{"id":15970,"date":"2018-12-16T20:22:40","date_gmt":"2018-12-16T23:22:40","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=15970"},"modified":"2019-03-16T20:15:59","modified_gmt":"2019-03-16T23:15:59","slug":"dedos-de-prosa-iii-61","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-61\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Gustavo da Rosa Rodrigues<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_15972\" aria-describedby=\"caption-attachment-15972\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santos-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15972 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santos-3.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santos-3.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santos-3-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santos-3-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15972\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Adelmo Santos<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Deus ao mar o perigo e o abismo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele vai explodir o avi\u00e3o. Eu sabia. Desde o come\u00e7o, sempre soube que o meu destino era morrer agarrado a uma mesinha de polietileno com fogo cegando os olhos m\u00edopes enquanto crian\u00e7as afogadas passam do meu lado, boiando, de coletinhos laranjas, indo pra uma col\u00f4nia de f\u00e9rias no c\u00e9u. Se o avi\u00e3o cair na \u00e1gua, j\u00e1 era. Na terra, talvez o piloto tenha uma chance de fazer um pouso for\u00e7ado, ou ent\u00e3o cair em cima de umas \u00e1rvores e a\u00ed d\u00e1 pra tentar achar uma das oito sa\u00eddas de emerg\u00eancia, que n\u00e3o serviriam de nada porque o avi\u00e3o j\u00e1 estaria todo arrebentado, e ter\u00edamos que engatinhar at\u00e9 a abertura mais pr\u00f3xima passando por cima, isso \u00e9 certo, de peda\u00e7os de pessoas pelos cantos como se fosse uma piscina de bolinha vers\u00e3o hardcore; o neg\u00f3cio \u00e9 ficar no fundo, sempre no fundo, porque \u00e9 a parte que bate por \u00faltimo, e tem uma estat\u00edstica que diz que 90% dos sobreviventes de avi\u00e3o sentaram nas \u00faltimas fileiras. Mas, nesse caso, acho que n\u00e3o tem sa\u00edda. Ele pode levantar durante a noite, ir l\u00e1 no <em>cockpit<\/em> e anunciar o sequestro, afunde esse avi\u00e3o no mar, ou, quando estivermos nos aproximando da costa da \u00c1frica v\u00e1 direto para as Pir\u00e2mides do Egito, melhor acabar com aquilo, que se fodam os fara\u00f3s e a especula\u00e7\u00e3o tur\u00edstica, ou, d\u00ea meia volta e arrebente o <em>Christ the Redeemer<\/em> \u2014 mas por que algu\u00e9m iria sequestrar um avi\u00e3o no Brasil? Pra bater aonde? Vai ver o Brasil agora \u00e9 um novo alvo do Estado Isl\u00e2mico, ou Al-Qaeda, e eles estariam mandando uma mensagem afirmativa reconhecendo que os pa\u00edses economicamente emergentes mas nem tanto tamb\u00e9m entram na conta? 12 horas de voo, 7 horas s\u00f3 em cima do Atl\u00e2ntico, sem mapa de voo. A companhia \u00e9 t\u00e3o chinela que n\u00e3o tem nem o mapa do voo pra pessoa saber onde vai morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele se vira de um lado pro outro no assento desde que sentou e fica praguejando alguma coisa em \u00e1rabe, ou \u00e9 franc\u00eas? n\u00e3o d\u00e1 pra saber, fala sussurrando, pra dentro, como se rezasse. Quando chegou na minha fileira e apontou pro assento da janela efusivamente dizendo h\u00e3, o cabelo comprido e a cara imberbe, perguntei em portugu\u00eas aqui e ele n\u00e3o respondeu, s\u00f3 apontou, mas quando se sentou disse obrigado, achei que fosse brasileiro. Tinha que chover, sempre decolo com chuva durante a noite; pela janela oval s\u00f3 as luzinhas vermelhas e verdes em rota\u00e7\u00e3o universal, 24 de dezembro, deve ser isso, e os risquinhos da \u00e1gua na janelinha fake de pl\u00e1stico ou acr\u00edlico anunciando a ressurrei\u00e7\u00e3o, <em>tears of