a autora interp\u00f5e a narra\u00e7\u00e3o com observa\u00e7\u00f5es de cena. Desta forma, reitera sem se repetir a mensagem que permeia cada cap\u00edtulo: a narradora e sua express\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o distanciadas. A honestidade reside que cada fator do texto \u00e9 utilizado para aprofundamento psicol\u00f3gico. Por mais disperso que soe em momentos, ao mencionar personagens e situa\u00e7\u00f5es que aparentemente n\u00e3o pertencem, trata-se de como o jogo entre autora e quem l\u00ea \u00e9 estabelecido. O fluxo \u00e9 o bilhete de embarque para o universo mental da personagem. A cada associa\u00e7\u00e3o a narradora dialoga consiga mesma e quem l\u00ea. Essa pessoa, no entanto, n\u00e3o tem participa\u00e7\u00e3o passiva, pois as indaga\u00e7\u00f5es do texto buscam estabelecer outra terceira e indireta identifica\u00e7\u00e3o ou constata\u00e7\u00e3o. A brincadeira metalingu\u00edstica, liter\u00e1ria e confessional se faz a\u00ed. Como escrito acima, n\u00e3o \u00e9 interessante uma leitura engessada, mas a transmiss\u00e3o de sinais suficientes para que a pessoa que l\u00ea preencha as lacunas propositais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um grande romance pessoal dentro de uma pequena novela de dispersos que confluem em linguagem e em tema. Um fluxo com trote incerto, mas cujo caminho est\u00e1 tra\u00e7ado. Como Julia Raiz traduz na entrada do belo \u201cselo\u201d: \u201cExiste sempre uma coisa mais verdadeira acontecendo fora do nosso alcance de vis\u00e3o, no momento que uma estrela se apaga \u00e9 porque ela j\u00e1 n\u00e3o existia e n\u00e3o existia o fim de uma luz, existe apenas a transforma\u00e7\u00e3o que escapa \u00e0 nossa percep\u00e7\u00e3o, existe o presente que nunca fomos capazes de captar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Daniel Russell Ribas<\/em><\/strong><em> \u00e9 membro do coletivo liter\u00e1rio Clube da Leitura, no Rio de Janeiro. Escreve cr\u00f4nicas quinzenais no site RUBEM. Organizou e participou de diversas colet\u00e2neas de contos. Ganhou o Pr\u00eamio Argos pela edi\u00e7\u00e3o de \u201cMonstros Gigantes \u2013 Kaiju\u201d, em parceria com Luiz Felipe Vasquez.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Russel Ribas resenha \u201cdi\u00e1rio: a mulher e o cavalo\u201d, livro de Julia Raiz<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16011,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3582,2533],"tags":[11,3566,3600,3601],"class_list":["post-15959","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-128a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-daniel-russel-ribas","tag-diario-a-mulher-e-o-cavalo","tag-julia-raiz"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15959","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15959"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15959\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16030,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15959\/revisions\/16030"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16011"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15959"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15959"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15959"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}