joy<\/em>; agora ele pegou a revistinha da companhia, o cara parece que \u00e9 de boa, t\u00f4 at\u00e9 viajando, l\u00ea revistas de turismo e tal; folheia o neg\u00f3cio recheado de imagens profanas por dois segundos e, num som abafado, socando a revista atr\u00e1s do assento da frente, sussurra pra dentro de novo, \u00e1rabe ou franc\u00eas, vai saber, e se inclina na janela pra tentar ver alguma coisa; certo que ele pode ter colocado a bomba na mala e t\u00e1 com um detonador na cal\u00e7a, escondido; l\u00e1 fora, as luzinhas fuzilantes das asas, revestidas de polietileno, que n\u00e3o servem pra nada, e os funcion\u00e1rios caneta marca texto tocando a vida das pessoas pra dentro; ele deve t\u00e1 tentando conferir se a mochila com os explosivos j\u00e1 entrou, cal\u00e7a jeans rasgada no joelho; telinha do entretenimento, ele liga e seleciona filmes, d\u00e1 pra ouvir o ronco da gasolina fluindo, e se eles se enganam e colocam menos do que precisa, ou se tem um vazamento tipo a Apollo 13 e estamos no meio do oceano sem o Gary Sinise pra nos salvar, a\u00ed j\u00e1 era, a \u00fanica coisa boa \u00e9 que o avi\u00e3o n\u00e3o explode, a n\u00e3o ser que o cara queime tudo, claro, e quando v\u00ea eles conseguem pousar e passar as instru\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a corretamente pra galera sair show, infle o colete s\u00f3 fora da aeronave, n\u00e3o corre, senhor, mantenha-se calmo, porque todo mundo tem que sair em fila, se bem que n\u00e3o vai dar pra saber, e no impacto, metade j\u00e1 morreu; o neg\u00f3cio \u00e9 <em>touch-screen<\/em>, ele rola rola a lista de filmes oferecidos durante o p\u00e9riplo de 12 horas dentro de uma lata de sardinha que voa e ningu\u00e9m sabe como; d\u00e1 duas batidinhas na tela, o filme n\u00e3o entra, para\u00edsos perdidos, talvez ele nem seja um terrorista, s\u00f3 t\u00e1 meio puto porque tem que viajar \u00e0s pressas e queria continuar no Rio, entend\u00edvel, ou algu\u00e9m ligou dizendo que a m\u00e3e dele morreu e agora precisa voltar pra pagar pelo caix\u00e3o e tudo mais; n\u00e3o entra, ele d\u00e1 um tapa bem dado na tela esbravejando alguma coisa em \u00e1rabe, \u00e9 \u00e1rabe, n\u00e3o franc\u00eas, e solta uma bufada; que merda, o cara t\u00e1 ficando puto e ainda nem decolamos, vai estourar essa porra aqui mesmo no ch\u00e3o; tenta desligar o neg\u00f3cio, mas a bosta nem desligar desliga, travou; ele inclina o banco pra tr\u00e1s e outra bufada, murmura de cabe\u00e7a baixa e olhos na cintura, analisando a estrat\u00e9gia de a\u00e7\u00e3o e pedindo a \u00faltima ben\u00e7a pra se vingar da companhia que n\u00e3o consegue nem oferecer as m\u00ednimas distra\u00e7\u00f5es antes do encontro final com o profeta; ele sabe, ele sabe de tudo. Luzinhas, as luzes das asas, me deram perto das asas de novo, se cair, j\u00e1 era; a chefe de cabine anuncia que as portas foram fechadas, <em>embark completed<\/em>, ligo a minha telinha, english, deutsch, fran\u00e7ais, italiano, desenhinhos, portugu\u00eas, filmes, m\u00fasica, televis\u00e3o, joguinhos \u2014 sem \u00e1rabe sem mapa de voo; uma das aeromo\u00e7as me entrega um saquinho pl\u00e1stico, dois, entrego um pro cara e ele faz um sinal assertivo com a cabe\u00e7a, n\u00e3o deve ser terrorista, \u00e9 gentil; pega o saquinho e nem olha, atira no ch\u00e3o e d\u00e1 uma risada, uma cobertinha de poli\u00e9ster dourada e um travesseirinho de beb\u00ea, t\u00e1 de manga curta, sabe que n\u00e3o vai precisar de coberta nenhuma, n\u00e3o sente frio porque vai explodir tudo e o avi\u00e3o vai virar um fogo de artif\u00edcio gigante celebrando nossa liberta\u00e7\u00e3o eterna e a cess\u00e3o de todos nossos pecados ocidentais; ele tira a bunda do assento e bota a m\u00e3o no bolso com dificuldade fazendo quest\u00e3o de n\u00e3o encostar em mim, latino, e tira um pacotinho de chiclete, o Trident que parece uma mini carteira de cigarro, certo que o detonador t\u00e1 escondido na caixinha, \u00e9 agora; ele coloca o chiclete na boca sem tirar o papelzinho e vira de lado, juntando as m\u00e3os, com frio. O avi\u00e3o come\u00e7a a andar, o comandante, preciso avisar o pessoal, anuncia naquela voz rob\u00f3tica <em>cabin crew prepare for the take off please<\/em>, s\u00f3 a companhia das luzinhas vermelhas, n\u00e3o tem mais volta, talvez se eu der um grito e pedir pra descer, que t\u00f4 passando mal, ou que deixei o fog\u00e3o ligado, ou que minha m\u00e3e t\u00e1 morrendo ligaram do hospital, mas n\u00e3o; o cara t\u00e1 puto, uma das m\u00e3os pressiona o rosto colado na janela, os olhos bem abertos, vendo o qu\u00ea, as luzinhas vermelhas e o breu; vai ver na real ele s\u00f3 tem medo de voar mesmo, \u00e9 isso, sou um merda, coitado do cara, t\u00e1 inquieto porque viu que n\u00e3o tem mapa de voo nem uma m\u00edsera indica\u00e7\u00e3o de altitude ou tempo at\u00e9 o destino e t\u00e1 apavorado; as luzinhas vermelhas se apagariam no primeiro impacto, nunca ningu\u00e9m nos acharia, o foda \u00e9 s\u00f3 o mar, depois que passar o mar t\u00e1 tranquilo; ele se revira no assento, quem sabe o neg\u00f3cio \u00e9 imitar o cara, colocar as m\u00e3os no rosto e fingir uma reza sussurrada pra ele ter compaix\u00e3o de mim e n\u00e3o explodir nada, vai pensar que merda o cara do meu lado t\u00e1 fodido que nem eu, n\u00e3o vou explodir nada, deixa quieto, desculpa meu Deus, esse cara n\u00e3o merece. Decolou, n\u00e3o tem mais volta mesmo, s\u00f3 daqui 12 horas, ou at\u00e9 a explos\u00e3o; ele olha pra fora, as luzes das favelas da cidade do Rio de Janeiro mais pr\u00f3ximas do c\u00e9u, deve ter deixado um amor aqui, um grande amor no Rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas horas de voo, nada de explos\u00e3o. O cara j\u00e1 ligou e desligou a tv umas quinze vezes, n\u00e3o para de se virar e volta e meia ainda resmunga, olhando sempre pra cintura, pro cinto de explosivos. Cinco minutos depois da decolagem e o cara j\u00e1 tinha tirado o cinto de seguran\u00e7a, com o aviso luminoso ainda aceso; j\u00e1 d\u00e1 pra sentir um cheirinho de comida, o avi\u00e3o balan\u00e7a, pauso o filme, <em>Trapped<\/em>, o sinal do cinto acende; e se eu puxasse conversa, e a\u00ed meu da onde tu \u00e9, gostou do Brasil? sim, lindas, \u00e9, pessoal muito am\u00e1vel, e tu t\u00e1 fazendo o qu\u00ea? ah neg\u00f3cios, sim, eu t\u00f4 indo visitar minha namorada, \u00e9, sim, morei na Europa um tempo, agora t\u00f4 indo pra passar o inverno, sim, que merda, aqui t\u00e1 muito bom n\u00e9, \u00e9, n\u00e3o conhe\u00e7o o Rio muito bem, mas \u00e9 lindo sim. A aeromo\u00e7a se aproxima com o carrinho, <em>sr. would you like something to drink? <\/em>o cara nem baixou a mesinha de polietileno boia-salva-vidas que o pessoal avisou antes, o colete t\u00e1 embaixo do assento, e as m\u00e1scaras v\u00e3o cair automaticamente, ningu\u00e9m em p\u00e2nico, de boa, se mantiver a racionalidade, 75% sai vivo daqui e vai escrever um livro de autoajuda; ele diz <em>chicken water, <\/em>comedor de bicho morto, <em>and a<\/em> <em>coke<\/em>. Olho pra minha mesinha esperan\u00e7a, uma bandejinha de papel alum\u00ednio com massa, um potinho de pl\u00e1stico com duas rodelas de tomate e uma folha de alface entocado do lado, um bolinho de chocolate, um p\u00e3ozinho redondo, um potinho de geleia de goiaba, dois pacotinhos de polenguinho e talheres de pl\u00e1stico enrolados numa embalagem de pl\u00e1stico e um guardanapo de papel enrolado em outra embalagem de pl\u00e1stico. Tomo meu suco no guti guti, quente, mas t\u00e1 valendo; ele pediu coca, olha praquela lata como quem olha pra uma perna irremediavelmente gangrenada, ou uma carta de amor de despedida, e balan\u00e7a a cabe\u00e7a; acabou se ocidentalizando nesse tempo no Brasil, sabe que uma coquinha \u00e9 contra os ensinamentos e doutrinas, mas for\u00e7a e a tampinha do alum\u00ednio se rende, o som da explos\u00e3o do g\u00e1s finalmente liberto depois de dias, meses, expandindo felicidade; em d\u00favida, olha pra janela, breu, gotas no acr\u00edlico, toma direito da lata e solta um arroto seguido de um grande puxada de ar, tava com sede, sabe que \u00e9 a \u00faltima coca da vida antes de explodir o avi\u00e3o, a culpa t\u00e1 batendo forte, n\u00e3o poderia ter feito isso t\u00e3o perto do c\u00e9u; talvez o cara gosta mesmo de coca, que merda, e os dois quilos de a\u00e7\u00facar v\u00e3o fluir a serotonina providencial pra que ele decida n\u00e3o sequestrar nada; deixou metade do frango e nem encostou na \u00e1gua, d\u00e1 mais uma golada; o cara t\u00e1 de boa, deve ter problemas com colesterol alto, mas \u00e9 magrelo; coloco o fone de ouvido de novo e dou play no filme com o dedo sujo de polenguinho. Desligaram as luzes pro pessoal n\u00e3o saber que vai morrer, n\u00e3o vou dormir enquanto ele n\u00e3o dormir; qualquer coisa ele vai ter que passar por mim se quiser ir no banheiro pra estourar a bomba, ou invadir a cabine, se ele levantar agarro as pernas e grito por ajuda; a luzinha da asa, incessante, falha a qualquer minuto, pegar um livro e ler, n\u00e3o d\u00e1, n\u00e3o vou ligar a luz aqui na cara do cara pra ele ficar mais puto e explodir tudo de uma vez sem compaix\u00e3o, n\u00e3o, coloco o fone, pela hora, em cima do Atl\u00e2ntico, o avi\u00e3o vai at\u00e9 o nordeste por terra por uma raz\u00e3o, todo mundo sabe, a lua, do mesmo tamanho, nada de especial; finalmente o filhadaputa pegou a cobertinha, ainda bem, a \u00faltima cochiladinha antes do sono eterno. No filme o cara sai atrasado de manh\u00e3 pra trabalhar e quando t\u00e1 descendo as escadas lembra que esqueceu o celular; volta correndo pra buscar o neg\u00f3cio no quarto s\u00f3 que nesse meio tempo a porta de metal bate com a chave do lado de fora e n\u00e3o abre por dentro de jeito maneira; o cara t\u00e1 trancado num apartamento sem comida sem \u00e1gua sem bateria no celular, ningu\u00e9m ouve, e pra piorar \u00e9 um pr\u00e9dio abandonado, ningu\u00e9m mora ali, o pico n\u00e3o tem nem energia el\u00e9trica direito, tudo gateado; ele gasta todas as energias gritando e tentando quebrar a porta, mas n\u00e3o rola; a\u00ed ele tem a brilhante ideia de rasgar o sof\u00e1 e as roupas de cama e pendurar nas grades da sacada a palavra H-E-L-P e atear fogo, s\u00f3 que o neg\u00f3cio meio que foge do controle e o fogo se espalha pra dentro da casa e o cara quase morre asfixiado. O fera acordou, tudo escuro; algu\u00e9m bate no meu ombro no caminho do banheiro, um cara gord\u00e3o s\u00f3 de meia, bigode, camisa de flanela; o nutrido apoia as m\u00e3os no bagageiro perto do banheiro e sufoca a menina que t\u00e1 na poltrona da frente; ele acordou mais puto que antes, se inclina pra frente, o cabelo comprido e fino encosta de leve na tela e ele volta a olhar pra cintura, agora com as m\u00e3os entrela\u00e7adas; t\u00e1 a\u00ed, chegou o <em>gran<\/em> momento, o gord\u00e3o \u00e9 comparsa dele, sim, levantou e fingiu que ia banheiro pra dar o sinal, uma encoxada abdominal na cara da mo\u00e7a; agora ele vai fazer a \u00faltima reza e pedir perd\u00e3o pela coca-cola antes de apertar o detonador Trident; o foda \u00e9 que se ele levantar, n\u00e3o posso simplesmente dizer \u00f4 malandro onde tu vai, o cara vai achar que sou maluco, ou, pior, vai ficar ainda mais puta\u00e7o que vai querer me explodir primeiro; aviso luminoso, <em>please remain seated with you seat belts fasten, we are going through an area of turbulence<\/em>, eh, pelo menos agora ele n\u00e3o vai poder levantar, turbul\u00eancia; eu sempre soube que ia morrer num avi\u00e3o, sempre, janelinha quatro camadas de pl\u00e1stico n\u00e3o segura porra nenhuma, uma crian\u00e7a come\u00e7a a chorar algumas fileiras na frente, pessoal t\u00e1 acordando, do outro lado tem duas mulheres apagadas desde que a gente saiu do Brasil, certo que elas tomaram l\u00edtio ou dramin, \u00e1gua escorre pela janelinha, o cara ainda t\u00e1 abaixado, rezando, a asa do meu lado parece uma trampolim com sete crian\u00e7as em cima sem coragem de saltar, chocalhada, t\u00e3o baixando de altitude, t\u00e1 caindo essa merda; olho debaixo da poltrona, press\u00e3o nos ouvidos, n\u00e3o tem colete nenhum, lembre-se de inflar o colete apenas quando estiver j\u00e1 fora da aeronave, nunca dentro, ok, discernimento nas horas extremas \u00e9 o que nos trouxe at\u00e9 aqui, Santos Dummont apertando a m\u00e3o do alfaiate voador e dizendo vai malandro, que merda, por que eles dizem coisas do tipo em caso de um improv\u00e1vel pouso na \u00e1gua, que pouso, velho, n\u00e3o tem pouso, nem muito menos improv\u00e1vel, \u00e9 prov\u00e1vel, sempre foi prov\u00e1vel, o avi\u00e3o t\u00e1 baixando, fugir da turbul\u00eancia, quebra-molas, os morros do ar, 200 quil\u00f4metros de ar, as luzinhas vermelhas, lindas, morrer no Natal no meio do <em>Romanche Trench<\/em>, um everest de profundidade com uma temperatura de 1 grau celsius e, com sorte, enroscar num cabo de internet submarino e acabar com a internet do mundo; sempre soube, amanh\u00e3 vai ser not\u00edcia e todo mundo vai pensar, ufa, caiu um agora, ent\u00e3o demora mais uns tr\u00eas meses pra cair outro, e meu corpo trucidado sendo levado para as profundezas oce\u00e2nicas at\u00e9 que algum peixe mais faminto resolva se alimentar das minhas orelhas e se lambuzar com o sangue ainda quente de um dos bra\u00e7os de uma mulher, finalizando, de sobremesa, com peda\u00e7os do vestido de uma outra, florzinhas roxas e amarelas; mesinha do desespero tremendo, zumbido, o cara ainda t\u00e1 abaixado, pode t\u00e1 morto j\u00e1 e ter programado o dispositivo, ou a reza t\u00e1 demorada mesmo, depois de tudo, se ele n\u00e3o explodir, mais chance de sair de vivo, <em>please remain seated<\/em>, t\u00e1 baixando, vai cair certo, na pr\u00f3xima vou tomar dramin, sempre digo isso, mas \u00e9 igual um amigo me disse uma vez, mesmo que tu teja l\u00e1 no quinquag\u00e9simo sono, se o avi\u00e3o tiver caindo sempre vai ter algu\u00e9m pra te acordar e dizer que o avi\u00e3o t\u00e1 caindo, o cara levantou a cabe\u00e7a, \u00e9 agora, o pessoal do servi\u00e7o de bordo sentou e t\u00e1 colocando o cinto, nenezinho em prantos, <em>please remain seated we are going through an\u2026<\/em> t\u00e1 perdendo altitude, <em>GPWS<\/em>, seguro no encosto da poltrona, r\u00edgido, aperto os olhos, vai cair, sempre soube; tudo escuro, me inclino pra tr\u00e1s e sinto uma m\u00e3o suada na minha; abro os olhos no susto, ele aproxima os l\u00e1bios do meu ouvido e, segurando meus dedos com for\u00e7a, sussura numa voz adocicada \u2014 <em>amigo, no tenemos apuro<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Gustavo da Rosa Rodrigues<\/em><\/strong><em> tem 26 anos e mora em Porto Alegre-RS. \u00c9 escritor, poeta, tradutor e estuda Letras (Tradu\u00e7\u00e3o) na UFRGS.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desvarios cotidianos no conto de Gustavo da Rosa Rodrigues<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15971,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3582,2534],"tags":[81,41,3592],"class_list":["post-15970","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-128a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-gustavo-da-rosa-rodrigues"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15970","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15970"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15970\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15973,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15970\/revisions\/15973"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15971"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15970"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15970"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15970"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}